Links da quarentena: o livro ‘terrível’ de Žižek e um diário da China

Links da quarentena: o livro ‘terrível’ de Žižek e um diário da China

Toda sexta-feira, a serrote indica textos sobre a pandemia publicados ao longo da semana no Brasil e no mundo. Nesta edição, os palpites do filósofo Slavoj Žižek sobre a covid-19, o diário de um professor brasileiro em Pequim, um dicionário de ‘coronês’ e muito mais. 

Esta seção é parte da série #IMSquarentena, com ensaios do acervo, colaborações inéditas e uma seleção de textos que ajudem a refletir sobre o mundo em tempos de pandemia. 

“Chegou o primeiro livro sobre o coronavírus, e é terrível”, provoca esta resenha sobre a nova obra do filósofo esloveno Slavoj Žižek, uma reunião de palpites sobre a pandemia intitulada Pandemic! – com exclamação. O livro reúne 13 textos breves que discutem desde a onda de pânico em torno do vírus até as respostas de filósofos à crise. A tese central de Žižek é de que a pandemia provou o valor de medidas antes demonizadas por serem “comunistas”, como renda básica e acesso universal à saúde. Até aí tudo bem, pondera o resenhista, que encrencou mesmo foi com a ligeireza do filósofo e com a idealização da quarentena como oportunidade para contemplar um mundo menos consumista: “Que monstruosa sugestão a de que, em meio às mais de 2.500 mortes em Wuhan[,] ele pode encontrar consolo no fato de a maquinaria da banalidade cotidiana ter sido temporariamente interrompida”. Os leitores brasileiros poderão julgar por si mesmos na edição digital lançada aqui pela Boitempo com o título (sem exclamação) Pandemia: covid-19 e a reinvenção do comunismo.

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A maneira como o coronavírus expõe limites e contradições do capitalismo também é o fio condutor desta entrevista com o filósofo italiano Antonio Negri, realizada pela rádio Onda D’Urto e traduzida pela editora Chão da Feira. Na conversa, Negri argumenta que, em vez de apenas denunciar a crueldade do sistema, é preciso reinventar as lutas sociais a partir das lições dos tempos de isolamento: “Estamos aprendendo o que quer dizer transmitir sentimentos, afetos, alegria de viver, necessidade de produzir, do campo individual ao campo coletivo. Essa é uma coisa extremamente importante que está acontecendo apesar de tudo, apesar desta situação de miséria em que nos encontramos. Está acontecendo, e vamos ter que retomar isso nas lutas”.

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A China que começa a emergir da tragédia ganha cores vivas no Diário de Pequim mantido há mais de dois meses por Francisco Foot Hardman. O professor de literatura, titular da Unicamp, trabalha desde o ano passado como docente visitante da Universidade de Pequim. Autor do fundamental Trem fantasma: A ferrovia Madeira-Mamoré e a modernidade na selva, Hardman tem olho e mão de escritor, o que torna precioso seu relato. “Cidades terão alma, além do corpo desenhado em cada mapa”, escreve. “A alma de Pequim se esboça em algum ponto inescrutável entre razão e coração”.

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“Cloroquiners”  poderia ser a contribuição brasileira para um divertido dicionário do corônes, dialeto mapeado com humor inglês de alta cepa em Do you speak corona?. O pai dos burros multilíngue, compilado pela The Economist, inclui termos da novilíngua como covidiot (para o sujeito que ignora as dimensões da pandemia) e quatorzaine (os 14 dias protocolares de autoisolamento). “Os franceses fazem com que o isolamento parece algo quase romântico”, observam os laboriosos e anônimos dicionaristas.

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Monica Salmaso abastece com sublime nossos deprimidos tempos. Em suas contas no Facebook e no Instagram, uma das melhores cantoras surgidas em muitas décadas faz duos com cantores, compositores e instrumentistas de primeira linha. Ô de casas, esse o nome do projeto, está, no momento em que reunimos esses links, em 26 sessões de perfeição. Há música para todos os bons gostos – Joyce, Nailor Proveta, Alfredo del Penho, Teresa Cristina, Zelia Duncan. Na dúvida, comece por “Joãozinho Boapinta”, samba sincopado de Geraldo Jacques e Haroldo Barbosa com o piano de Jovino Santos Neto; e com o post mais recente, a inacreditável “Jangada” (Hervê Cordovil e Vicente Leporace), com direito a Guinga e citação de “Stormy Weather”.

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