Eu queria saber o que os homens brancos pensavam de seu privilégio. Então perguntei – por Claudia Rankine

Eu queria saber o que os homens brancos pensavam de seu privilégio. Então perguntei.

por CLAUDIA RANKINE

A complexa discussão sobre branquitude é formulada com contundência e originalidade por Claudia Rankine em “Eu queria saber o que os homens brancos pensavam de seu privilégio. Então perguntei”. Intrigante em sua simplicidade, o título do ensaio publicado na serrote #33 traduz com perfeição a escrita desta poeta e ensaísta que é hoje uma das mais importantes e interessantes vozes na discussão do racismo americano.

Nascida na Jamaica em 1963, Rankine é radicada nos EUA, onde leciona Poesia em Yale. Foi num curso da universidade que teve a ideia da pesquisa informal que relata em seu texto: as reações de homens brancos a suas perguntas ou mesmo à sua simples presença nas cabines de primeira classe de vôos pelos Estados Unidos, África e Europa. O ensaio faz parte de Just us – An American Conversation, a ser lançado em setembro nos EUA.

“Sempre tive consciência de que o meu valor aos olhos da cultura é determinado antes e principalmente pela cor da minha pele. Talvez esses outros viajantes pudessem responder a minhas perguntas sobre o privilégio dos brancos. Eu estava certa de que, sendo uma mulher negra, tinha de haver algo que eu não entendia”, escreve ela.

Este texto é republicado aqui como parte da série #IMSquarentena, que reúne ensaios do acervo, colaborações inéditas e uma seleção de textos que ajudem a refletir sobre o mundo em tempos de pandemia 

 

Nos primeiros dias da corrida presidencial de 2016, eu estava começando a preparar um curso sobre branquitude para lecionar na Universidade Yale, onde tinha acabado de ser contratada. Ao longo dos anos, percebi que com frequência eu e meus interlocutores não compartilhávamos o mesmo conhecimento histórico. “O que é redlining?”,1 alguém perguntava. “George Washington libertou seus escravos?”, outro questionava. Contudo, ao ouvir a retórica inflamada de Donald Trump durante sua campanha, o curso ganhou outra dimensão. Será que meus alunos entenderiam a longa história que permeava um comentário feito por Trump ao anunciar sua candidatura? “Quando o México manda sua gente para cá, não estão mandando os melhores”, disse. “Mandam gente que tem muitos problemas, e eles trazem esses problemas para nós. Eles trazem drogas. Eles trazem crime. Eles são estupradores.” Quando ouvi essas palavras, quis que meus alunos pesquisassem as leis de imigração nos Estados Unidos. Eles conseguiriam traçar a relação entre o tratamento dado a pessoas sem documentos e o tratamento dado a irlandeses, italianos e asiáticos ao longo dos séculos?

Enquanto me preparava, precisei desvendar e compreender como a branquitude foi criada. Como o Ato de Naturalização de 1790, que restringiu a cidadania a “qualquer estrangeiro, sendo este uma pessoa branca livre”, desdobrou-se ao longo dos anos em nossas várias leis de imigração? O que foi necessário para que cidadania deixasse de significar apenas “pessoa branca livre”? Qual foi a trajetória da Ku Klux Klan depois de sua formação, no fim da Guerra Civil, e qual foi sua relação com os Black Codes, aquelas leis aprovadas subsequentemente nos estados do sul para restringir as liberdades de pessoas negras? O governo dos EUA bombardeou comunidades negras em Tulsa, no estado de Oklahoma, em 1921? Como italianos, irlandeses e povos eslavos se tornaram brancos? Por que as pessoas acreditam que abolicionistas não poderiam ter sido racistas?

Eu queria que meus alunos fossem apresentados a um conjunto de obras de sociólogos, teóricos, historiadores e pesquisadores de literatura com atuação em um campo em expansão conhecido como “estudos da branquitude”. Seus pilares incluem Playing in the Dark: Whiteness and the Literary Imagination, de Toni Morrison, The Wages of Whiteness, de David Roediger, Whiteness of a Different Color: European Immigrants and the Alchemy of Race, de Matthew Frye Jacobson, White, de Richard Dyer, e, mais recentemente, The History of White People, de Nell Irving Painter. Roediger, um historiador, explicou o desenvolvimento do campo – com o qual minhas aulas poderiam se relacionar – dizendo: “Os anos 1980 e 1990 viram a publicação das obras mais importantes de Toni Morrison e James Baldwin sobre as complexidades da identidade branca, assim como de novas obras de escritores brancos e ativistas que faziam perguntas historicamente similares. Dada a aparente novidade de tal produção branca e a urgência de compreender o apoio dos brancos a Ronald Reagan, os ‘estudos críticos de branquitude’ ganharam a atenção da mídia e um pequeno apoio das universidades.” Essa área de estudos tinha o objetivo de dar visibilidade a uma história da branquitude que, associando-a com a “normalidade” e a “universalidade”, mascarava seu poder institucional onipresente.

Meu curso acabou se chamando Construções da Branquitude, e, ao longo dos dois anos em que o lecionei, muitos de meus alunos (de todas as raças, identidades de gênero e orientações sexuais) entrevistaram pessoas brancas no campus ou em suas famílias a respeito de sua compreensão da história americana e de como elas se relacionavam com a branquitude. Alguns estudantes simplesmente queriam saber como as pessoas ao seu redor definiriam a própria branquitude. Outros tinham dificuldades com o racismo dos parentes e queriam entender como e por que certos preconceitos haviam se formado. Ou queriam mostrar o impacto das expectativas brancas em suas vidas.

Talvez por isso um dia, em New Haven, observando o semicírculo de carvalhos no meu quintal, eu me peguei refletindo sobre o que significaria perguntar aleatoriamente a homens brancos como eles entendiam seu privilégio. Imaginei a mim mesma – uma mulher negra de meia-idade – caminhando em direção a estranhos e fazendo tal pergunta. Será que reagiriam como o capitão de polícia em Plainfield, no estado de Indiana, quando sua colega, durante um treinamento de diversidade, disse que ele se beneficiava do “privilégio do homem branco”? Ele ficou furioso e a acusou de cometer calúnia racial. (Ela foi colocada em licença remunerada, com uma advertência permanente em sua ficha.) Eu também seria acusada? Eu me ouviria perguntar sobre o privilégio do homem branco e então veria um homem branco após o outro se afastar como se eu fosse muda? Eles pensariam que trabalho para Trevor Noah ou Stephen Colbert,2 mas que esqueci a equipe de gravação? O comentário corrente no nosso clima político atual é que todos nós precisamos conversar com pessoas com quem não costumamos falar, e, embora meu marido seja branco, eu me percebo jogando conversa fora facilmente com todo tipo de estranhos, exceto homens brancos. Eles raramente tomam a iniciativa de puxar papo comigo, e eu não os procuro. Talvez fosse a hora de arriscar, ainda que minhas fantasias sobre esses encontros fossem as mais bizarras. Eu queria tentar.

Semanas mais tarde, percebi que tendo a estar cercada por homens brancos que não conheço quando viajo e me encontro em espaços que são essencialmente não lugares: em conexões, em trânsito, em pleno ar. Enquanto cruzo os Estados Unidos, a Europa e a África dando palestras sobre o meu trabalho, eu me pego observando esses homens brancos que passam horas comigo em saguões de aeroporto, portões de embarque e aviões. Eles parecem formar o maior percentual de viajantes a trabalho nos espaços liminares de espera. O fato de eu estar entre eles em saguões de aeroporto e cabines na primeira classe de aviões reflete, em parte, meu relativo privilégio econômico, mas o preço da minha passagem, é claro, não se traduz em capital social. Sempre tive consciência de que o meu valor aos olhos da cultura é determinado antes e principalmente pela cor da minha pele. Talvez esses outros viajantes pudessem responder a minhas perguntas sobre o privilégio dos brancos. Eu estava certa de que, sendo uma mulher negra, tinha de haver algo que eu não entendia.

Recentemente, um amigo que não conseguiu um emprego para o qual havia se candidatado me disse que, como um homem branco, ele estava absorvendo os problemas do mundo. Queria dizer que estava sendo punido pelos pecados de seus antepassados. E desejava que eu soubesse que ele compreendia isso como um fardo a ser suportado. Pensei em lhe dizer que ele precisava dar uma boa olhada na história daquele local de trabalho, dados os desequilíbrios criados por gerações de práticas de contratação antes dele. No entanto,  o que faria meu amigo se sentir melhor? Será que ele entendia que, hoje, 65% dos representantes eleitos são homens brancos, embora correspondam a apenas 31% da população dos EUA? Homens brancos detêm quase todo o poder neste país há 400 anos.

Eu sabia que meu amigo estava tentando manifestar seu esforço para encontrar uma forma de entender a complicada estrutura americana que nos é comum. Queria perguntar a ele se suas expectativas eram um sinal de seu privilégio, mas, uma vez que ele tinha perdido a vaga de emprego, julguei que meu papel como amiga provavelmente exigia outras reações.

Depois de uma série de conversas casuais com meus companheiros de viagem brancos, eu viria a entender o privilégio branco de forma diferente? Eles não poderiam saber o que é ser como eu, embora quem eu sou seja em parte uma resposta a quem eles são, e realmente não acredito que os compreendi, ainda que eles tenham determinado muito do que é possível na minha vida e na vida dos outros. Contudo, já que vivo apenas como eu mesma, uma pessoa que frequentemente precisa negociar com a rejeição consciente e inconsciente, com o apagamento, o desrespeito e o abuso, passei a pensar sobre isso silenciosamente. Como sempre, hesitei.

*

Hesitei quando estava na fila de um voo para o outro lado do país e um homem branco passou na minha frente. Ele estava com outro homem branco. “Com licença”, eu disse, “estou na fila.” Ele deu um passo para trás, mas não antes de dizer ao seu companheiro, “hoje em dia você nunca sabe quem eles estão aceitando na primeira classe”.

Essa declaração era um movimento defensivo para encobrir sua falta de educação e seu constrangimento, ou ele estava brincando comigo? Talvez ele também tenha ouvido a história recente de uma mulher negra que chamou a atenção de uma mulher branca que furava a fila na frente dela, no portão de embarque. Quando a mulher negra disse que estava na fila, a branca respondeu que aquela era a fila da primeira classe. O comentário do homem era uma referência discreta? No entanto, ele não estava rindo. Nem um pouco, nem um sorriso. Impassível.

Quando discuti esse episódio com minha terapeuta, ela me disse achar que a declaração do homem era uma reação ao seu companheiro de voo, não a mim. Eu não importava para ele, ela disse: é por isso que, desde o princípio, ele podia passar na minha frente. Seu constrangimento, se era constrangimento, tinha tudo a ver com a maneira como ele foi visto pela pessoa com quem se importava: o homem branco que o acompanhava. Eu estava me permitindo ter uma presença além da conta na imaginação dele, ela disse. Isso deveria ser um consolo? Minha invisibilidade completa era preferível a um insulto direcionado?

Durante o voo, cada vez que ele retirava ou colocava algo no compartimento de bagagem, olhava para mim. Todas as vezes, ergui os olhos do meu livro para encontrar o olhar dele, e sorri – gosto de pensar que não sou desprovida de senso de humor. Tentei imaginar o que a minha presença provocava nele. Em algum nível, pensei, devo ter conspurcado sua narrativa de que o privilégio branco garantia espaços seguros para brancos. No meu curso, eu tinha incluído “Whiteness as Property”, um artigo publicado na Harvard Law Review em 1993, no qual a autora, Cheryl Harris, argumenta que “o conjunto de presunções, privilégios e benefícios que acompanha o status de ser branco se torna um bem valioso que os brancos tentam proteger”. São essas presunções de privilégio e exclusão que têm levado muitos americanos brancos a chamar a polícia quando veem pessoas negras tentando abrir a porta das próprias casas e carros. O racial profiling3 se torna outro método legalizado de segregar espaços. Harris explica quanto as pessoas brancas confiam nesses benefícios, a ponto de suas expectativas influenciarem a interpretação de nossas leis. Por exemplo, as leis conhecidas como stand your ground4 permitem que os brancos aleguem que o medo os fez matar uma pessoa negra desarmada. Leis de registro eleitoral em certos esta­ dos podem funcionar, na prática, como leis Jim Crow.5 “A lei americana identifica a propriedade como um dividendo da branquitude”, afirma Harris.

No avião, eu queria representar uma nova narrativa que incluísse a branquitude do homem que furou a fila na minha frente. Senti que a branquitude dele deveria ser um componente do que nós dois entendíamos a respeito dele, mesmo que sua branquitude não fosse tudo o que ele é. Sua compreensão inconsciente da branquitude significava que o espaço que eu habitava deveria ser apenas dele. No velho roteiro, a branquitude dele seria ignorada em minha consideração sobre sua falta de educação. Entretanto, um homem rude e um homem branco rude evocam suposições bem diferentes. Assim como uma pessoa branca, quando confrontada por um ser humano negro real, precisa negociar com estereótipos da negritude para conseguir alcançar a pessoa que tem diante de si, eu esperava conceder àquele homem a mesma cortesia, mas ao contrário. Enxergar sua branquitude significava, para mim, entender que minha presença representava, para ele, um rebaixamento inesperado. Se ele se sentia assim, que pena. Ainda assim, eu me perguntava, que “imobilidade” é essa, no interior das hierarquias raciais, que rejeita a neutralidade dos céus? Eu esperava encontrar um jeito de conversar sobre isso.

*

A expressão “privilégio branco” foi popularizada em 1988 por Peggy McIntosh, uma professora da Wellesley College que queria definir “sistemas invisíveis que conferem dominância ao meu grupo”. McIntosh passou a compreender que ela se beneficiava das presunções hierárquicas e políticas simplesmente por ser branca. Eu teria preferido que, em vez de “privilégio branco”, ela tivesse usado o termo “dominância branca”, porque “privilégio” sugere uma primazia hierárquica que era desejada por todos. No entanto, a expressão pegou. O título do ensaio mal cabia na boca: “White Privilege and Male Privilege: A Personal Account of Coming to See Correspondences through Work in Women’s Studies”.6 McIntosh listou 46 formas. “Número 19: posso falar em público para um grupo de homens poderosos sem que minha raça seja posta em julgamento”; “Número 20: posso ir bem numa situação desafiadora sem que digam que sou um orgulho para a minha raça”; “Número 27: após a maioria das reuniões de organizações das quais participo, posso ir para casa sentindo que de certa forma estou integrada, em vez de isolada, deslocada, em minoria, ignorada, mantida a distância ou temida”; “Número 36: se meu dia, semana ou ano vai mal, não preciso me perguntar se cada episódio ou situação negativa tem tons raciais”. Não sei muito bem por que McIntonsh parou no número 46, a não ser como uma forma de dizer “você já entendeu”. Meus alunos eram capazes de acrescentar os próprios exemplos facilmente.

Minhas turmas e eu também estudamos a obra do documentarista branco Whitney Dow. Nos últimos anos, Dow fez parte do Interdisciplinary Center for Innovative Theory and Empirics (Incite), da Universidade Columbia, que reuniu informações de mais de 850 pessoas que se identificam como brancas ou parcialmente brancas, e das comunidades em que elas vivem. Ele gravou mais de cem histórias orais. Essa obra, como a de McIntosh, era outra maneira de refletir sobre como o pensa­ mento hierárquico branco é comum. Perguntei a Dow o que ele aprendeu em suas conversas com os homens brancos. “Eles se esforçam para construir uma narrativa justa para eles mesmos. Conforme chegam novas informações, precisam reestruturar e remodelar suas narrativas, mas não conseguem”, disse. “Eu me incluo nisso”, acrescentou. “Estamos assistindo à desconstrução do arquétipo do homem branco. O indivíduo em cena sempre teve o apoio de um governo genocida, mas essa não é a narrativa com a qual crescemos. Adequar-se é um desafio.”

As entrevistas, reunidas no relatório inicial do Incite, Facing Whiteness, variam muito em termos de experiências e de conhecimento da história dos Estados Unidos. Uma das entrevistadas declara: “O primeiro dono de escravos na América era um homem negro. Como muitas pessoas sabem disso? Os escravos trazidos para a América foram vendidos aos brancos pelos negros. Então eu não sinto que devemos a eles privilégios especiais, a não ser os que todo mundo tem, qualquer outra raça.” Enquanto essa entrevistada nega qualquer privilégio, outro passou a ver como sua branquitude permite sua mobilidade nos EUA: “Eu tenho de aceitar que, por ser homem, provavelmente tive algum tipo de vantagem em determinada situação – estivesse ou não consciente disso no momento”. Ele acrescentou: “Quanto mais tempo eu trabalho na Justiça e mais consciente fico sobre o mundo ao meu redor, mais percebo que definitivamente sou beneficiado por ser descendente de anglo-saxões, ser homem, e estar numa região dos EUA que é meio rural e, por ser rural, é por definição majoritariamente branca, o que significa que de alguma forma eu tenho a preferência”. Esse entrevistado, que reconhece seu privilégio e, de acordo com Whitney Dow, tem sofrido represálias em seu local de trabalho “por seu progressismo”, ainda indica – pelo uso de palavras como “provavelmente” e expressões como “por ser rural, é por definição majoritariamente branca” – que ele acredita que o privilégio branco só entra em jogo em determinadas circunstâncias. A compreensão total incluiria o entendimento de que o privilégio branco vem com a expectativa de proteção e preferência, não importa a região do país onde se viva.

Quanta raiva eu poderia sentir do homem branco no avião, aquele que a cada vez que se levantava me encarava como se olha para uma pedra na qual tropeçou? Entendi que o comportamento do homem também era a sua socialização. A minha socialização tinha, de muitas formas, me preparado para ele. Não fui soterrada pelo nosso encontro porque minha negritude é “consentimento para não ser um único ser”. Essa expressão, que tem origem na obra do escritor caribenho Édouard Glissant mas me foi reapresentada num livro recente do poeta e crítico teórico Fred Moten, aponta para o fato de que posso recusar os estereótipos da negritude criados pelo homem branco, ainda que ele interaja com esses estereótipos. O que eu queria saber era o que o homem viu ou não viu quando deu um passo à minha frente na fila do portão de embarque.

É difícil existir e também aceitar minha falta de existência. Frank Wilderson III, chefe do departamento de estudos afro-americanos na Universidade da Califórnia em Irvine, pega emprestado o termo “morte social” para explicar meu status de estar-mas-não-estar numa sociedade historicamente adversária dos negros. A indignação – se formos generosos, o constrangimento – que provocou o comentário do passageiro branco foi uma reação ao despercebido ocupando espaço; o espaço em si é um dos privilégios subentendidos da branquitude.

*

Eu esperava em outra fila para pegar outro avião noutra cidade quando outro grupo de homens brancos se aproximou. Ao perceberem que teriam de ficar atrás de uma dúzia de pessoas, eles simplesmente formaram sua própria fila perto de nós. Eu disse ao homem branco de pé na minha frente: “Olha, esse é o tamanho do privilégio do homem branco”. Ele riu e continuou sorrindo durante todo o caminho até o seu assento. Ele me desejou um bom voo. Tínhamos compartilhado alguma coisa. Não sei se era a mesma coisa para cada um de nós – o mesmo reconhecimento de um privilégio racializado –, mas eu poderia aceitar aquela forma educada de ininteligibilidade.

Achei os homens de terno que se recusaram a ficar na fila animados e divertidos (e também detestáveis). Observá-los era como assistir a uma peça improvisada em um ato sobre o privilégio branco. Acompanhei o drama. Um ou dois deles davam risadinhas diante da própria audácia. A funcionária no embarque fez um tipo curioso de check-in, mesclando a fila recém-formada com a verdadeira fila. As pessoas na minha fila, quase todas brancas e homens, alternavam-se entre intrigadas e complacentes.

Depois de assistir a essa cena, eu a arquivei para usar como exemplo na minha aula. Como os alunos interpretariam esse momento? Alguns sem dúvida ficariam furiosos com a funcionária branca que permitiu que isso acontecesse. Eu perguntaria por que é mais fácil ficar com raiva dela do que de um grupo de homens. Porque ela não reconhece nem usa seu poder institucional, diria alguém. Com base nas aulas anteriores, eu poderia supor que os alunos brancos seriam rápidos em se distanciar dos homens no portão; a solidariedade branca não tem espaço numa aula planejada para tornar visíveis as posições-padrão da branquitude.

Como professora, senti que essa era uma narrativa que poderia me ajudar a medir o nível de reconhecimento do privilégio branco na turma, porque outras pessoas brancas também se incomodaram com as atitudes desse grupo de homens. Os estudantes não seriam distraídos pelo abuso social de minorias, por­ que todos pareciam incomodados. Contudo, alguns alunos iam querer ver esse momento como marcado pelo gênero, não pela raça. Eu perguntaria se eles seriam capazes de imaginar um grupo de homens negros praticando a mesma ação sem que os homens brancos da minha fila reagissem, ou sem que a funcionária da companhia aérea os questionasse, ainda que eles estivessem no direito deles.

*

Conforme fui ficando cada vez mais frustrada comigo mesma por evitar fazer minha pergunta, eu me questionava se a segregação presumida na primeira classe ou na classe executiva deveria ter sido o Número 47 na lista de McIntosh. Vá em frente, disse a mim mesma. Simplesmente pergunte a um homem branco qual­quer como ele se sente em relação a seu privilégio.

No meu voo seguinte, cheguei perto. Eu era uma mulher negra na companhia de uma maioria de homens brancos, em assentos que permitiam tanto proximidade quanto espaços separados. A comissária de voo trouxe bebidas para todos ao meu redor, mas esqueceu meu suco de laranja mais de uma vez. Convencendo a mim mesma de que suco de laranja é açúcar e ela pode estar fazendo um favor para meu corpo recuperado de um câncer, apenas balanço a cabeça quando ela se desculpa pela segunda vez. Na terceira vez que ela passa sem o suco, o homem branco sentado perto de mim diz a ela: “Isso é inacreditável. Você já me trouxe duas bebidas desde que ela pediu a dela.”

Ela voltou imediatamente com o suco.

Agradeci a ele. Ele disse: “Ela não é boa para esse trabalho”. Não respondi: “Ela não se esqueceu das suas bebidas. Ela não se esqueceu de você. Você está sentado ao lado de ninguém neste não lugar.” Em vez disso, eu disse: “Ela apenas gosta mais de você”. Talvez ele tenha pensado que eu falava especificamente dele e corou. Ele entendeu que fiz uma piada sobre o privilégio do homem branco? Não parecia. O rubor subiu pelo seu pescoço até as bochechas, e ele aparentava timidez e prazer ao mesmo tempo. Colocou as duas mãos no rosto, como para conter o calor desse prazer constrangedor.

“Indo ou vindo?”, ele perguntou, mudando de assunto. “Estou voltando de Joanesburgo.”

“Sério?”, ele respondeu. “Eu estava na Cidade do Cabo.”

Por isso me defendeu, pensei sem generosidade. Por que esse pensamento me veio à cabeça? Eu mesma sou excessivamente definida pela minha raça. É possível evitá-lo? É um problema? Eu criei o problema ou me foi dado um problema?

Enquanto olhava para o homem no assento 2B, eu me perguntava se meu posicionamento histórico estava transformando a humanidade dele em prova da dominância do homem branco. Os homens brancos são excessivamente definidos, aos meus olhos, pela cor de sua pele? Eles estariam sendo obrigados, como meu amigo supôs, a absorver os problemas do mundo?

Durante o longo voo, não mencionei o privilégio do homem branco, não fiz piadas novamente, pelo contrário. Em vez disso, vagamos pelas nossas memórias recentes da África do Sul e conversamos sobre o resort onde ele se hospedou e o safári que fiz. Não falei de Soweto ou do Museu do Apartheid que visitei em Joanesburgo nem do memorial do linchamento em Montgomery, no estado americano do Alabama, do qual o Museu do Apartheid me fez lembrar. Eu queria, dessa vez, que meu companheiro de viagem começasse uma conversa sobre o seu privilégio. Ao menos uma vez. Queria que ele refletisse sobre sua branquitude, especialmente porque ele estava indo embora da África do Sul, um país que tinha sofrido, como disse James Baldwin, “da mesma ilusão que os americanos sofrem – a de que eram um país branco”. Mas eu imaginava que ele sentia que, quanto menos falasse sobre as relações raciais nos Estados Unidos e na África do Sul, mais a nossa interlocução seria possível. Essa era, em todo caso, a minha fantasia.

Em casa, quando mencionei esses encontros para o meu marido, branco,  ele se divertiu. “Eles estão na defensiva”, disse. “Fragilidade branca”, acrescentou, dando risada. Esse homem branco que passou os últimos 25 anos ao meu lado acredita entender e reconhecer o próprio privilégio. Certamente ele sabe a terminologia correta a ser usada, mesmo quando esses termos preestabeleci­ dos impedem que tropecemos em momentos de verdadeiro reconhecimento. Expressões como “fragilidade branca”, “defesa branca” e “apropriação branca” estão sempre a postos para substituir a confusão generalizada própria de uma conversa para valer. Naquele momento, em vez disso, ele queria discutir nosso atual presidente. “Aquilo”, ele disse, “é um caso evidente de indignação e raiva diante de um privilégio óbvio. Poder real. Consequências reais.” Ele não estava errado, claro, mas se juntou a todos os homens brancos “conscientes” que veem seu privilégio como algo externo a eles – como quem diz: “Sei que não devo ser ignorante ou defensivo em relação a meu privilégio”. Não importa que essa capacidade de se deslocar do padrão da dominância do homem branco seja o privilégio. Não é possível escapar do reino, do poder e da glória.

*

Finalmente, eu estava pronta para perguntar sobre privilégio branco a um estranho, sentado ao meu lado perto do portão de embarque. Ele tinha começado nossa conversa se dizendo frustrado com mais um atraso. Juntos, compartilhamos aquela frustração. Mais cedo ou mais tarde ele perguntou o que eu fazia, e contei que era escritora e professora. “Onde você dá aula?”, ele perguntou. “Yale”, respondi. Ele me contou que seu filho queria ir para lá, mas não tinha sido aceito no processo antecipado de inscrições. “É difícil quando você não pode apelar para as cotas”, acrescentou.

Ele estava pensando alto? As palavras apenas escaparam de sua boca antes que ele pudesse contê-las? Era essa a inocência do privilégio branco? Ele estava me provocando? Estava ostentando seu privilégio branco na minha cara? Eu de­ veria perguntar a ele por que tinha a expectativa de que seu filho fosse aceito com antecedência, sem atraso, sem pausa, sem espera? Eu deveria ter perguntado como ele sabia que uma pessoa de cor “pegou” a vaga do filho dele, e não outro filho branco de um desses muitos homens brancos sentados ao nosso redor?

Talvez eu estivesse prendendo a respiração. Decidi apenas respirar.

“Os asiáticos estão invadindo a Ivy League”, acrescentou depois de um instante. Talvez a explicação tivesse a intenção de deixar claro que agora ele não estava falando de pessoas negras e suas formas de ação afirmativa. Ele tinha se lembrado de algo. Ele se lembrou de quem se sentara ao lado dele.

Então eu fiz. Eu perguntei. “Tenho pensado no privilégio do homem branco, e me pergunto se você pensa sobre o seu privilégio, ou o do seu filho.” Quase pareceu um non sequitur, mas ele acompanhou.

“Eu não”, respondeu. “Trabalhei duro por tudo o que tenho.”

Qual era aquela justiça da qual o juiz Brett Kavanaugh falara em sua audiência de confirmação para a Suprema Corte? “Entrei na faculdade de direito de Yale.

É a escola de direito número um do país. Eu não tinha contatos lá. Cheguei lá ralando muito.” Ele aparentemente acreditou nisso apesar de o avô dele ter estudado em Yale. Eu não pode­ ria supor, olhando para aquele homem sentado ao meu lado, mas fiquei me perguntando se ele era mais um branco étnico do que um branco anglo-saxão protestante. Em Whiteness of a Different Color, o historiador Matthew Frye Jacobson analisa que “o século 20 reconsolidou os ‘celtas, eslavos, hebreus e mediterrâneos’ do século 19”. Na década de 1940, de acordo com David Roediger, “devido a padrões de casamento entre etnicidades e a imperativos da Guerra Fria”, os brancos pararam de se dividir hierarquicamente dentro da branquitude e começaram a se identificar como caucasianos construídos socialmente.

Eu me dirigi ao homem: “E se eu disser que não estou me referindo a gerações de prosperidade econômica e conexões sociais?”. Perguntei se ele costumava ser parado quando passava pela Transportation Security Administration (TSA). “Geralmente, não”, ele disse. “Tenho Global Entry.”7

“Eu também”, disse, “mas ainda assim sou parada.” A “aleatoriedade” do racial profiling é um fenômeno sobre o qual eu poderia falar indefinidamente, mas me contive naquele dia. “Você consegue se mover, entrar e sair de espaços públicos sem ser questionado sobre por que está lá?”, perguntei. “As pessoas se viram para você rapidamente, perguntando como podem ajudar?” Eu sabia a resposta, mas perguntei assim mesmo, porque queria expor a dinâmica da qual ele se beneficia.

Ele disse que entendia o meu ponto de vista. Eu queria dizer: “Não é que seja o meu ponto de vista, é a sua realidade”, mas a frase soaria agressiva. Eu queria continuar conversando com esse homem, e eu sabia que minha raça e meu gênero significavam que ele estava sendo cauteloso comigo e com minhas perguntas – perguntas que poderiam levar à palavra “racista” ou “machista”. Se ao menos a cor da pele não tivesse, por si só, tanto poder premonitório.

Eu não queria que nossos diferentes posicionamentos históricos descarrilhassem nossa conversa, que já estava tensa. Eu queria entender algo que me surpreendesse com esse estranho, algo que eu não soubesse de antemão. Então a ficha caiu. Não havia tempo suficiente para desenvolver confiança, mas todo mundo gosta de um ouvinte. “Você está indo ou voltando?” é a pergunta mais neutra e respeitosa para o viajante. Então eu perguntei. Ele estava voltando para casa.

A palavra “casa” o fez voltar ao filho. Ele disse que o melhor amigo de seu filho era asiático e foi aceito em Yale numa early action, early decision ou early admission – nem eu nem ele sabíamos o termo correto8. Imaginei como ele havia consolado seu filho. Terá usado o “apelo às cotas”, como fez comigo? Eu não queria mais discutir políticas de admissão nas universidades. Queria que a conversa seguisse outro rumo, mas de alguma forma me tornei uma representante de Yale, não uma estranha sentada ao lado de um estranho.

Eu me lembrei que estava ali só para ouvir. O homem era profundamente sincero, e é claro que se sentiu inseguro em relação ao futuro do filho. No entanto, se Yale ainda era uma opção, o cenário não poderia ser tão sombrio. Não pense, lembrei a mim mesma. Saiba o que é ter filhos. Saiba o que é amar. Saiba o que é ser branco. Saiba o que é esperar por aquilo que as pessoas brancas sempre tiveram. Saiba o que é se ressentir. Isso é injusto? Não há lugar para o ressentimento aqui. Saiba o que é ser branco. Isso é falta de generosidade? Não sei. Não pense.

Não perguntei a esse homem branco por que ele achava que seu filho merecia mais do que o amigo asiático a vaga em Yale. Não queria que ele sentisse que precisava defender o valor ou a inteligência de seu filho para mim. Eu queria que o filho dele prosperasse. De verdade. Se o filho dele chegasse na minha aula, eu o ajudaria a dar tudo de si. Quanto mais o filho dele tivesse êxito em Yale, mais eu me alegraria por nós. Se o filho dele dissesse na minha aula que entrou em Yale porque muitos de seus professores brancos desde o jardim de infância exageraram a respeito de sua inteligência, eu o interromperia, como já fiz no passado, e diria: “Não, você entrou em Yale e você tem a capacidade de entender que muitos fatores contribuíram para sua admissão”.

Processos de admissão em universidades não podem ser debatidos em termos definitivos; eles são cheios de áreas cinzentas, e essas áreas cinzentas geralmente se inclinam em direção ao branco, ainda que muitos brancos sejam recusados. Sabemos disso. De repente, eu estava relutante em ter uma conversa sobre espaços percebidos como brancos e sensação de merecimento ou, Deus me perdoe, ação afirmativa, o que poderia, é claro, encher o espaço entre nós com pessoas negras e de cor,9 eu inclusive. Em vez disso, falei: “Aonde quer que o seu filho vá, vai se dar bem, e em cinco anos nada disso vai fazer muita diferença”. E foi nesse momento que reconheci a minha exaustão. Então percebi que, na verdade, nós estávamos no meio de uma discussão sobre a sensação de perda do privilégio do homem branco. Eu estava envolvida nessa perda? Ele achava isso?

*

Não muito tempo depois, eu estava em outro voo, sentada perto de um homem branco que me dava a sensação de que já éramos amigos. Nossa conversa era fácil como um bate-bola num fim de tarde de outono. Ou como sair de casa no final da primavera e, de repente, perceber que sua pele não sente mais a diferença entre a temperatura do lado de dentro e a do lado de fora. A resistência cai; seus ombros relaxam. Eu estava, metaforicamente, feliz ao ar livre com esse homem, que era receptivo, curioso e bem-humorado. Ele falava da esposa e do filho com verdadeiro carinho. E, embora ele estivesse comigo num avião, eles também estavam ali conosco. O pai dele era um professor universitário; a mãe, uma grande mulher.

Ele perguntou quais eram meus músicos favoritos, e eu fa­lei dos Commodores por causa da canção “Nightshift”, que basicamente é uma elegia. Ele gostava de Bruce Springsteen, mas “Nightshift” também era uma de suas músicas preferi­ das. Cantamos juntos: “I still can hear him say/ Aw talk to me so you can see/ What’s going on.”10 Quando ele me perguntou se eu conhecia uma determinada canção de Springsteen, admiti que não. Só consegui pensar em “American Skin (41 Shots)”: “No secret my friend/ You can get killed just for living in your American skin.”11 Eu sabia essa letra, mas não comecei a cantar. Pensei comigo que tinha que lembrar de pesquisar a canção de Springsteen de que ele gostava.

A certa altura ele comentou comigo que estava trabalhando com diversidade em sua empresa. “Ainda temos muito o que melhorar”, ele disse. E então se repetiu – “ainda temos muito o que melhorar” –, acrescentando: “Para mim, cor não existe”. Essa é uma afirmação típica de pessoas brancas bem-intencionadas que, amparadas em seus privilégios e num desejo cego, se projetam num futuro em que as criancinhas negras serão julgadas não “pela cor de sua pele, mas por seu caráter”.12 A expressão “cor não existe” disparou um alarme no meu cérebro.

Como você pode falar em diversidade se cor não existe, eu me perguntei. Você vai contar a sua esposa que teve uma boa conversa com uma mulher ou com uma mulher negra? Socorro.

Tudo o que consegui pensar em dizer foi: “E eu não sou uma mulher negra?”. Fiz a pergunta lentamente, como se estivesse testando a qualidade do ar. Ele teria captado a referência a Sojourner Truth?13 Ou achou que a construção agramatical era um sinal de negritude? Ou pensou que eu estava debochando do que as pessoas brancas entendem por inteligência negra? “Você não é um homem branco?”, perguntei então. “Porque, se você não é capaz de ver diferenças raciais, não consegue ver o racismo.” Repeti essa frase que eu lera pouco tempo antes em White Fragility, de Robin DiAngelo.

“Entendi”, ele disse. O tom era solene. “Que outras coisas estúpidas eu disse?”

“Só essa”, respondi.

Eu me recusei a deixar que a realidade na qual ele insistia fosse a minha realidade. E estava satisfeita por não ter suavizado aquele momento, satisfeita por poder dizer “não” aos mecanismos silenciadores dos bons modos, satisfeita por ele não precisar abrir um canal de reclamações. Estava satisfeita por ele não fazer bullying passivo. Estava satisfeita que ele pudesse suportar a perturbação da minha realidade. E foi bem as­ sim que nós começamos a nossa conversa – aleatória, comum, exaustiva e carregada de um desejo compartilhado de habitar espaços menos segregados.

 

NOTAS

  1. Redlining é a prática de recusar empréstimos bancários, hipotecas ou seguros de saúde a pessoas que moram em regiões pobres, especialmente as habitadas por maiorias não brancas. [N. da T.]
  2. Trevor Noah e Stephen Colbert são comediantes, comentaristas políticos e apresentadores de programas da TV norte-americana, respectivamente, The Daily Show e The Late Show with Stephen Colbert. Noah nasceu na África do Sul durante o apartheid, filho de uma relação interracial então considerada ilegal; e suas piadas abordam questões como racismo, machismo e privilégios. [N. da T.]
  3. Racial profiling é a tática de criar perfis comuns de criminosos para definir características que tornem as abordagens policiais mais efetivas. No entanto, devido ao histórico de encarceramento de pessoas mais pobres, o estereótipo de negros e latinos como criminosos é reforçado. [N. da T.]
  1. Stand your ground (defenda sua terra): leis que autorizavam proprietários de terra a atirar em invasores ou em supostas ameaças como forma de legítima defesa. [N. da T.]
  2. Assim ficaram conhecidas as leis estaduais que regulamentavam a segregação racial e a restrição de direitos civis de pessoas negras no sul dos EUA. Jim Crow era um personagem popular de teatro que reforçava estereótipos racistas. [N. da T.]
  3. “Privilégio branco e privilégio masculino: um relato pessoal de passar a ver correspondências através do trabalho com estudos das mulheres.” [N. da T.]
  4. As TSA são guichês de controles de entrada nos Estados Unidos em que são feitas checagens de documentação e vistos. Passageiros que fazem viagens internacionais com frequência podem pagar pela Global Entry, serviço que facilita o acesso a agentes da imigração sem longas filas. [N. da T.]
  5. Early action e early decision são regimes de admissão na universidade americana em que os candidatos podem postular vagas no ano anterior ao início das aulas, ganhando tempo para pleitear financiamentos ou outros benefícios. Dependendo do modelo, uma vez aceitos, podem ou não disputar a entrada em outras instituições. [N. do E.]
  6. “Pessoas de cor” é um termo abrangente para se referir a indígenas, latinos, asiáticos, pessoas que não são negras, mas experimentam algum tipo de discriminação racial. [N. da T.]
  7. “Ainda consigo ouvi-lo dizer/ Oh, fale comigo, assim você consegue ver/ O que está acontecendo.” A canção faz referência a “What’s Going on?”, de Marvin Gaye. [N. da T.]
  8. “Não tem segredo, meu amigo/ Você pode morrer somente por viver numa pele americana.” [N. da T.]
  9. Referência ao discurso de Martin Luther King que ficou conhecido como “Eu tenho um sonho”, proferido em agosto de 1963, numa manifestação contra a segregação racial nos Estados Unidos. [N. da T.]
  10. Em 1851, na Women’s Convention de Akron, Ohio, Sojourner Truth fez um discurso que ficou conhecido pelo título de Ain’t I a Woman, pergunta que fez para o público reiteradas vezes a fim de demonstrar como mulheres brancas e negras eram vistas socialmente de maneiras diferentes. Em inglês, “ain’t” é uma construção coloquial muitas vezes associada a pouca educação formal. [N. da T.]

 

Claudia Rankine (1963) nasceu na Jamaica e radicou-se nos Estados Unidos. Desde 2018 é Frederick Iseman Professor de poesia em Yale. Por Citizen, an American Lyric, que teve fragmentos publicados na serrote #28 e será lançado pela editora Jabuticaba, venceu em 2015 o National Book Critics Circle Award em poesia – sendo o primeiro livro na história do prêmio também indicado na categoria “ensaio”, dada a natureza híbrida de seus textos. Este ensaio, antecipado pela The New York Times Magazine, faz parte de seu próximo livro, Just Us

Tradução de Stephanie Borges

 

Uma resposta para Eu queria saber o que os homens brancos pensavam de seu privilégio. Então perguntei – por Claudia Rankine

  1. Paulo Roberto da Costa disse:

    li esse ensaio com tamanha atenção, quase um mergulho em águas profundas e revoltas. Como negro, brasileiro, vivendo esse momento tão complicado das questões raciais, tanto no Brasil, quanto nos EUA, fico imaginando: será possível, um dia, que tudo isso seja uma história a ser contada, todavia, não mais vivida.

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