A face animal da brutalidade racista – por Hélio Menezes

A face animal da brutalidade racista

por HÉLIO MENEZES

Ao empunhar a cabeça de um porco, manifestante de Minneapolis atualiza o simbolismo do animal como encarnação do inimigo, redistribuindo a violência na disputa das imagens e narrativas visuais

Este artigo faz parte da série #IMSquarentena, que reúne ensaios do acervo, colaborações inéditas e uma seleção de textos que ajudem a refletir sobre o mundo em tempos de pandemia

Protesto contra o assassinato de George Floyd pela polícia em Minneapolis (Jeff Wheeler/Star Tribune via AP/27-05-20)

 

O homem ergue uma cabeça de porco, segurando-a pelas orelhas com suas próprias mãos, como se uma bandeira fosse. É um aviso. É também um amuleto. O registro, realizado em Minneapolis por Jeff Wheeler no segundo dia de protestos após o assassinato de George Floyd, tem circulado nas redes sociais ao lado de dezenas de fotografias de prédios em chamas e outras cenas impactantes das revoltas raciais que tomaram os EUA – e se espalharam feito pólvora pelo mundo.

Esta imagem, porém, e em especial, é forte e simbólica demais para não nos abalarmos. A peça flácida do suíno decapitado, tão branca, tão rosada, moribunda, em tudo contrasta com o rosto negro do sujeito que a empunha pouco acima e à frente de sua própria cabeça. A feição dele é séria, vívida; os olhos compenetrados, a boca cerrada, os punhos fechados (um gesto clássico do orgulho negro) e a altivez da postura evocam sentimentos de revolta e serenidade em igual medida; e remetem àquele estado de espírito próprio de quem, em meio à violência, encontra caminho de organizá-la e devolvê-la, como pode, àqueles que a perpetram continuamente contra si – nem que seja como signo.

As pessoas ao redor, homens e mulheres, negros e brancos, máscaras no rosto e celulares na mão – objetos que se tornaram espécie de extensões-ciborgue do corpo em tempos pandêmicos, escudos indispensáveis para quem hoje vai às ruas -, registram o contraplano da imagem. Não podemos vê-lo, mas os elementos dispostos nos permitem inferir com segurança do que se trata: é a polícia que está do outro lado, do lado de lá, empunhando suas armas e demais tecnologias de violência.

Ilustração de Emory Douglas para jornal dos Panteras Negras, em novembro de 1969

E é contra ela, para ela, que este homem em trajes pretos exibe o porco esfolado. Ceci n’est pas um porco, porém. Não um porco qualquer, ao menos. “Pig” é justamente uma gíria empregada para designar, de modo ofensivo, agentes policiais nos EUA. A associação também está fortemente presente na cultura visual norte-americana, tendo encontrado nas gravuras de Emory Douglas dos anos 1960 e 1970 um discurso visual poderoso que atrelou em definitivo o pobre mamífero à figura da polícia racista. Se no plano do real a violência genocida da polícia tem tornado vidas negras alvos da repressão, do encarceramento e da morte, no plano reversivo do simbólico é o animal-policial que aparece abatido, vencido, inanimado. Nos jornais dos Panteras Negras de ontem, como na foto do Star Tribune de Minneapolis à qual voltamos nossos olhos agora.

A estratégia de redistribuição da violência por meio da disputa de imagens e narrativas visuais é parte integrante e de longa data das lutas negras nos EUA e em todo lado. Esse jogo de inversões torna a composição fotográfica ainda mais intrigante. A cabeça do bicho e o rosto do homem, alinhados, formam um paralelo perturbador com a imagem que, de certo modo, a originou: o infausto vídeo no qual vemos, no rosto do policial Derek Chauvin, enquanto pressiona a cabeça de George Floyd até sufocá-lo, a face perversa do insustentável racismo institucional fardado. Na foto, como no vídeo, o contraste e as posições das cabeças brancas e negras saltam aos olhos.

E remetem a outra imagem poderosa, embora menos conhecida. Trata-se de Bitwa in San Domingo (1845), tela do polonês January Suchodolski que projeta, algumas décadas depois, como teria se desenrolado uma das batalhas do processo de guerras de independência do Haiti. Processo que, na virada do século 18 para o 19, transformou a colônia açucareira mais lucrativa do império colonial francês no primeiro país do Novo Mundo a abolir a escravidão. A pintura, pouco afeita ao realismo dos fatos, não escapa do olhar colonial de seu contexto. Imagina um exército negro desorganizado, descamisado, portando armas rudimentares, em oposição a um exército europeu enfileirado, bem vestido, a cavalo. Do lado esquerdo da tela, um soldado negro, provavelmente ex-escravizado, empunha a cabeça de um homem branco – uma maneira de o pintor ilustrar a suposta selvageria e violência dos abolicionistas e independentistas da então ilha de São Domingos, cuja fama assustou a Europa e abalaria todo o sistema colonial, inspirando revoltas escravas no Caribe e no continente americano afora.

“Bitwa in San Domingo” (1845), de January Suchodolski

Num jeito de corpo que evoca os braços estendidos do homem da foto em Minneapolis, também o soldado da tela, em gesto altivo, segura a cabeça flácida pouco acima e à frente de seu rosto, formando um paralelo, para e contra o exército branco que o encara. Em ambas imagens, à moda dos antigos rituais de sacrifício e expurgo, as partes decapitadas parecem funcionar como amuleto apotropaico, oferecidas para afastar desgraças e infortúnios. Conta-se, aliás, que a revolução haitiana teria começado na noite secreta da cerimônia de Bois Caïman, um grande ritual Vodu que, segundo a história oral ainda hoje recontada no Haiti, reuniu centenas de escravizados para, após o sacrifício ritual de um porco – vejam só! – deflagrar as revoltas que culminariam na abolição da escravatura.

Quiçá daí, quem sabe, e dos outros tantos relatos e boatos de decapitação de soldados brancos, de porcos imolados para a proteção física e espiritual de escravizados negros, Alejo Carpentier tenha encontrado fonte para a abertura de seu O reino deste mundo (1985), em que recria, literária e imaginativamente, os anos sangrentos da revolução haitiana. Ti Noel, personagem da trama, talvez sirva de boa alcunha a esses dois sujeitos negros que, como Ogum, cortam a cabeça dos opressores e as exibem, sem medo – na velha batalha de São Domingos ou nas novas batalhas de Minneapolis. O trecho vale a citação:

“Enquanto o amo fazia a barba, Ti Noel pôde contemplar a seu gosto as quatro cabeças de cera que adornavam a estante da entrada. O ondulado das perucas enquadrava os semblantes imóveis, antes de se espalhar, num remanso de crespos cachos, sobre um tapete encarnado. Aquelas cabeças pareciam tão reais — embora tão mortas, pela fixidez dos olhos — quanto a cabeça falante que um charlatão de passagem pelo Cabo tinha trazido, anos atrás, para ajudá-lo a vender um elixir contra dor de dente e reumatismo. Por graciosa casualidade, o açougue ao lado exibia cabeças de terneiro, esfoladas, com um raminho de salsa sobre a língua, que também tinham o mesmo tom de cera, e estavam como que adormecidas entre rabos escarlates, patas em gelatina e tripas à moda de Caen. Apenas um tabique de madeira separava os dois mostruários, e Ti Noel se divertia pensando que ao lado das cabeças de terneiro descoradas serviam-se, na toalha da mesma mesa, as cabeças de brancos senhores.”

 

Hélio Menezes (1986) é antropólogo, atua como curador, crítico e pesquisador. É curador de arte contemporânea do Centro Cultural São Paulo.