Já lá se vão cerca de cem anos desde o mais antigo registro conhecido de uma linguagem da dissidência sexual e de gênero no Brasil. Ele integra o artigo “Estudo biográfico dos homossexuais (pederastas passivos) da capital de São Paulo. Aspectos da sua atividade social (costumes, hábitos, ‘apelidos’, ‘gíria’)”, publicado por Whitaker et al. na revista Arquivos de Polícia e Identificação.1 Os usuários da linguagem foram chamados de “homossexuais (pederastas passivos)”, mas as fotos que ilustram o estudo revelam tanto “os cuidados femininos com a ‘toilette’: depilação das sobrancelhas, pinturas da face e lábios, cabelos longos (raro) e às vezes oxigenados etc.”2 quanto a “predileção pelos trajes femininos”, afirmando-se ainda que só “vestem-se desta maneira em determinadas ocasiões e locais, para evitar aborrecimentos”.3 Além disso, “quase todos os pederastas estudados respondem por apelidos, tais como ‘Gilda de Abreu’, ‘Damé’, ‘Tabu’, ‘Alfredinho’, ‘Conchita’, ‘Zazá’, ‘Flor do Abacate’, ‘Jurema’, ‘Marlene’, ‘Concceta’, ‘Anita – a Verdureira’, ‘Boneca’, ‘Polaca’, ‘Pará’ etc.”4
Tudo isso para dizer que, ainda que o olhar normativo dos autores só conseguisse ver nos entrevistados pederastia passiva, ou seja, uma simples fixação por práticas sexuais anais, para sensibilidades do presente salta aos olhos a subversão dos padrões de gênero. A palavra que usam para se referir a si mesmas nesse glossário reforça a conexão: “bicha”, hoje em dia um sinônimo de “gay”, sobretudo as mais pintosas, mas também de “travesti”, se quem a disser fizer parte da comunidade. A tradução ali oferecida é um singelo “pederasta passivo”,5 mas ela irá aparecer em outras duas entradas (“pederasta passivo que leva boa vida: bicha sucesso” e “pederasta com certos recursos monetários: bicha bacana”)6 e ainda nas observações sobre Jurema (“Tem ciúmes, proíbe que o seu amásio mantenha relações com outras bichas e mesmo com mulheres”),7 o que mostra que é esse o apodo mais comum dentro do grupo.
Curiosamente, outro termo apresentado pelo artigo segue também em voga, “bofe” – “rapaz moço sem dinheiro”.8 E observem como ele é definido pelo prestigiado dicionário Houaiss: “Na linguagem dos homossexuais, indivíduo do sexo masculino”. Mesmo existindo dezenas de expressões LGBTQIA+ aí registradas, eis a única menção expressa a uma linguagem dos homossexuais no dicionário. Vale como reconhecimento da importância desse fenômeno linguístico, mas é necessário fazer duas ressalvas ao verbete.
Em primeiro lugar, quem tem o mínimo de contato com o meio sabe que “bofe” não significa exatamente “indivíduo do sexo masculino”. Bicha não é bofe, para ficar num exemplo óbvio, apesar de ambos poderem se enquadrar na definição do Houaiss. Dicionários da comunidade, apesar de não serem feitos por especialistas, são mais confiáveis nesse sentido, propondo, no lugar, “heterossexual masculino”,9 ou, ainda, “homem heterossexual ou homossexual ativo”.10 Não basta ser homem e/ou possuir pênis para ser bofe, é preciso tudo isso e ainda ser ativo e ter modos viris (um ideal de masculinidade bem vivo mesmo hoje em dia), senão ele corre o risco de ser reclassificado ou como bicha, quando afeminado ou assumidamente passivo, ou, em termos atuais, como bofoneca, caso do “homem que diz que é bofe, mas é boneca”.11
A segunda ressalva diz respeito ao complemento “dos homossexuais”, que o Houaiss utiliza para caracterizar a linguagem. Como afirma José Fábio Barbosa da Silva em sua pioneiríssima monografia Homossexualismo em São Paulo: estudo de um grupo minoritário (1960), orientada por Florestan Fernandes na Faculdade de Filosofia da USP, para “o desenvolvimento desse sistema de comunicação simbólica” confluem “o grau de isolamento em que se coloca o grupo em relação à sociedade mais ampla, a intensidade das sanções negativas desenvolvidas ao comportamento e à expressão dos indivíduos e o grau de coerência e unidade interna existente entre os membros do grupo”.12
Depreende-se da observação de Silva que o florescimento desse tipo de código implica, antes de mais nada, que tais figuras sejam, por ser notório o seu desejo por bofes e o afeminamento de seus modos, facilmente identificadas como dissidentes, disso resultando as extremas sanções que enfrentam (pressão familiar, problemas ao transitar pelas ruas, perseguição policial, dificuldade em ingressar no mercado de trabalho) e a necessidade de viverem segregadas, em guetos.

Zazá, num relato autobiográfico anexado ao estudo de Whitaker (1940), confirma esses pontos ao falar sobre as prisões recorrentes que sofreu no Rio de Janeiro (“uma ou duas vezes por mês eu tomava de dois a três dias de prisão”)13 e sobre a hospedaria onde morava com “dezenas de passivos”, um local com quartos especiais para atenderem “pederastas ativos”.14 Diante da dificuldade em obter empregos convencionais, o grupo descobre que pode garantir sua subsistência através da prostituição, o que demanda uma feminização cada vez maior (“Já depilava as sobrancelhas, empoava-me, passava baton nos lábios e saía para a rua à cata de homens, que logo me seguiam. E não era um; eram muitos”)15 e, junto, leva à intensificação do isolamento (nas notas sobre Gilda de Abreu, moradora da mesma hospedaria de Zazá, é dito que “[ela] não sai durante o dia, a passeio, por ter as sobrancelhas depiladas, cabelo longo, à moda das mulheres, e por ter o andar efeminado, o que geralmente é notado e pode causar escândalo e, consequentemente, vaias, apodos e apuros com a Polícia”.16
Vivendo numa realidade paralela, a linguagem ganha corpo e começa a se disseminar. A prioridade é dar nome a aspectos centrais do cotidiano das bichas, e, como elas eram intensamente criminalizadas, são comuns as menções à repressão: “soldado: chafra” e “ser identificado pela polícia: tirar o scratch”,17 “fugir da titia Cleides: esconder-se dos carros policiais da Rádio Patrulha”.18 O artigo 379 do Código Penal de 1890, só revogado com a promulgação do atual, de 1940, considerava crime “disfarçar o sexo, tomando trajos impróprios do seu, e trazê-los publicamente para enganar”. Adicione-se ao contundente relato de Zazá os seguintes apontamentos sobre Jurema – “não gosta de vestir-se de mulher, pois da primeira vez que o fez foi preso pela polícia”19 – e Flor de Abacate – “Gosta de vestir-se de mulher, principalmente no Carnaval, quando a polícia não o incomoda”.20 A ausência de uma criminalização expressa do travestismo não impedia, no entanto, que tais sujeitos continuassem a sofrer nas mãos da polícia.
A partir dos anos 1940, as legislações que embasam a perseguição são o artigo 233 do atual Código Penal (“praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público”) e os artigos 59 (“entregar-se alguém habitualmente à ociosidade, sendo válido para o trabalho, sem ter renda que lhe assegure meios bastantes de subsistência, ou prover à própria subsistência mediante ocupação ilícita”) e 61 (“importunar alguém, em lugar público ou acessível ao público, de modo ofensivo ao pudor”) da Lei das Contravenções Penais, de 1941. Recorrer a essas legislações foi a forma de atacar o que passava a viabilizar a subsistência das bichas, a prostituição, que em boa medida se confundia com o próprio exercício da sexualidade. A esse respeito, vejam o que Zazá relata:
Eu ganhava quanto queria; primeiro, por ser novo no lugar e, segundo, por ser ainda jovem.
Havia dias que eu recebia tantos membros que o meu ânus ficava tão dolorido, a ponto de precisar banhar-me em água quente e sal grosso, a fim de poder estar bom à noite e recomeçar a vida de que eu gostava tanto […].21
Como não poderia deixar de ser, o sexo teria uma presença maciça nesses primeiros glossários, seja para apontar locais de “caça” e atendimento (“quarto: chatô” e “mictório: bangalô”,22 “salão de chá: um banheiro público masculino”),23 seja para falar das práticas predominantes: “copular: fazer micha”;24 “assoprar a vela: desenvolver intercurso anal com uma outra pessoa, no sentido passivo”,25 “cata-cavaco: coito com o comparsa passivo semissuspenso, apoiado nas pernas e braços”,26 “cunilingus: é interessante apontar que esta palavra é utilizada para indicar a performance do analictus”,27 “divino ato: coito entre pessoas do mesmo sexo”,28 “noite de teste: ou ‘mil e uma noites’, ou teste: uma relação sexual que dura apenas uma noite ou menos, mas se caracteriza pelo fato de os participantes serem completamente estranhos antes do evento e não terem nenhum interesse de se encontrar depois”,29 “quebrar louça: manter relação semissexual (marginal) com outro indivíduo reconhecidamente homossexual”.30
Vale a pena destacar uma expressão que une local e prática, além de colocar em questão a criminalidade e o exercício da prostituição: “fazer crochet” (também referida como “fazer tricot” e “tricotar”). Silva irá traduzir por “onanismo”,31 mas os demais glossários mostram que a coisa não era tão simples. O primeiro deles traz, no verbete, “passar a mão no pênis de um indivíduo”,32 clarificando o seu uso nas observações sobre Jurema: “algumas vezes, raras entretanto, no cinema, para abordar algum pederasta ativo, usa o método de fazer crochet, isto é, passar a mão no pênis do indivíduo que lhe chamou a atenção”.33 O segundo será ainda mais explícito: “masturbar homens em cinemas ou lugares de grande aglomeração”.34 Temos aqui informações preciosas sobre um dos principais métodos de prospecção e atendimento de clientes da época. Diante da repressão policial e da falta de espaços apropriados, era comum a bicha ter de realizar o serviço em locais públicos, tomando todos os cuidados para que ninguém ao redor percebesse o que se passava. A prostituição foi a maneira que encontraram para viabilizar sua existência, e, para que a pudessem exercer, precisavam recorrer a práticas à margem da lei, correndo risco permanente de serem presas por ultraje ao pudor.35
Nesse contexto de segregação é que vai se estabelecendo essa linguagem, que, voltando ao Houaiss, não seria exatamente “homossexual”, já que ela era dominada por apenas uma fração do que o termo compreendia à época – as bichas. Isso porque tal linguagem não apenas é de bichas, como ela faz bichas, identidade constituída com roupas, comportamentos e práticas sexuais, mas também por meio da fala. Bofes, por exemplo – e lembre-se de que ainda hoje é comum os ativos nem se entenderem como homossexuais –, no máximo conhecem umas poucas palavras do código, até porque, caso a usem regularmente, perdem o status de homens. Mesmo dentro da categoria “homossexual” já era possível observar uma cisão à época. Numa das entrevistas realizadas por Silva,36 o entrevistado dá a seguinte resposta ao ser perguntado se “há pessoas que são mais homossexuais que outras”: “Os tipos são vários, mas englobam principalmente dois: os homossexuais mesmo e as bichas”.37 A diferença se daria por estas escancararem sua condição, o que o entrevistado veria como problema para toda a comunidade:
O comportamento ostensivo é degradante e faz mal aos outros, e mesmo aos outros homossexuais. O dissimulado é muito mais interessante e produtivo, e procuro sempre dissimular na presença de estranhos e dos outros que não sabem que sou homossexual.38
Em outro momento, ao ser perguntado sobre “o hábito de convidar para refeições em casa de um dos membros, cozinhar, costurar e outras atividades desse tipo, sair em grupo para fazer compras”, ele é taxativo: “ouvi dizer que isso é muito comum, sobretudo entre bichas, não entre homossexuais”.39 E, por mais que rechace a patologização da homossexualidade, isso vale apenas para “os homossexuais mesmo”, não para as “bichas”: “As causas [da homossexualidade] são puramente psicológicas. Só que alguns (bichas) apresentam um estado de quase doença mental. Esses precisariam de tratamento médico”.40 Tais declarações deixam claro que a convivência cotidiana, necessária para o desenvolvimento da linguagem (até por estarmos falando de um fenômeno da oralidade, que não tem como se consolidar sem contato constante), era uma insanidade, só fazendo sentido para as figuras que, apesar da LGBTfobia brutal do período, não tinham nenhuma intenção de esconder o que eram.

Não surpreende que, dentre os tantos apodos que utilizavam entre si, como, por exemplo, boneca (“um homossexual passivo atraente”,41 mulher (“parceiro ‘feminino’ de um caso; também utilizado para indicar um homossexual passivo”),42 travesti (“indivíduo que usa roupas femininas para exibição da ostentação valorativa do grupo homossexual”)43 e veado (“indivíduo efeminado e geralmente ostensivo”),44 um dos mais destacados fosse o de “bichas loucas”, ou só “loucas” (“indivíduos que agem agressivamente de modo efeminado”),45 como registra este trecho luminoso do romance anônimo Lady Hamilton, até hoje só publicado como anexo da segunda edição da tese médico-legal Homossexualismo masculino,46 de Jorge Jaime:
Possuíamos outra mentalidade, diferente da comum ou normal, tínhamos nosso vocabulário secreto, que só nós compreendíamos.
– Ele é do “clube”?
– É. Já me deram seu “serviço”. Entende do negócio.
– Qual é o “instrumento” que toca?
– Não tenhas receio: é o “assobio” que tu gostas.
– E não “adere” por “interesse”?
– Nada disso: é fino, pertence a uma família distintíssima.
– É engraçado: modernamente toda “maravilha” é “entendida!”…
– Ainda bem. Se não “viajam” pelo oceano Atlântico, na certa “viajam” pelo Pacífico.
– Eu não; “navego” pelas águas do canal do Panamá: ora estou num, ora “escorrego” para o outro.
– Não sabia que eras “giletona”. Pensei que fosses só “bicha”.
– Deixa de ingenuidade, “querida”; não sabes então que eu sou “louca, louca, louca”… para os homens, e homem, homem, homem… para as “loucas”?!…47
É praxe evitar citações extensas em artigos, mas a obra é tão rara e desconhecida que me pareceu importante trazer um fragmento mais longo dela. Até porque tem total relação com o que se discute aqui e será uma fonte preciosa para o estudo desse vocabulário secreto, como o designa a protagonista Paulo, “giletona” também conhecida pelos nomes de Paulete e Lady Hamilton. As aspas no fragmento são da própria publicação, que tentou, por meio delas, sinalizar a diferença entre o português padrão e essa linguagem das bichas. A impressão que dá é que algumas palavras estão sinalizadas indevidamente, ao passo que outras não foram devidamente identificadas. A frase final, que motiva a transcrição do trecho, é um exemplo disso, pois “louca” (“passiva”) forma um par de opostos com “homem” (“ativo”), mas só aquela é destacada. Em outros momentos da citação, a questão fica ainda mais evidente.
“Viajar” vai aparecer num glossário do “dialeto dos entendidos” significando “manter relações sexuais”,48 o que casa perfeitamente com o texto. Já “Atlântico” e “Pacífico”, ainda que se intua que indiquem quem transa “pela frente” e quem “por trás”, estando aí como meras referências à parte frontal e traseira de um corpo, serão um trocadilho da própria Paulete com “ativo” (Atlântico) e “passivo” (Pacífico)49 ou já farão parte de um acervo de expressões para quem é “do clube”? De qualquer forma, “navegar” e “escorregar” (assim como a menção ao canal do Panamá – inaugurado em 1914 e, portanto, ainda uma grande novidade nos anos 1920 e 1930, época em que se passa a maior parte do romance) parecem só expressões jocosas da protagonista.
Silva observa que “os homossexuais têm um imenso talento para criar gírias de vida, geralmente, muito limitada, e [que] não é raro encontrá-la com significados apenas dentro de uma determinada clique [“turma”] ou de um reduzido grupo de pessoas”.50 Daí também a dificuldade, sobretudo quando falamos desses registros mais antigos, em estabelecer o que seria de uso estritamente pessoal e o que teria, de fato, sido incorporado a uma linguagem compartilhada. Sem contar que, dentro da comunidade, “existe uma verdadeira competição de linguagem pelo pitoresco, pelo bizarro, ou pelo obsceno, que muito contribui, dirigido pelo modismo, para o aparecimento e substituição contínua de novos termos”.51 Ou seja, o abandono e consequente esquecimento de termos é um fenômeno comum, compensado pela criação constante de novas expressões. A linguagem, assim, passa por contínuos processos de renovação e reciframento, garantindo que só quem está presente no dia a dia da comunidade estará atualizado.
Como diz Isabella Miranda, minha companheira nessas investigações, “quem fala padê [“cocaína”] hoje em dia é gay, pois na rua as travestis já criaram outras palavras”. É nisso que nos baseamos para prosseguir com a pesquisa, mais interessada em acompanhar os vestígios que a linguagem das bichas vai deixando do que em avançar sobre a sua versão mais fresca, mais cifrada, que só aprende quem está imerso no cotidiano. No longo fragmento anterior, temos vários desses vestígios, palavras que foram até destacadas com aspas, mas que não comparecem no pequeno glossário elaborado por Jaime para a sua tese.52 Decodificando-as, teríamos que:
- ser “do clube” e ser “entendido” são o mesmo;
- “serviço” irá reaparecer mais adiante,53 podendo ser traduzido por “orientação sexual”;
- “instrumento que toca” é alusão óbvia a partes sexuais do corpo;
- “assobio” seria o mesmo que o glossário de Silva traz para “telefonar”,54 e que décadas depois viraria “gravar”;
- “aderir por interesse” certamente é “transar por dinheiro”;
- “maravilha” voltará em outros momentos do livro,55 o equivalente do atual “boy magia”;
- “giletona” é versátil, pessoa que se divide entre ser “louca para os homens” e “homem para as loucas”.
“Querida”, por fim, é um caso à parte, reflete um dos aspectos mais subversivos da linguagem. O glossário de Silva tem um verbete para “ela”, apontando que esse é “um dos pronomes utilizados deliberadamente em alguns grupos homossexuais (especialmente entre aqueles mais afeminados) para referir-se a homossexuais que têm características do sexo oposto”.56 Não é só um pronome e um vocativo, no entanto, é um uso sistemático do feminino ao se referir a bichas, como se pode ver na seguinte passagem de Lady Hamilton:
– Qual o quê, minha amiga! – comentei tratando-o de senhora porque Lucas já se compenetrara que na realidade era mulher. – Esse racionamento de machos é uma coisa horrível. Imagina tu que agora eu virei homem!
– Hum! Que chic! Sempre sucesseira a Paulete! Já soube que estás vivendo com uma louca. Na certa vocês fazem roçadinho, porque eu não consigo entender como duas mulheres possam viver maritalmente.
– É horrível, Greta – exclamei, chamando-a pelo nome de guerra –, ter-se que aturar outra desgraçada como nós.57
Essa forma de brincar com o gênero é relativamente comum nos dias de hoje, mas o surpreendente é encontrá-la estruturada num romance anônimo de 1953, escrito em primeira pessoa, em forma de diário, e que concentra o grosso da narrativa nos anos 1920 e 1930 (a narrativa parece acabar no começo dos anos 1940, com a Segunda Guerra Mundial em andamento). Através da linguagem, essas figuras vão experimentando imaginar-se no gênero tido como oposto e, para validar essa percepção de si, vão se agarrar aos discursos mais sexistas possíveis, num movimento paradoxal que combina reacionarismo e subversão. Daí a identificação com o feminino (“Lucas já se compenetrara que na realidade era mulher”) surgir atrelada à misoginia (“não consigo entender como duas mulheres [no caso, duas bichas] possam viver maritalmente”).

Se, nessa linguagem, a forma como se transa delimita gênero (ativo/bofe × passivo/bicha), a razão é o heterossexismo que atravessa nossas vidas, essa fixação em imaginar que o sexo só é possível envolvendo dois opostos complementares. E, dada a profunda LGBTfobia que imperava na primeira metade do século passado, a misoginia cumpria um papel importante na legitimação do modo de ser das bichas. Isso porque, para que o desejo por homens fosse se normalizando, era preciso que a bicha assumisse uma identidade feminina e, ao mesmo tempo, manifestasse aversão por mulheres, como se observa no diálogo entre o dr. Nirval (uma “maravilha”) e a Paulete (que havia assumido o nome russo de Wladimir, para estrelar espetáculos no Rio de Janeiro):
– Creio que estou falando com um homem…
– O doutor está muitíssimo enganado: se pareço o que não sou não tenho culpa. Considero-me a mulher mais tentadora do mundo. Sei fazer tricot, cozinhar muito bem, canto, danço, falo francês e inglês com perfeição; sou uma dama completa. Sou mais vedete que muita mulher de saia.
– Não deves falar assim, Wladimir. És até um rapaz apresentável. Se quiseres farias muita moça perder a cabeça por tua causa.
– Hum! Tapetes! Odeio os tapetes. Sabe por que nós as chamamos de tapetes? Porque as desprezamos, porque só nos causam indiferença, repulsa, asco… Têm umas gorduras flácidas, as linhas estéticas mal definidas, são horríveis. Detesto-as. Todas que se esfregaram em mim, atiraram-se aos meus braços, eu as repeli, sem compreender como existem homens que dão tanto valor a esses seres insignificantes.58
“Tapete” seria o equivalente do atual “racha” (mulher cis), figuras de linguagem que não necessariamente são misóginas, mas que costumam ser utilizadas com essa intenção. Em outras palavras, o que estou defendendo é que a misoginia presente em tais manifestações é uma estratégia discursiva para dar legitimidade à existência das bichas, quase como se disséssemos: “A aversão que elas sentem por mulheres é tão patológica, tão insuperável, que isso explica, em primeiro lugar, por que não são homens e, em segundo, por que sentem atração por homens”. Uma aversão que, aliás, deve-se em boa medida à própria LGBTfobia com que convivemos desde cedo… basta pensarmos na pressão e violência que crianças viadas sofrem para “aprender” a gostar de mulher (origem similar teria a repulsa que, entre lésbicas, é comum se observar contra homens e pênis).
Termino dizendo que o foco do presente artigo foram os registros pioneiros dessa linguagem, motivo pelo qual não se falou em bajubá/pajubá. Na cultura das bichas, a influência dos terreiros só se fará sentir na segunda onda dessa linguagem, a partir da ditadura civil-militar de 1964-1985. Eis um tema para futuras investigações.







