A quarentena interminável do racismo – por Brandi T. Summers

A quarentena interminável do racismo

por BRANDI T. SUMMERS

Com o isolamento social a população branca dos EUA experimenta, de forma transitória, a política que o país perpetua em relação aos cidadãos negros

Este texto faz parte da série #IMSquarentena, que reúne ensaios do acervo, colaborações inéditas e uma seleção de textos que ajudem a refletir sobre o mundo em tempos de pandemia

Homenagem a Ahmaud Arbery perto do local onde ele foi morto, na Geórgia (EUA), em fevereiro/Foto:Dustin Chambers/Reuters

 

Em 23 de fevereiro, um homem negro de 25 anos chamado Ahmaud Arbery saiu de sua casa em Brunswick, no estado americano da Georgia, para correr na tarde de domingo. Ao entrar num condomínio nas imediações, foi seguido e morto a tiros por um pai e um filho enquanto o vizinho deles registrava o incidente no celular.

O crime de Arbery, o de correr sendo uma pessoa negra, retrata uma história de monitoramento e confinamento raciais imposta pelo Estado americano e apoiada pelos brancos, que detêm os meios e a oportunidade de causar grande mal.

Recentemente, o coronavírus me fez pensar bastante sobre a dinâmica racial do confinamento. Sob a quarentena, muito se tem falado acerca da imobilidade compulsória dos cidadãos do país. Mas há muito nossas cidades mantêm seus moradores negros confinados e marginalizados geograficamente. Populações circunscritas a determinado local são mais facilmente policiadas e exploradas do ponto de vista econômico. O capitalismo e a imobilidade operam de mãos dadas.

O Estado americano restringe a mobilidade dos cidadãos negros pelo menos desde a época da escravidão. Esses regulamentos incluíam o arrendamento de condenados,1 os chamados Black Codes,2 leis contra a vadiagem, a prática do redlining,3 zoneamento racial, alterações (legais e ilegais) nos limites das zonas eleitorais, o sistema penitenciário e o monitoramento ampliado. Essa história criou cidades inteiras construídas para manter encurraladas a força de trabalho e a presença das pessoas negras.

Pode-se mesmo considerar que as pessoas negras vivenciam uma espécie de quarentena interminável – e, de fato, isso transparece no fato de que a origem das chamadas Leis de Jim Crow4 tenham sido em parte pela preocupação de que os negros espalhassem o “contágio” de doenças como a tuberculose e a malária. O movimento em prol da eugenia, muito popular no início do século 20, levou médicos e cientistas a atribuir o estado precário de saúde da população negra antes à inferioridade fisiológica, biológica e moral do que a causas estruturais como a pobreza e o racismo.

Há quase um século, meus avós escaparam do Sul segregado, juntando-se às milhões de famílias negras que se mudaram para o Norte e para o Oeste durante a Grande Migração. Por mais longe que tenham ido, encontraram a mesma coisa: não a liberdade, mas o confinamento. Mesmo em algumas das cidades mais “progressistas” dos Estados Unidos, como São Francisco, onde minha família fincou raízes, os as pessoas negras eram relegadas a bairros com moradias deficientes, escolas superlotadas e empregos com baixa remuneração. A polícia estava em toda parte.

A população negra tem sido educada desde sempre numa espécie de quarentena.

A mobilidade continua a ser, no entanto, uma parte relevante da narrativa americana sobre a liberdade. O tom e a natureza dos protestos contra a quarentena não deveriam nos surpreender, uma vez que os brancos foram acostumados a gozar de uma ilimitada liberdade de movimento.

Pense nos chocantes contrastes entre a arquitetura e a evolução dos grandes conjuntos residenciais e das cidades-dormitório criadas na década de 1950. Dois resultados muito distintos – um negro e um branco – a partir de um objetivo aparentemente igual: proporcionar moradias a um custo razoável.

Os negros ficaram confinados em torres mal conservadas, como o notório conjunto Pruitt-Igoe, em St. Louis, que as mantiveram muito longe das vias principais e dos transportes públicos da cidade. Os 33 prédios do conjunto eram tão inabitáveis que precisaram ser demolidos apenas duas décadas mais tarde.

Enquanto isso, subúrbios ocupados somente por brancos, como Levittown, no estado de Nova York, também receberam subsídios governamentais, mas foram generosamente planejados com gramados na frente das casas, parques públicos e largas calçadas.

As próprias autoestradas e avenidas que permitiram aos moradores de subúrbios brancos como Levittown ir e voltar rapidamente das cidades destruíram bairros negros, cortando-os ou mesmo arrasando-os inteiramente.

Hoje, muitas dessas estradas estão sendo reformadas segundo os padrões do “novo urbanismo”, abrindo-se espaço para mais ciclovias ou calçadas mais largas. No entanto, quem será mais beneficiado com isso? A população mais rica e mais branca que deseja melhor acesso ao centro gentrificado de uma cidade, que se possa percorrer a pé.

Quando os habitantes negros podem se mover livremente pela cidade, tal mobilidade é com frequência controlada pela localização das residências e monitorada pela polícia e por empresas de segurança privada. Além do mais, o livre movimento das pessoas negras serve apenas para que elas funcionem como mão de obra barata.

Atualmente, as cidades estão pedindo, exigindo e mesmo coagindo cidadãos negros a suportar o ônus do trabalho essencial, sem no entanto protegê-los em troca disso. A mobilidade de que as pessoas desfrutam tem como finalidade, antes de mais nada, permitir a execução de funções mal pagas, agora reconhecidas como “essenciais” por beneficiarem diretamente as infraestruturas brancas.

Somada à alta densidade populacional dos bairros negros, essa é uma das razões pelas quais verificamos um número tão expressivo de pessoas negras entre as vítimas mortais da covid-19 em lugares como Detroit, Chicago, St. Louis, Richmond (Virginia) e Washington (Distrito de Columbia). Outra razão é a disparidade racial em matéria de testes e tratamento. Em Illinois, menos de 10% das pessoas testadas para o coronavírus são negras. Mas, entre as que testam positivo, 18% são negras. E, entre as que morrem, impressionantes 32% são negras.

Para piorar, alguns hospitais recusaram moradores negros, levando-os à morte, apesar de terem os mesmos sintomas de brancos que recebem testes e tratamento. Isso sugere que o preconceito tem um peso considerável. Se as cidades testassem todos os moradores, o tratamento não dependeria de nenhuma ideia preconcebida sobre quem merece ou não cuidados.

O historiador Nikhil Pal Singh recentemente observou que a “pandemia não dará origem à transformação social de que necessitamos, porém estabelecerá os termos para tal”. A história da quarentena das pessoas negras oferece nosso plano ao avesso. Reações que não levam em conta a questão racial só fazem piorar os problemas.

Em vez de salvar corporações, precisamos de um esforço para socorrer as pessoas baseado no aumento dos gastos públicos para garantir acesso igualitário à educação, à moradia a preços razoáveis e a transportes. Um plano que cubra licenças para tratamento de saúde e assistência médica para todos.

O Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano declarou uma moratória temporária nas execuções de hipotecas endossadas pela Administração Federal de Habitação e nos despejos de unidades de habitação popular. Várias cidades ofereceram soluções semelhantes para seus moradores mais vulneráveis, e outras medidas ainda são esperadas. Os despejos afetam desproporcionalmente a população negra, sobretudo as mulheres negras que padecem da falta de teto em taxas alarmantes.

As cidades e o governo federal também deveriam formular um plano para o perdão abrangente de dívidas. Isso facilitará que os trabalhadores essenciais paguem os custos cada vez mais altos de educação, alimentação e transporte. Medidas como essa contribuiriam efetivamente para o crescimento de nossa economia ao conceder recursos para que as pessoas levem uma vida saudável.

Pedimos que nossas cidades sejam inteligentes, mas estamos pedindo que sejam justas? Falamos em acessibilidade de formas simbólicas, porém não refletimos sobre os fatores geográficos da desigualdade que derivam de estabelecer uma cidade dotada de mobilidade e impulsionada pela tecnologia. A cidade criativa e progressista – com bons restaurantes, bicicletas compartilhadas e parques apinhados de gente – depende dos mesmos trabalhadores negros que ela relega para suas margens.

Podemos até aprender uma lição com os manifestantes que exigem, erroneamente, o fim da quarentena. Podemos lutar para abrir nossas cidades – política, econômica e racialmente – com a mesma energia que eles estão empregando para abrir nossas ruas. Precisamos criar soluções que beneficiem as massas, não uns poucos escolhidos. O verdadeiro fim da quarentena exige o fim das cidades que impõem quarentenas. Pode não ser o melhor que sejamos capazes de fazer, mas é o mínimo que podemos pedir.

 

NOTAS

[1] Sistema de trabalho penal praticado no Sul dos Estados Unidos pelo qual os detentos, em sua maioria negros, eram alugados para servir em plantações e empresas.

[2] Leis instituídas nos estados sulinos após a Guerra Civil com vistas a regular a conduta de negros livres, limitando sua liberdade e obrigando-os a trabalhar com baixos salários.

[3] Negação sistemática de vários serviços (sobretudo financeiros) por agências governamentais e empresas privadas a residentes, sobretudo negros, de determinados bairros ou comunidades.

[4] Legislações estaduais e locais que impuseram a segregação racial, promulgadas em fins do século XIX e aplicadas até 1965.

 

Brandi T. Summers é professora assistente de geografia e estudos metropolitanos globais na Universidade da Califórnia em Berkeley, e autora de Black in Place: The Spatial Aesthetics of Race in a Post-Chocolate City.

Tradução de Jorio Dauster

 

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