Alguém fazia uma concha com a mão e me cochichava algo quase inaudível: quando pequeno, eu era fascinado por um jogo que você, que está lendo este texto, provavelmente também conhece, o telefone sem fio. Um telefone sem fio que não tinha (quase) nada a ver com os celulares, que nem existiam ainda. Fui criança no final dos anos 1980, começo dos anos 1990, época em que os telefones ainda eram munidos de fios encaracolados e pediam sons e números discados a dedo. Essas máquinas eram mais coletivas do que individuais e ainda se limitavam a transmitir sons – nada de fotos, textos ou imagens. Nesse mundo, que já era bastante tecnológico, mas um tanto menos do que o nosso, o telefone sem fio era um jogo bem comum. Funcionava assim: alguém sussurrava uma mensagem no ouvido de alguém que estava sentad/a/o ou de pé logo ao lado, enquanto essa segunda pessoa, por sua vez, sussurrava aquilo que ouvia na orelha de uma terceira. E assim por diante. A mesma mensagem ia sendo passada de pessoa para pessoa e ia se modificando no decorrer do caminho. Ao final, a última pessoa dizia em voz alta, para o grupo todo escutar, aquilo que tinha entendido daquela frase. O jogo estava justamente aí: quase nunca a frase continuava a mesma. Eu gostava bastante desse jogo: preciso confessar que sempre tive uma estranha atração por coisas que me apavoram. Ficava assustado com a possibilidade de ser o último da roda. Acontece que eu não contava para ninguém o quanto esse jogo era quase impossível para mim. Em nenhuma das (muitas) vezes em que participei dessa brincadeira, fui capaz de identificar uma palavra sequer. Para mim, os sussurros no ouvido não transmitiam nada além de golfadas de ar e ruídos difusos. Eu tinha um segredo: e meu segredo era que eu era incapaz de escutar segredos. Nunca consegui decifrar sussurros, não consigo entender cochichos. Faz poucos anos que passei a dizer claramente para as pessoas que leio lábios e explicar que, na maior parte das vezes, para entender o que alguém me diz, preciso de uma combinação de imagens e sons. Preciso que a boca dessa pessoa se mova de modo expressivo e nítido o bastante, e que o som produzido seja minimamente alto e claro. Quase sempre preciso que algum tipo de luz esteja acesa: se estiver escuro, preciso que a pessoa fale ainda mais alto e claro para compensar, o que nem sempre dá certo. Quando alguém sussurra algo no meu ouvido, na maior parte das vezes, eu não entendo nada. É por isso que, décadas atrás, quando eu brincava de telefone sem fio, meu peito alucinava quando chegava a minha vez de passar a mensagem adiante. Era como se eu tivesse nas mãos uma bola congelada, que colocava em risco toda a dinâmica do jogo. Eu sabia que, depois de chegar em mim, o fio invisível daquela transmissão se romperia irremediavelmente. Para passar por essa situação sem que ninguém percebesse, minha saída era sussurrar rapidamente algumas palavras articuladas inexistentes no ouvido da outra pessoa, qualquer coisa que lembrasse a sonoridade do português, fazendo de conta que eu sabia, pelo menos um pouco, o que estava dizendo. Eu falava rápido, torcendo para que ninguém notasse o meu truque, que com certeza não cabia nas regras do jogo. Era assustador, mas, em geral, eu passava incólume. Acho que foram essas algumas das minhas primeiras incursões pelo universo da glossolalia: minha manobra dava certo.

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Apesar de ter nascido com uma perda auditiva classificada como moderada a severa, eu levaria mais de 20 anos até me dar conta do quanto dependia da leitura labial. Sem ler lábios, não consigo entender muita coisa do que estão me dizendo. Só quando leio lábios consigo fazer de conta que sou normal, quase um ouvinte como qualquer outro. Não que essa seja uma habilidade que eu tenha desenvolvido de propósito. Nós, que lemos lábios, quase nunca fazemos isso de modo consciente: a gente acaba se acostumando a prestar atenção à boca dos outros à medida que falam, é quase automático. A gente vai aprendendo a decodificar as coreografias complexas dos lábios. Ainda bem que a gente consegue aprender muita coisa de modo quase instintivo, antes mesmo de se dar conta do que está fazendo, num jogo complexo que envolve percepção e atenção, em que a gente vai testando modos de se relacionar com os outros e com o mundo que nos rodeia. A gente se acostuma a sentir o ritmo de uma conversa, a ouvir com o corpo todo, a perceber os pequenos movimentos que os músculos fazem debaixo da pele. A gente nota depressa uma sobrancelha que se levanta, um movimento rápido que percorre os olhos, um cenho franzido – aprender a ler bem as expressões do rosto ajuda a situar aquilo que a gente não consegue ouvir. A cada vez que não entende uma pergunta, a gente aprende logo a sorrir como resposta, já que sorrir é quase sempre o modo mais rápido e prático de esconder que não deu para entender muito bem o que alguém disse. Para circular num mundo regido por uma linguagem falada que a gente não consegue decodificar inteiramente, a gente precisa aprender a trapacear no jogo tanto quanto dá: a preencher espaços em branco. A gente vai ficando hábil em improvisar alguma coisa para dizer a partir das poucas palavras que deu para surrupiar no meio de muitas outras praticamente indistinguíveis. Ler lábios é um pouco instinto, um pouco adivinhação: uma habilidade que a gente vai treinando quase sem perceber, até que ela se torne uma espécie de segunda natureza. Quando alguém tenta me dizer algo e eu não estou olhando para o rosto da pessoa, quase sempre acabo tentando adivinhar o que essa pessoa quis dizer ou fingindo que entendi.

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Fingir que você entendeu o que não deu para entender é um dos primeiros truques que as pessoas com deficiência auditiva aprendem, um truque que eu compartilhava com meu pai, mesmo que ele nunca tenha me ensinado a fazer isso. A gente não falava muito sobre aquilo que a gente não ouvia – acontece que eu percebia quando ele estava usando esse truque, já que a vida toda também precisei desenvolver estratégias parecidas. Fingir que você entendeu o que não entendeu, ao menos no caso de pessoas surdas que conseguem se passar por ouvintes, funciona como uma espécie de escudo protetor. Pessoas como meu pai e eu, que até escutam um pouco, mas bem menos do que as outras pessoas, não costumam ser muito encorajadas a aprender linguagem de sinais. Nossos truques para fingir que estamos ouvindo alguma coisa incluem fazer acenos com a cabeça, sorrir, rir baixinho. Não entender o que estão nos dizendo significa, muitas vezes, estar disposto a dizer que sim, mesmo que a gente não saiba direito com o que está concordando. É uma estratégia: a gente entende logo que concordar é bem mais rápido do que discordar – e exige menos esforço. Acenamos com a cabeça e sorrimos, transitando pelo mundo dos ouvintes como tradutores mais ou menos habilidosos, relativamente fluentes em um idioma que não estamos totalmente qualificados para falar. Existe todo um trabalho invisível que quase ninguém nota, já que a gente faz um esforço constante para se sintonizar com o mundo lá fora, ajustando o volume entre os silvos vibrantes do lado de dentro e o mundo mais ruidoso e vociferante ao redor, permeado por uma série de sons que a gente não consegue identificar muito bem.

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Além do meu pai, tenho duas tias que são deficientes auditivas. Uma delas também usa aparelho, a outra não quis usar. É quase certo que esse fosse também o caso do meu avô paterno, que morreu quando meu pai tinha um ano. A família dele, de uma cidade pequena no interior da Bahia, não costumava falar muito sobre essas coisas – cada perda auditiva recebia uma explicação diferente. Décadas se passaram, até que, quando minha mãe estava indo me buscar na primeira escola em que aceitei ficar, ela ouviu outra criança apontando para mim: “Ess/ é aquel/ que fala esquisito”. Foi só então que, suspeitando de alguma coisa, ela decidiu me levar a um otorrino. Quando o exame audiométrico atestou que eu também era deficiente auditivo, minhas tias não quiseram se submeter a testes genéticos. Para elas, uma deficiência transmitida de uma geração para a outra era algo vergonhoso, uma espécie de maldição.

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Demorei para entender que minha fala não soa como as outras. Nunca entendi exatamente como minha fala mancava, já que manco exatamente nesse lugar que não escuto: tropeço nas palavras. Sei que tem algo a ver com os esses: tem alguma coisa de errada no modo como eu pronuncio as sibilantes, mas nunca consegui escutar o que é. Já fiz fono algumas vezes para tentar “endireitar” meu modo de falar, mas é estranho corrigir algo que você nem sequer escuta. A principal pista que tenho é que, vira e mexe, tem quem ache que eu sou estrangeiro. “De onde é teu sotaque?” é uma das perguntas que mais escutei na vida. “De lugar nenhum”, eu poderia responder. “De algum lugar que eu não consigo escutar, de um ponto tão cego quanto meu próprio rosto.”

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Meu pai nunca gostou muito do som da própria voz. Para ele, era uma voz suave demais, débil demais, instável demais, um tanto fraca, nunca masculina o suficiente. No meu caso, oito anos depois de começar a tomar testosterona, uma das poucas situações em que as pessoas ainda se dirigem a mim usando o gênero feminino – porque, sim, sou um homem trans – é quando falo ao telefone. Minha voz soa suave demais, fraca demais, aguda demais, instável demais, débil demais, nunca masculina o suficiente. Para uma pessoa portadora de deficiência auditiva que navega pelo mundo dos ouvintes, assim como para uma pessoa transgênero que consegue se passar por uma pessoa cisgênero, nossas vozes muitas vezes acabam soando um tanto limítrofes e traiçoeiras, traindo a coreografia cuidadosa de gestos e olhares que vamos aprendendo a desenhar, na tentativa de evitar as dissonâncias que pululam na zona nem sempre convergente entre quem a gente é e quem o mundo espera que a gente seja. “Passar” envolve uma espécie de truque. Todo truque pede algum tipo de escuta, mesmo que a gente não acredite muito nas caixas que são inventadas para separar um universo do outro. A gente precisa desenvolver a habilidade de se sintonizar com a tonalidade e o ritmo das expectativas em torno de noções de gênero que se fazem presentes nos mais diversos contextos, o que significa aprender a escutar as diferentes frequências, muitas vezes não ditas e implícitas, das percepções que os outros formam sobre a gente. As pessoas queer, assim como as pessoas surdas, muitas vezes costumam sorrir diante da incerteza provocada por palavras que a gente nem consegue ouvir e responder por inteiro. Entre essas dissonâncias inevitáveis, a gente acaba percebendo lacunas e lapsos que os outros não chegam a notar.

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Uso aparelhos auditivos desde os três anos. Meu pai e eu costumávamos fazer exames audiométricos juntos, em consultas fonoaudiológicas a dois que acabaram fazendo com que existisse uma espécie de sociedade só nossa, nem tão secreta assim. De tempos em tempos, nossos órgãos-máquina precisavam ser ajustados, trocados ou regulados. Os aparelhos costumam dar microfonia quando alguma coisa chega perto demais deles – dá para dizer que o chiado é um resmungo existencial característico das máquinas, tornando ainda mais ruidosa a relação entre o dentro e o fora. Quando a gente precisa de diversas camadas de mediação, a comunicação tende a ficar mais confusa, especialmente em um mundo cheio de códigos.

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Quando eu era criança, gostava de ler os contos de Hans Christian Andersen. Seus personagens eram criaturas que não se encaixavam: um pato que não era bem um pato, uma sereia que perdia a voz porque não queria mais ter cauda de peixe, um soldadinho de chumbo defeituoso que corria perigo ao se apaixonar por uma bailarina que também conseguia ficar de pé em uma perna só. Para além dos contos de Andersen, eu costumava pedir para minha mãe ler muitas vezes a história de um rei sem orelha, que ameaçava de morte seu barbeiro, o único que sabia o segredo do órgão que faltava. Cantava incontáveis vezes uma musiquinha que tinha aprendido, sobre uma flor que não tinha cheiro. Meu pai me contou mais de uma vez a história de como Vincent van Gogh cortou uma de suas orelhas depois de uma briga com Paul Gauguin, com quem morava. Antes de completar dez anos, eu já conhecia o autorretrato de Van Gogh com a orelha enfaixada. Por quase uma década, me recusei a ter um telefone celular. Era uma resistência teimosa, insensata e solitária: eu era uma das poucas pessoas que eu conhecia que vivia sem esse aparelho. “Já uso uma prótese, não preciso de outra”, costumava dizer. Eu e um amigo costumávamos nos referir ao telefone celular como el enemigo, o inimigo. Essa era, claro, uma batalha perdida: era óbvio que o inimigo estava conquistando o mundo. Foi durante a pandemia, quando fiquei preso na Amazônia peruana por seis meses, que finalmente me rendi: comprei um telefone celular. Era, afinal, a única saída para que eu tivesse uma fonte confiável de conexão com a internet em um momento em que as fronteiras ainda estavam fechadas. Eu não sabia disso na época, mas a comunidade surda considera Alexander Graham Bell, o inventor do telefone, uma espécie de inimigo. Não posso negar que se trata de um inimigo bastante próximo: os experimentos de Bell envolvendo ondas sonoras e criando impulsos elétricos a partir da fala proporcionaram os primeiros insights sobre o modo como o som poderia ser amplificado e transmitido, princípios que mais tarde se tornaram fundamentais para o design de aparelhos auditivos como os meus. Os aparelhos costumam ser artefatos ambíguos, e o aparelho auditivo não é uma exceção. A história de Bell com a comunidade surda é um tanto edipiana e complexa: embora sua mãe e sua esposa fossem pessoas surdas e ele próprio atuasse como professor de surdos, Bell era um dos maiores defensores do oralismo, que defendia que os surdos aprendessem a falar e a ler os lábios em vez de usar a linguagem de sinais. Bell tomou posições que acabaram por restringir o uso da língua de sinais nas escolas para surdos – um golpe paternalista que seguiu reverberando por gerações, dificultando que pessoas como eu e meu pai, por exemplo, aprendêssemos uma linguagem que nos teria facilitado a vida. As restrições encorajadas por Bell não afetaram apenas os Estados Unidos: foi a partir de então que muitos países, inclusive o Brasil, adotaram políticas educacionais que restringiam o uso da língua de sinais nas escolas, impondo o método oralista como o único aceitável. Professores surdos foram demitidos e o uso da Libras, a Língua Brasileira de Sinais, foi desestimulado e proibido em instituições educacionais para surdos durante décadas. Durante uma convenção realizada em Nova York, em 1883, Bell apresentou um artigo polêmico com o título “Um memorando a respeito da formação da variedade surda da raça humana”, no qual argumentava que o casamento entre surdos deveria ser desencorajado, porque levaria a um aumento da surdez hereditária. Ao vislumbrar um futuro em que a surdez fosse completamente varrida pelos avanços da ciência, Bell se alinhava às ideias da eugenia, amplamente aceitas até aquele momento. Meu pai ainda não tinha começado a usar aparelhos auditivos quando foi preso pela ditadura. Os militares que o levaram para a sala de interrogatório logo começaram a rir e lhe deram o apelido de “surdinho”, justamente o apelido que um tio tinha escolhido para o meu pai quando ele ainda era pequeno. Foi a voz desse tio, que soava sempre abrupta e alta demais, que fez com que meu pai se percebesse pela primeira vez como alguém diferente da maioria. “Vocês não acham que ia ser engraçado se a gente deixasse esse surdinho mais surdo ainda?”, diziam os guardas, antes de desferir uma série de golpes nas duas orelhas do meu pai ao mesmo tempo. Com as mãos em concha, os oficiais empregavam uma técnica de tortura conhecida como “telefone”, uma pressão intensa que podia causar sérios danos ao tímpano, transformando o crânio de quem era atingid/o/a em uma espécie de bocal de telefone, enquanto a dor ecoava em zumbidos de estática. O telefone podia provocar sequelas permanentes, entre elas a surdez parcial ou total. Quando meu pai saiu da prisão, continuou ouvindo um zumbido alto por muito tempo. Mesmo para alguém acostumado a ouvir sons que não tinham referência externa, esse apito era muito mais alto que os outros. Como meu pai só passou a usar aparelho e se submeter a exames audiométricos anos depois da tortura, não dá para saber se esses golpes interferiram ou não na perda auditiva que ele já tinha. Muito do que estou falando aqui esbarra nos desníveis entre o que é dito e o que a gente ouve, entre o que a gente ouve e o que a gente decodifica – entre um corpo e aquilo que a história faz desse corpo. Só o que dá para dizer é que esses golpes produziram sons dentro e fora da cabeça, com múltiplas reverberações que ecoam até hoje.

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Pessoas com algum tipo de perda auditiva costumam ouvir sons-fantasmas. A gente convive com zumbidos e pequenos apitos que não param nunca, que giram e pulsam dentro da nossa cabeça: parece que esses apitos fazem soar justamente a faixa de som que a gente tem dificuldade de escutar no mundo lá fora. São sons que estão sempre ali, mas que ficam mais altos quando a gente está sem aparelho. A gente aprende desde cedo que existe uma espécie de desnível, de defasagem, uma diferença entre o lado de dentro e o de fora: a gente aprende a conviver com sons que não existem para os outros, só para a gente. Para quem convive com uma perda auditiva neurossensorial, esses sons são, ao mesmo tempo, assombrações e companheiros íntimos: o conceito freudiano de Unheimlich, que se refere a alguma coisa que se torna sinistra por ser desconhecida e familiar ao mesmo tempo, ressoa bem de perto para a gente. Sem conseguir decodificar a gama completa de sons externos que os ouvidos humanos, em média, costumam escutar, nosso cérebro tenta compensar aquilo que não ouve criando sons internos desprovidos de qualquer fonte no mundo externo, emergindo de células danificadas e de terminações nervosas desgastadas.

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Eu costumava chamar esses sons agudos que insistem em zumbir, tilintar e assobiar na minha cabeça de “meus pássaros do lado de dentro”. O som deles não me incomoda: acho até que ele é suave, apesar de constante e insistente. São pássaros que estão sempre ali, mesmo que o canto deles seja mascarado pelos sons externos quando meus aparelhos auditivos estão ligados. Não são sons que se repetem: eles se transformam sempre, coisa de pássaros enlouquecidos. Costumo desligar os aparelhos auditivos quando passo por avenidas barulhentas, já que esses pequenos artefatos digitais têm o dom de se transformar instantaneamente em tampões de ouvido, bloqueando ruídos sempre que necessário, trazendo meus assobios internos de volta. Dizem que uma das diferenças entre os ouvidos e os olhos é que os olhos têm pálpebras, e os ouvidos, não. Bom, essa é uma das vantagens de contar com um ouvido artificial: dá para roubar nesse jogo, desligando os aparelhos e usando essas mesmas máquinas diminutas para ouvir menos, e não mais. Costumo ligar meus aparelhos quando estou passando pelo parque da Luz, que fica perto da minha casa: é que ali quase sempre dá para ouvir os pássaros de verdade. Para mim, o canto dos passarinhos só existe porque existe tecnologia: sem meus aparelhos auditivos, os pequenos seres alados do lado de fora da minha cabeça se tornam silenciosos. Isso quer dizer que, como meu pai só colocou aparelhos mais tarde, quase três décadas já tinham se passado antes que os sons dos pássaros pequenos começassem a existir para ele. Quando ele era menino, em Inhambupe, no interior da Bahia, só dava para ouvir o canto das galinhas e dos pássaros maiores: ele já havia se mudado para São Paulo quando começou a usar aparelhos. Meu pai contava que, no começo, sentia como se a casa estivesse prestes a desabar a cada vez que dava descarga – mas o canto dos passarinhos fazia tudo valer a pena.

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Certa vez, quando eu era pequeno, acordei no meio da noite e entrei sorrateiramente no quarto dos meus pais enquanto eles estavam começando a assistir a um filme que só muitos anos depois eu me daria conta de que era Veludo azul, de David Lynch. Em janeiro de 2025, Lynch deixou este mundo; alguns meses depois, foi a vez do meu pai. Aquele filme anunciava algo que eu só entenderia muitos anos depois: havia muito silêncio e muitos ruídos abafados que eu precisava escutar por detrás daquele cenário aparentemente pacato de família de classe média. Antes que meus pais notassem que eu estava lá e me mandassem de volta para o meu quarto, vi uma cena que jamais esqueceria: uma orelha decepada aparecia no gramado, meio enterrada, meio à escuta, como uma antena quebrada coberta de musgo, com formigas andando sobre a pele. Aquela orelha não era apenas feita de carne – era uma abertura, uma pergunta, um corte entre mundos.