O Brasil para os brasileiros – por Rafael Cardoso

O Brasil para os brasileiros

Por RAFAEL CARDOSO

Na onda de conservadorismo, a xenofobia obriga o país a decidir se continua recebendo imigrantes a contragosto ou adota um projeto de abertura e acolhida

A primeira missa, pintura de Luiz Zerbini

Sou descendente, por parte de pai, de estrangeiros que vieram para o Brasil como refugiados apátridas na época da Segunda Guerra Mundial. Meu bisavô chegou ao Rio de Janeiro em fevereiro de 1941 e, menos de seis meses depois, teve sua ex­pulsão decretada, como mais um entre tantos “imigrantes in­desejáveis” que o Estado Novo quis impedir de se fixarem no país. Judeus e esquerdistas, em sua maioria. Para quem não conhece essa passagem sombria da nossa história, raramente lembrada nos livros escolares, o assunto foi dissecado por Jeffrey Lesser em O Brasil e a questão judaica: imigração, diplo­macia e preconceito (Imago, 1995). Meus bisavós conseguiram ficar no país, porque fugiram para o interior e se esconderam até a sanha persecutória passar. Depois da guerra, meus avós ainda viveram quase três décadas sob identidades falsas, te­merosos de serem descobertos e presos ou simplesmente ex­torquidos por uma sucessão de instâncias burocráticas. É uma história que comecei a contar no romance O remanescente e que, desde então, venho descobrindo ter eco em outras histó­rias de família, Brasil afora, mantidas em silêncio há gerações.

O que torna a minha história irônica é que também sou descendente, por parte de mãe, de uma família bem brasileira, daquelas raras em que não se tem nenhum registro de antepassado estrangeiro nas últimas cinco gerações. Um bisavô, pernambucano cioso de seus olhos claros, foi general do exército, professor da Escola de Guerra e autor de tratados de filosofia positivista. Outro bisavô, o de nome Cardoso, foi desbravador do sertão mineiro, decantado em lendas incertas como fundador da cidade de Pirapora. O filho dele, meu tio­-avô, que cheguei a conhecer na infância, era político udenista, filiado àquela direita católica de antigamente, que fazia retiro no Mosteiro de São Bento e apoiou a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Na casa em que minha mãe foi criada, a pior desqualificação era ser chamado de comunista. O que não impediu que um primo distante dela militasse no MR-8 (Movimento Revolu­cionário 8 de Outubro) e fosse preso, torturado e morto em 1971. Como quase toda família tradicional brasileira, boa parte dessa minha parentela nutria sentimentos antissemitas e racistas, mesmo que velados. Meu avô dizia que não confiava em judeu, e minha avó não gostava de encostar em “gente preta”, embora tivesse sido praticamente criada por uma mulher que nasceu escrava.

Tanta autobiografia é só para constatar um fato curioso. Caso não fossem aparentadas pelo acidente do amor conjugal, é bem possível que alguém da família da minha mãe tivesse apoiado a deportação de gente como a família do meu pai. Do jeito que quis o destino, a primeira sempre fez vista grossa para as esquisitices da segunda, até porque esta última teve o cuidado de manter uma fachada que disfarçava sua identidade real. Na melhor tradição brasileira de convivialidade, uns fingiam que eram, e os outros fingiam que acreditavam. E, assim, todos viviam mais ou menos em harmonia, contanto que os prejudi­cados se contentassem em sofrer em silêncio. Escrevo essas coisas, e assumo a primeira pessoa, para que não haja dúvida sobre o lugar da minha fala. Sou fruto de um pacto de convivência geracional em que a regra maior era guardar segredo. Roupa suja se lava em casa, e os podres da família não se revelam. Até o dia em que o não dito precisa ser dito. E esse dia chega para todos.

Parece que a roupa suja ficou acumulada para muita gente, não só para mim. De uns anos para cá, na esteira do livro Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver, e sua adaptação para o cinema, vemos com frequência a formulação “precisamos falar sobre…”, as reticências sendo preenchidas com qualquer tabu em pauta: aborto, drogas, discriminação racial, assédio sexual, violência domés­tica. Muitos querem acusar, outros se recusam a ouvir e, para crescente deses­pero, todos desandam a falar ao mesmo tempo. Às vezes, quem não consegue ganhar no grito recorre às vias de fato. Foi o que aconteceu, em maio de 2017, quando uma manifestação na avenida Paulista terminou em briga e ganhou as manchetes dos principais jornais do país. Na ocasião, um pequeno grupo de manifestantes de extrema-direita protestava contra a nova Lei de Migração, a qual visa a eliminar entraves burocráticos do antigo Estatuto do Estrangeiro, resquício ainda da ditadura militar, e flexibiliza a obtenção de permissão para residir no Brasil. Embora essa lei estivesse longe de ser polêmica – o projeto foi proposto pelo PSDB e acabou sendo sancionado (com vetos) pelo atual governo conservador –, alguns extremados clamavam contra ela com uma virulência que beira o fanatismo. Tentavam associar a entrada de refugiados ao fantasma do “terrorismo islâmico” e, em franca paranoia delirante, gritavam que “comu­nista tem que morrer”. Acabaram entrando em choque com um grupo de sim­patizantes da causa pró-Palestina. Houve enfrentamento e confusão, com um lado acusando o outro de ter provocado o conflito. O resultado foi a prisão de dois palestinos e dois brasileiros, todos soltos no dia seguinte. Esse incidente serve aqui como ponto de partida para uma reflexão sobre dois temas interli­gados na sociedade brasileira: a xenofobia contra imigrantes e a dificuldade que temos de assimilar determinados grupos vistos como estranhos à vida nacional.

O brasileiro gosta de pensar que o Brasil é uma nação acolhedora, que recebe imigrantes de braços abertos. Em termos de dados históricos e estatísticos, não é bem assim. Apesar da imigração maciça promovida por sucessivos governos du­rante o Império e o primeiro período republicano, sempre houve debates sobre o tipo de imigrante que seria mais desejável, passando pela rejeição explícita a de­terminados grupos. Na década de 1860, a questão da imigração de chineses atin­giu proporções de grande controvérsia e chegou a ser debatida no parlamento. O consenso era de que devia ser impedida para evitar o suposto risco de dege­neração racial. Pelo mesmo motivo, a pseudociência da época desaconselhava a entrada de mais africanos, para além dos milhões que já haviam ingressado es­cravizados no país. Em 1890, já sob a República, a entrada de asiáticos foi efetiva­mente barrada por decreto. Se não fosse por isso, é possível que o Rio de Janeiro tivesse hoje um centenário Chinatown, como os de Nova York ou São Francisco.

O imigrante ideal, para as autoridades brasileiras daquele tempo, era branco e católico. De preferência, com experiência em agricultura e disposto a se fixar nas zonas rurais. Braços para a lavoura, era o que se dizia, e uma injeção de material genético selecionado com o intuito de “melhorar a raça”. Como se fos­sem cavalos ou gado. A preferência por imigrantes católicos seguia a premissa de que seriam de assimilação fácil e não ameaçariam a composição cultural da jovem nação. Aqueles no poder queriam que o brasileiro continuasse do jeitinho que era, só que mais branco. Seguindo as premissas eugênicas então em voga, acreditava-se que o sangue europeu, tido como mais forte, venceria o sangue africano e ameríndio, eliminando-os paulatinamente. Essa política de branqueamento já foi documentada, ad nauseam, por nossa historiografia. Ela é o pano de fundo ideológico para o crescimento da cidade de São Paulo, onde a porcentagem de italianos ficou acima de 30% entre as décadas de 1890 e 1910, período em que a população aumentou quase dez vezes.

Os doutores daquela época não conseguiram o que almejavam, por três moti­vos. O primeiro, concreto, é que as doutrinas científicas em que acreditavam eram falsas. Não existe raça pura, em termos biológicos, muito menos a superio­ridade de uma sobre outra. O segundo, circunstancial, é que a fonte de imigran­tes na Europa foi secando antes que a demanda por trabalhadores no Brasil se esgotasse. Quando o navio Kasato Maru atracou no porto de Santos em junho de 1908, com 165 famílias japonesas a bordo, era o reconhecimento implícito de que os interesses econômicos iriam prevalecer sobre a ideologia eugenista. A imi­gração em massa de japoneses para o Brasil, ao longo do século 20, não somente descarrilou o projeto de branqueamento como também quebrou o paradigma de que não católicos eram inassimiláveis. Os japoneses ficaram e se fixaram. Seus descendentes tornaram-se brasileiros, a despeito de muito preconceito e até per­seguição. Conseguiram essa proeza, de início, porque se mantiveram isolados no interior do país. Longe da vista, como fizeram meus avós e bisavós.

O terceiro motivo do fracasso do modelo de assimilabilidade católica é con­ceitual. Seus defensores partiam de um pressuposto falso: o de que a popu­lação brasileira era homogênea em termos de religião. Só mesmo na fantasia de Sílvio Romero, um dos primeiros a advogar pelo branqueamento, ou no raciocínio torto de Oliveira Vianna, o decano dos eugenistas brasileiros, existia uma norma cultural a ser patrulhada. Quase não é preciso dizer que seu ideal do homem brasileiro(sim, era sempre homem) não contemplava a permanên­cia de negros e indígenas, com suas crenças tidas como selvagens e inferiores. Acreditava-se que, com a passagem do tempo, estas seriam expurgadas do organismo nacional por seleção natural, juntamente com o cabelo pixaim e a preguiça atávica. Mesmo dentro da seara monoteísta, o mito do bom imigrante católico ignorava estrategicamente a presença de judeus, muçulmanos e pro­testantes no Brasil. Os três grupos estiveram presentes desde a época colonial e, cada um a seu modo, contribuíram para a formação do país. Com a separação entre Estado e Igreja, instituída a partir de 1889, a diversidade religiosa que sempre existiu, mesmo que de forma oculta, ganhou novo ímpeto para fazer valer seus direitos no plano político. Datam dessa época conflitos entre dife­rentes concepções de Brasil em termos de crença, cultura e mesmo etnia, como a Guerra de Canudos e a Guerra do Contestado.

O fato é que nunca houve unidade cultural no Brasil, país de grandes varia­ções regionais e uma tendência a conservar modos de vida divergentes em seus rincões afastados. Os exemplos são numerosos e disparatados. Fugindo de perseguições, judeus sefarditas dispersos pelo sertão nordestino, desde os tempos da Inquisição até em pleno século 20. Comunidades quilombolas, iso­ladas há muito da sociedade majoritária e que lutam ainda para manter sua separação no plano jurídico. No extremo ideológico oposto, o dos opressores, não faltam exemplos dos recônditos da alma nacional. A região em torno de Americana, em São Paulo, colonizada por escravagistas do Sul dos Estados Uni­dos inconformados com a abolição em sua terra de origem. Ou, ainda, a cidade de Rolândia, no Paraná, onde refugiados judeus chegados durante a Segunda Guerra se viram obrigados a conviver com os fugitivos nazistas que ali apor­taram após 1945. Um caso especialmente emblemático da heterogeneidade cultural do país é o dos descendentes de pomeranos, que são mais de 100 mil pessoas somente no Espírito Santo. Hoje, o principal polo mundial de sobre­vivência da língua pomerana é o Brasil, já que o idioma está praticamente extinto na Polônia e na Alemanha, onde se originou. Para além dessas supostas anomalias – são tantas que não cabe mais a palavra –, existe o horizonte vasto dos costumes, crenças, línguas, tradições e terras indígenas, cuja proteção é obrigação constitucional do Estado brasileiro. Ainda são falados cerca de 200 idiomas no Brasil, e muitos habitantes nascidos nesta terra aprendem o portu­guês como segunda língua. Como resumiu poeticamente Carlos Drummond de Andrade: “Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?”

O mito da unidade cultural brasileira foi forjado nas décadas de 1930 e 1940. Os novos meios de comunicação de massa – rádio e cinema – abriam a possibi­lidade de unificar pela tecnologia o que havia sido apartado pela história e pela geografia. Data dessa época a consagração de diversas tradições de invenção ou reinvenção recente: futebol, samba, carnaval, entre outras. Pesquisadores da história do samba, como Hermano Vianna, Carlos Sandroni e Lira Neto, demonstraram como a elevação da nova música urbana a símbolo da nacio­nalidade atendeu a um anseio político da Era Vargas: o de centralizar a ideia de uma cultura nacional. Sob a Constituição de 1937, o combate às diferenças regionais chegou ao ponto de proibir as bandeiras estaduais. Com grande apa­rato e ritual, incluindo discurso de Getúlio Vargas e bênção do cardeal dom Sebastião Leme, elas foram queimadas em praça pública na capital do país. O mesmo Estado Novo que glorificava o Brasil brasileiro e sua cultura mestiça combateu e extinguiu identidades regionais, reprimiu religiões de matriz afro­-brasileira, barrou imigrantes judeus, suprimiu com violência o uso de idiomas outros que não o português, proibiu partidos políticos e prendeu quem discor­dasse dessas posições. A correlação não é casual. A unidade, diferentemente da união, só pode ser obtida ao eliminar e apagar as diferenças.

Não por acaso, a ideia da mestiçagem sofreu uma releitura radical ao longo desse período. De defeito a ser corrigido pelo branqueamento, ela passou a ser representada como valor a ser defendido. “A cor morena do Brasil fagueiro”, canta a marchinha de Lamartine Babo, escrita em pleno Estado Novo. O mestiço era a nova meta, fundindo em seus traços todas as origens e temperando em sua mistura os conflitos de sangue que, até então, haviam marcado as relações entre etnias e culturas no Brasil. A mestiçagem passou a ser vista como um ele­mento de equilíbrio, e não mais de volubilidade, conforme se acreditava no século 19. As interpretações de um Gilberto Freyre ou de um Mário de Andrade, entre outros que contribuíram para moldar o ideal mestiço de brasilidade, encontraram eco perverso no projeto unificador do Estado Novo, interessado em afirmar a homogeneidade como instrumento de dominação.

Dessa conjunção entre o elogio da mestiçagem e uma política de apagar as diferenças, nasceu a morenice normativa que até hoje nos rege. O sofisma de que o moreno é a média e, portanto, deve ser o padrão. Muitos brasileiros acreditam no valor intrínseco da pele morena, um pensamento tão segrega­cionista quanto o da superioridade branca, pois continua a empurrar para as margens tudo que não se conforma a determinadas normas de aparência e de comportamento. Para as mulheres negras, em especial, o elogio da morenice tem operado como instrumento sutil de opressão, ao apontar a famigerada cor de jambocomo paradigma de beleza. Nem toda morena é boa, nem todo mulato é inzoneiro, nem todo branco é azedo. São poucos, na verdade, que se encaixam nessas categorias prontas. Mais uma vez, os dados não sustentam as percepções. Basta comparar os índices de autodeclaração de cor e etnia com os resultados de pesquisas genéticas. O brasileiro está longe de ser o que pensa. Muitos se descrevem como mais claros do que são, por perceberem isso como questão de ascensão social. Somente 8,6% da população brasileira se decla­ram de cor preta, e ainda abundam eufemismos e categorias raciais fantasiosas. O próprio IBGE reconhece a existência de gente amarela, embora o termo esteja longe de descrever a cor da pele de qualquer pessoa saudável.

É aborrecido quando os fatos contrariam nossos desejos e aspirações. Trata­-se do tal princípio de realidade, conforme foi batizado por Sigmund Freud. No âmbito psiquiátrico, quando o indivíduo insiste em negar o que apontam as evidências e empreende um esforço concertado para impor sua vontade ou sua fantasia, os médicos falam em surto psicótico. Se o comportamento descamba para a violência, contra os outros ou contra si próprio, pode resultar em interna­ção. Quando o mesmo acontece no plano social –—ou seja, quando uma sociedade teima em negar sua história e inventar outras mais aprazíveis –, o resultado, mais cedo ou mais tarde, costuma ser igualmente tenebroso. Freud dizia que o repri­mido sempre retorna e se manifesta. Se não for de modo consciente, pela refle­xão e pela elaboração discursiva, será pela neurose ou pela doença. A verdade precisa sair, e isso é válido tanto no plano individual quanto no coletivo. No caso da sociedade brasileira, a moléstia da intolerância vem sendo tratada há anos com um remédio bem antiquado: a sangria. Tudo que destoa da norma é isolado, suprimido e, se nada mais funcionar, morto e enterrado. Não é por menos que o Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas transexuais.

Assim, no lugar de reconhecer tragédias e vergonhas históricas e buscar a reparação dos erros do passado, a sociedade brasileira teima em afirmar seus mitos de fundação. A pichação do Monumento às Bandeiras em São Paulo, em 2013, por militantes do movimento indígena, foi capaz de suscitar maior indignação do que o fato de que, em pleno século 21, a matança de indígenas continua firme e forte. Quem acusa é a Organização das Nações Unidas, que condenou os ataques aos Guarani-Kaiowá em 2016 e pediu medidas urgen­tes. Medidas que não foram tomadas, por conta da espantosa capacidade que temos, como sociedade, de desviar o olhar da cara no espelho. O mundo inteiro sabe que o Brasil foi construído sobre o massacre dos povos amerín­dios e a escravização de povos africanos. Os jornais estrangeiros não cansam de noticiar que as terras dos primeiros continuam a ser espoliadas e que os des­cendentes dos segundos continuam a ser chacinados. Mas quem diz ou escreve isso no Brasil é logo tachado de radical ou esquerdista. “Uma grande nação não esconde sua história. Encara seus defeitos e os corrige.” Quem pronun­ciou essas frases foi o petralhado George W. Bush, em 2016, na inauguração do Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, em Washington. Pior do que ele, só aquele esquerdopatado Jacques Chirac, ex-presidente da França. Em cerimônia marcando o aniversário da detenção em massa de judeus no Vélodrome d’Hiver de Paris, durante a Segunda Guerra, ele disse: “Não ocul­tar nada das horas sombrias da nossa história é defender simplesmente uma ideia do Homem, de sua liberdade e sua dignidade. É lutar contra as forças da escuridão, sempre operosas.”

A manifestação de maio de 2017 contra a Lei de Migração é a mais recente encarnação da insistência brasileira em negar as evidências. Muitos dos que estavam ali, clamando contra a imigração, são descendentes diretos de imi­grantes. A obviedade do fato não o torna menos grotesco. Eram poucos os manifestantes, menos de 100 pessoas. Para alguns, isso esvazia o assunto de qualquer relevância. Há quem dirá que é melhor não dar corda para essa gente. Mas não custa lembrar que a Ação Integralista Brasileira cresceu do quase nada, em 1932, para mais de um milhão de filiados menos de cinco anos depois. Dadas as condições climáticas certas, as sementes do ódio e da intolerância brotam com extraordinária rapidez. Por causa da minha história familiar, não posso contemporizar as falas emitidas pelos extremistas da avenida Paulista. Essas pessoas são fascistas, no sentido mais preciso do termo: gente que quer aniquilar tudo que é diferente de si. Por poucos que sejam, já agem como uma massa ignara e são incensados pelo que há de pior em qualquer sociedade –ambiciosos, corruptos, perversos, usam a ignorância alheia para avançar seus interesses. Suas pregações de ódio devem ser combatidas por quem ainda tem esperança de construir um país melhor. É crime no Brasil incitar a discrimi­nação por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Não é radicalismo defender que a lei seja aplicada.

A questão maior que enfrentamos é a de como corrigir os rumos, daqui para a frente. São tantos assuntos em pauta, tantos tabus reprimidos, que fica difícil saber por onde começar. Meu propósito é chamar a atenção para um tema que costuma ficar esquecido entre os demais, mas que é vital para a imagem que a cultura brasileira faz de si. Somos ou não somos uma nação de abrigo? Um re­fúgio nos trópicos, conforme o bonito título da exposição e do livro coordena­dos por Maria Luiza Tucci Carneiro, há duas décadas, sobre os refugiados da Segunda Guerra Mundial. Qual o papel do Brasil em um mundo no qual os destinos dos países se encontram cada vez mais entrelaçados? Iremos perpe­tuar nossa história de recebimento a contragosto e assimilação na marra? Ou adotaremos um projeto consciente de abertura e acolhida, condizente com os princípios que gostamos de professar? Afinal, hospitalidade, cordialidade e ge­nerosidade são valores importantes na cultura brasileira, que todos deveriam prezar, independentemente de posicionamento político.

Essas perguntas se tornam especialmente urgentes no momento em que o número de refugiados no mundo atingiu, pela primeira vez, níveis compatíveis com os da Segunda Guerra Mundial. Em 2015, segundo o Alto-Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, 65 milhões de pessoas – quase uma em cada 100 da população mundial –—encontravam-se deslocadas de seus lares por vio­lência ou perseguição. É o equivalente à população da França. Gente de todos os tipos. Médicos e professores, comerciantes e cozinheiros, artistas e estudan­tes. Gente como eu e você. Desse contingente imenso de deslocados, cerca de 40 milhões continuam em seus países de origem. Dos 20 e tantos milhões que buscam asilo no estrangeiro, mais da metade encontra-se em países vizinhos aos conflitos, como Turquia, Paquistão, Líbano, Jordânia, Etiópia. O restante, uns 10 milhões de desgraçados, lança-se aos mares em barcos superlotados e cami­nha milhares de quilômetros para chegar a lugar nenhum. Soprados pelo vento do acaso, vão parar até em países dos quais nunca haviam ouvido falar e onde, ainda por cima, correm o risco de serem xingados de terroristas.

A crise humanitária decorrente da guerra na Síria obrigou os governos nacionais a se posicionarem. Uns, vergonhosamente, como a Hungria, que pas­sou a ameaçar e perseguir quem queira tão somente atravessar seu território. Outros, histericamente, como os Estados Unidos, o antigo país dos imigrantes, que agora sonha em construir muros. Outros, com inesperada coragem, como a Alemanha, que recebeu e processou quase um milhão de pedidos de asilo entre 2015 e 2016. O número pode parecer grande, mas é pequeno em relação à população e à riqueza do país. Mesmo no auge da crise, a proporção de refu­giados na Alemanha ficava em pouco mais de três pessoas para cada mil habi­tantes; e, de 2016 para cá, o número de pedidos caiu. Os alemães provaram que eram mesmo capazes de assumir esse compromisso humanitário, conforme a previsão da chanceler Angela Merkel, que entrou para o folclore político com a frase wir schaffen das(nós damos conta). Ninguém que entende de relações internacionais duvida que a Alemanha tenha saído fortalecida do episódio. E quem conhece a Alemanha sabe que essa coragem tem origem no profundo exame de consciência feito no país ao longo dos últimos 50 anos.

E o Brasil? Segundo dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), o país acolhe hoje cerca de nove mil refugiados. Em relação a uma população que passa dos 200 milhões, é um número irrisório. Para efeitos de compara­ção, os Estados Unidos abrigam mais de 250 mil pessoas, e o Canadá, cerca de 150 mil. Mesmo essa participação ínfima vem sendo minorada. O governo atual endureceu a concessão de vistos, resultando em queda de 28% no deferi­mento de solicitações de refúgio em 2016, embora o número de pedidos tenha aumentado. Muitos apoiam essa atitude. Há quem argumente, inclusive, que é melhor deixar o assunto para os países ricos, que podem arcar com os custos. Apesar da crise quase eterna em que vive, o Brasil não é exatamente um país pobre. A dotação do Conare é uma gota no orçamento da União, e cada pessoa ajudada custa pouco aos cofres públicos em comparação com o que poderá vir a contribuir ao longo de uma vida útil. O refugiado quase sempre anseia por uma oportunidade para trabalhar e começar de novo. Para se legalizar, se esta­bilizar, se integrar à sociedade que o acolhe. Falta, na maioria das vezes, uma política pública que facilite isso. Mesmo sem apoio, muitos teimam em conse­guir. Os filhos e netos de refugiados, como eu, são a prova de que isso é possível.

Em meio a tudo que hoje divide os brasileiros, o auxílio solidário aos que precisam de refúgio é um ideal político capaz de unir (quase) todos nós. Não é pouca coisa. A unidade de propósitos virou mercadoria escassa nesse momento em que temos carecido de motivos para nos orgulhar do país. Nesse sentido, a crise dos refugiados não deixa de ser uma oportunidade de provar, aos nossos próprios olhos, que ainda temos um destino a cumprir como nação. O Brasil para os brasileiros, sim… os antigos, os novos e os que ainda estão por vir.

 

Rafael Cardoso (1964) é escritor e historiador da arte. É autor de ensaios como Design para um mundo complexo (Ubu, 2016) e A arte brasileira em 25 quadros(Record, 2008). Dentre seus títulos de ficção, destacam-se O remanescente (Companhia das Letras, 2016) e Entre as mulheres (Record, 2007).

Integrante da chamada Geração 80, Luiz Zerbini (1959) faz em A primeira missa uma releitura de A primeira missa no Brasil, pintada em 1860 por Victor Meirelles. A tela foi realizada especialmente para a exposição Histórias Mestiças, montada em 2014 com curadoria de Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz.

 

 

 

 

 

 

 

 

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