Estamos todos juntos nisso? – por Michael J. Sandel

Estamos todos juntos nisso?

por MICHAEL J. SANDEL

Um dos raros efeitos positivos da pandemia é embaralhar a forma pela qual avaliamos os papéis econômicos e sociais de cada pessoa

Este artigo faz parte da série #IMSquarentena, que reúne ensaios do acervo, colaborações inéditas e uma seleção de textos que ajudem a refletir sobre o mundo em tempos de pandemia 

Entregador usando máscara no Rio de Janeiro – Tânia Rêgo/Agência Brasi/7-5-2020l

 

A mobilização para confrontar a pandemia e posteriormente reconstruir a economia destroçada exige não apenas grande competência médica e econômica, mas também uma renovação moral e política. Precisamos fazer uma pergunta fundamental que evitamos ao longo das últimas décadas: o que devemos uns aos outros como cidadãos?

Numa pandemia, essa pergunta surge com maior urgência no que diz respeito aos serviços de saúde: tal assistência deveria ser acessível a todos, independentemente de sua capacidade de pagar? O governo Trump decidiu pagar pelo tratamento do coronavírus para pessoas sem plano de saúde. Vamos ver se é possível conciliar a lógica moral dessa diretriz política com a noção de que, em épocas de normalidade, os serviços de saúde devem ser entregues às forças do mercado.

Devemos, no entanto, ir além da discussão sobre os serviços de saúde e refletir de forma mais ampla sobre as formas de enfrentar a desigualdade. Precisamos compensar melhor a contribuição do trabalho social e econômico da maioria dos cidadãos que não têm diplomas universitários. E precisamos avaliar os aspectos negativos e moralmente corrosivos da meritocracia.

Em resposta à crescente desigualdade, os políticos mais ortodoxos de ambos os partidos têm, nas últimas décadas, advogado uma maior igualdade de oportunidades – melhorando o acesso ao ensino superior para que todos os americanos, independentemente de sua origem, possam chegar até onde seu esforço e talento os levarem. Esse é, por si próprio, um princípio válido.

Contudo, como reação à desigualdade, a retórica da ascensão – a promessa de que os talentosos serão capazes de galgar a escada do sucesso – tem um aspecto sombrio. E parte do problema é que não cumprimos os princípios meritocráticos que nós mesmos proclamamos. A maioria dos alunos nas universidades mais exigentes, por exemplo, vem de famílias afluentes. Em diversas instituições de elite, inclusive Yale e Princeton, há mais estudantes do 1% que representa a maior renda do país do que dos 60% que estão em sua base.

Há também um problema mais profundo: mesmo uma meritocracia perfeita, em que as oportunidades de progresso sejam realmente idênticas, iria corroer a solidariedade. Concentrar a atenção em ajudar os talentosos a subir a escada do sucesso pode nos impedir de reparar que os degraus dessa escada estão ficando cada vez mais afastados.

A meritocracia também gera atitudes moralmente pouco admiráveis daqueles que atingem o topo. Quanto mais acreditamos que o sucesso dependeu apenas de nossa própria capacidade, menos provável é que sintamos ter alguma dívida ou obrigação para com nossos concidadãos. A incessante ênfase na ascensão e no esforço encoraja os vencedores a se vangloriarem demais de seu sucesso, menosprezando os que não têm credenciais meritocráticas.

Nos últimos 40 anos, tais atitudes acompanharam a globalização baseada na liberdade dos mercados. Aqueles que se beneficiaram da terceirização, dos acordos de livre comércio, das novas tecnologias e da desregulamentação financeira passaram a crer que tinham obtido tudo graças a suas próprias virtudes e que, portanto, seus ganhos foram merecidos.

A arrogância meritocrática e o ressentimento que ela causa estão no âmago da revolta populista contra as elites. São também fontes poderosas de polarização social e política. Um dos mais profundos abismos políticos atuais é o que divide aqueles que têm ou não um diploma universitário após quatro anos de estudo.

Nas últimas décadas, as elites governamentais pouco fizeram para melhorar a vida dos dois terços de americanos que não têm diploma universitário. E deixaram de enfrentar o que deveria ser uma das questões centrais de nosso panorama político: como assegurar que os indivíduos que não pertencem às categorias profissionais privilegiadas possam encontrar empregos dignos, capazes de permitir que sustentem uma família, contribuam para sua comunidade e ganhem reconhecimento social?

À medida que a atividade econômica passou a dar mais importância a gerenciar dinheiro do que a fazer coisas, e a sociedade passou a oferecer bônus extraordinários aos gerentes de fundos e banqueiros de Wall Street, as ocupações tradicionais passaram a ter um reconhecimento frágil e duvidoso. Numa época em que as finanças passaram a representar uma parcela maior dos lucros empresariais, muitos dos que labutam na economia real, produzindo bens e serviços úteis, não apenas tiveram que encarar salários estagnados e perspectivas incertas de emprego como também passaram a sentir que a sociedade atribuía menos respeito ao tipo de trabalho que executam.

A epidemia do coronavírus repentinamente nos forçou a reconsiderar quais os papéis sociais e econômicos que mais importam.

Durante essa crise, muitos dos trabalhadores essenciais estão exercendo atividades que não exigem diplomas universitários: são os caminhoneiros, funcionários de armazéns e depósitos, entregadores, policiais, bombeiros, encarregados da manutenção de serviços públicos, empregados nos serviços de saneamento, caixas de supermercados, estoquistas, assistentes de enfermagem, serventes de hospitais e cuidadores. Eles não gozam do luxo de trabalhar na segurança de suas casas e fazer reuniões virtuais. Juntamente com os médicos e enfermeiros que cuidam dos pacientes em hospitais superlotados, são eles que põem em risco sua saúde para que o resto de nós possa tentar escapar do contágio. Além de lhes agradecer pelo que fazem, deveríamos reconfigurar nossa economia e sociedade para garantir a tais trabalhadores a compensação e o reconhecimento que reflitam o verdadeiro valor de suas contribuições – não somente durante uma emergência, mas em nossas vidas cotidianas.

Essa reconfiguração implica em discussões que vão além dos conhecidos debates sobre quão generoso ou austero deve ser o estado do bem-estar social. Exige que deliberemos, como cidadãos democráticos, sobre o que constitui uma contribuição ao bem comum, e como tais contribuições deveriam ser recompensadas – sem presumir que os mercados possam resolver essas questões por conta própria.

Deveríamos, por exemplo, considerar uma renda mínima federal para que os trabalhadores ganhem o suficiente para sustentar famílias, bairros e comunidades em desenvolvimento? Deveríamos fortalecer a dignidade do trabalho transferindo o ônus dos impostos que incidem sobre salários para impostos sobre transações financeiras, riqueza e produção de carbono? Deveríamos reconsiderar nossa política atual de taxar mais a renda do trabalho que os ganhos de capital? Deveríamos encorajar a fabricação local de certos bens – a começar por máscaras cirúrgicas, equipamento médico e remédios –, em vez de promover a terceirização para países com baixos salários?

Mesmo quando perdem intensidade, as pandemias e outras grandes crises raramente deixam de alterar os arranjos sociais e econômicos. Cabe a nós decidir qual será o legado desse episódio devastador. Nossa melhor esperança é levar adiante os indícios de solidariedade implícitos no presente momento para rever os termos do discurso público, conduzindo-nos a um debate político mais robusto que o antagonismo rancoroso que prevalece nos dias de hoje.

A necessária renovação moral e cívica requer que resistamos ao atual debate, angustiante, mas equivocado, sobre quantas vidas devemos arriscar com o objetivo de reativar a economia. Esse debate presume que a economia seja como uma loja que, numa rua comercial,  reacende as luzes após um longo feriado e reabre as portas para tocar o negócio como de costume.

A verdadeira questão não é quando, mas o quê: que tipo de economia emergirá da crise? A que continua a criar desigualdades que envenenam nosso ambiente político e minam qualquer senso de comunhão nacional? Ou uma outra, que honre a dignidade do trabalho, recompense as contribuições à economia real, dê aos trabalhadores uma voz significativa e divida os ônus das enfermidades e dos tempos difíceis?

Precisamos perguntar se reabrir a economia significa voltar para um sistema que, ao longo das últimas quatro décadas, nos separou; ou se podemos emergir dessa crise com uma economia que nos permita dizer, e crer, que estamos todos juntos nisso.

 

Michael J. Sandel (1953) é professor de filosofia política em Harvard, autor de O que o dinheiro não compra, Justiça: o que é fazer a coisa certa e Contra a perfeição: ética na era da engenharia genética, todos editados pela Civilização Brasileira. Em setembro, ele lança nos EUA  The Tyranny of Merit: What’s Become of the Common Good?. Este artigo foi originalmente publicado pelo New York Times.

Tradução de Jorio Dauster

 

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