Em retrospecto, as primeiras imagens que minha memória alcança estão ligadas à relação dos meus pais com as máquinas. Minha mãe carregava sempre uma câmera Kodak portátil e rolos de filmes: por onde andássemos, ela capturava minha infância e a de meus irmãos, sabendo que essa fase era passageira. Já meu pai me presenteou com um Super Nintendo e o robô 2-xl – um brinquedo tecnológico da época, programado para interagir por meio de fitas cassete (seu banco de dados) e responder a perguntas pré-gravadas. Acho que foi aí, entre os jogos pixelados de 16 bits1 e a voz mecânica do robô, que comecei a sentir as máquinas como afeto. Sherry Turkle nos diz que o fundamental não é o poder instrumental do objeto, o quão rápido o trem viaja ou o computador calcula, mas o fato de que esses objetos se tornam “companheiros” na experiência de vida, conectando mundos emocionais e intelectuais2 ou se configurando como objetos marginais,3 tecnologias que desafiam categorias fixas entre o vivo e o não vivo, o humano e o não humano, o instrumental e o relacional.
Entre as máquinas afetivas que me acompanharam desde cedo – câmeras, robôs, videogames – e as máquinas dos mundos sociotécnicos, existe um limiar que só mais tarde fui capaz de perceber: o das máquinas que produzem essas máquinas, pessoas integradas ao sistema de modos e meios de produção em que corpas4 são convertidas em força de trabalho, engrenagens vistas sob a óptica das empresas, das big techs, da economia global, reduzidas a funções e fluxos, invisibilizadas na lógica fabril e algorítmica.
Quem trabalha nas linhas de montagem tradicionais de produção não é reconhecido como sujeito, pois sua singularidade se dilui em um processo dividido em etapas, no qual cada gesto é fragmentado e se repete até ser reduzido a uma função intercambiável. O trabalho, convertido em sequência de passos, é sempre destinado à próxima “máquina”, seja ela feita de metal, plástico ou carne. Foi nesse entrelugar técnico, nesse intervalo entre o humano e o programável, que tive meu primeiro contato com a produção invisibilizada, corpas que se dissipam no ritmo da engrenagem, peças de um sistema que reconhece o fluxo, mas nunca o rosto. Trabalhando em fábricas,5 vi corpas serem submetidas a gestos técnicos padronizados para adestrá-las, com o objetivo único de reproduzir.
Tudo começou em 2007, quando fiz o processo seletivo contínuo para ingressar na Universidade Federal do Amazonas. Na minha casa não havia internet, celular e tampouco computador. A escola do bairro era responsável por realizar a inscrição da turma, e somente no último ano tínhamos que escolher a área de interesse – optei por história. Depois da prova, esperávamos meses pelo resultado. E eu nem sequer sabia como consultar a lista de aprovados. Faço parte da chamada Geração Y, ou Millennial, teoricamente a primeira a experimentar em massa internet, celulares e redes sociais emergentes, como MSN, Flogão, Orkut ou Bate-Papo do UOL. No entanto, a narrativa da “transformação global” disseminada pelas empresas de tecnologia não foi e ainda não é universalmente vivida por todes. Enquanto jovens millennials de outras classes sociais tiveram acesso a todas essas plataformas, outros, como eu, nem sequer tinham conexão em casa.
Uma das alternativas seria recorrer a uma lan house, espaço coletivo que só comecei a frequentar a partir de 2010, quando já trabalhava e podia pagar pelo acesso. Embora a internet tenha se tornado uma ferramenta para comunicação, educação e trabalho, sua acessibilidade foi e ainda é desigual no Brasil, especialmente para as populações das regiões Norte e Nordeste. De acordo com Waiselfisz,6 enquanto nas regiões Sudeste e Sul cerca de 20,8% e 18,6% da população de dez anos ou mais tinham acesso à internet em domicílio em 2007, no Norte e Nordeste esse número era de apenas 4,9% e 5,7%, respectivamente. Para muitos jovens da periferia, o acesso a lan houses é frequentemente instrumentalizado para tarefas básicas, como imprimir currículos ou realizar pesquisas escolares, sem estimular um uso crítico ou criativo da tecnologia.
Como a listagem dos resultados não saía nos jornais, concluí que não havia sido aprovada. Aos 18 anos, e ainda sem condições financeiras de pagar uma faculdade privada, tive que buscar alternativas. Foi quando passei a conhecer outros tipos de máquinas, as que trabalham nas fábricas. Para jovens sem formação superior, isso significava se tornar uma “força de trabalho”, única saída viável diante das circunstâncias – sem acesso à educação superior e necessitando contribuir financeiramente em casa, busquei emprego em uma linha de produção. O cargo: montadora.
Não era a primeira vez que eu atravessava os portões daquela fábrica. Minha mãe havia passado anos na linha de montagem, meu pai trabalhava no almoxarifado, e minha bisavó paterna tinha sido faxineira. Desde criança acompanhava suas trajetórias, vi de perto onde eles exerciam suas funções. Em essência, o ambiente pouco variava de uma fábrica para outra: hiperiluminado, com placas eletrônicas, rampas de acesso, máquinas barulhentas, corpas curvadas sobre bancadas; do lado de fora, a arquitetura combinava concreto e metal. Um cenário que, de tão repetido, se tornava estranhamente familiar – pelo menos para quem tanto o observou antes de vivenciá-lo de modo direto. Era a perspectiva de quem via os outros saírem de casa cedo na rota7 e voltarem à noite sem forças para falar. Era a posição de quem escutava as conversas, quando meu pai reclamava da meta ou minha mãe contava alguma história sobre a colega que trabalhava a seu lado. A fábrica também estava dentro de casa. Mas, ao entrar nesse mundo, percebi que vê-lo de fora não é a mesma coisa: a distância entre olhar e sentir é abissal. De espectadora na infância, observando o trabalho dos meus, tornei-me, na idade adulta, também parte funcional do ritmo impessoal da produção.
Na fábrica eu passava nove horas em pé, dia após dia, montando produtos que, mais tarde, poderiam se tornar máquinas afetivas para alguém, assim como a Kodak que marcou a história de minha mãe e a minha. Alguém montou a câmera, minha mãe a adquiriu, registrou memórias e, a partir desse gesto, um vínculo se estabeleceu entre pessoa e máquina. Na linha de produção, cada peça, cada produto já é a promessa de se tornar parte da vida de alguém, mesmo que, para quem a monta, a relação seja de anonimato, alienação, repetição e fragmentação.

Minha rotina começava às quatro da manhã, meia hora antes de pegar a condução. Embora eu fosse “livre” para o mercado, na realidade vender minha força de trabalho envolvia pouco poder de decisão. É a situação que Isabelle Stengers8 chama de “alternativa infernal”, o tipo de escolha aparentemente inevitável do sistema capitalista, que põe pessoas em situações de exploração sob a premissa de que não há outra saída. Na fábrica, essa dinâmica é amplificada, por exemplo, pela falta de perspectivas de plano de carreira – a ausência de oportunidades força muitas pessoas a aceitarem condições desumanas, longas jornadas de trabalho em troca de salários mínimos.
A ausência de perspectivas, a rotatividade endêmica e a negligência no investimento formativo para os postos da linha de produção conformam um cenário em que os trabalhadores são tratados como elementos substituíveis. Aqueles que adoecem ou não conseguem sustentar o ritmo de trabalho requerido se tornam passíveis de descarte, numa lógica de gestão que os reduz a peças intercambiáveis de uma engrenagem dedicada exclusivamente à manutenção da produtividade, exigida por corporações transnacionais com reduzido compromisso no contexto local.
Todos os dias, quando eu entrava na linha de produção, exigia-se uma paramentação rigorosa, pois as placas de circuito das câmeras que montávamos (e de toda e qualquer placa de aparelho eletrônico) são sensíveis à eletricidade das corpas. Por isso, pessoas trabalhadoras desses setores precisam passar pela prática de “isolamento eletrostático”, camadas de vestimentas que impedem a interação da corpa com o ambiente da produção tecnológica: uniformes ESD (materiais antiestáticos), toucas, jaleco interno curto, jaleco externo longo, pulseiras e botas antiestáticas, protetores auditivos, máscaras cirúrgicas e luvas, todos usados ao mesmo tempo, durante todo o expediente, para desviar as cargas elétricas de nossas corpas para o piso condutor. O ambiente tinha que estar sempre limpo e hiperiluminado para se monitorar os níveis de sujeira, minimizando assim qualquer risco de contaminação nas máquinas produzidas. Poeira e/ou fios de cabelo podem comprometer o processo de fabricação do produto, e sua presença eventual era motivo de repreensão: “A sujeira é essencialmente desordem”.9
A paramentação exige o apagamento da corpa, fragmentada para servir ao ritmo de uma engrenagem maior. Não há cabelos à mostra, rostos ou bocas visíveis sob as máscaras. A fala é interditada. Sob o uniforme branco, a corpa desaparece; destituída de identidade, subsiste como função: mãos que soldam, dedos que encaixam cabos, pernas que sustentam, olhos que vigiam, costas que se curvam para alcançar materiais. Uma corpa técnica, padronizada, invisível pela própria repetição. Sob a luz artificial e fria, sempre intensa, os gestos se repetem milhares de vezes. Essa iluminação, projetada para tornar cada movimento visível e controlável, paradoxalmente produz o apagamento. O que resta são máquinas de fazer máquinas, e a pessoa se perde no excesso de claridade e no anonimato da rotina industrial.
A corpa, reconfigurada como interface de um sistema produtivo, guarda em sua memória muscular e psíquica as marcas do gesto repetido, mesmo após o término da jornada. É justamente essa lógica da funcionalidade fragmentada que inspira o desenho dos braços robóticos industriais. Não se trata de imitar a completude da corpa humana, mas de replicar a eficiência da parte, a repetição de um movimento, a destreza automatizada de uma função isolada. Por isso as linhas de montagem raramente contam com robôs antropomórficos: a prioridade é a otimização e a precisão do segmento, não a totalidade da figura humana. O humano serve de modelo apenas como funcionalidade segmentada, e não como sujeito integral.
Assim como a corpa humana na linha de produção, o processo de formação da máquina também é fragmentado. Cada pessoa tem uma função ligada a uma única parte do produto a ser montado, a câmera. Não há um todo visível, apenas gestos recortados, movimentos repetidos, corpas ajustadas ao ritmo das etapas. O sistema não exige compreensão do conjunto. Eu me fragmento para montar a máquina. E o processo é fragmentado para que ela fique inteira.
O corpo da câmera em meu estágio de montagem era um “corpo sem face”, sem identidade, sem código de barra, um pedaço de plástico que ia ganhando forma quando eu ia encaixando os fios de cobre, a placa e os parafusos. Minha função era transformar o pedaço de plástico, que custava aproximadamente 30 centavos, em um produto com valores finais que variavam entre 600 e três mil reais, dependendo do modelo. Esse valor final era bem superior ao salário mensal de cada trabalhador na linha de produção – 498,20 reais em 2008 e 635,72 reais em 2011.

A discrepância entre o valor gerado e o retorno financeiro não se explica apenas pelo tempo dedicado à produção, mas por uma dinâmica que envolve poder, controle e conhecimento. “Não se paga ao assalariado a duração pura do funcionamento do ‘trabalho social médio’”, argumenta Guattari,10 “mas uma disponibilidade […] que é exercida durante o tempo de presença na empresa.”
Nesse contexto, minha rotina na linha de produção não se limitava a repetir tarefas, envolvia também incorporar um conjunto de saberes e habilidades daquele ambiente, da familiarização com as normas de segurança ao domínio de protocolos de operação de máquinas como parafusadeira e ferramenta de soldagem. Um “capital semiótico” que, como define Guattari,11 inclui competências técnicas, pré-requisitos para desempenhar até mesmo as tarefas aparentemente mais mecânicas.
Nesse contexto, a câmera fotográfica, produto final que eu ajudava a montar, era vista como a fonte real de valor, enquanto pessoas trabalhadoras eram tratadas como “apêndices” das máquinas, executando tarefas repetitivas e automatizadas que alimentavam o sistema produtivo. Era a materialização do que Haraway12 chama de ciborgue, um híbrido entre organismo (o eu, minhas mãos obrigadas a serem ágeis, minhas horas de trabalho, minha energia, minha corporificação dentro daquele sistema produtivo) e a máquina, uma junção das fronteiras do natural e do artificial, do humano e do não humano.
Bater a meta de produção não aumentava nosso salário e, mesmo quando cumpríamos o objetivo, o único “reconhecimento” vinha sob a forma de um tapinha nas costas por parte de nosso chefe; às vezes, nem isso. Quando se exigia o aumento de nosso limite diário, um funcionário operando uma filmadora analógica registrava e analisava o tempo de cada etapa da montagem. A pergunta sempre repetida era: “Em quantos segundos você consegue montar sua etapa?”. Com a filmadora, ele monitorava cada gesto, da coleta da placa ao posicionamento no jig,13 a soldagem, a instalação na “carcaça”,14 a sequência de parafusos, até a entrega à mão que, ao meu lado, aguardava para iniciar a próxima etapa.
A avaliação do meu limite era mediada pela filmadora, que exigia intervenção humana para capturar e interpretar os dados. E ainda havia interação entre humanos e máquinas: a observada (eu), a filmadora (a máquina de mediação), o observador (outro humano) e a máquina em construção (o produto final). Uma rede de relações hierárquicas, que também pode ser entendida como um “agenciamento de órgãos e máquinas”.15
A filmadora, como dispositivo intermediário, conectava fluxos de movimento, tempo e trabalho. Os gestos repetidos em quadros visuais eram traduzidos em números e estatísticas: o que era vida, carne e desgaste físico se tornava dado abstrato, legível para o sistema produtivo em dados, inscritos em planilhas, ferramentas de controle e ajustes do processo produtivo.
Nesse sistema de numeração e estatísticas, valores médios de produção por segundo, minuto, hora, dia e semana indicavam se estávamos sendo “ineficientes”; caso estivéssemos, poderíamos ser substituídas por outra pessoa contratada temporariamente, sobretudo em épocas de alta demanda, como no fim de ano. Essa dinâmica evidencia como as máquinas, mesmo as mais simples, como a filmadora analógica, desempenham um papel na organização do trabalho, mediando as relações humanas, mas também criando novas formas de comunicação e controle, reconfigurando o ambiente produtivo para alocação de recursos humanos com base nos dados coletados.
Na acelerada rotatividade, as mulheres pardas e negras eram as mais sacrificadas: a dinâmica do chão de fábrica também está na encruzilhada de raça, gênero e classe. Éramos frequentemente realocadas em diferentes setores da linha de produção, como operação da parafusadeira, posicionamento de LCDs nas câmeras, limpeza de lentes ou auxílio na embalagem – funções de flexibilidade que raramente resultavam em ascensão de carreira. No fim da linha de montagem, há diversas fronteiras, uma delas intransponível: entre quem fabrica e quem pode comprar. Eu, particularmente, nunca cheguei a ter uma câmera daquelas. O que me restou desse período foi muito mais duradouro, uma tendinite: a dor instalada no braço direito, nos dedos, no punho, que agarra meu tendão no movimento que agora faço no mouse e ali fica alojada, persistente. Uma carne moldada ao ritmo das máquinas, que faz gestos repetidos, condições precárias e ritmos exaustivos se acumularem na musculatura, nos ossos, nas articulações. A carne atravessada por dinâmicas globais de exploração.
É isso que o mito do ciborgue tenta nos dizer: que somos compostos, que nervos carregam impulsos elétricos, mas também histórias. A carne atravessada por relações de poder e tecnopolíticas não é só minha, também se conecta a outras dores, em outras geografias, também sofrem com músculos inflamados e são sujeitos a tempo cronometrado. O mito do ciborgue, que me atravessa e atravessa tantes outres, não diz respeito apenas à hibridez do humano e da máquina, mas àquilo que resta quando a corpa se faz arquivo do mundo: nervos que conduzem tanto impulsos elétricos quanto histórias de expropriação, tendões que se tornam dispositivos de memória, músculos que, no cansaço, denunciam o comum de nossas experiências. E, assim, o sofrimento se faz paisagem compartilhada, a dor se inscreve como potência de conexão. O que há em mim há em muitas.







