Na tarde de 9 de agosto de 2014, na cidade de Ferguson, condado de St. Louis, estado do Missouri, um adolescente afro-americano de 18 anos, Michael Brown, foi baleado e morto por Darren Wilson, policial branco que patrulhava Canfield Green, um subúrbio de maioria negra. Seu corpo foi deixado descoberto na rua por cerca de quatro horas, enquanto policiais impediam que familiares e amigos se aproximassem. Em nome de Brown, mas certamente indo muito além dele, uma ruidosa assembleia logo reuniu-se em frente ao departamento de polícia local, com as mãos erguidas, gritando: “Queremos respostas!”, “Sem justiça, sem paz!”, “Desarme a polícia!”, “Mãos para cima, não atire!”.

Motins raciais fazem parte da longa recusa das pessoas negras à opressão nos Estados Unidos. Foi assim em Harlem (1935), Detroit (1943), Watts (1965), Los Angeles (1992), Oakland (2009) – e em tantos outros lugares e épocas. Muitos desses eventos, entretanto, são desqualificados como irracionais e politicamente imaturos. Tidos como impróprios para a história, é comum que sejam submetidos a um “oblívio imposto”,1 ou seja, um premeditado esquecimento em favor de uma gloriosa teleologia de protestos ordeiros que dariam cara à excepcional democracia americana e explicariam sua duradoura saúde. Os relatos iniciais da mídia mainstream indicavam que Ferguson seguiria semelhante narrativa condenatória.

Imagens antigas de Michael Brown foram usadas para demonstrar que ele “não era um anjo”.2 Uma foto granulada postada pela NBC News no Twitter mostrava o quanto aquele jovem negro era grande e robusto.3 Brown está em pé, usa uma camisa vermelha da Nike e encara a câmera de cima para baixo, com uma expressão um tanto indiferente. A esse olhar soma-se o gesto que ele faz com a mão direita, gesto que ativa todo um conjunto de ansiedades antinegras naqueles tensos dias iniciais. Foi a partir desse registro, anterior ao assassinato, que se deu o “desdobramento do passivo”, termo brilhantemente cunhado por Patricia Williams para explicar a inversão dos papéis de vítima para suspeito.4 “O que significava aquele sinal em suas mãos?” De imediato, muitos jornalistas interpretaram o gesto como um “sinal de gangue”;5 outros decidiram deixar a fotografia de Brown se expressar por si própria. Afinal, nos Estados Unidos, poucos são os discursos que conseguem superar a força comunicativa negativa da exibição em horário nobre de um negro tipo gangstar rapper.

Ciente disso, Darren Wilson replicaria no tribunal a gordofóbica ênfase midiática sobre a corpulência ameaçadora de Brown (1,93 metro de altura e 132 kg).6 Apesar de pesar 95 kg e ser da mesma altura que a vítima, Wilson descrevia uma suposta luta com o jovem na porta de sua viatura como se estivesse sendo jogado de um lado para o outro nos instantes finais de sua vida: “Quando eu o agarrei, a única maneira que posso descrever é que me senti como uma criança de 5 anos segurando Hulk Hogan […]; isso é o quão grande ele se sentiu e quão pequeno eu me senti só de segurar seu braço”.7 Já em outro momento, também nesse início do depoimento, o policial deixou explícito, sintomaticamente, o que a mera exibição da foto granulada postada pela NBC sugeria: “Ele olhou para mim e tinha a expressão mais intensa e agressiva. A única maneira que posso descrevê-lo é que ele parecia um demônio.”8 Se Wilson usava uma concepção cristã universalmente compreendida sobre o mal e direcionava toda uma atenção para o comportamento de risco do “gigante ameaçador” Mike Brown, era porque acreditava no poder performativo que representações do tipo teriam em uma comunidade há muito moldada pela antinegritude.

“Ferguson é famosa pelo preconceito contra negros”, denunciava George Chapman, afro-americano de 50 anos que viveu na cidade a maior parte da vida e se mudou pouco antes dos protestos porque estava cansado da polícia. “A polícia nos para o tempo todo, não nos respeita. Eles nos tratam como se não fôssemos nada”,9 completava, em uma ladainha repetida por vários outros moradores, testemunhas do assédio antinegro acumulado ao longo do tempo. Para o prefeito republicano James Knowles III, aquelas alegações eram “absolutamente ridículas”, pois Ferguson seria um modelo de exitosa transição “de uma comunidade predominantemente de classe média branca para uma comunidade predominantemente de classe média afro-americana”.10 Como explica Mustafa Dikeç, a partir de 2008 os subúrbios ultrapassaram as cidades no que diz respeito à população pobre nos Estados Unidos. Em uma porcentagem só superada por Atlanta, na Geórgia, a área metropolitana de St. Louis contava com mais de 75% dos pobres vivendo nos subúrbios de North County.11 A explicação estaria tanto na forma pela qual as novas revitalizações do anel urbano estavam desalojando os pobres quanto no fato de que o direcionamento na distribuição do auxílio-moradia terminava por confinar essas famílias em áreas já segregadas, como era o caso de Canfield Green, onde Brown foi assassinado.

Ainda assim, vale ressaltar que, em comparação com outras pequenas cidades da região de North County, Ferguson era realmente um lugar com relativa integração racial – se é que podemos falar nestes termos – e taxa de pobreza menor. Um pouco da empolgação do prefeito Knowles III amparava-se no fato de que, em 2014, a renda familiar média estava em US$ 35.000, significativamente inferior à média nacional de US$ 50.000, mas ainda assim superior à de várias outras comunidades próximas. A peculiaridade local, entretanto, era a disparidade nas margens da pequena cidade. Com 20 mil habitantes, a Ferguson de maioria negra ainda era “um mundo cindido em dois”. Em direção à South Florissant Road, havia uma rua comercial, onde pequenos pubs, tabacarias, cervejarias locais e padarias dariam a qualquer visitante a ideia de uma pacata e singela paisagem suburbana dos Estados Unidos. De lá, por exemplo, partiu o movimento “I Love Ferguson”, que tentava recuperar a reputação da cidade após as manifestações. Sob a liderança do ex-prefeito democrata Brian Fletcher, um grupo de respeitáveis moradores se dizia angustiado pela maneira como a mídia nacional vinha retratando a “maravilhosa” Ferguson, “uma das mais progressistas cidades do país”. Condenando os anárquicos forasteiros que invadiam suas ruas, líderes comunitários brancos repetiam a mesma ladainha do prefeito, e conseguiam ir além: desafiavam as pessoas a citar outro adolescente baleado por aquelas bandas.12

Na direção norte dessa mesma rua, destacavam-se o departamento de polícia, o tribunal municipal e um escritório especializado em leis de trânsito, três locais que pareciam explicar a compartimentalização geográfica e racial da cidade. No lado sudeste, por conseguinte, havia uma “outra Ferguson”, separada da primeira pela West Florissant Avenue, a faixa comercial que foi um dos principais cenários das revoltas de agosto a novembro. Demograficamente, nos conjuntos habitacionais em Oakmont, Canfield Green e Northwinds (onde Mike Brown passava um tempo com sua avó), 95% dos moradores eram negros. Visto como um “gueto suburbano”, aquele era um espaço compactado e densamente povoado, com uma estrutura bem diferente dos outros bairros da cidade. A renda média dos seus habitantes era inferior a US$ 27.000, o que, à época, fazia dele o oitavo setor mais pobre de todo o estado do Missouri.13

Não surpreendeu, portanto, quando essa condenação racial geográfica foi retomada por um dos jurados do caso. Antes mesmo que o policial acusado invocasse estes argumentos, ele fez questão de declarar que considerava Canfield Green uma área “conhecida por gangues, violência e armas de fogo […], certamente antipolícia”.14 Uma região abandonada pela economia de despejo neoliberal era, consequentemente, vista como um “lugar ruim da cidade”, onde policiais brancos correriam mais riscos de serem atacados por “sujeitos ruins”, um lugar onde a lei, por necessidade e costume, deveria se impor à revelia do ordenamento jurídico.

Muito mais do que uma simples metáfora como demonstração de empatia, os cartazes e gritos com a frase “Eu sou Mike Brown” reiteravam que grande parte daquelas pessoas tentava, na verdade, confabular futuros livres de condenações semelhantes. Nesse sentido, é interessante observar que grande parte do êxito midiático da revolta de Ferguson teve relação direta com as criativas estratégias de ativistas ao disputar o discurso sobre o evento na instantaneidade da internet. Uma campanha como #IfTheyGunnedMeDown [#SeMeBaleassem], criada pelo ativista afro-americano C.J. Lawrence, conseguiu suscitar interessante provocação sobre como parte da mídia tende a representar os negros em páginas policiais no padrão de vítimas ou culpados. No Tumblr ou Twitter, jovens negros postavam fotos usando gorros e becas de formatura, uniformes militares ou aventais médicos em contraponto a outras representações desfavoráveis, comuns na mídia em episódios como a morte de Mike Brown. #IfTheyGunnedMeDown e outras iniciativas do tipo ofereciam um comentário arguto sobre as ilusões do neoliberalismo pós-racial, sobre como diversos “avanços” sociais que definiriam essa suposta nova etapa de superação das divisões raciais não foram suficientes para impedir a normalização da imagem do negro como um cidadão perigoso nos Estados Unidos.15 Aqueles que gritavam em Ferguson logo entenderam que seria fundamental permear a discussão mais ampla sobre racismo e brutalidade policial com uma urgente reflexão sobre respeitabilidade negra, luto e a imposição socialmente estabelecida por vítimas exemplares.

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As forças de segurança pareciam perceber o impacto do ruidoso protesto de Ferguson. Além de bloquear ruas, despejar quantidades absurdas de gás lacrimogêneo, lançar granadas flash bangs e disparar balas de borracha contra os manifestantes, as equipes SWAT começaram a utilizar os chamados LRAD (long-range acoustic devices), armamentos baseados em ruído, na tentativa de abafar as vozes e dispersar quem gritava.

Mas os manifestantes insistiram na revolta. Buzinavam freneticamente, e crianças subiam nos capôs de veículos, dançando de modo eufórico e corajoso. Como se comemorassem um título do St. Louis Cardinals ou do Rams, muitos cantavam “Fuck the Police”, do rapper Lil Boosie, que logo se tornou um despudorado hino informal dos revoltosos.

Sim, tudo aquilo lembrava muito um clipe de trap!

Um infame obituário de Michael Brown publicado pelo The New York Times destacava que ele compusera músicas “contemplativas e vulgares” nessa variação do rap.16 Brown tinha acabado de concluir o ensino médio, morava num lugar esquecido por todos menos pela polícia, que odiava tipos como ele, e via no trap uma forma de passar o tempo e “fugir da realidade”, fabulando uma narrativa na qual assumia minimamente o controle da situação. Aquele recente subgênero havia surgido nas chamadas trap houses dos guetos de maioria negra em Atlanta, na Geórgia, no começo dos anos 2000. Refugos da crise dos subprimes, aquelas casas, muitas delas abandonadas, tornaram-se lugares onde jovens negros desiludidos traficavam droga e “cozinhavam” anfetaminas ou crack. Como explica Jesse McCarthy, o trap surge “dentro de um inconsciente ferido”, em um contexto marcado pela proliferação de armas de alta potência (expostas aos montes nos clipes), a militarização da vida cotidiana e o descaso neoliberal com o espaço civil. Reflete, como se fosse uma assombração, os fracassos e as frustrações das aventuras neoimperiais dos Estados Unidos no Afeganistão e Iraque.17 Por trás de um aparente hedonismo alienado que vemos em clipes de grupos como o 3 Problems, de Ferguson, é possível perceber que o trap também trazia questionamentos urgentes, como o sentido de ser negro/negra e viver em lugares tão abandonados quando o sinal de progresso de sua raça é “projetado como o status de magnata corporativo, alcançado por Oprah ou Jay-Z”.18 De fato, como ainda sugere McCarthy, talvez seja o caso de pensarmos se o trap não seria literalmente a “armadilha”, referência direta aos notáveis desenganos, com eventuais conquistas, que muitos negros à margem vivenciavam na era pós-Direitos Civis.19 As manifestações de Ferguson e o trap, portanto, eram ponto de chegada para um incômodo desamparo: expressavam, de forma disparatada, o efeito de anos de sujeição sobre a psique de uma comunidade; atestavam a quebra da ilusão pós-racial ao comparar a vida nas prisões e nas ruas em 2014 com a escravidão negra nos tempos das plantations.

A questão implícita que aquela sinfonia de revolta trazia ao debate público era se uma juventude negra revoltada, que se vestia como o rapper Chief Keef enquanto incendiava um posto de gasolina, podia transmitir um refrão revolucionário para redefinir os nossos tempos. Os gritos daquelas pessoas que subiam em viaturas policiais depredadas deveriam ser pensados como puro divertimento e falta de consciência racial? Aqueles thugs, com suas regatas brancas e suas bandanas vermelhas cobrindo o rosto, aquelas “mães disfuncionais” poderiam ser ouvidos(as) com atenção? Ou mereciam tratamento semelhante ao recebido pelo trap que lhes inspirava, tido por muitos como um lixo musical, símbolo de uma cultura de ostentação politicamente alienada? Quem, afinal, buscaria compreender o que cantavam/gritavam?

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Os sistemas de repressão procuravam, em vão, líderes responsáveis que pudessem, seguindo suas orientações, acalmar a fúria dos mais obstinados. Havia, claro, alguns autodesignados “faróis da raça”, preocupados em gerir a revolta, dizendo o que as pessoas deveriam fazer, buscando “ajudar” e “salvar” aqueles que julgavam desamparados. A centenária NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, na sigla em inglês) talvez tenha sido a organização que recebeu o maior foco midiático. Adolphus Pruitt, presidente da filial em St. Louis, ofereceu auxílio jurídico à família de Michael Brown, e o presidente nacional da organização, Cornell W. Brooks, deu seguidas declarações pedindo paciência à comunidade de Ferguson, ressaltando que estavam lá para “honrar a memória [de Brown] buscando justiça através da não violência”.20 Eles, de fato, atuaram como intermediários respeitáveis entre as autoridades e alguns dos moradores, procurando o que acreditavam serem práticas aceitáveis de policiamento e um direcionamento correto dos protestos. Já Jesse Jackson, o pastor batista e histórico ativista político dos Direitos Civis, tentava dialogar com policiais e pacificar alguns dos manifestantes – sendo recebido com significativa animosidade.21 Tratamento parecido era dispensado ao New Black Panther Party, que também procurava gerenciar as manifestações, controlando a multidão e tentando direcionar o tráfego. Em formação militar, eles marchavam vestidos à moda revolucionária dos anos 1960-1970: boinas pretas, coletes à prova de balas, jaquetas de couro, coturnos. De punhos erguidos, bradavam: “Black Power! Black Power!” Replicando um ativismo baseado na rígida disciplina de suas forças de segurança predominantemente masculinas, expressavam uma vontade centralizadora de ensinar o caminho correto à multidão. Enquanto alguns moradores, emocionados, filmavam a performance, muitos pareciam um tanto incomodados com a nostalgia, como se aquele fosse, afinal, um grupo deslocado no tempo, um ridículo pastiche, em roupas e disciplina, que caricaturava o passado revolucionário negro.22

Por outro lado, os manifestantes demonstravam não aceitar passivamente a posição de vítimas que apenas resistem ao poder. Recusavam a ordem aceitável de mobilização social, que definia os policiais como parte interessada na organização dos protestos, responsáveis por proteger a propriedade privada e gerir com segurança os deslocamentos pela cidade. Em grande parte, as pessoas não se conformavam com ofertas reformistas, voltadas a fortalecer a estrutura de poder antinegro que historicamente as oprimia.

Naqueles fugidios momentos os manifestantes eram capazes de fabular um futuro diferente do que o Estado sempre oferecia a Ferguson e a jovens como Mike Brown. Todo um conjunto de possibilidades surgia nos protestos, no desafio ao toque de recolher, mesmo que em pouco tempo fossem aparecendo discordâncias quanto aos métodos e estratégias. Qualquer coisa seria melhor do que a vida que viviam. No destemor noturno, em nome de Mike Brown e de um monte de outras coisas, agiam com coragem semelhante às jovens meninas desordeiras biografadas por Saidiya Hartman em Vidas rebeldes, belos experimentos: “Tal fluxo a todos conduzia, impulsionando e encorajando-os a seguir adiante”.23

Escrevendo em 1981, Audre Lorde comentava como mulheres negras estão cheias de uma raiva que pode ser útil no combate às opressões, pessoais ou institucionais, que motivam esse sentimento. Ela afirmava:

Usada com precisão, ela [a raiva] pode se tornar uma poderosa fonte de energia a serviço do progresso e da mudança. E quando falo de mudança não me refiro a uma simples troca de papéis ou a uma redução temporária das tensões, nem à habilidade de sorrir ou se sentir bem. Estou falando de uma alteração radical na base dos pressupostos sobre os quais nossas vidas são construídas.24

Talvez, por esse motivo, essa “poderosa fonte de energia” transmitida por mulheres negras nas ruas de Ferguson incomodasse tanto figuras como o reverendo Al Sharpton, que no intuito de “restauração da ordem” passou a pedir o engajamento de “100 homens negros fortes” (os “discípulos da justiça”, como ele os chamou) capazes de ajudar a proteger os manifestantes. A vigilância de gênero nessas coações reformistas, pautada na respeitabilidade negra, era tão forte que o famoso líder religioso argumentava ser Ferguson uma oportunidade para os jovens participantes dos protestos “crescerem e virarem homens”. As mulheres, ele continuava, deveriam se acalmar, abandonar sua obstinação por um momento, “voltar para casa e cuidar dos seus filhos”, não agir de forma anárquica até tarde da noite.25 Ou seja, dentro dessa lógica machista, a excessiva e aberrante liberdade feminina – e poderíamos dizer, com certeza, queer – arruinaria o futuro da comunidade.

Muitas daquelas mulheres, portanto, viam em Ferguson uma oportunidade para se rebelar contra a imposição de papéis de gênero que recortam as particularidades do racismo antinegro. Elas quebravam as expectativas de docilidade das forças policiais e de qualquer homem negro que tentasse subestimá-las. Era, portanto, um evento decisivo para recusar as condições que promoviam sua vulnerabilidade e a de seus filhos. Era um momento, ainda que fugaz, em que elas poderiam, juntas, estabelecer uma comunalidade radical de ajuda mútua – afinal, o mundo as havia oferecido tão pouco. Naqueles breves dias em Ferguson, foi possível imaginar outra rota que não aquela que levava à miséria, à injustiça, ao subemprego, à violência sexual e ao domínio masculino.

Protestos como aqueles não são nada gloriosos, no sentido que se imagina constituir o arco moral do progresso das nossas democracias atuais. Ali estavam crianças pequenas, jovens mães com os filhos no colo, idosos, deficientes, negros queers, colegas de escola de Mike Brown e muitos outros adolescentes com poucas expectativas de futuro. Compartilhavam tristeza e raiva, vivenciavam um traumático espetáculo, ponto de chegada de uma vida marcada por agressões cotidianas. Em meio à fumaça de gás lacrimogêneo, muitos deles não mediam seus atos esperando por likes no Facebook ou seguidores no Twitter. Que se dane! A libertação que almejavam não se encaixava em um ideal de conquista, muito menos na expectativa de uma contundente vitória no processo jurídico: eles sabiam que a condenação de Darren Wilson não bastava.

Muitos permaneciam em frente à delegacia de Ferguson na gélida noite de 24 de novembro, quando o veredito do júri majoritariamente branco inocentou o policial de todas as acusações. Após aquele anúncio, mesmo quem havia tentado pacificar as manifestações nos dias anteriores parecia disposto a despejar a fúria num enfrentamento com as forças policiais. Os sons da sinfonia dos motins raciais estavam de volta após uma relativa calmaria desde setembro. A assembleia ruidosa quebrava blocos de pedra, pedaços de árvore, placas de trânsito e qualquer objeto. Desafiavam aquela reafirmação do lugar do negro no sistema jurídico dos Estados Unidos. Entretanto, de alguma forma, faltava algo como as estruturas improvisadas dos meses anteriores, quando chegaram a montar um espaço de congregação rebelde chamado QT People’s Park nas ruínas de um posto de gasolina incendiado, que agora já estava desmobilizado e reocupado pelo poder do Estado.26

Mesmo com o enfrentamento aberto à contenção ainda mais ostensiva da polícia, a impressão de que a rebelião de Ferguson havia “esfriado” (em uma aproximação direta com as condições climáticas do mês de novembro) foi fortalecida pela mídia e por alguns ativistas, que pareciam defender a necessidade de atentar para outras manifestações menos anárquicas em lugares como Cleveland e Nova York. Para o Estado pós-racial daquele segundo mandato de Barack Obama, Ferguson “encerrava seu show” e era visto como uma espécie de treinamento para administrar motins raciais e reformar/humanizar as polícias. Dossiês elaborados pelo Departamento de Justiça americano ofereceriam detalhadas “lições” a serem implementadas pelas instituições policiais, listando recomendações sobre uso inteligente da força e interação consciente com a comunidade – além de novas estratégias de comunicação em redes sociais e na mídia tradicional.

Depois do “furacão Ferguson”, a grande preocupação daqueles que desde os primeiros dias tentavam pacificar a rebelião – fossem eles policiais, ativistas profissionais, pregadores ou mesmo os diversos políticos que lá atuaram – era recuperar a trama, escrever uma narrativa redentora a partir daquela história. Muitos se tornaram “os rostos de Ferguson”, capazes de vender livros sobre suas empolgantes experiências nas ruas. O mercado midiático esperava algo palatável e menos impróprio do que os mascarados “saqueadores dos primeiros dias”. Parecia que o movimento tinha menos a ver com Mike Brown, agora com sua biografia vilipendiada por jornais de todas as vertentes ideológicas, do que com aquele ou aquela a ser alçado ao pedestal de líder. Quem teria um bom rosto para estampar a capa da Time? Quem tinha uma voz não ruidosa e suficientemente capacitada para educar os brancos liberais de universidades como Harvard e Yale sobre o que havia acontecido? Quem poderia dissipar a raiva irracional negra e oferecer, apesar de tudo, uma refinada narrativa de progresso e oportunidade?

Desde então Ferguson certamente inspirou os passos de muitas outras pessoas negras nos Estados Unidos e no mundo. Muitas delas sabiam que o grande trabalho a ser feito vinha depois das manifestações: rememorar, manter acesa a chama da revolta e, se possível, apoiar iniciativas semelhantes em outros lugares. Esses manifestantes recusavam a disputa por status promovida pelo mercado de ativistas celebridades. Nos anos seguintes, vários deles se engajaram em diversas iniciativas para reformar a polícia na Grande St. Louis. Logo nos primeiros meses de 2015, seguindo os passos de organizações ativistas que acompanham casos de brutalidade policial desde os anos 1960, um grupo de sete moradores criou o Civilian Oversight Board com o objetivo de “vigiar os vigilantes”, ou seja, revisar investigações internas do Departamento de Polícia Metropolitana sobre “uso de força excessiva, abuso de autoridade e discriminação” envolvendo policiais.27 A publicação dos já citados dossiês do Departamento de Justiça resultou na demissão ou na renúncia de vários funcionários acusados de práticas discriminatórias contra a população negra na região.28 Também nesse contexto de mobilização, houve uma enxurrada de processos e indenizações contra administrações municipais e estaduais, além da tentativa de se estabelecerem programas de anistia capazes de perdoar impostos e multas e rever mandados comprovadamente racistas para penalizar moradores negros.29 Muito mais que os atos jurídicos, as manifestações de Ferguson renovaram a participação popular na resolução de problemas e na transformação das comunidades negras pobres em toda a grande St. Louis. Mutirões para garantir apoio às crianças em idade escolar, grupos de leitura, doação de roupas e suprimentos básicos para o dia a dia juntaram-se ao engajamento para registro eleitoral e habilitação de candidaturas como parte de um entendimento coletivo de que vários dos manifestantes deveriam concorrer a cargos públicos como forma de contribuir para o progresso local.30

Os anos seguintes também foram marcados pela atuação dos sindicatos policiais, que agiam para impedir qualquer tentativa civil de investigar e cobrar a responsabilização de agentes infratores. Lideranças comunitárias como Kayla Reed entenderam o quão importante seria para os ativistas de Ferguson somar forças com as várias pessoas que, ao longo de 2020, tomavam as ruas do país em memória e justiça por George Floyd e Breonna Taylor. Concentrando-se em “reimaginar a segurança pública” e engrossando o coro abolicionista para reduzir o orçamento da polícia, elas estavam de acordo sobre a necessidade de “uma nova visão” e “um outro futuro”. Contando com a união de 28 organizações ativistas, assinaram, em janeiro de 2021, o chamado The People’s Plan, uma agenda política abrangente envolvendo educação, saúde, habitação e meio ambiente como parte do processo corretivo necessário para a abolição das estruturas de segurança que há tanto tempo oprimem populações negras locais. A ideia seria reduzir as interações policiais agressivas através da descriminalização do vício em drogas, de doenças mentais e da pobreza. Reduzir o orçamento da polícia, argumentavam, iria permitir um maior investimento em socorristas não violentos. The People’s Plan ressaltava como era oneroso o Departamento de Polícia – que consumia quase um terço do orçamento da Grande St. Louis – e como era necessário e urgente redirecionar aqueles fundos para a assistência social.31

O chamamento à abolição feito por iniciativas como The People’s Plan demonstrava uma compreensão ampla da lógica carcerária. Aproximando-se daquilo que elaboram Ruth Wilson Gilmore e James Kilgore, essas iniciativas entendem a necessidade de reconhecer as diversas frentes de luta, os distintos ritmos para se caminhar, organizar, promover ideais e negociar na arena política. Como filosofia, a abolição não se limita à mera destruição das prisões. Sua demanda deve ser compreendida como um trabalho de (re)construção das comunidades negras, de forma “exigente, deliberada, paciente e persistente”, combatendo, por meio da presença e do cuidado, toda uma “ecologia da existência precária”.32 A abolição também não significa, como adverte Angela Davis, a negação peremptória de reformas sem dúvida necessárias para resguardar minimamente as vidas das pessoas presas. Os grupos que elaboraram The People’s Plan estavam plenamente conscientes de que não há uma separação estrita entre reforma e abolição. Afinal, como poderiam negar reformas que garantissem melhorias nos serviços de saúde, proteção contra abusos sexuais e outras violações dos direitos humanos nas prisões? A grande meta, portanto, é de que forma estabelecer, com suficiente apelo popular, uma articulação entre essas necessidades imediatas e um projeto mais amplo de abolição das prisões como forma dominante de punição. Em suma, como alinhar expectativas futuras sabendo que é preciso sanar diversas demandas urgentes.33

Esse porvir abolicionista disputado nas ruas de Ferguson – e nas diversas manifestações contra a antinegritude global no rastro desse evento de 2014 – já pode ser vislumbrado em “fragmentos e pedaços, experimentos e possibilidades”.34 Na verdade, há pelo menos duas décadas esse apelo vem sendo teorizado por uma tradição radical negra que mostra o quanto a abolição “está construindo o futuro a partir do presente, de todas as maneiras possíveis”.35 Como dizem William Charles Anderson e Zoé Samudzi, os Estados Unidos e o mundo – cujos destinos, por meio da globalização do capitalismo, são inextricáveis – “terão um rude despertar” com a abolição.36 O que grande parte dessas revoltas negras tem demonstrado é que a necessária superação desse sistema não envolve uma reinvindicação nacionalista dos “reais valores” americanos e muito menos de sua promessa fundante em defesa da “liberdade e justiça para todos”. A abolição significa amar um país que ainda não existe, ou melhor, que existe apenas em lampejos, furtivamente, em espaços de revolta como Ferguson. E esse é um tipo de luta importante para o presente.