Links da quarentena: um manifesto de Spike Lee e o debate sobre racismo

Links da quarentena: um manifesto de Spike Lee e o debate sobre racismo

Toda sexta-feira, a serrote indica uma seleção de links sobre o mundo em tempos de pandemia.

Na edição de hoje: Spike Lee lança curta sobre brutalidade policial, Nikole Hannah-Jones defende protestos antirracistas das acusações de violência, e Kabengele Munanga avalia impacto da covid-19 na população negra do Brasil. 

E mais: um acervo de entrevistas com escritores negros e reflexões sobre o caso da mulher branca que acionou a polícia contra um homem negro que observava pássaros no Central Park.

Esta seção é parte da série #IMSquarentena, com ensaios do acervo, colaborações inéditas e indicações de leitura. 

Em um minuto e 34 segundos, sem dizer palavra, Spike Lee deu um dos mais eloquentes depoimentos sobre as revoltas raciais que tomam conta dos EUA. Exibido na CNN e disponível no Twitter, 3 Brothers — Radio Raheem, Eric Garner, and George Floyd é uma montagem, sem narração, das brutais imagens, reais, das mortes de Garner e Floyd e do momento decisivo de Faça a coisa certa. Radio Raheem, o personagem da obra-prima de Lee, também morre asfixiado pela polícia depois de agredido pelo dono de uma pizzaria do Brooklyn ­– ano passado, ao participar da seção “Anatomia de uma cena”, do New York Times, o diretor disse que, na verdade, tratava-se da “anatomia de um assassinato”. O filme é de 1989. Eric Garner foi sufocado pela polícia em 2014 sob acusação de vender cigarros avulsos. No curta, os três assassinatos são precedidos por um único letreiro: “A história vai parar de se repetir?”

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A jornalista Nikole Hannah-Jones conhece bem as raízes do racismo estrutural nos EUA. Em maio, ela recebeu o Pulitzer por seu trabalho no Projeto 1619, edição especial da New York Times Magazine que incendiou o debate sobre o impacto duradouro da escravidão na sociedade americana. Por isso, ao ser entrevistada esta semana sobre os protestos contra o racismo e a violência policial, ela estabeleceu uma ligação direta entre o presente e o passado: “Neste país, gostamos de dizer que a escravidão foi há muito tempo. Mas o que vemos hoje é fruto direto da ideia de que vidas negras valem menos do que vidas brancas e de que é preciso usar violência para controlar essa população”. E criticou enfaticamente quem menospreza os protestos antirracistas por causa de atos isolados de vandalismo:  “Violência é quando um agente do Estado pressiona o joelho no pescoço de um homem até arrancar a vida do corpo dele. Destruir propriedade, que pode ser substituída, não é violência. Usar a mesma linguagem para descrever essas duas coisas é imoral”. O ensaio de Hannah-Jones para o Projeto 1619 foi traduzido na serrote #34, lançada no Festival Serrote 2020, que contou com a participação da jornalista na mesa Histórias negras, mediada por Flávia Oliveira.

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No mesmo dia em que George Floyd foi assassinado em Minneapolis, Christian Cooper estava numa área do Central Park destinada à observação de pássaros. Quando Amy Cooper, que não é sua parente, passou por ali com seu cachorro, Christian pediu que ela prendesse o animal na coleira – e imediatamente começou a filmá-la. Ele sabia o que estava fazendo: não é incomum que, ao ser abordado por um negro, um branco se declare ameaçado. Não deu outra: demostrando um nervosismo dificilmente justificado, Amy ligou para a polícia, dizendo-se assediada por “um afro-americano”. O vídeo, publicado por ele no Facebook, correu o mundo e resultou na demissão dela de um banco de investimentos.  “Como um afro-americano que teve a sorte de ter uma carreira bem sucedida, encontrei muitas Amy Coopers ao longo dos anos”, lembra  Touré F. Reed, professor de história na Illinois State University, num delicado ensaio para a Jacobin. Na Forbes, a colunista Terina Allen analisa como Amy destruiu sua carreira e recomenda: “Em vez de reclamar sobre como sua vida está arruinada, ela deve refletir sobre como tantas pessoas agora acham que ela tentou destruir a vida de Christian Cooper”.

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Um dos grandes pensadores das questões raciais no Brasil, o antropólogo Kabengele Munanga foi surpreendido pela pandemia em plena mudança de volta para São Paulo, depois de passar os últimos 6 anos como professor visitante na Universidade Federal do Recôncavo Baiano. Aos 79 anos, está em isolamento em Cachoeira (BA), sem seus livros, que já tinham sido despachados, mas acompanhando atentamente os desdobramentos da covid-19, sobretudo seu impacto na população negra. Segundo estudos, o coronavírus representa um risco de morte 62% maior para pessoas negras do que para brancas. “Racismo e situação social têm uma relação dialética que você precisa considerar para entender por que os negros vão constituir a grande maioria [das vítimas da covid-19], se não tomarmos cuidado”, diz Kabengele nesta entrevista. Realizada antes da explosão de protestos antirracistas nos EUA e no Brasil, a conversa trata também da ameaça constante da violência policial sobre as populações negras: “A cada 23 minutos, morre um negro no Brasil. E essa violência é, em primeiro lugar, policial. Eles fazem sempre uma relação entre a cor negra e o crime. […] A leitura que se faz de nós começa pela geografia dos nossos corpos até chegar a nossa situação social”.

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As entrevistas da Paris Review são documentos preciosos do processo criativo de alguns dos mais importantes escritores em ação desde 1953, ano de criação da revista. Desde o início da pandemia, a seção “A arte da distância” abre para não-assinantes, por tempo limitado, partes importantes desse acervo. Esta semana a seleção é dedicada a autores negros, encabeçada pelos depoimentos essenciais de James Baldwin, Toni Morrison e Claudia Rankine. “Não tento ser profético, assim como não sento para escrever literatura. É simplesmente isso: um escritor tem que correr todos os riscos ao registrar o que vê. Ninguém pode aconselhá-lo sobre isso. Ninguém pode controlar essa realidade”, diz Baldwin na revista realizada em 1984.

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