PRÓLOGO
É Natal de 1985. […]
Este ano talvez tenha sido o mais difícil e ao mesmo tempo o mais importante de todos os 30 outros que vivi. […]
Eu me dei de presente a minha vida. Eu me dei de presente a minha importância. […]
Talvez eu não me sinta assim no próximo Natal, talvez eu nem esteja viva no próximo Natal, mas estes 365 dias que estão terminando foram muito bons. […]
Sinto-me leve, segura e eu sei que nem todos que me rodeiam gostam desta nova pessoa, que não é tão nova assim, estava apenas adormecida.
Valeu a pena viver em 1985. Valeu a pena tudo o que me aconteceu em 1985.
Obrigada, Senhor, pela minha vida, pelos altos e baixos, pelo amor, pela saúde, pelo alimento, pela vida.
Esse foi o último texto escrito no diário de Isilda Sueli Dias Silvério. Em 12 de abril de 1986, 108 dias depois, a foto dela estava publicada na última página do Caderno B do Diário do Grande ABC. Do lado esquerdo, uma foto do seu marido, Valdir Aparecido Silvério; do direito, o revólver usado para assassiná-la enquanto dormia, e para cometer suicídio em seguida.
“O advogado deixou uma carta explicando as razões de seu ato. O irmão de Valdir disse na polícia que ele havia lhe telefonado horas antes, dizendo que surpreendera a mulher com outro homem”, diz a reportagem já no primeiro parágrafo.
Ninguém da família dela foi ouvido, e essa foi a versão que ficou: a do algoz. O que a reportagem não mostrou é que Valdir era ciumento e controlador, e questionava o amor e a fidelidade dela antes mesmo do casamento.
No final do texto, há a informação de que a polícia apreendeu os diários de Valdir, escritos desde o início da década de 1980. Mas Isilda também manteve diários, até hoje guardados pelo filho mais novo do casal.
Esta não é uma história imparcial: é a história de uma mulher morta aos 31 anos por alguém que ela amava, alguém em quem ela confiava. Vítima de feminicídio quando o termo nem sequer existia.
Esta história é baseada exclusivamente no que ela escrevia em seus diários. Os dois filhos dela, que em abril de 1986 se tornaram meus irmãos, me emprestaram os cadernos, e assim pude conhecê-la melhor, entender como ela era e como via o casamento que a matou.
Em abril de 2026, a morte dela completa 40 anos. Nessas décadas, seus filhos cresceram e se tornaram pais. Minha avó faleceu em 2013, e minha outra tia partiu em abril de 2025, também cedo, mas ela pôde, ao menos, ver as filhas crescerem.
Esta é a história da tia Isilda. Para que ela nunca seja esquecida.
1
29 de junho de 1973: Uma garota (eu), sem objetivos para viver, estava trabalhando, quando em seu local de trabalho entrou um rapaz […], não gostei da pasta que carregava, não gostei da roupa que vestia, não gostei do modo de pentear o cabelo, não gostei de vê-lo com os fios da barba aparecendo; mas gostei de seus olhos, seu jeito de falar e reparei até numa pintinha que ele traz na face esquerda. […]
E, naquele aperto de mão, que foi correspondido, naquele olhar, senti que, provavelmente, algo mudaria em minha vida.
Isilda foi a primeira de três filhos de Benedita de Andrade Dias e Martin Dias. Era irmã de Marco Antonio (meu pai) e Deise. A minha avó Beni sempre trabalhou fora, o que não era muito comum na década de 1950. Conheceu meu avô em um trem entre Santo André e São Paulo. Eles sempre foram apaixonados, mas as brigas eram constantes.
O namoro entre Isilda e Valdir começou rápido e foi uma revolução na vida da minha tia. Sempre estudiosa e concentrada no trabalho, ela aprendeu a abrir espaço para o namorado. Para ela, o relacionamento com Valdir era bom porque percebia que “alguém sentia necessidade dela”: “Eu precisava superar uma série de coisas e, [por] ele se interessar por mim, eu sentia que muito em breve eu superaria”.
Isilda depositou sua fé no amor e no futuro nas mãos de Valdir. E a certeza de que estava no caminho certo em novembro de 1973, com a perda do pai.
Novembro de 1973 foi muito marcante em minha vida. Perdi meu pai, um homem maravilhoso. […]
A impressão que ele teve a respeito do Valdir foi das melhores possíveis. Um domingo, quando fomos visitá-lo no hospital, ele praticamente entregou a minha vida nas mãos dele (Val). Disse-lhe que eu merecia ser feliz e que o Val seria responsável por ela. Uma das grandes provas do que Val sentia por mim foi dada quando do falecimento de papai. Quando eu telefonei para ele, avisando-o, ele simplesmente largou tudo o que estava fazendo e veio ao meu encontro. […]
Sempre que eu entrava em depressão, ele me lembrava de que papai confiava muito em mim e eu não podia e não devia desapontá-lo.
Sem o pai, Isilda direcionou todo o seu afeto e suas tentativas de aceitação para Valdir. Ela se mostrava insegura em relação ao amor dele – o irmão de Isilda, Marco, lembra que a irmã sempre se achou feia e tinha baixa autoestima. Ela não acreditava que alguém poderia se apaixonar, querer casar e formar uma família com ela.
No Carnaval de 1974, Isilda e Valdir, acompanhados pela mãe dela, foram a Mongaguá, no litoral de São Paulo. Em uma noite de calor, o casal foi passear na praia.
Nosso relacionamento já estava bastante íntimo. Ele dizia que eu era egoísta. Ainda não tínhamos chegado ao relacionamento total […], mas algo dentro de mim falou mais alto, e eu não cedi.
Em março de 1974, Isilda e a família se mudaram para uma nova casa – onde o que era inevitável aconteceu.
Eu me entreguei a ele. Embora não acreditasse muito no amor dele por mim, […] acreditava no meu por ele e sempre fui da opinião de que, quando a gente ama, tem que deixar a razão um pouco de lado e agir mais com o coração. […] Não me importava saber se ele se casaria ou não comigo, me importava […] que ele era a coisa mais maravilhosa que já acontecera em minha vida.
O próprio Valdir confidenciou que já havia tido relações com uma ex-namorada; Isilda ficou incomodada e com ciúmes, mas jamais questionou o caráter do parceiro por isso.
Ela sabia do risco de engravidar, mas estava tão apaixonada e envolvida que aceitou o perigo: “Eu sabia do risco que corria: alguém nos flagrar, uma gravidez inesperada, mas não me importava”.
Assim, Isilda entregou aos braços da minha avó Beni o seu primeiro neto, Daniel, em setembro de 1975. Ainda em 1974, ao completar 20 anos, ela havia começado a falar sobre um possível casamento com Valdir.
Já disse que eu não exigia nada dele. Creio que nunca o forcei a tomar nenhuma decisão. Mas, intimamente, eu sempre desejei o casamento com ele. Não precisava ser de papel passado, juiz de paz, testemunha etc. Precisava ser ele. Eu precisava que ele estivesse comigo para o resto da vida.
Além disso, a convivência familiar só piorava, o que tornou inevitável a saída de Isilda da casa da mãe e dos irmãos. O casal iniciou os planos de casamento, marcado para março de 1975. Nesse clima familiar desgastante, o matrimônio foi organizado, e Daniel, concebido.
Não tínhamos certeza, ainda, mas eu estava grávida. […] A mim, não importava o que dissessem […] e agora eu tinha um motivo a mais para amá-lo: estava espe-rando um filho dele.
O casamento aconteceu na casa de Isilda, que não se vestiu de noiva. No mesmo dia, ela e Valdir haviam ido juntos ao centro de São Paulo para comprar as alianças e as passagens de ônibus para a lua de mel. No Rio, “é claro!”. Além de todo o carinho e amor com que se refere ao bebê antes do nascimento, que aconteceria em setembro, minha tia também tem certeza sobre sua importância: “Vai nos ajudar muito”.
Sempre que houver alguma coisa ameaçando o nosso casamento, lembrar-nos-emos de que ele existe porque nós, quando o fizemos, tínhamos muito amor no coração. […] Sei que a gente não deve dizer que algo será para sempre; mas, eu digo. eu sei que vou amar esse cara, meu marido, sempre.
Em certo momento, minha tia desabafa:
Ele [Daniel] se parece muito com o pai, essa é a principal prova que consegui dar a ele de que a criança é filha dele. De que eu sou, fui e serei só dele. Ele não acredita, mas eu não imagino qual seja o tipo de prova que ele quer que eu dê. Acho que eu já lhe dei todas as provas que uma mulher pode dar.
No final de 1975, Valdir já sentia ciúmes de Isilda, que fazia promessas de amor, carinho e apoio eternos a Daniel.
Não tema, filhinho, nada nem ninguém vai tirar você de nós.
2
Em 1977, o divórcio passou a ser autorizado no Brasil, mas isso não era uma questão para Isilda, que constantemente se compadecia da situação do mundo, das guerras e da miséria. Ela conta que Daniel está crescendo, enquanto aumentam as exaltações ao seu casamento.
Nosso relacionamento é quase perfeito. Existem algumas falhas de ambas as partes, mas aos poucos vamos sabendo superar. […]
Acredito sinceramente, que emocionalmente, estou atravessando uma de minhas melhores fases. Sinto-me muito bem. Sinto-me realizada.
Isilda volta a trabalhar pouco tempo depois do nascimento de Daniel – a duração da licença-maternidade era de apenas três meses. Quando ele completa um ano, sua mãe pede-lhe desculpas pelo tempo que ela passa fora de casa, trabalhando, “mas é muito importante que assim seja”.
A partir do momento em que relembra os cinco anos do dia em que ela e Valdir se conheceram, o diário de Isilda se torna um relato da montanha-russa em que se transforma seu casamento. A mudança para a nova casa, própria, realizada em novembro de 1978, é motivo de alegria. Ela imagina a propriedade como uma fortaleza.
Em breve estaremos cercados por uma muralha […] e conseguiremos finalmente ser nós mesmos.
Em 1978, meus pais já eram casados. Metalúrgico, ele foi transferido de São Bernardo do Campo para Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, onde vivia minha mãe, então recepcionista e depois auxiliar de enfermagem. Após o casamento, eles foram para Santo André, onde moraram até o início de 1981, quando eu estava prestes a nascer. No final de 1979, meus pais adotaram o meu irmão Samuel, recém-nascido.
Nos momentos de paz com o marido, Isilda constantemente mostrava preocupação com o mundo em que Daniel crescia, pensando, inclusive, se valeria a pena ter mais um filho em um mundo tão cruel.
Não sei se terei coragem de ter outro filho. Porque, embora fruto do mesmo amor, tenho muito medo do mundo […] que está reservado para o nosso Danny. E isto é terrível. […]
Hoje ele [Daniel] me pediu uma irmãzinha, eu disse que ia pensar. […] Agora, cá entre nós, eu continuo tendo medo de pôr outro filho neste mundo, que está a cada dia mais feio e cruel.
Após essa fase, em que tudo parece estar bem, Isilda começa a se sentir culpada. Ela mesmo se define como “várias”: esposa, mãe, profissional, filha, dona de casa; e parece estar sendo cobrada a executar tudo com perfeição.
No início de 1979, ao completar quatro anos de casamento, minha tia repete algumas coisas ao homem que ela ama.
Você continua sendo o acontecimento mais importante em minha vida. Apesar das queixas que você sabe que tenho de você, do seu jeito de ser, não consigo deixar de amar você, nem por um instante sequer. […]
Creio que nós estamos precisando conversar. Não pense que estou me queixando. Mas acontece que ultimamente nós não temos conversado tanto quanto antes. E isso me faz muita falta.
Quando me falava sobre a tia Isilda, minha avó Beni costumava mencionar que ela gostava de organização, beirava o perfeccionismo. Nessa época, ela celebra que, em seu trabalho, tudo parece estar em ordem, mas o mesmo não acontece em casa. “Na minha casa está sendo um pouco difícil, porque não tenho contado com a sua colaboração. E você sabe ao que me refiro”, ela diz, citando problemas relacionados a roupas jogadas pela casa. Tristemente, reconhece que se trata de uma batalha perdida e cita o argumento do marido de que é cansativo demais trabalhar e estudar ao mesmo tempo.
Mas e você, reconhece que eu me canso? Veja bem, eu não estudo, mas, além de trabalhar fora, o que eu trabalho na nossa casa, principalmente nos finais de semana, não é normal. Bem, deixa isso pra lá, senão você vai dizer que eu quero uma empregada. Não, agora não.
No final da década de 1970, Isilda já sabia que sua dupla jornada de trabalho era injusta, mas não motivo de discussão: a responsabilidade pela ordem da casa e pelos filhos é da mãe. E isso nem faz tanto tempo assim.
Na primeira infância de Daniel, fica claro que Isilda não está mais segura de que o casamento com Valdir é perfeito e de que será eterno. Os primeiros anos de convivência já se foram, mas o que Isilda ama é aquela máscara de Valdir. Ela não entende que o homem encantador, que a fez se sentir tão amada, desejada e apoiada, não exista mais. Porque ele volta, sempre, mas quando lhe convém.
Além do cansaço pelas múltiplas funções, ela também demonstrava muita culpa por não ficar com o filho pelo tempo que gostaria – Valdir entendia cada vez mais isso e usava esse sentimento a seu favor. Constantemente, ele saía de casa para jogar com os amigos ou irmãos. Mas Isilda desconfiava.
Ela sempre acreditou que o amor lhe daria felicidade. Mas aos poucos palavras como “tristeza” e agora “sofrido” mostram o que ela já havia entendido: o amor pode machucar, inclusive o que sentia por Daniel.
Sabe, é muito complicado ser mãe. […] A gente sempre acha que está fazendo o melhor possível, mas de repente parece que está tudo errado. Tenho a impressão de que pedir desculpas não adianta. A minha vida não é fácil. Sei que você não tem culpa disso. Aliás, você não tem qualquer culpa.
Em um texto de novembro de 1979, Isilda escreve uma espécie de carta para Daniel, em que afirma que o ama mais do que a si mesma: “Quero lhe pedir desculpas. Pelas minhas broncas, pelos meus gritos, pela minha ausência […], se há uma coisa neste mundo de que não me arrependo é de ter trazido você para junto de nós. Só lamento não poder tirar esse problema de saúde de você.” Em setembro de 1981, quando Daniel completa seis anos, Isilda lhe escreve uma nova carta em seu diário. A amarga diferença dessa vez é que a minha tia decide escrever uma segunda carta, mas como se o autor fosse o pai dele, Valdir. Foi uma dolorosa tentativa de explicar a si mesma que a atitude agressiva do marido era uma prova de amor àquela criança. Mas sei que ela entendia que isso era errado, e que o mundo perfeito que ela esperava na nova casa não tinha nada de incrível assim. E ela sabia o porquê.
Hoje, quando você já está com seis anos, eu criei coragem para lhe pedir perdão. Eu não costumo pedir perdão. Mas a você eu peço.
Pelos meus momentos de nervosismo com você. Por descarregar os meus problemas em você. Por não dar a você, ou não demonstrar, todo o amor que tenho por você. Quero que você saiba que eu sofro muito depois de cada tapa que dou em você.
Sabe, eu sofro porque é como se eu tivesse batido em um pedaço de mim mesmo. […]
Vou fazer o possível para demonstrar que eu amo você.
Entre o Natal de 1979 e o Réveillon, Isilda viaja com Daniel e a mãe para o Rio de Janeiro, e Valdir fica em casa. Ela pede que o marido entenda o motivo da viagem: ela precisa descansar: “Não de você, da vida que tenho levado, que não é fácil, nada fácil”.
Era evidente que minha tia estava cansada de Valdir, apesar de afirmar que queria voltar para casa antes do previsto. E foi esse cansaço que a fez escrever um triste desabafo, que poderia ter sido escrito por ancestrais, por amigas. Por mim.
Nesse dia, consigo ouvir um pedido de socorro da minha tia.
São quase 23 horas, e […] não sei onde está meu marido. Ele saiu antes do almoço e ainda não voltou. Isso me deixa triste, chateada e com medo. Triste porque estou só. Chateada porque brigamos e com medo […] de que possa ter acontecido algo com ele […] e de que nosso casamento esteja por um fio. […]
Talvez eu esteja vendo coisas ou imaginando-as ou dando uma importância muito grande a fatos bobos. […]
Pode ser que eu queira do Val mais do que ele pode me dar. […] Estou com medo porque parece que ele não me suporta mais. Será que eu que provoco isso? Não sei. Francamente não sei exatamente o que está errado comigo. Não sei nem se realmente há alguma coisa errada.
Eu sempre procurei ser tudo o que ele queria e dizia que precisava. Mas agora tudo é uma grande incógnita. Onde errei, por que errei, será que errei? […]
Eu ainda amo o meu marido. Amo muito. Tenho me esforçado, tenho feito muito, tenho suportado outro tanto, por ele. Para vê-lo bem, para vê-lo progredir, para ajudá-lo a construir algo de bom. […]
Eu não sei, não quero, não posso me imaginar sem ele. Ele tem, como todos nós, seus defeitos, mas tem suas qualidades. Um de seus defeitos é ser machão. Para não dar o braço a torcer ou para não dialogar, pegou suas coisas e saiu. E eu fiquei aqui, com meu filho, […] sem saber para onde foi, o que foi fazer e, principalmente, se está bem.
Nós precisamos conversar, conversar bastante, mas eu sei que vai ser difícil. Gostaria que ele lesse isto aqui […], se bem que ele já me disse que acha tudo isto uma mentira. […]
Quero o Val que eu tinha nos primeiros tempos de casamento: atencioso, colaborador, compreensivo. Acabou esse Val, o que existe agora está deixando algo a desejar, e ele nem se importa com isso. […] O Val que existe agora é muito egoísta, principalmente. Eu queria tanto ter de volta o Val por quem me apaixonei, com quem me casei.
O que será que tenho que fazer para que isso volte a acontecer? […] Eu quero que ele me diga, para eu poder voltar a fazer as coisas como eram antes. Apesar de tudo isso, eu o amo com todo o meu coração.
Isilda vivia uma relação abusiva. Era vítima constante de violência psicológica. Minha tia era infeliz por causa de um marido egoísta, e por isso doeu ler um novo relato algumas páginas depois: “Nosso casamento vai bem, muito bem. Temos nossos desentendimentos, nossas brigas, mas nos amamos, e como!”

3
Carlos Eduardo, o segundo filho de Isilda, chegou em um dia próximo do Natal de 1981. Minha mãe diz que ele nasceu exatamente nove meses depois de mim, porque minha tia, ao me ver, disse que queria outro bebê. Antes da descoberta da nova gravidez, entretanto, a vida em Santo André andava em círculos. De férias, em janeiro de 1980, Isilda leva o filho e a mãe para o Rio de Janeiro. Quando ela volta, com saudade, a realidade é, de acordo com ela, “triste”.
O Val não me recebeu como eu esperava. […] Não sei o que está havendo. Gostaria de saber, mas ele não me diz. Acho que ele está cansado de mim. […]
Ele disse que não precisa de mim. Será que não mesmo? Ele disse que queria que eu voltasse pra lá. […] Ele está diferente. Comigo e com o Daniel. Como é duro você amar uma pessoa, dedicar cada minuto de sua vida a ela e, no final, sentir que de nada vale, que essa pessoa não precisa e não quer você. Por quê? O que será que fiz de errado, onde será que errei? Em me esforçar, em me dedicar, em me anular, em me dar, em viver em função dele e para ele?
O que Isilda não entendia é que estava sendo manipulada por quem também era dependente emocional dela – e uma ameaça de término a fazia tentar agradá-lo ainda mais. Em julho de 1981, Isilda relata sua nova gravidez e já demostra um amor imenso pelo bebê, a alegria pela nova gestação e a ansiedade de todos, principalmente de Daniel, promovido a irmão mais velho. “Eu prometo, como prometi ao seu irmão, que enquanto seu mundo for, nós tudo faremos para que ele seja perfeito.”
O Valdir mudou muito desde que engravidei. Está mais carinhoso (comigo e com o Danny), mais atencioso, mais amável, mais tudo […], aliás, nós dois mudamos. Estamos mais maduros, mais crescidos, com uma situação mais sólida. Estamos bem.
O Natal de 1981 foi o primeiro, tanto para mim quanto para o Carlos Eduardo. Ela se alegrava com a felicidade de Daniel pela chegada do seu irmãozinho. “Ele é perfeito. É lindo.” No dia 31 de dezembro, Isilda expressa seus desejos de ano-novo. Para o caçula, o seu pedido já é de desculpas: “De antemão eu lhe peço que perdoe a minha ausência, quando eu voltar a trabalhar”.
*
Carlos Eduardo, o Cacá, era um bebê doce e que não dava trabalho. Começou a andar com menos de um ano e chamava a atenção com a sua curiosidade por tudo a seu redor. Com a volta ao trabalho e à rotina desgastante, minha tia diminuiu a frequência das palavras em seus diários. Mas os relatos ainda mostravam uma mulher exausta e desesperada por entender que aquilo jamais iria mudar. As cobranças de Valdir sobre qualquer coisa eram insuportáveis, como a briga pela decisão de tomar um lanche em vez de jantar numa noite de sábado.
Eu também me canso, eu também preciso que alguém, um dia, faça um favor, que aliás não é feito, para mim. Pois é, assim fica difícil, muito difícil. Ser cobrada e não ter o direito de cobrar. […] Dar e não receber. […]
Este sentimento de inutilidade me mata. […]
Val, por favor, me ajude.
Mas a única coisa que muda é uma nova rotina que se estabelece entre o casal: depois de cada briga, Valdir sai com o carro, sem dizer para onde, e demora horas para voltar. Violência psicológica em estado puro. No Natal de 1982, Isilda fala abertamente sobre os ciúmes do marido e o quanto isso a incomoda.
O que mais me machuca é a desconfiança que ele tem quanto ao meu comportamento, principalmente com os homens. E este assunto sempre vem à baila em nossas discussões, mesmo que elas se refiram a algo que não tenham nada a ver.
Não sei como ele quer que eu me comporte. […] O único homem que me interessa ter por perto é o meu Val. Será que dá para ele entender?
Folheando as páginas do diário pela primeira vez, em 2018, lembro do choque ao dar de cara com uma letra bem diferente: finalmente Valdir escreveu.
Ele afirma que “apesar dos pesares” nunca deixou de amar a Zi, classificando como “desacerto natural” as constantes brigas. Para ele, ela não devia levar os conflitos e as ofensas muito à sério, já que sempre fica tudo bem outra vez. A mãe dos seus filhos deveria colocar tudo o que ele dizia como uma coisa passageira e procurar apagar tudo, afinal, tudo se tratava de um “simples desabafo”.
Se lembramos o que o cunhado de Isilda disse ao Diário do Grande ABC, este trecho fica ainda mais revoltante: “Eu amo demais a Zi. Sou muito ciumento. Se pudesse furaria os olhos e cortaria a língua (e etc.) de todos os homens que olhassem pra ela mal-intencionados. Se essa ‘ciumeira’ toda é amor, putz, como eu a amo.”
*
Valdir perdeu o emprego, Isilda foi promovida de secretária a analista de comércio exterior. Uma mãe de dois filhos pequenos, casada com um homem que não a ajudava nas coisas mais básicas, e a cobrava sobre qualquer bobagem era, ainda assim, uma ótima profissional. E a força dessa mulher aumentou ainda mais a insegurança de Valdir.
Ele sabia que ela era muito maior que ele e não iria aguentar viver assim para sempre. Sabia que as manipulações e a violência psicológica não funcionariam indefinidamente.
Quando entra na terceira – e interrompida – década de vida, Isilda lembra tudo de bom que já conseguiu, mas conta que Valdir a ofende na frente de outras pessoas, descreve a situação como humilhante; mesmo assim, acredita que o problema está nela.
Além disso, a questão dos ciúmes volta à tona. “Por quê? Eu nunca lhe dei motivos. Agora, não sou contra ter ciúmes. Apenas eu acho que ele não deve atrapalhar dessa maneira o relacionamento de duas pessoas.”
*
No final de 1982, Isilda comemorou que, após três anos de afastamento, finalmente reencontrou seu irmão Marco, meu pai. Nesse hiato de convivência, eu e o Carlos Eduardo nascemos – minha tia só foi pra Pinda me conhecer e decidir engravidar de novo.
Para selar a paz, meus pais convidaram o casal para serem os padrinhos do bebê que estava para chegar – minha irmã, que nasceu em agosto de 1984. “Ganhamos uma afilhada: a minha doce e pequena Maria Alice”, anota minha tia em 1985, quando retoma a escrita depois de um ano.
A partir desse momento, já no final dos relatos, é possível entender o ponto de virada na relação entre Isilda e o seu marido: minha tia, minha heroína, procurou ajuda.
No final, mas sem saber que estava no final, ela decidiu reagir. Em algum momento desse ano de ausência no seu diário, ela entendeu que tanta negligência não era saudável. E aquela mulher que estava escondida sob os escombros do machismo diário, de manipulações, agressões e questionamentos sobre a sua capacidade como mãe, mulher e dona de casa, apavorou Valdir. Aquela nova mulher não ia mais aceitar o marido abusivo que ele era. Ao entender essa dinâmica, ela poderia ter decidido partir. Mas ela não fez isso.
Por que você não tenta renascer comigo, como eu estou tentando? […]
Tornei-me uma pessoa fria, muito realista, irônica, sarcástica, desconfiada, insegura, impotente. Por tudo isso fui procurar ajuda. […]
Tenho a impressão, relendo algumas passagens, de que sempre procurei esconder de mim mesma a minha realidade. […]
O Val contribuiu muito para que eu me sinta como agora. Durante algum tempo, movido talvez por sua insegurança, por sua depressão, por sua provável sensação de fracasso, apoiou-se e passou a depender muito de mim.
Minha tia subia com determinação os degraus da autoconfiança, aquela que só existe quando a gente permite se conhecer melhor.
Tenho a minha individualidade, a minha personalidade, o meu modo de ser […], não quero voltar a me sentir como um patinho feio, que ele me humilhe ou me ofenda impunemente. Não quero viver à sombra dele, a vida dele. […]
Eu quero voltar a me sentir feliz, se é que um dia me senti. Eu quero voltar a rir com naturalidade. […]
Neste novo processo de descoberta, muita coisa virá à tona. Talvez eu tenha que enfrentar verdades que um dia eu não tive coragem. […] Talvez este trabalho de análise e autoanálise me mostre coisas que eu nunca vi. […]
O que realmente sei é que, embora o Val torça o nariz cada vez que se lembra que é dia de analista, eu vou em frente. […]
O passo mais importante está dado: assumir que há algo errado.
O que Isilda nunca entendeu é que Valdir não tinha interesse na mulher que ela realmente era: ele queria a esposa apaixonada, submissa, com cargas enormes de culpa e um espaço ainda maior para manipulá-la, como sempre fez.
Aquela nova Isilda assustava Valdir, e ele não pôde aceitar sua existência, assim como não pôde aceitar a sua vida sem a esposa que ele moldou em benefício próprio.
Finalizando o penúltimo texto de seu diário, sem data, Isilda parece dar um ultimato a Valdir: aquela Zi não existe mais.
Se você é importante para mim, eu sou mais. Não vou deixar de ajudar você, mas vou me ajudar primeiro. Porque eu amo você, mas amo mais a mim mesma […], É dessa maneira que vejo as coisas agora. […]
Primeiro eu. Primeiro o que eu quero, primeiro o que eu preciso e depois todos os que contam comigo. Isso é egoísmo? Talvez seja, mas eu quero sentir o gosto de ser egoísta pelo menos por pouco tempo. […]
Conte comigo. Amo você. Ame-me. Como eu sou, com meus altos e baixos, com minhas descobertas (que podem ser tardias), com minhas falhas, como eu amo você.
Valdir perdeu Isilda para ela mesma. E isso ele não foi capaz de suportar.
EPÍLOGO
Na manhã de 11 de abril de 1986, o telefone tocou na minha casa em Pindamonhangaba. Eu, que tinha acabado de completar 5 anos, atendi. Do outro lado, a minha vó, com uma voz que eu nunca tinha ouvido. Sem os gracejos de sempre. Ela só pediu que eu chamasse a minha mãe. Então ela e uma amiga foram para São Paulo encontrar meu pai, que trabalhava na capital durante a semana. Ali mesmo decidiram: os meninos iriam para Pinda com eles.
Nos últimos meses antes da tragédia em Santo André, uma nova empregada havia começado a trabalhar para Isilda e Valdir. Elza cuidava da casa e das crianças o dia todo e estudava à noite. Os meninos gostavam muito dela. De acordo com o Diário do Grande ABC – baseado em um inquérito policial que eu não consegui acessar –, e com relatos dos meus pais e da minha avó, em 10 de abril, Elza chegou da escola por volta de 22h30. Ouviu o casal brigando, ou seja, nada anormal. Foi tomar banho e dormir.
A reportagem, no entanto, não menciona que o fato de a empregada morar na edícula, nos fundos da casa, a livrou de ter sido anestesiada com éter, como Valdir fez com os filhos e a sogra.
Depois da briga, Isilda tomou banho, passou talco, vestiu um baby-doll e foi dormir. No início da madrugada, um tiro. Depois, mais outro. Quem encontrou os pais mortos na cama foi Daniel, 10 anos. Depois chegou minha avó. E Carlos Eduardo, 4 anos. Um primo de Isilda, que foi à casa levar uma encomenda para minha avó, se tornou o responsável por pensar friamente no que fazer.
Aos poucos a notícia se espalhou. Outros parentes, vizinhos, imprensa, curiosos. Amigos, colegas de trabalho. A notícia vinha embrulhada em machismo e suposta defesa da honra. O jornal disse apenas que “Valdir surpreendera a mulher com outro homem”. Sem mencionar o ciúme que ele sentia de qualquer um que se aproximasse dela por qualquer razão. Na mente doentia de Valdir, tudo poderia ter sido visto como uma prova irrefutável de que ele era traído. E então ele matou Isilda. Matou a minha tia.
*
Nesses quase 40 anos, muita coisa aconteceu. Mas minha família permanece de pé. Carlos Eduardo e Samuel moram em Pinda perto da minha mãe. Daniel vive numa cidade vizinha, e Maria Alice no litoral paulista. Desde os 18 anos estou em São Paulo, perto do meu pai.
Devo ao Daniel a paixão pelo rock e pelo nosso time de futebol – que ele herdou do pai, Valdir. No final de 2025, ele se mudará para a África do Sul por três anos, a trabalho. Carlos Eduardo é engenheiro civil, e eu nunca vi uma pessoa gostar tanto de trabalhar como ele.
Os irmãos que essa história me trouxe têm duas das minhas risadas preferidas na vida e, aos poucos, ao longo destes anos em que estamos juntos, eu entendi duas coisas. A primeira é que tenho certeza de que era desse jeito que minha tia ria quando estava feliz. A segunda é que essas gargalhadas vêm daquelas duas crianças que perderam os pais e sobreviveram. Não foi fácil, não foi leve, mas eles estão aqui, e não penso duas vezes quando me perguntam quantos irmãos eu tenho.







