Dizem que sou a mulher mais odiada da internet no Brasil. Não acredito muito, porque isso seria me dar importância demais. Em março deste ano, quando fui ministrar uma palestra na Universidade de Brasília e destacaram 30 seguranças para me proteger (comboio de três carros para me levar de um campus ao outro, rota de fuga, policiais à paisana), um deles me disse que haviam dispensado o mesmo esquema ao Lula e ao dalai-lama quando eles visitaram a UnB. Respondi que nesses casos eu entendia o motivo de tal aparato, mas para mim, que sou apenas uma blogueira e professora universitária? Não faz nenhum sentido. Mas tampouco o ódio faz sentido.

Recentemente uma repórter de uma emissora de TV veio em casa me entrevistar sem saber nada a meu respeito, e sua primeira pergunta foi: “O que você fez para ser tão odiada?”. Eu disse que não gostei muito da pergunta, porque me põe como responsável pelos insultos, ataques e ameaças que recebo quase diariamente. Não tenho haters na “vida real”. Na internet, porém, eles abundam, ainda que eu não seja nenhuma celebridade.

Assim que comecei o Escreva Lola Escreva, em janeiro de 2008 – em pouco tempo ele se tornou o maior blog feminista do Brasil –, os trolls apareceram. Não creio que no início fossem haters. Qual a diferença? Um hater é alguém que odeia você, desvaloriza você, nega suas conquistas e torce pelo seu fracasso. Elise Moreau diz que a própria palavra é um acrônimo, que significa “having anger toward everyone reaching success”, ou “sentir raiva de todo mundo que tem sucesso”.1 Já o troll quer a destruição total e geral, ver o circo pegar fogo, gerar lulz (risadas), “causar”. O troll é aquele que deixa um comentário asqueroso e fica espiando o estrago. Ele não necessariamente odeia você. E um hater nem sempre quer escândalo. Mas, muitas vezes, os termos para essas pragas on-line são usados sem tanta distinção. Confesso que não penso se quem está me atacando é troll ou hater. Às vezes os descrevo como “meus inimiguinhos”. Mas até isso eles me negam. Dizem: “Inimigos? Quem você pensa que é? Uma super-heroína?”. Não, mas não posso chamar de inimigo alguém que me desafia a mostrar ao meu marido um comentário tentando convencê-lo a me matar?

Meus trolls e haters sempre tiveram o mesmo perfil: são homens brancos e heterossexuais (embora eu tenha alguns haters gays também) de extrema direita que não são apenas misóginos, mas também racistas, lgbtfóbicos, gordofóbicos, enfim, um combo de preconceito. Imagino que não sejam diferentes dos trolls que infestam os canais de outras ativistas. No início do meu blog eles não eram muitos. Tanto que minha caixa de comentários conseguiu aguentar mais de quatro anos sem moderação. Mas com o tempo eles foram se tornando cada vez mais numerosos e insuportáveis.

O que fiz – se é que fiz alguma coisa, como quis saber a repórter – foi descobrir ainda em 2008 um nível de misoginia que eu desconhecia fora da internet. Sem querer, descobri que nos Estados Unidos existem grupos de homens autointitulados Men’s Rights Activists [Ativistas pelos direitos dos homens], ou MRAS, que acreditam que vivemos em um matriarcado e que a verdadeira vítima do mundo moderno é o homem branco e hétero. Não é preciso gastar mais do que cinco minutos em qualquer fórum deles para constatar que não lutam por direito algum, a não ser o direito de atacar, oprimir e tentar silenciar mulheres em geral e feministas em particular. No Brasil – só descobri dois anos depois – eles se chamavam masculinistas.

Meu primeiro contato indireto com masculinistas foi em outubro de 2008, quando uma comunidade no Orkut intitulada Suprema Ordem dos Homens de Bem chamou atenção ao comemorar o assassinato de Eloá, uma menina de 15 anos morta pelo ex-namorado depois de 100 horas de cárcere privado transmitido ao vivo de São Paulo para todo o país. Eu não podia acreditar que havia rapazes saudando o assassino como herói por ele ter eliminado uma “vadia mirim”.

Apenas no início de 2011 escrevi o primeiro post sobre masculinistas, descrevendo sua ideologia: acreditar que todas as mulheres lhes devem vagas de emprego, lugar nas universidades e sexo. Esse post gerou tantos comentários absurdos que selecionei as pérolas para fazer um segundo post. Foi a primeira vez que usei o termo “mascu”, que, a meu ver, é somente uma abreviação de masculinista. Mas o termo pegou e praticamente acabou com o masculinismo no Brasil (pelo menos no nome), já que nenhum deles queria ser tachado de mascu.

Meu bom humor durou pouco. Em 7 de abril de 2011, um rapaz problemático de 23 anos, Wellington Menezes, entrou na escola estadual no Rio onde havia estudado anos antes e matou dez meninas e dois meninos, todos alunos, no que ficou conhecido como o massacre de Realengo. Pelo vocabulário que usava e pelo fato de ter atirado nas meninas para matar e nos meninos para ferir, Wellington era um mascu. No dia seguinte ao da chacina, vários blogs e fóruns mascus foram tirados do ar, por medo da polícia. O mais popular era o de Silvio Koerich (um pseudônimo). Um semestre depois, esse blog foi reaberto com conteúdo ainda mais extremista, pregando a legalização do estupro e da pedofilia, o estupro corretivo para lésbicas e o assassinato de negros e mulheres. Ele também prometia um massacre na UnB e oferecia recompensas a quem liquidasse seus alvos preferidos: o então deputado federal Jean Wyllys e eu.

Finalmente, depois de oito meses e 70 mil denúncias na SaferNet (ONG que lida com ódio cibernético), os dois principais autores do blog, Marcelo Valle Silveira Mello e Emerson Eduardo Rodrigues, foram presos pela Operação Intolerância e condenados a mais de seis anos de cadeia. Mas eles saíram um ano e três meses depois, em maio de 2013, e voltaram a fazer exatamente o que faziam antes, especialmente Marcelo. Ele estava tão revoltado que conseguiu a façanha de ser expulso de chans (fóruns anônimos tão misóginos que tratam mulheres por “depósitos de porra”) e fundou um fórum próprio, o Dogolachan. Como eu, que não sou frequentadora de chans, fiquei sabendo? Porque Marcelo fez questão de me enviar o link. Assim eu poderia acompanhar as ameaças de morte e estupro que me eram dirigidas diariamente. Registrei 11 boletins de ocorrência.

O que queria Marcelo, meu hater número um? Queria vingança, pois me via como a principal responsável pela sua prisão. Queria incomodar, por isso me processou duas vezes (depois abandonou as ações) e mandava sua gangue ligar para a minha casa. Queria me calar, queria que eu tivesse medo. Queria que eu desenvolvesse alguma doença e morresse. Queria matar meu marido para que eu me sentisse culpada. Queria que meu marido me deixasse. Quando, em outubro de 2015, Marcelo criou um site falso em meu nome, defendendo castração, infanticídio e aborto de meninos, seu objetivo confesso era de que eu fosse linchada na rua. Queria me matar. Negociou com um ex-policial em Curitiba a minha morte (fazendo parecer um latrocínio) por 80 mil reais. Queria que eu perdesse meu emprego de professora, por isso mandou que um dos membros da quadrilha enviasse ao reitor da UFC uma ameaça no final de 2016 – ou ele me exonerava, ou passaria uma semana recolhendo pedaços de 300 cadáveres resultantes de um atentado com bomba.

Depois de cinco anos de ódio ininterrupto, Marcelo foi preso novamente, em maio de 2018, pela Operação Bravata. Em dezembro, foi condenado a 41 anos de prisão. No entanto, o Dogolachan segue funcionando, agora na deep web (o massacre de Suzano, em 13 de março de 2019, foi anunciado e muito comemorado lá), e as ameaças nunca pararam de chegar. Esta é de 30 de julho de 2019, deixada no meu blog: “Só um recadinho: sua cabeça já foi leiloada. E o hitman que vai ter a oportunidade de arrancar sua cabeça já está pago. Não é promessa, é aviso.”

O que quer um hater desses? Me amedrontar. Ele já devia ter entendido, depois de oito anos de ameaças, que isso não funciona comigo. Talvez este gigantesco comentário anônimo deixado no meu blog no fim de junho ilustre o que se passa na mente de um hater:

Lola, você destruiu minha vida. E obrigado por isso. Conheci seu blog em meados de 2011. Eu tinha um emprego que me dava uma boa grana, uma linda namorada e estava começando o curso de direito. Foi um pouco depois do meu aniversário que me foi apresentado seu blog, me lembro que foi no Orkut. A minha primeira reação pro primeiro post seu que li: QUE MERDA ESSA GORDA PUTA ESTÁ DIZENDO? Não me lembro qual foi o post, mas dizia algumas asneiras das quais tenho nojo de lembrar. Eu fechei o navegador na hora. Fiquei um ano ou menos sem ter notícias suas. Então no início de 2012 eu me deparo com um tópico onde usuários de um fórum anônimo te xingavam de “porca” e “jabba”. Procuro pelo nome do blog que estava no tópico e, pra minha infelicidade, era a mesma bosta que eu tinha me deparado alguns meses antes. Decidi ler mais textos seus, e o meu ódio e nojo foi florescendo. Não dava mais pra parar, Lola: nesse ponto da minha vida, você já era a pessoa que eu mais odiava. E lá se foram três anos entrando todos os dias em seu maldito blog e me espantando todas as vezes. Eu já odiava feministas e esquerdistas antes de conhecer seu blog, mas a coisa aumentou em mais de 2000 FUCKING VEZES depois de ter te conhecido. Foram muitas ofensas à sua pessoa, eu debatia em fóruns (e também em comunidades do finado Orkut) e via o quanto de gente te odiava também. Mas comigo era diferente, pois eu AMAVA te odiar. Eu sentia prazer em te odiar, te xingar e imaginar a sua reação ao ler minha mensagem. Desenvolvi uma tara por isso. Cá estamos, Lola. Em 2019. Eu já conheço seu Twitter e agora seu canal [no YouTube]. Agora também gosto de imaginar o Silvinho [meu marido] sofrendo, e sua mãe também. E suas seguidoras. Você destruiu minha vida, Lola, me transformou em alguém que eu jamais imaginaria ser oito anos atrás. Meu emprego? Fui demitido, e agora estou recebendo 5x menos do que antes. Tranquei a faculdade por não aguentar conviver mais com lacradoras e feministas. Eu sempre via suas seguidoras nos colegas de classe. Minha namorada? A vadia se mostrou petralha, e mais tarde feminazi. Suspeito que ela tinha contato com tanto lixo através de seu blog. Terminei na hora, claro, afinal não achei meu pau no lixo. Lola, você é responsável por isso. Mas quer saber? Eu realmente me sinto melhor agora, eu me sinto mais disposto do que nunca. Descobri um novo hobbie [sic]: te fazer sofrer. Seu sofrimento me motiva e eu sinceramente não gostaria de ser “curado” desses meus sentimentos. Eu não sou exatamente quem eu era, eu me redescobri, graças a você, Lola, graças ao ódio que eu sinto por você. Seu ódio me libertou, Lola, e eu te agradeço por isso. Eu te odeio, Lola, e eu amo te odiar.

Nenhum fã meu será tão fiel quanto esse hater. Ele vive para mim. Num mundo em que reina a modernidade líquida,2 em que as relações passam a ser tão pouco duradouras, um hater é quase garantia de um longo relacionamento. O comentário desse hater fala muito pouco sobre mim – em momento algum ele descreve o que escrevi que o deixou tão indignado –, mas fala tudo sobre ele. Ele ama me ver sofrer. No entanto, para isso ele precisa acreditar com todas as forças que eu sofro, que suas palavras me causam algum tipo de sofrimento. Essa é uma fantasia constante dos haters. Acham que, depois de ler suas ofensas e ameaças, irei me retirar para “chorar em posição fetal”. Um hater, não sei se o mesmo do comentário gigante, já que são quase todos anônimos, reclamou que, em entrevistas, sempre digo que o ódio não me afeta. Durmo bem à noite, obrigada, e só chorei uma vez com algo relacionado à internet nesses quase 12 anos de blog: quando o site de ódio que Marcelo fez em meu nome viralizou. Minha tristeza foi pelo fato de que, apesar de dedicar tanto tempo ao meu blog, em uma semana um blog horrível conseguiu ter mais tráfego que o meu. Claro que, para viralizar, o site falso precisou da ajudinha de reaças mais importantes, como Olavo de Carvalho e Roger, da banda Ultraje a Rigor. Eles divulgaram o site falso em meu nome sabendo que não era meu.

Para o hater eu estou mentindo, e é óbvio que um ser abjeto que eu nunca vi, com quem nunca falei nem quero falar destruiu a minha vida. Esse é um dos motivos pelos quais nunca processei ninguém. Eu poderia ter processado Roger, por exemplo. Ele é um dos meus haters e já me atacou diversas vezes. Porém, para pedir indenização por danos morais você precisa provar que aquele ódio o afetou. Algo como você ter desenvolvido depressão ou insônia, com um laudo médico para comprovar. No meu caso, o que eu alegaria? Que Roger ter divulgado um site de ódio em meu nome me fez chorar por alguns minutos? A repercussão desse episódio rendeu um Profissão Repórter sobre mim, inúmeras entrevistas, uma indicação ao prêmio Coragem, dos Repórteres sem Fronteiras, e, mais importante, a criação e eventual aprovação da lei n. 13.642/18, a Lei Lola, que atribui à Polícia Federal a responsabilidade de investigar crimes contra as mulheres na internet. Pela primeira vez, a legislação brasileira tem uma lei que conta com o termo “misoginia”.

O ódio não me afeta porque, por um lado, não é tão pessoal. Os haters não me odeiam por eu ser a Lola. Eles mal me conhecem. Eles me odeiam por eu ser feminista. Alguns por eu ser mulher. Outros por eu ser gorda. Muitos por eu ser de esquerda. Para alguns haters, a coisa fica mais pessoal. Eles já me odiavam por eu ser feminista, e eles já têm tudo decifrado na cabeça sobre o que é ser feminista. São mulheres que querem ser homens. Que têm inveja dos homens. Que odeiam todos os homens (ninguém disse que não seria contraditório). Que matam seus filhos, se divorciam dos maridos e viram lésbicas. Que são bruxas. Que sempre foram lésbicas. Que são mal-amadas. Que são ogras peludas. Não espere grande originalidade daqueles que odeiam mulheres que lutam – seus antepassados falavam exatamente a mesma coisa sobre as sufragistas.

Ou seja, os haters querem um viés de confirmação – buscam informação, mesmo falsa, que valide aquilo em que eles já acreditam. E comigo eles não encontram, já que não odeio nem tenho inveja dos homens. Sou casada com um há 29 anos e tenho muitos amigos e leitores homens. Esse é outro problema para os haters. Para eles, uma mulher gorda não merece ser amada ou desejada (nem sequer estuprada). Então é seguro dizer que eles têm uma enorme obsessão pelo meu marido. Durante anos, juravam que ele não existia (as fotos com ele que eu colocava no meu blog seriam montagem, ou ele seria um ator contratado). Quando se convenceram de que ele é real, passaram a ameaçá-lo de morte. Preferia quando achavam que ele não existia.

Sigo com minha vida. No fundo, sei que muitos haters fantasiam algum tipo de relacionamento comigo, e se eu lhes desse alguma migalha de atenção talvez eles virassem meus fãs. Mas não quero falar com eles. Nem vou me rebaixar ao nível deles e passar a odiá-los. Porque, ao contrário do que muita gente pensa, o oposto de ódio não é amor – é indiferença. E isso eu tenho de sobra para lhes dar.