As raízes negras da liberdade – por Nikole Hannah-Jones

As raízes negras da liberdade

por NIKOLE HANNAH-JONES

Sem os esforços idealistas, incansáveis e patrióticos dos norte-americanos negros, a democracia dos EUA seria bem diferente, e talvez nem fosse uma democracia, escreve a jornalista Nikole Hannah-Jones neste ensaio, publicado na serrote 34

Repórter do New York Times especializada em questões raciais, Hannah-Jones participa do Festival Serrote 2020. Ela estará na mesa “Histórias negras”, com a escritora Ana Maria Gonçalves e mediação da jornalista Flávia Oliveira, no dia 14, às 19h, no IMS Paulista. A entrada é gratuita, com distribuição de senhas a partir de 10h no dia do evento

Depois do festival, Nikole Hannah-Jones participa do lançamento da serrote 34 no Rio, no dia 16, às 19:30, no cinema Estação NET Rio, em Botafogo. No debate “Reescrevendo a história da escravidão”, mediado por Flávia Oliveira, Hannah-Jones vai apresentar o 1619 Project, projeto especial que ela coordena no New York Times, dedicado a refletir sobre as marcas da escravidão na sociedade americana

Robert Colescott, George Washington Carver Crossing the Delaware: Page from an American History Textbook, 1975 / © Estate of Robert Colescott/ AUTVIS, Brasil, 2020 / Foto: Cortesia de Estate of Robert Colescott e Blum & Poe, Los Angeles/ Nova York/Tóquio

 

Meu pai sempre exibiu uma bandeira dos Estados Unidos em nosso jardim. A tinta azul da casa de dois andares estava eternamente descascando; a cerca, o corrimão da escada ou a porta de entrada mostravam uma perpétua necessidade de reparos, mas aquela bandeira nunca deixou de tremular como se fosse novinha em folha. Nosso terreno, que por decisão do governo federal não podia ser objeto de hipoteca, ficava na margem do rio que dividia o lado dos negros do lado dos brancos em nossa cidadezinha do estado de Iowa. Na extremidade do gramado, no topo de um mastro de alumínio, se alteava a bandeira que papai substituía tão logo apresentasse o menor sinal de esgarçamento.

Meu pai nasceu numa família de meeiros em uma fazenda de brancos em Greenwood, Mississippi, onde os negros, assim como seus ancestrais escravizados não muito tempo antes, se curvavam sobre plantações de algodão do escuro das primeiras horas da manhã até depois que o sol se punha. O Mississippi da juventude do meu pai era um estado submetido a um regime de apartheid que mantinha subjugada a população negra, quase majoritária, mediante atos de violência inimagináveis. Os moradores brancos do Mississippi lincharam mais negros que os de qualquer outro estado no país, e os brancos do condado onde papai nasceu lincharam mais moradores negros do que em qualquer outro condado do Mississippi, frequentemente por “crimes” como entrar num aposento ocupado por uma mulher branca, esbarrar numa moça branca ou tentar iniciar um sindicato de meeiros. A mãe de meu pai, bem como todos os negros em Greenwood, não podia votar, usar a biblioteca pública ou buscar emprego fora das plantações de algodão ou das casas dos brancos. Por isso, na década de 1940 ela pegou suas coisas e os três filhos pequenos para se juntar à torrente de negros sulistas que escapavam rumo ao Norte. Desembarcou de um trem da Estrada de Ferro Central de Illinois em Waterloo, Iowa, e viu suas esperanças de uma mítica Terra Prometida se despedaçarem ao se dar conta de que as leis da segregação racial, as chamadas Jim Crow laws, iam além da linha Mason-Dixon que demarcava a fronteira entre os estados do Norte e os do Sul escravagista.

Vovó, como a chamávamos, encontrou uma casa num bairro negro na parte leste da cidade, e arranjou o emprego que era considerado apropriado para mulheres negras onde quer que vivessem – limpar as casas dos brancos. Papai também lutou para encontrar alguma promessa naquela terra. Em 1962, aos 17 anos, ele se alistou no exército. Como muitos outros jovens, fez isso na esperança de escapar da miséria. Mas também por outro motivo, algo que era comum a todos os negros: papai imaginava que, se servisse ao país, este poderia, finalmente, tratá-lo como um cidadão.

O exército provou não ser sua via de escape. Foi preterido em várias oportunidades, sua ambição foi sufocada. Terminou dispensado em condições pouco claras e teve uma série de ocupações subalternas ao longo da vida. Como todos os negros da minha família, homens e mulheres, ele acreditava em trabalhar duro, mas, como todos os negros da minha família, homens e mulheres, jamais subiu na vida, por mais que trabalhasse.

Por isso, quando eu era jovem, aquela bandeira do lado de fora de nossa casa nunca fez sentido para mim. Como podia ele – tendo visto por experiência própria como seu país maltratava os norte-americanos negros, como se recusava a nos tratar como cidadãos plenos – exibir com orgulho a bandeira nacional? Eu não compreendia seu patriotismo. Aquilo me constrangia profundamente.

Na escola, eu tinha aprendido por osmose cultural que a bandeira não nos pertencia de verdade, que nossa história como povo havia começado com a escravidão e pouco tínhamos contribuído para aquela grande nação. Aparentemente, do ponto de vista cultural, a coisa de que os norte-americanos negros mais podiam se orgulhar devia ser encontrada em nossa vaga conexão com a África, um lugar em que nunca estivéramos. O fato de meu pai sentir tanta honra em ser norte-americano era para mim um sinal de degradação, o reconhecimento de nossa subordinação.

Assim como a maioria dos jovens, eu achava que sabia muito, quando na verdade sabia tão pouco. Papai sabia exatamente o que estava fazendo ao hastear a bandeira. Sabia que a contribuição de nossa gente para a construção da mais rica e mais poderosa nação do mundo era indelével, que os Estados Unidos simplesmente não existiriam sem nós.

Em agosto de 1619, apenas 12 anos depois de os ingleses se instalarem em Jamestown, Virginia, um ano antes de os puritanos desembarcarem na Plymouth Rock e 157 anos antes de os colonos ingleses decidirem criar seu próprio país, os residentes de Jamestown compraram de piratas ingleses entre 20 e 30 africanos escravizados. Eles tinham sido roubados de um navio negreiro português que os tinha trazido à força de onde hoje é Angola. Os homens e mulheres que desembarcaram naquele agosto marcaram o início da escravidão norte-americana. Estavam entre os 12,5 milhões de africanos que seriam sequestrados de seus lares e trazidos acorrentados do outro lado do oceano Atlântico, na maior migração forçada da história humana até a Segunda Guerra Mundial. Cerca de dois milhões não sobreviveram à exaustiva travessia, conhecida em inglês como Middle Passage.

Antes da abolição do tráfico internacional de escravos, 400 mil africanos escravizados foram vendidos nos Estados Unidos. Esses indivíduos e seus descendentes transformaram as terras para as quais foram levados em algumas das mais bem-sucedidas colônias do Império Britânico. À custa de trabalho árduo, prepararam os campos para plantio em toda a região sudeste. Ensinaram os colonos a cultivar arroz. Plantaram e colheram algodão, que, no auge da escravidão, foi a matéria-prima mais valiosa do país, representando metade de todas as exportações norte-americanas e 66% da oferta mundial. Tornaram possíveis as fazendas de George Washington, Thomas Jefferson e James Madison, grandes propriedades que hoje atraem milhares de visitantes de todo o mundo encantados com a história da maior democracia do planeta. Fincaram os alicerces da Casa Branca e do Capitólio, assentando na cúpula deste último, com suas mãos cativas, a Estátua da Liberdade.1 Carregaram nas costas os pesados dormentes das estradas de ferro que se espalharam por todo o Sul e contribuíram no transporte do algodão que eles colhiam para as tecelagens no Norte, alimentando a Revolução Industrial. Geraram vastas fortunas para os brancos do Norte e do Sul – em certo momento, o segundo homem mais rico do país era um “comerciante de escravos” de Rhode Island. Os lucros auferidos com o trabalho roubado dos negros ajudaram a jovem nação a pagar suas dívidas de guerra e financiaram algumas de nossas mais bem conceituadas universidades. Foi a incessante atividade de compra, venda, seguridade e financiamento de seus corpos e do produto de seu trabalho que fez de Wall Street um próspero conglomerado bancário e, de Nova York, a capital financeira do mundo.

Seria, no entanto, historicamente incorreto reduzir as contribuições das pessoas negras à imensa riqueza material criada por meio de nossa escravidão. Os norte-americanos negros também foram, e continuam a ser, fundamentais para a ideia de liberdade neste país. Mais do que qualquer outro grupo em sua história, desempenhamos, geração após geração, um papel vital: fomos nós que aperfeiçoamos esta democracia.

Os Estados Unidos são uma nação fundada tanto num ideal quanto numa mentira. Nossa Declaração de Independência, aprovada em 4 de julho de 1776, proclama que “todos os homens foram criados iguais” e “dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis”. Mas os homens brancos que redigiram essas palavras não acreditavam que elas fossem válidas para as centenas de milhares de pessoas negras que viviam entre eles. “Vida, liberdade e busca da felicidade” não se aplicavam a nada menos que um quinto do país. Contudo, apesar de a eles terem sido violentamente negadas a liberdade e a justiça prometidas a todos, os norte-americanos negros confiavam de forma absoluta no credo norte-americano. Ao longo de séculos de resistência e protesto das pessoas negras, contribuímos para que o país estivesse à altura dos ideais de sua fundação. E não apenas para nós – as lutas das pessoas negras por seus direitos abriram caminho para a luta por todos os demais direitos, inclusive das mulheres e dos homossexuais, dos imigrantes e das pessoas com necessidades especiais.

Sem os esforços idealistas, incansáveis e patrióticos dos norte-americanos negros, nossa democracia hoje muito provavelmente seria bem diferente – talvez nem fosse uma democracia.

A primeira pessoa a morrer por este país na Revolução Americana foi um homem negro que não era livre. Crispus Attucks era um fugitivo da escravidão, e apesar disso deu a vida por uma nova nação em que sua própria gente só gozaria das liberdades inscritas na Declaração um século mais tarde. Os norte-americanos negros têm lutado em todas as guerras em que esta nação se engajou desde aquela primeira – hoje somos o grupo racial com maior probabilidade de servir nas forças armadas dos Estados Unidos.

Meu pai, um dos muitos norte-americanos negros que assim serviram, sabia o que eu levei anos para entender: que o ano de 1619 é tão importante para a história do país quanto o de 1776. Que os norte-americanos negros, tanto quanto aqueles homens esculpidos em mármore na capital da nação, são os verdadeiros “pais da pátria”. E que ninguém merece mais aquela bandeira do que nós.

*

Robert Colescott, Feeling His Oats, 1988 © Estate of Robert Colescott/ AUTVIS, Brasil, 2020 / Foto: Albright-Knox Art Gallery/Art Resource, NY

Em junho de 1776, Thomas Jefferson se sentou diante de sua escrivaninha portátil num quarto alugado em Filadélfia e escreveu aquelas palavras: “Consideramos estas verdades como autoevidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre esses estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade”. Durante os últimos 243 anos, essa incisiva afirmação dos direitos fundamentais e naturais da humanidade à liberdade e à autogovernança tem sustentado nossa reputação global como uma terra de liberdade. Porém, enquanto Jefferson compunha suas palavras inspiradoras, um adolescente que jamais gozaria daqueles direitos e liberdades esperava ali perto para servir às necessidades de seu senhor. Seu nome era Robert Hemings, e ele era meio-irmão de Martha, esposa de Jefferson, filho do pai dela com uma mulher de quem ele era dono. Os escravocratas brancos costumavam escravizar seus filhos com mulheres negras. Entre os 130 cativos que labutavam em seu campo de trabalhos forçados, que ele batizou Monticello, Jefferson escolhera Hemings para acompanhá-lo a Filadélfia a fim de assegurar-se de todos seus confortos enquanto ele redigia o texto em que argumentava a favor de uma nova democracia baseada nos direitos individuais.

Naquela época, um quinto da população das 13 colônias sofria sob um sistema brutal de escravatura diferente de tudo que existira até então. A chamada escravidão chattel ou tradicional (baseada na propriedade) não era condicional, mas racial. A condição de escravizado era herdada e permanente, não temprrária, de modo que gerações e mais gerações nasciam dentro do sistema e passavam seu status para os filhos. As pessoas escravizadas não eram reconhecidas como seres humanos, e sim como objetos que podiam ser hipotecados, comercializados, comprados, vendidos, usados como garantia de empréstimos, oferecidos como presente e descartados violentamente. Os colonos brancos, como Jefferson, sabiam que as pessoas negras eram seres humanos, porém tinham criado uma rede de leis e costumes espantosa tanto por sua precisão quanto por sua crueldade, a qual garantia que os escravizados nunca seriam tratados como tal. Como o abolicionista William Goodell escreveu em 1853: “Se alguma coisa que se baseia numa falsidade pode ser chamada de ciência, podemos acrescentar o sistema de escravatura norte-americana à lista das ciências mais rigorosas”.

As pessoas escravizadas não podiam se casar legalmente. Eram proibidas de aprender a ler e de se reunir em grupos privados. Não tinham direito aos próprios filhos, que podiam ser comprados, vendidos e comercializados para outros lugares em leilões que incluíam móveis e cabeças de gado, ou em lojas que anunciavam “negros à venda”. Os proprietários de escravos e os tribunais não respeitavam os relacionamentos de parentesco com mães, irmãos, primos. Na maioria dos tribunais, eles não eram reconhecidos do ponto de vista legal. Os donos podiam estuprar ou matar suas posses sem nenhuma consequência jurídica. As pessoas escravizadas não podiam possuir nada, legar nada nem herdar nada. Eram legalmente torturadas, inclusive as que trabalhavam para Jefferson. Podiam ser forçadas a trabalhar até morrer, o que acontecia com frequência, a fim de produzir maiores lucros para os brancos a quem pertenciam.

Não obstante, ao argumentar contra a tirania inglesa, um dos truques retóricos preferidos dos colonos era afirmar que eles eram os escravos – da Grã-Bretanha. Por tal duplicidade, enfrentavam críticas no país e no exterior. Como observou com ironia Samuel Johnson, um escritor inglês conservador que se opunha à independência norte-americana: “Como é possível que ouçamos os ganidos mais altos em favor da liberdade vindos dos donos de negros?”.

Convenientemente omitido da mitologia da fundação da pátria é o fato de que uma das principais razões para os colonos decidirem declarar independência da Grã-Bretanha foi o desejo de protegerem a instituição da escravatura. Em 1776, a Grã-Bretanha se tornara profundamente dividida a respeito de seu papel na bárbara instituição que reformatara o hemisfério ocidental. Em Londres, eram ouvidos apelos crescentes para que se abolisse o tráfico de escravos. Isso afetaria negativamente a economia das colônias, tanto no Norte quanto no Sul. Resultavam dos lucros gerados pela escravidão a riqueza e a proeminência que permitiam a Jefferson, com apenas 33 anos de idade, e aos outros pais da pátria acreditar que poderiam se separar com êxito de um dos mais poderosos impérios do mundo. Em outras palavras, talvez nunca tivéssemos nos revoltado contra os ingleses se os fundadores da nação não houvessem compreendido que a escravidão lhes dava poder para tanto; ou se não houvessem acreditado que a independência era necessária a fim de assegurar a continuidade do sistema escravagista. Não é à toa que dez dos primeiros 12 presidentes desta nação foram proprietários de escravos, podendo-se argumentar que o país foi criado não como uma democracia, e sim como uma escravocracia.

Jefferson e os outros pais da pátria tinham plena consciência dessa hipocrisia. Por isso, no primeiro rascunho da Declaração de Independência, Jefferson tentou argumentar que ela não era responsabilidade dos colonos. Em vez disso, atribuiu a culpa ao rei da Inglaterra, que forçara os colonos relutantes a aceitar a instituição da escravatura, e caracterizou o tráfico de seres humanos como um crime. Entretanto, nem Jefferson nem a maioria de seus pares tencionavam abolir a escravidão – e, por fim, eliminaram aquela passagem.

Não há nenhuma menção à escravatura no texto final da Declaração de Independência. De maneira similar, 11 anos depois, quando chegou a hora de redigir a Constituição, seus formuladores cuidadosamente prepararam um documento que preservava e protegia a escravidão sem jamais usar tal palavra. Trataram de escondê-la por não desejarem entronizar de modo explícito sua hipocrisia nos textos em que reivindicavam a liberdade para o mundo. A Constituição contém 84 cláusulas. Como escreveu o historiador David Waldstreicher, seis lidam diretamente com as pessoas escravizadas e o sistema a que estavam subjugadas, e outras cinco têm implicações com respeito à escravidão. A Constituição protegeu a “propriedade” daqueles que escravizavam as pessoas negras; proibiu o governo federal de intervir para acabar com a importação de africanos escravizados por um período de 20 anos; autorizou o Congresso a mobilizar a milícia a fim de abafar insurreições dos escravizados; e obrigou os estados que tinham proibido a escravidão a devolver as pessoas negras que para lá tivessem escapado em busca de refúgio. Como muitos outros, o escritor e abolicionista Samuel Bryan expôs o embuste, dizendo da Constituição: “As palavras são obscuras e ambíguas; nenhum homem simples dotado de bom senso as usaria pois foram evidentemente escolhidas com vistas a ocultar da Europa que, neste país iluminado, a prática da escravidão tem seus advogados entre os homens que ocupam as mais elevadas posições”.

Após a independência, os fundadores da pátria não mais podiam culpar a Grã-Bretanha pela escravatura. O pecado passou a ser da própria nação e, por isso, precisava ser sanado. Conforme afirmam os estudiosos atuais, o vergonhoso paradoxo de manter o regime escravagista num país baseado na liberdade individual levou a um endurecimento do sistema de castas raciais. Essa ideologia, reforçada não apenas pelas leis mas pela ciência e literatura racistas, sustentava que as pessoas negras eram subumanas, uma crença que permitia aos norte-americanos brancos conviver com sua traição. Segundo os historiadores do direito Leland B. Ware, Robert J. Cottrol e Raymond T. Diamond, no início do século 19 os norte-americanos brancos, estivessem ou não ligados à escravidão, “tinham um considerável investimento psicológico e econômico na doutrina da inferioridade das pessoas negras”. Enquanto a liberdade era o direito inalienável das pessoas que se consideravam brancas, a escravidão e a subjugação constituíam a condição natural daquelas que possuíam qualquer gota discernível de “sangue negro”.

A Suprema Corte cristalizou tal entendimento das leis com a decisão de 1857 no caso Dred Scott,2 ao determinar que as pessoas negras, fossem elas escravizadas ou livres, provinham de uma “raça de escravos”. Isso as tornava inferiores às pessoas brancas e, consequentemente, incompatíveis com a democracia norte-americana. A democracia era para cidadãos, e a “raça negra”, tal como estabelecido pela Corte, constituía “uma classe separada de pessoas” que os fundadores não haviam “considerado parte das pessoas ou cidadãos que compõem o governo”, “não tendo quaisquer direitos que um homem branco esteja obrigado a respeitar”. Tal crença, a de que as pessoas negras não eram apenas escravizadas mas pertenciam a uma raça de escravos, se tornou a fonte do racismo endêmico que até hoje não foi possível expurgar desta nação. Se as pessoas negras nunca poderiam ser cidadãs, se formavam uma casta à parte de todos os outros seres humanos, então não faziam jus aos direitos protegidos pela Constituição – e o “nós”, na frase “nós, o povo”, não era uma mentira.

*

Em 14 de agosto de 1862, meros cinco anos após as mais altas cortes do país terem declarado que nenhuma pessoa negra podia ser um cidadão norte-americano, o presidente Abraham Lincoln chamou um grupo de cinco respeitados homens negros livres para um encontro na Casa Branca. Era uma das primeiras vezes que pessoas negras entrariam na Casa Branca como convidadas. A Guerra Civil vinha sendo travada havia mais de um ano, e os abolicionistas negros, que pressionavam Lincoln cada vez mais para acabar com a escravidão, devem ter vivido dias de grande expectativa e orgulho.

A guerra não estava indo bem para Lincoln. A Grã-Bretanha contemplava a possibilidade de intervir em favor da Confederação, e ele, incapaz de recrutar novos voluntários brancos em número suficiente, foi obrigado a rever sua decisão de não permitir que norte-americanos negros lutassem pela própria libertação. O presidente estudava fazer uma proclamação em que ameaçava emancipar todas as pessoas escravizadas nos estados que haviam se separado da União caso eles não pusessem fim à rebelião. A proclamação também permitia que os antigos escravizados fizessem parte do exército da União e lutassem contra seus ex-donos. No entanto, Lincoln se preocupava com as consequências de uma medida tão radical. Assim como muitos norte-americanos brancos, ele se opunha à escravatura como um sistema cruel contrário aos ideais do país, porém também se opunha à igualdade das pessoas negras. Acreditava que elas constituíam uma “presença perturbadora” incompatível com uma democracia destinada apenas aos brancos. “Libertá-los e torná-los política e socialmente nossos iguais?”, ele havia dito quatro anos antes. “Meus sentimentos não admitem isso. E, se admitissem, sabemos muito bem que os da grande maioria das pessoas brancas não admitirão.”

Ao chegarem à Casa Branca naquele dia de agosto, os cinco homens foram recebidos pelo imponente Lincoln, acompanhado por um homem chamado James Mitchell, nomeado oito dias antes para o cargo, recém-criado, de comissário de emigração. Aquele seria o primeiro compromisso do novo funcionário. Após trocarem cortesias, Lincoln foi direto ao assunto: informou aos convidados que fizera o Congresso aprovar uma verba a fim de enviar as pessoas negras, uma vez libertadas, para outro país.

“Por que deveriam elas deixar este país? Talvez essa fosse a primeira questão a ser considerada”, Lincoln lhes disse. “Vocês e nós pertencemos a raças diferentes. […] A raça de vocês sofre muitíssimo, muitos de vocês sofrem, por viver entre nós, enquanto nós sofremos com sua presença. Em outras palavras, cada um sofre por seu lado.”

É fácil imaginar o denso silêncio que se instalou naquela sala quando o peso do que o presidente acabara de falar tirou o fôlego daqueles cinco homens negros. Haviam transcorrido 243 anos desde que o primeiro de seus antepassados chegara àquelas terras, antes da família de Lincoln, muito antes de que a maioria das pessoas brancas insistisse que aquele país não era deles. A União não havia entrado na guerra para abolir a escravidão, e sim para evitar que o Sul se separasse; no entanto, muitos homens negros haviam se alistado para lutar. Os escravizados fugiam dos campos de trabalhos forçados, que gostamos de chamar de plantations, tentando participar na luta, servindo como espiões, sabotando os confederados, pegando em armas pela causa de Lincoln assim como pela deles próprios. E agora o presidente os culpava pela guerra: “Embora muitos homens engajados em ambos os lados não liguem para vocês de um modo ou de outro […], sem a instituição da escravatura e a raça de cor como sua base, a guerra não teria existido”, ele lhes disse. “Por isso, é melhor para ambos os lados que nos separemos.”

Quando Lincoln terminou suas observações, Edward Thomas, o líder dos convidados, o informou, talvez secamente, que realizariam consultas com base em sua proposição. “Tomem o tempo que for preciso”, disse Lincoln. “Não há pressa.”

Quase três anos após o encontro na Casa Branca, o general Robert E. Lee se rendeu em Appomattox. No verão, a Guerra Civil estava encerrada e quatro milhões de norte-americanos negros de repente foram libertados. Contrariamente à opinião de Lincoln, a maioria não tencionava ir embora, no espírito de uma resolução contrária à colonização proposta algumas décadas antes numa convenção de líderes negros em Nova York: “Este é o nosso lar e este é o nosso país. Sob seu solo jazem os ossos de nossos pais. […] Nascemos aqui e aqui morreremos.”

O fato de os antigos escravizados não terem aceitado a oferta de Lincoln para abandonar estas terras é uma prova cabal de sua crença nos ideais que deram origem à nação. Como escreveu W.E.B. Du Bois: “Poucos homens cultuaram a liberdade com metade da fé inabalável com que o fizeram os negros norte-americanos durante dois séculos”. Por muito tempo eles clamaram pela igualdade universal e acreditaram que, como disse o abolicionista Martin Delany, “Deus fez de um só sangue todas as nações que habitam a face da Terra”. Libertados pela guerra, não buscaram se vingar de seus opressores como temiam Lincoln e muitos outros norte-americanos brancos. Fizeram o oposto. Ao longo do breve período da Reconstrução, entre 1865 e 1877, os ex-escravizados se engajaram zelosamente no processo democrático. Com as tropas federais controlando a disseminada violência dos brancos, moradores negros do Sul abriram sucursais da Liga de Direitos Iguais – uma das primeiras organizações de direitos humanos do país – a fim de combater a discriminação e organizar os eleitores, que compareceram às urnas massivamente, elegendo outros ex-escravizados para cadeiras antes ocupadas por seus escravizadores. Pela primeira vez na história deste país, o Sul começou a se assemelhar a uma democracia, com norte-americanos negros eleitos para cargos locais, estaduais e federais. Cerca de 16 homens negros cumpriram mandatos no Congresso – dentre eles Hiram Revels, do Mississippi, o primeiro homem negro eleito para o Senado. (Demonstrando como esse período seria breve, Revels, assim como Blanche Bruce, foi também o último homem negro eleito para o Senado por quase 100 anos, até que Edward Brooke, de Massachusetts, assumisse sua cadeira em 1967.) Mais de 600 homens negros cumpriram mandatos nas casas legislativas dos estados sulistas, e outras centenas nas assembleias locais.

Esses parlamentares negros se uniram a membros brancos do Partido Republicano, alguns dos quais vindos do Norte, para redigir as constituições estaduais mais igualitárias que o Sul tinha conhecido até então. Ajudaram a passar leis fiscais mais equitativas e outras que proibiam a discriminação em matéria de transporte público e política habitacional. A maior conquista deles talvez tenha sido o estabelecimento da mais democrática instituição norte-americana: a escola pública. Antes da Reconstrução, no Sul não havia educação pública de fato. A elite branca mandava seus filhos para escolas particulares, enquanto os filhos das famílias negras ficavam sem instrução. Mas as pessoas negras recém-libertadas, que haviam sido proibidas de aprender a ler e escrever durante o regime escravagista, ansiavam por educação. Por isso, os legisladores negros lutaram com êxito por um sistema de escolas aberto a todos e financiado pelos estados – não apenas para os próprios filhos, mas também para os das famílias brancas. Os legisladores negros contribuíram igualmente para aprovar as primeiras leis regionais que tornavam o ensino obrigatório. A partir de então, as crianças sulistas, negras ou brancas, ficaram obrigadas a frequentar as escolas, tal como ocorria com seus pares no Norte. Nos primeiros cinco anos da Reconstrução, todos os estados sulistas haviam estabelecido em suas constituições o direito à educação pública para a totalidade das crianças. Em alguns deles, como a Louisiana e a Carolina do Sul, pequenos grupos de crianças negras e brancas, por um curto espaço de tempo, frequentaram a escola juntas.

Graças à liderança de ativistas negros e de um Partido Republicano empurrado para a esquerda pela flagrante renitência dos sulistas brancos, os anos que se seguiram imediatamente ao fim da escravatura registraram a mais ampla expansão dos direitos humanos e civis que esta nação conheceu. Em 1865, o Congresso aprovou a 13a Emenda, tornando os Estados Unidos uma das últimas nações das Américas a declarar ilegal a escravidão. No ano seguinte, os norte-americanos negros, exercendo seu recém-conquistado poder político, forçaram os legisladores brancos a aprovar a Lei dos Direitos Civis, a primeira deste tipo a vigorar no país e uma das mais completas na matéria que já passaram pelo Congresso. Pela primeira vez, ela codificou a cidadania dos norte-americanos negros, proibiu a discriminação residencial e deu a todos os cidadãos do país o direito de comprar e herdar bens, fazer contratos e garantir sua execução, buscando reparações nos tribunais. Em 1868, o Congresso ratificou a 14a Emenda, garantindo a cidadania a qualquer pessoa nascida nos Estados Unidos. Hoje, graças a essa emenda, todos os filhos de imigrantes da Europa, da Ásia, da África, da América Latina e do Oriente Médio aqui nascidos ganham cidadania automaticamente. A 14a Emenda também ofereceu, pela primeira vez, garantia constitucional à igual proteção nos termos da lei. Desde então, quase todos os grupos marginalizados têm usado a 14a Emenda em suas lutas por equidade (incluindo as recentes e bem-sucedidas defesas na Suprema Corte do casamento entre pessoas do mesmo sexo). Finalmente, em 1870, o Congresso passou a 15a Emenda, garantindo o aspecto mais crucial da democracia e da cidadania – o direito ao voto – a todos os homens independentemente de “raça, cor ou condição prévia de servidão”.

Durante esse breve momento conhecido como Reconstrução, a maioria do Congresso pareceu abraçar a ideia de que, das cinzas da Guerra Civil, poderíamos criar a democracia multirracial que os norte-americanos negros imaginaram, mesmo que os pais da pátria não o tivessem feito.

Mas durou pouco.

O racismo está enraizado no próprio DNA deste país, assim como a crença, tão bem expressa por Lincoln, de que as pessoas negras são um obstáculo à unidade nacional. Os muitos ganhos da Reconstrução despertaram uma forte resistência branca em todo o Sul, incluindo inimaginável violência contra os antigos escravizados, a supressão em larga escala do direito de voto e até mesmo, em alguns casos extremos, a derrubada de governos birraciais democraticamente eleitos. Diante de tal agitação, o governo federal decidiu que as pessoas negras eram a causa do problema e que, para o bem da unidade, deixaria que o Sul branco fizesse o que bem entendesse. Em 1877, o presidente Rutherford B. Hayes, a fim de garantir uma solução conciliatória com os democratas sulistas que lhe daria a presidência numa disputa questionada, concordou em retirar as tropas federais do Sul. Sem a presença desses soldados, os sulistas brancos rapidamente erradicaram os ganhos da Reconstrução. A supressão sistêmica de vidas negras foi tão severa que esse período, entre as décadas de 1880 e 1920/1930, ficou conhecido como o Grande Nadir, ou a segunda escravidão. A democracia não retornaria ao Sul por quase um século.

Por outro lado, os sulistas brancos de todas as classes econômicas, graças em grande parte às políticas progressistas e às leis que as pessoas negras haviam promovido, tiveram uma melhoria substancial em seu padrão de vida à medida que forçavam as pessoas negras a viver numa quase escravidão. Como lamentou Waters McIntosh, que havia sido escravizado na Carolina do Sul: “Os brancos pobres é que foram libertados pela guerra, não os negros”.

*

Robert Colescott, 1919, 1980 © Estate of Robert Colescott/ AUTVIS, Brasil, 2020 / Foto: Cortesia de Estate of Robert Colescott e Blum & Poe, Los Angeles/Nova York/Tóquio

Os pinheiros da Georgia iam ficando para trás enquanto o ônibus da Greyhound levava Isaac Woodard para sua casa em Winnsboro, Carolina do Sul. Depois de servir por quatro anos no exército durante a Segunda Guerra Mundial, onde ganhara uma medalha por bravura, ele havia recebido, naquele dia, uma dispensa honrosa do Camp Gordon, e seguia caminho para se encontrar com a esposa. Quando o ônibus parou diante de uma pequena farmácia uma hora antes de chegar a Atlanta, Woodard teve uma breve discussão com o motorista branco após perguntar se podia usar o banheiro. Cerca de meia hora mais tarde, o motorista parou de novo e disse a Woodard que desembarcasse do ônibus. Com seu uniforme impecável, Woodard desceu os degraus e viu que a polícia esperava por ele. Antes que pudesse falar, um dos policiais o golpeou na cabeça com um cassetete usando tanta força que ele perdeu os sentidos. Os golpes no crânio de Woodard foram tão violentos que, quando ele acordou na cadeia, não conseguia mais enxergar. As pancadas aconteceram apenas quatro horas e meia depois de sua dispensa do exército. Aos 26 anos de idade, Woodard estava cego.

Nada havia de extraordinário na pavorosa agressão a Woodard. Aquilo fazia parte da violência sistêmica posta em prática contra os norte-americanos negros depois da Reconstrução, tanto no Norte quanto no Sul. À medida que evaporava o espírito igualitário registrado após a Guerra Civil graças ao desejo de reunificação nacional, os norte-americanos negros, simplesmente por existirem, serviam como uma lembrança perturbadora dos defeitos desta nação. Os Estados Unidos brancos lidaram com tal inconveniente erigindo um sistema racial de apartheid implementado com extrema crueldade, que excluía as pessoas negras quase inteiramente da vida pública do país – um sistema tão grotesco que a Alemanha nazista mais tarde o usou como inspiração para executar suas políticas racistas.

Apesar das garantias de equidade inscritas na 14a Emenda, a Suprema Corte, em sua histórica decisão no caso Plessy v. Ferguson, declarou em 1896 que a segregação racial dos norte-americanos negros era constitucional. Com a bênção da mais alta corte do país e nenhuma disposição, a nível federal, de defender os direitos negros, os estados sulistas começaram a aprovar, na virada do século 19, uma série de leis e códigos destinados a tornar permanente o sistema de casta racial da escravidão, negando às pessoas negras poder político, igualdade social e dignidade básica. Criaram testes de alfabetização para impedir que eleitores negros votassem, estabeleceram eleições primárias só com a presença de brancos. Pessoas negras foram proibidas de servir como jurados ou testemunhar nos tribunais contra um indivíduo branco. A Carolina do Sul proibiu os empregados brancos e negros de tecelagens de usar as mesmas portas. Oklahoma obrigou as empresas telefônicas a manter cabines segregadas. Memphis tinha estacionamentos separados para motoristas negros e brancos. Baltimore aprovou um decreto impedindo pessoas negras de se mudar para quarteirões em que mais da metade dos moradores fossem brancos, e brancos de se mudar para quarteirões em que mais da metade dos moradores fossem negros. A Georgia tornou ilegal que pessoas negras e brancas tivessem sepulturas contíguas no mesmo cemitério. O Alabama impediu pessoas negras de utilizarem as bibliotecas públicas, que eram financiadas com impostos cobrados também delas. Esperava-se que elas descessem da calçada a fim de deixar que as pessoas brancas passassem, devendo sempre se dirigir a elas tratando-as de senhor e senhora, embora o mesmo não acontecesse com as pessoas negras, independentemente da idade. No Norte, políticos brancos implementaram diretrizes que segregavam os moradores negros em comunidades onde escolas de nível inferior eram frequentadas apenas por alunos negros; havia piscinas públicas só para pessoas brancas, bem como dias especiais nas feiras dos condados para gente branca e gente “de cor”; muitas lojas se recusavam a servir aos clientes negros, ostentando cartazes nas vitrines que diziam “só para brancos”. Estados como a Califórnia se uniram aos do Sul, impedindo que pessoas negras se casassem com brancas, enquanto os conselhos de escolas locais em Illinois e Nova Jersey criaram estabelecimentos de ensino segregados para crianças negras e brancas.

O sistema de castas foi mantido por meio de um virulento terrorismo racial. Veteranos de guerra como Woodard, especialmente aqueles com audácia suficiente para usar uniformes, tinham sido alvo, desde a Guerra Civil, de uma violência específica. Isso se intensificou durante as duas guerras mundiais, pois as pessoas brancas entenderam que, uma vez que os homens negros tivessem ido ao exterior e conhecido a vida fora da sufocante opressão racial dos Estados Unidos, era improvável que aceitassem serenamente a subjugação ao voltar para casa. Como disse o senador James K. Vardaman, do Mississippi, no plenário do Senado durante a Primeira Guerra Mundial, o retorno dos militares negros ao Sul “conduziria inevitavelmente ao desastre”. Dar a um homem negro “ares de militar” e mandá-lo defender a bandeira faria com que ele chegasse “à conclusão de que seus direitos políticos deviam ser respeitados”.

Muitos norte-americanos brancos viam o uso de uniformes das forças armadas por homens negros não como um gesto patriótico, e sim como uma exibição de perigoso orgulho. Centenas de veteranos negros foram surrados, aleijados, mortos a tiros e linchados. Gostamos de chamar aqueles que viveram durante a Segunda Guerra Mundial de “a melhor geração”, mas isso nos permite ignorar o fato de que muitos dessa geração lutaram pela democracia em terras estranhas enquanto suprimiam brutalmente a democracia para milhões de cidadãos norte-americanos. No auge do terror racial neste país, os norte-americanos negros não foram apenas assassinados, mas também castrados, queimados vivos e esquartejados, com partes de seus corpos exibidas nas vitrines de lojas. Essa violência tinha como objetivo aterrorizar e controlar as pessoas negras, e, talvez igualmente importante, servia como um bálsamo psicológico para a supremacia branca: seres humanos não seriam tratados dessa forma. O extremismo da violência era um sintoma do mecanismo psicológico necessário para absolver os norte-americanos brancos do pecado original de seu país. A fim de responderem à pergunta sobre como podiam prezar a liberdade no exterior ao mesmo tempo que negavam a liberdade a toda uma raça em seu próprio país, os norte-americanos brancos recorriam à mesma ideologia racista que Jefferson e os pais da pátria tinham usado ao fundá-la.

Essa ideologia – a de que pessoas negras pertenciam a uma raça inferior, subumana – não havia simplesmente desaparecido com o fim da escravidão. Se os antigos escravizados e seus descendentes tivessem uma educação formal, se prosperássemos nos empregos ocupados por pessoas brancas, se nos destacássemos nas ciências e nas artes, então desmoronaria toda a justificativa de como esta nação havia permitido a escravatura. Pessoas negras livres implicavam um grave perigo para a ideia que os Estados Unidos faziam de si próprios como um país excepcional: nós carregávamos o espelho em que a nação preferia não se ver. E, por isso, a desumanidade imposta às pessoas negras por cada nova geração branca justificava a desumanidade do passado.

Exatamente como temiam os norte-americanos brancos, a Segunda Guerra Mundial deflagrou aquilo que se transformou no segundo esforço sustentado dos norte-americanos negros para tornar a democracia uma realidade. Como escreveram os editores do jornal negro The Pittsburgh Courier: “Conduzimos um ataque em duas frentes – contra nossos escravizadores neste país e aqueles no exterior que nos escravizarão”. O ato de cegarem Woodard é visto em geral como um dos catalisadores da rebelião que durou várias décadas e à qual damos o nome de movimento dos direitos civis. Mas é útil fazer uma pausa e lembrar que esse foi o segundo movimento de massa em favor dos direitos civis negros, sendo o primeiro a Reconstrução. Às vésperas do centenário do fim da escravidão, as pessoas negras ainda buscavam obter os direitos pelos quais tinham lutado e que haviam conquistado após a Guerra Civil: o direito de serem tratadas de forma igual pelas instituições públicas, que fora garantido em 1866 pela Lei dos Direitos Civis; o direito de serem tratadas como cidadãs plenas perante a lei, garantido em 1868 pela 14a Emenda; e o direito ao voto, garantido em 1870 pela 15a Emenda. Em resposta a essas exigências, os norte-americanos brancos penduraram os negros em galhos de árvores, os surraram e jogaram os corpos em rios lamacentos, os assassinaram na frente de casa, os atingiram com bombas incendiárias em ônibus, os fizeram ser mordidos por cães, arrancaram suas peles com jatos de mangueiras de incêndio e mataram seus filhos com explosivos postos dentro de uma igreja.

De modo geral, os norte-americanos negros lutaram sozinhos. Entretanto, nunca batalhamos só por nós. As sangrentas lutas do movimento de direitos civis pela liberdade lançaram as bases para todos os demais embates modernos sobre direitos. Os pais da pátria brancos sem dúvida criaram uma Constituição não democrática que excluía mulheres, indígenas e pessoas negras, não garantindo nem o voto nem a igualdade à maioria dos norte-americanos. Mas as leis nascidas da resistência negra garantem o voto a todos e impedem a discriminação não somente baseada na raça, mas também no gênero, na nacionalidade, na religião e na capacidade individual. Foi o movimento dos direitos civis que levou à aprovação da Lei da Imigração e da Nacionalidade de 1965, que derrubou o sistema racista de cotas de imigração destinado a manter este país branco. Por causa dos norte-americanos negros, os imigrantes de pele negra e marrom de todo o planeta podem vir para os Estados Unidos e viver num país em que não mais se permite a discriminação legal. É uma ironia tipicamente norte-americana que alguns cidadãos de ascendência asiática, pertencentes a um dos grupos que puderam imigrar para os Estados Unidos graças à luta das pessoas negras pelos direitos civis, estejam agora processando as universidades para que interrompam seus programas destinados a ajudar os descendentes dos escravizados.

Ninguém aprecia mais a liberdade do que aqueles que não a tiveram. E, até hoje, os norte-americanos negros, mais do que qualquer outro grupo, perfilham os ideais democráticos do bem comum. Somos provavelmente os que mais apoiam programas como a assistência médica universal e um salário mínimo maior, ou se opõem a programas que prejudicam os mais vulneráveis. São os norte-americanos negros, por exemplo, os que mais sofrem com os crimes violentos e, não obstante, os que mais se opõem à pena de morte. Nossa taxa de desemprego é quase o dobro da taxa dos norte-americanos brancos e, no entanto, somos provavelmente o grupo mais disposto a dizer que esta nação deve aceitar refugiados.

Na verdade, o quanto esta nação tem hoje de democracia se deve à penosa resistência negra. Nossos pais da pátria talvez não acreditassem de fato nos ideais que proclamavam, mas as pessoas negras acreditavam. Como disse o estudioso Joe R. Feagin: “Os afro-americanos escravizados estão entre os maiores lutadores em prol da liberdade que este país produziu”. Ao longo de gerações, acreditamos neste país com uma fé que ele não mereceu. As pessoas negras viram o que há de pior nos Estados Unidos, porém, de algum modo, ainda cremos no que o país tem de melhor.

*

Há quem diga que nosso povo nasceu sobre as águas.

Ninguém sabe ao certo quando. Talvez na segunda ou na terceira semana, mas sem dúvida lá pela quarta, já haviam perdido a conta de há quantos dias não viam sua terra ou avistado qualquer outra. Foi então que o medo se transformara em desespero, o desespero em resignação, e a resignação numa compreensão duradoura. A eternidade azul-petróleo do oceano Atlântico os separara tão completamente do que tinha sido seus lares que era como se nada existisse no passado, como se tudo e todos que eles amavam houvessem simplesmente desaparecido da face da Terra. Eles não mais pertenciam às etnias mbundu ou akan ou fulâni. Aqueles homens e mulheres de muitas nações diferentes, acorrentados uns aos outros no porão sufocante do navio, formavam agora um só povo.

Poucos meses antes eles tinham famílias, fazendas, vidas e sonhos. Eram livres. Obviamente tinham nomes, mas seus escravizadores não se deram ao trabalho de registrá-los. Haviam sido transformados em negros por aquela gente que se acreditava branca e, para onde estavam sendo levados, negro era igual a “escravo”, e a escravidão nos Estados Unidos exigia que os seres humanos fossem transformados em coisas ao retirar deles todos os elementos que os identificavam como indivíduos. Chamava-se de “aclimatação” o processo pelo qual as pessoas arrancadas da África Ocidental e da África Central eram forçadas, com frequência sob tortura, a deixar de falar seus idiomas maternos e praticar suas religiões nativas.

Entretanto, como escreveu o sociólogo Glenn Bracey: “Das cinzas da denigração branca, fomos capazes de nos inventar”. Por mais que as pessoas brancas tentassem fingir, as pessoas negras nunca foram objetos. E por isso o processo de aclimatação, em vez de apagar as identidades, serviu ao propósito oposto: no vácuo, forjamos uma cultura inteiramente nova.

Nos dias de hoje, nossa própria maneira de falar lembra línguas crioulas que os povos escravizados inventaram a fim de se comunicar tanto com os africanos que falavam diversos dialetos quanto com as pessoas que falavam inglês e os haviam escravizado. Nosso jeito de vestir, o toque extravagante, remete ao desejo dos povos escravizados – despidos de toda individualidade – de gerarem uma identidade própria. Os povos escravizados usavam seus chapéus num ângulo ousado ou davam nós intrincados nos lenços de cabeça. A natureza avant-garde de nossos penteados e roupas é um reflexo vibrante da determinação dos povos escravizados de se sentir 100 por cento humanos ao expressar suas personalidades. A qualidade de improvisação presente na arte e na música negras provém de uma cultura que, devido à disrupção constante, não podia se aferrar ao convencional. A escolha de nomes negros, com tanta frequência criticada pelos segmentos dominantes da sociedade, é por si só um ato de resistência. Nossos sobrenomes pertencem às pessoas brancas de quem um dia fomos propriedade. Daí que é um gesto de autodeterminação a insistência de muitos norte-americanos negros, em especial os mais marginalizados, em dar a nossas crianças nomes por nós criados, que não vêm nem da Europa nem da África, lugar onde jamais estivemos. Quando o mundo ouve a verdadeira música norte-americana, está escutando a nossa voz. O gospel foi gerado pelas cantigas tristes que entoávamos nos campos para amenizar nossa dor física e encontrar a esperança numa liberdade de que só esperávamos desfrutar depois de mortos. Em meio à devastadora violência e à pobreza do delta do Mississippi, demos à luz o jazz e o blues. E foi nas comunidades profundamente miseráveis e segregadas, onde os norte-americanos brancos forçaram os descendentes dos escravos a viver, que adolescentes pobres demais para comprar instrumentos usaram velhos discos a fim de criar uma nova música conhecida como hip-hop.

Nossa fala, a maneira de nos vestirmos e a batida de nossa música têm ecos da África, mas não são africanas. Por conta de nosso singular isolamento, tanto das culturas nativas quanto do país dos brancos, forjamos a cultura original mais importante desta nação. Não é à toa que as correntes dominantes da sociedade invejam nosso estilo, nossas gírias e nossas canções, procurando se apropriar da única cultura genuinamente norte-americana. Como Langston Hughes escreveu em 1926: “Eles verão como sou bonito/ E ficarão envergonhados/ Eu também sou a América”.

Durante séculos, os norte-americanos brancos vêm tentando resolver o “problema do negro”. Dedicaram milhares de páginas a tal esforço. É comum, ainda hoje, apontarem para as taxas de pobreza dos negros, o número de crianças nascidas fora do casamento, os crimes e a frequência nas universidades – como se tais condições não fossem absolutamente previsíveis num país construído em cima de um sistema de castas raciais. Mas, crucialmente, tais estatísticas não podem ser vistas enquanto se ignora outra: a de que as pessoas negras passaram mais tempo aqui escravizadas do que livres.

Com 43 anos, sou parte da primeira geração de norte-americanos negros na história dos Estados Unidos nascida numa sociedade em que temos direitos plenos de cidadania. As pessoas negras sofreram sob a escravidão por 250 anos; estamos legalmente “livres” há apenas 50. Entretanto, nesse período curtíssimo de tempo, apesar de continuarmos a enfrentar uma discriminação desenfreada, e apesar de nunca ter havido um esforço genuíno para compensar os males da escravidão e o século de apartheid racial que se seguiu, os norte-americanos negros obtiveram progressos assombrosos, não apenas para eles próprios, mas também para todos os cidadãos do país.

Que tal se os Estados Unidos entendessem, por fim, depois de 400 anos, que nunca fomos o problema, e sim a solução?

Quando eu era criança – devia estar na quinta ou sexta série –, uma professora deu à nossa turma um trabalho que visava comemorar a diversidade do grande caldeirão de raças norte-americano. Cada aluno devia fazer uma breve descrição da terra de seus ancestrais e desenhar a bandeira do país a que eles tivessem pertencido. Quando a professora se virou para escrever as instruções na lousa, a outra menina negra e eu trocamos um longo olhar. A escravidão havia apagado qualquer conexão que nós tínhamos com algum país africano e, mesmo se tentássemos reivindicar todo o continente, não havia uma bandeira “africana”. Já era bem duro ser uma das duas meninas negras na turma, e aquele trabalho seria simplesmente mais uma recordação da distância entre as crianças brancas e nós. No final, fui até o globo próximo à mesa da professora, escolhi por acaso um país africano e declarei ser o meu.

Gostaria agora de voltar a quem eu era naquele momento e lhe dizer que os ancestrais de seu povo estavam aqui, nestas terras, desenhando com ousadia e orgulho as estrelas e as listras da bandeira norte-americana.

Foi-nos dito certa vez que, em virtude de nossa servidão, jamais poderíamos ser cidadãos norte-americanos. Mas foi em virtude de nossa escravidão que nos tornamos os mais genuinamente norte-americanos de todos.

 

NOTAS

  1. Statue of Freedom: estátua de bronze feita pelo escultor americano Thomas Crawford (1814-1857) e instalada em 1863 no alto do edifício do Capitólio, em Washington, que não se confunde com a Statue of Liberty, presente da França aos eUA, inaugurada na Liberty Island, Nova York, em 1886. [N. do E.]
  2. Dred Scott e sua mulher, Harriet, ingressaram na justiça americana por entender que, tendo vivido num estado em que a escravidão era proibida, poderiam ganhar a liberdade da família que os comprou. A batalha judicial culminou na decisão contra o casal e todos os escravizados. [N. do E.]

 

Nikole Hannah-Jones (1976) é jornalista da The New York Times Magazine. Bolsista da MacArthur Foundation em 2017, ganhou o National Magazine Award, o Peabody Award e o George Polk Award. Em 2019, coordenou o 1619 Project, conjunto de ensaios que discute as heranças da escravidão na cul- tura e na vida pública americana, tomando como marco o ano em que, há quatro séculos, chegaram ao país os primeiros escravizados. Este ensaio serve como conceituação e introdução ao projeto, que reuniu ainda ficção, poesia e fotografia em um número especial da revista e na web.

Tradução de Jorio Dauster

O pintor Robert Colescott (1925-2009) realiza, em suas obras repletas de personagens afro-americanos, uma releitura crítica da história e da iconografia clássica dos EUA. A pintura que abre este ensaio, por exemplo, é uma paródia de um célebre registro da guerra pela independência, na qual os personagens brancos, como George Washington, são substituídos por figuras negras, como George Washington Carver, que nasceu durante a escravidão e se tornou um dos principais cientistas do país na virada do século 20.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *