Velas para regar de brasas la memoria, para trizar de chispas el olvido. Como si bajaran la cola de un cometa rozando la tierra en homenaje a tanto desaparecido.

Pedro Lemebel, Tengo miedo torero

12 de setembro

São imagens em preto e branco. Um caça corta o céu em meio aos prédios. Mesmo quando a câmera fecha o plano no avião, as antenas nos terraços explicitam a baixa altitude. Estamos em pé, parados diante dessa tela, meu tio e eu. Estamos muito longe de ter conhecimentos específicos sobre aeronaves, mas sabemos que se trata de um Hawker Hunter, um jato originalmente desenvolvido para a Real Força Aérea britânica. Esse rasante tampouco nos é desconhecido, as imagens ainda não mostram, mas sabemos. Estamos em silêncio. As paredes envidraçadas do museu permitem que o sol chegue até nós, o que entendo prontamente como um convite para sair, para me sentar a uma mesa ao ar livre, tomar um café ou, o horário talvez já permitisse, uma taça de vinho branco. Formulo o pensamento em voz alta, vamos a salir a tomar algo, vení, es mi último día en Santiago y hace sol. Ainda diante da tela, vem o pedido, espera, que ahora viene el próximo avión.

Para meu tio, o avião que ainda viria era parte do agora. Não era possível se afastar da tela sabendo que o segundo caça passaria, sabendo que logo veríamos a fumaça, as bombas destruindo a fachada, e, dali a alguns minutos, também o telhado do Palácio de La Moneda apareceria em chamas. Quantas vezes já não tínhamos visto essas imagens. Se fecharmos os olhos, talvez sejamos capazes de reconstituir cena a cena, descrever com precisão ou também acrescentar detalhes que foram se somando com o tempo, de tão desgastadas que coisas como essas ficam com a repetição. É verdade que nunca tínhamos visto as imagens juntos, é também verdade que ele decorou a trajetória desses caças antes mesmo de me conhecer. E ali estávamos diante de uma tela no saguão do Museu da Memória e dos Direitos Humanos, diante de uma projeção em loop do bombardeio, em um tempo suspenso. Eu podia sair da frente da tela, ele não. Não antes do próximo avião que, ele sabe, já vai chegar.

Tem algo de aprisionador numa imagem que consolida um golpe de Estado. Há algo que obriga, que exige que meu tio peça ou espere por uma permissão, que ele mesmo se autorize, que ele vença uma grande força gravitacional que o impede de sair do lugar. Não há possibilidade de estar diante de uma imagem dessas e simplesmente dar meia-volta, olhar para o outro lado, sem que se complete o ciclo. Mas a expectativa de que o ciclo possa se completar se desfaz no mesmo momento que ele se enuncia, a máquina da memória impõe seu curso. E a tela mostra outra vez o primeiro avião, para outra vez seguir, e de novo mais uma vez. A diferença é que eu não estava lá. Eu nem mesmo existia. E, naquele momento, naquele agora plasmado de muitas camadas de tempo, fazia 50 anos que essas imagens haviam entrado para a história deste país e para o álbum íntimo da minha família.

O filme só foi visto anos depois, mesmo por quem estava em Santiago naquele dia. Meu pai e meu tio acompanharam pelo rádio, de Valparaíso. Sei que estavam na sala de jantar ouvindo a Rádio Magallanes, a última em atividade depois que as torres de transmissão foram sendo bombardeadas uma a uma. Não sei se estavam de pé ou sentados, se se abraçavam ou se arrancavam a pele do canto da unha, se tomavam café. Sei que ouviram Allende, el metal tranquilo de mi voz ya no llegará a ustedes, no importa, lo seguirán oyendo. Sei também que não sabiam do deslocamento que acontecia entre as calles Amunátegui e San Martin, muito perto da Plaza de la Constitución. Com uma Bolex Paillard, Peter Chaskel Benko, então diretor do centro de cinema experimental da Universidade do Chile, subia ao apartamento de um amigo em busca de um melhor ângulo. O rolo de 100 pés de filme, algo como 30 metros, dois minutos e 30 segundos de gravação, foi escondido e transportado por Fedora Robles, também diretora e roteirista. Peregrinou do Chile ao Peru e depois a Cuba. Revelado e editado pelo Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica, foi incorporado integralmente ao documentário A batalha do Chile, de Patricio Guzmán.

As imagens que víamos naquela tela eram viajantes. Eu também era viajante, numa peregrinação de outra ordem. Fui a Santiago para os eventos de memória dos 50 anos do golpe. Ao fim de cinco dias, estava cansada de tanto luto e tanta morte. Penso que eu reunia as condições para me cansar sem que a permissão para isso me custasse muito.

Na manhã daquela terça, percorremos o museu do início ao fim. Meu tio evoca uma pretensão de completude, como se seguisse uma linha bem amarrada, um fio espesso em que nada pode passar. Tudo deve ser visto. O mais interessante em visitar um museu sobre violência de Estado com o filho de uma pessoa torturada é testemunhar esse olhar, não o museu em si, o que ali se expõe. Mas meu tio me oferecia apenas elementos descritivos, factuais, sabes lo que significa MIR. Digo que sim, sei por alto, mas que ele pode me contar. Ganho a sigla desdobrada e nada mais, apenas a enunciação dos termos. Quando eu ensaiava pular alguns trechos, acelerar o passo, minha tentativa de rebeldia era logo registrada, era preciso me trazer de volta para a sequência, eu estava jogando amarelinha num lugar em que saltos não são permitidos.

Como se olha para um museu sobre violência de Estado? Logo percebo que essa pergunta era minha. Para meu tio, a questão do olhar não parecia se colocar. Porque perguntar era também se ver forçado a escolher e decidir; a sequência estabelecida se apresentava como uma ordem para o mundo, uma ordem à qual era preciso se agarrar. Seguir o roteiro era a garantia de suspensão da pergunta e da necessidade de escolher, era recorrer a um terno numa ocasião formal, em que a adequação é pressuposta, numa estrutura definida por alguém que não somos nós, em que há um código de conduta e um protocolo. Eu queria pensar sobre o caminho dos meus passos e experimentar meu olhar naquele museu. Mas o meu lugar, ali, era o de quem visita e depois vai embora. Não que meu tio não se fizesse perguntas, mas talvez a pergunta dele fosse diferente. Não se tratava de como ver, mas de como existir e continuar existindo num grande museu sobre a violência de Estado, todos os dias, em loop, esperando pelo segundo avião.

Saímos do museu em direção ao hotel para pegar minhas malas. Passamos no hotel dela, meu tio também queria se despedir. Vamos nós duas juntas para o aeroporto, onde enfim têm lugar, nos preços exemplarmente caros de aeroporto, as taças de vinho branco gelado. Não nos víamos desde sexta-feira. Como se pode ver o que a gente viu, com quais lentes, como você conta, o que te pareceu importante, quais deslocamentos são seus, quais os meus. Digo que não aguento mais. Que foram cinco dias de luto, marchas com velas, romaria ao cemitério com familiares de mortos e desaparecidos, partidos políticos homenageando seus mortos com coroas de flores, mortos lembrados com seus nomes em placas, e mais flores, mais velas. Cinco dias em um funeral sem fim, como se as pessoas tivessem sido assassinadas e torturadas e desaparecidas não há 50 anos, mas no dia anterior. Tudo gira em torno da morte, mas o que você achava que seria, ela diz.

7 de setembro

Viajo na noite do feriado, no mesmo dia em que é publicado o episódio de podcast da Rádio Novelo Apresenta com meu pai, o episódio em que ele conta como foi viver o 11 de setembro de 1973 aos 17 anos. Tínhamos gravado em abril, mais de três horas em que ouvi meu pai falar e responder às perguntas da jornalista Natália Silva, perguntas que eu jamais poderia ter pensado em formular. Tudo bem, já entendi que seu pai era deputado, homem público, filiado ao Partido Socialista, que foi torturado, mas como você se sentiu com tudo isso, como você soube que era um golpe, onde você estava, era no quarto ou na sala, como você viu a vida antes e depois, me conta quem era você, quem era você com os outros, quem você se lembra que você era. Foi exatamente isso que eu tinha pedido, meu pai não se nega a contar, mas conta tudo sem se implicar, como se fosse uma história oficial, um desfile de datas, nomes e fatos. Não tenho acesso a uma história íntima, não consigo ver além dessa barreira do que ele quer me contar. Depois que o episódio saiu, a Natália escreveu que se preparou pensando no conselho que ouviu em outro podcast: não faz muito sentido perguntar por fatos e acontecimentos, mas buscar um enredo, uma trama. A virada não é simples, é preciso um make your mind like water para se infiltrar nas frestas da história, como a água correndo por uma superfície esburacada. É nessas pequenas poças d’água que estão as melhores perguntas, ou talvez simplesmente as perguntas que abrem novos acessos.

Não sei dizer quando eu soube que meu avô tinha sido deputado e torturado na ditadura chilena. Como se conta isso a uma filha? Será que meu pai pensou em como contar para esta niñita que ela teve avós, que eles não souberam que eram avós dela, que meu pai foi torturado num navio, que teve um antes e um depois que mudou a história do meu mundo. Sei que eu soube antes mesmo de entender as palavras “deputado” e “tortura”. Talvez eu deva começar com o fato de meu nome ser composto, Bianca Margarita, “margarida branca”, e esse nome desde o início estabelecer uma conexão com a minha avó chilena, que também tinha nome de flor, Lidia Margarita. Nomear é criar um fio, para não esquecer e para que nunca se esqueça. Mas como é possível guardar a memória de alguém que não conheci?

Também não lembro quando ouvi pela primeira vez o nome Pinochet. Parece que sempre esteve aí, mas também não esteve. Parece que nasci com essas palavras instaladas no corpo, e sempre foi muito claro que Augusto Pinochet equivalia a ditador. Meu pai sempre me fez repetir muitos nomes, mas não esse. Quando pequena, lembro de ele dizer que no Brasil não se modulam as palavras, se comem os sons, se cortam os nomes, falta precisão. Aos seis anos, me fazia repetir e depois me perguntava, provocativo: Arthur Antunes Coimbra e Carlos Caetano Bledorn Verri, Zico e Dunga, respectivamente, conhecimento para ele importantíssimo para meu quadro de referências de Copas do Mundo. Nunca me pediu para decorar e repetir Antonio Elías Tavolari Vásquez, que eu inclusive só vim a saber que também tinha Elías no nome muito tempo depois, em outubro de 2018, quando decidi procurar pelos discursos do meu avô no Congresso chileno. Também nunca me pediu para repetir Augusto Pinochet, ou melhor, Augusto José Ramón Pinochet Ugarte.

Esse registro do meu pai, de quem conta uma história vivida sem se implicar nela, é impossível. Todos estamos implicados, não importa se mais próximos ou mais distantes. Mas, apesar de impossível, é um registro eficiente. Desde muito pequena, eu aceitei os termos da conversa, como numa dança em que os passos já são coreografados, no me toca perguntar para onde vamos, o que estamos fazendo ou sentindo, apenas continuar. Acho que cresci sem me perguntar o que não estava sendo contado, sem me perguntar como se sente essa violência que eu não vi. De alguma maneira, era um zelo com uma ferida que não era apresentada como ferida, ela apenas era. Eram esses os fatos e a vida, eram esses os elementos do quadro. Uma história já sabida, contada como num verbete de enciclopédia ou num livro de história de colégio, que nunca me ocorreu fora desse registro. Não conseguia pensar em make my mind like water, era mais como o curso de um rio que eu aceitava seguir. É também falso que o que me contava meu pai era a história oficial, como se existisse algo assim tão fácil. Ouvi muitas pílulas míticas de intimidade e cotidiano, repetidas inúmeras vezes, tantas que, a certo ponto, já não dava tanta importância: o quão artesanais eram as campanhas políticas do meu avô, os relatos de fazer os pincéis com crina de cavalo para pintar as faixas de candidatura com o nome dele, os momentos do meu pai e meu tio pequenos com o Allende, as torradinhas com geleia que ele passava gentilmente de um a outro, o poema feito pelo Neruda, y el pueblo le llama Antonio, a greve dos caminhoneiros e o desabastecimento de todos os supermercados antes do golpe. Mas o que você sentiu, como você via a vida, quem era você, como você hoje olha para tudo isso. Isso eu mesma ainda não consigo perguntar, ao menos não para ele, me deixo levar pelo curso do rio ou já antecipo, por conta própria, a existência da barragem.

8 de setembro

Cheguei na madrugada da sexta, decidi de última hora antecipar a passagem para ficar um dia a mais, e ela me emprestou um pedaço de cama. Ela na verdade fez muito mais do que isso. Era de novo na calle Huérfanos, a rua que havia nos abrigado no ano anterior, em março, para a posse do presidente Gabriel Boric, quando nossa janela dava de frente para a rua, onde víamos uma loja com o nome Milagritos Té y Delicatessen. O importante não era o chá com bolo, era o nome, ainda mais adequado no diminutivo, para um milagre de uma grandeza incomensurável. Era um acontecimento que eu tivesse ido, eu, que precisava movimentar montanhas para sair da minha aceleração de trabalho tão cotidiana, totalizante e corrosiva. Desta vez, era um apart hotel, habitación 310, chaves com Claudio. Cheguei e vi chás e tangerinas. Vejo que ela comprou velas, que se preparou, ela já sabia, e eu não.

Eu só fui a Santiago por causa dela. Escrevo isso e penso que pode parecer muito forte, mas não é. É difícil estabelecer causalidades, o que põe as coisas em movimento é um conjunto grande de fatores, eles mesmos enredados em outros tantos mais, em que as separações e as unidades são artificiais, ainda que temporariamente úteis. Mas eu vim porque ela perguntou, mais de uma vez, como era possível que eu não fosse. Porque no ano anterior ela já tinha me trazido, já tinha me pegado pela mão, já tínhamos descoberto que meu avô tinha o segundo nome Elías, ecoando o nome que o pai dela adotou na clandestinidade da ditadura brasileira. Porque ela me deu a medida e o tamanho dos acontecimentos. E a certeza de que eu não poderia estar em nenhum outro lugar, que 50 anos são 50 anos, e que eles movimentam as coisas no mundo. Se não agora, quando.

Meu tio chegou cedo no apart hotel, tomamos chá verde no quarto, nos abraçamos por um encontro menos espaçado. Tirando as viagens da infância, fui a Santiago apenas com 17 anos. Na magia dos números, me tomó otros 17 – e um presidente que venceu a extrema direita nas urnas, vindo de fora do bloco tradicional da Concertación – para voltar. Meu pai tinha 17 anos no dia 11 de setembro de 1973. E foram 17 anos de ditadura, até 1990. Aquele abraço cheio de ternura era também para dizer que havíamos rompido a máquina do tempo, que de repente podíamos nos ver um ano sim e outro também, ainda que por poucos dias.

Fomos os três juntos, de metrô, a Villa Grimaldi. Se chama assim porque era para ser uma vila italiana, com um jardim de rosas, uma piscina convidativa no meio, um sonho de verão entre araucárias, álamos e bétulas, perto de Peñalolén, um pouco longe do centro. Se, no Brasil, os centros de tortura oficiais e secretos foram estabelecidos principalmente em presídios, casas de detenção e imóveis públicos, no Chile, os militares transformaram diversas propriedades privadas em lugares de sequestro, aprisionamento e extermínio político. Hoje convertida em lugar de memória e monumento nacional, a Villa Grimaldi foi um dos principais lugares de tortura durante a ditadura de Augusto Pinochet.

Nos oferecem um audioguia, que aceitamos. Como se olha para um museu onde a violência de Estado aconteceu? Algumas semanas antes, em São Paulo, havia estado na escavação arqueológica do prédio do DOI-CODI, na rua Tutoia. Tentava um exercício do olhar: como enxergava quem estava agachado no chão? Como escolheram os revestimentos? Os de borracha, para eletrocussão? Mantinham os vidros? O que via quem chegava para torturar? Como se movimentavam pelas salas? Começamos a caminhar, e o fio espesso da sequência e da ordem reaparece, meu tio quer seguir os números no audioguia, quer seguir as placas, as legendas. Há mosaicos ovais muito bonitos no chão. Os presos chegavam ao centro de tortura vendados e, por isso, o agora museu também nos pede que olhemos para baixo. Entre os pequenos pedaços que compõem as placas, podemos ler uma cartografia do horror, com celdas de 1 × 1 m, lugar de aislamiento vendados y encadenados de pies y manos, camas metalicas con electricidad parrilla, sala de guardia con sala de tortura anexa, colgamientos, laboratorio fotográfico de la Dina, pieza de serigrafía para falsificación de documentos, patentes, logos etc. Mas se meu tio queria que eu apertasse o botão 2, porque tínhamos acabado de sair da explicação do item 1, esses planos foram completamente alterados quando vimos um senhor, já de cabelos brancos, falando sobre cada um dos espaços para outras três pessoas, uma delas com um cartaz com a foto em preto e branco de um desaparecido, perdí mi mejor amigo y por eso lo traigo en el pecho. Chegamos perto lentamente, o homem de casaco cinza e cabelos brancos era um sobrevivente daquele centro de tortura, Pedro Matta.

Em frente a um painel com o organograma da Dina, a polícia secreta chilena, com Manuel Contreras Sepúlveda no topo, disse que han me torturado estes caballeros, apontando para os nomes. Pedro Matta descreveu todos os tipos de tortura e extermínio que aconteceram na Villa Grimaldi. Quando terminava uma explicação, dizia simplesmente sigamos, a palavra-chave que nos permitia ir de um lugar a outro, de um relato a outro, a respirar entre as lágrimas e seguir em frente. Ao final, não soube muito bem o que dizer além de muchas gracias por compartir tu historia, e Pedro prontamente me corrigiu, no es mi historia, es la historia de un país, y gracias a tí por escucharme.

Enquanto seguíamos Pedro, encontramos Margarita Romero, ex-diretora da Villa Grimaldi e amiga da ex-companheira do meu tio, que tinha pedido para que ela nos encontrasse. Fomos numa padaria tomar um café da manhã tardio, quase um almoço. Pegaríamos um carro. Peñalolén é o bairro em que meu pai, meu tio e meus avós moraram em Santiago. A casa fica muito perto da Villa Grimaldi. É a casa onde morreu a avó de quem herdei o nome. Não fomos até a casa, en otra hora, disse meu tio. Se não agora, quando.

Enquanto tomávamos café e eu comia pan con palta, Margarita – a Romero, são muitas Margaritas – nos contou das novas descobertas sobre a Colonia Dignidad, no sul do Chile, um dos centros de tortura na ditadura. Seu fundador, Paul Schäfer, era um ex-militar nazista. Os 50 anos levaram a Alemanha a abrir seus documentos, que mostraram como o governo alemão financiou a Colonia Dignidad, com investimentos diretos e envio de armas. A revelação acrescentou mais uma camada de apoio ao golpe, que veio não só massivamente dos Estados Unidos e das ditaduras do Cone Sul, organizadas na Operação Condor. Cinquenta anos são 50 anos, e movimentam as coisas no mundo.

9 de setembro

Encontro finalmente com a Paula, o que nunca havia sido possível em São Paulo. Nos abraçamos, tomamos vinho. Ela me leva numa festa de artistas que fazem uma performance. Na parte de baixo de uma ocupação na avenida Brasil, cada um tinha sua vez de colocar óculos de segurança, escolher um instrumento e golpear esculturas de gesso com a cabeça do Pinochet. Uma catarse. Golpeio e não sinto muita coisa, nem alívio, nem raiva, nem nada.

4 de setembro

Antes da viagem, meu pai me manda muitas mensagens no WhatsApp com nomes de pessoas que eu deveria procurar, coisas que eu deveria saber. Digo que ele deveria vir comigo a Santiago. Já tinha dito antes, pois é, mas não vai ser possível agora. Nunca é. Entendo nesse momento que meu pai é a pessoa que decidiu ir embora. E meu tio é a pessoa que escolheu ficar.

Uma das mensagens começa com só para você saber. E, em seguida, vem: teu avô foi preso duas vezes, em 1973 no navio Lebu e, em 1975, em Peña Blanca, é possível que tenha estado uns dias na Villa Grimaldi, eu não posso te assegurar 100%. Só para que eu saiba, para que eu tenha a informação, ele apresenta como um fato da realidade, preocupado com a precisão do que diz, porque, afinal de contas, é a isso a que ele recorre quando precisa se segurar.

10 de setembro

Vou à marcha das famílias que começa na calle Morandé, 80. O endereço da porta por onde o corpo de Allende saiu de La Moneda, a porta que foi fechada e depois reaberta. Devo caminhar junto a elas atrás das faixas? Devo me juntar às pessoas que choram pelos seus mortos? A pergunta não vem de qualquer sensação de hostilidade, pelo contrário. Me sinto muito bem-vinda. Mas não estou com a minha família, não tenho uma foto do meu avô, ele não desapareceu, não preciso perguntar donde están para os meus, mas, sim, ele foi vítima, mas não, não o conheci. E estou sem família numa marcha de famílias, não fui apresentada aos códigos. Canto músicas que nem sequer sabia que sabia, não tenho uma vela acesa na mão, então tateio. Caminho e em seguida paro, observo e canto el derecho de vivir en paz, canto y tú vendrás marchando junto a mí y así verás tu canto y tu bandera florecer, canto inclusive o ¡adelante! com voz mais alta. Agora sinto que fui porque precisava dar concretude e textura para as palavras que eram só palavras.

11 de setembro

Vou com meu tio ao Estádio Nacional. A história que conheço de Desaparecido, o filme de Costa-Gavras, o único que meu pai fez questão de me apresentar como filme que deveria ser visto. Fui eu que o chamei para ver Machuca, fui eu que o obriguei a ir ao cinema comigo para ver No. É muita gente, não dá para entrar. Aqui tem um pouco mais de festa, mas ainda assim a música é em tom baixo, o clima é de cerimônia, os mortos ainda estão mortos, não nos esqueçamos. Comemos um pancho con palta, tomamos uma cerveja. No metrô da volta, um cartaz na parede dentro da estação, que parece rir alto e, como numa profecia, diz: llorarás verás verás verás verás verás verás.

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Eu já sabia o que queria escrever desde que voltei de Santiago, mas ao mesmo tempo não sabia. Tive que viajar para Buenos Aires, tive que vir para Berlim, de onde escrevo agora, tive que contar para inúmeras pessoas que este texto iria existir, como se lançasse um anzol para que eu pudesse resgatar depois, um pacto com os outros, já que, em algum lugar, tinha a impressão de que, se fosse um pacto só comigo, eu daria voltas, eu poderia me trair. Já saber o que se quer escrever e já estar pronto não é suficiente – é preciso que se tenha tempo para ouvir os próprios pensamentos. Escrever é perigoso, não é o tipo de coisa que acontece e que te dá a possibilidade de sair ilesa. E desde sempre eu estou negociando comigo o quanto eu posso dar para essa história, o quanto ela é inevitável. Falar do texto para os outros também é forçar a inevitabilidade, ela não faz mais parte só de mim, se é que algum dia fez. Nunca se está completamente pronta para escrever um texto assim, mas tem uma predisposição, algo dentro de mim que entende que o tempo de maturação já foi suficiente. Se não agora, quando.

Berlim, 27 de julho de 2024

Gabriela Aguerre e Ingrid Fagundez me acompanharam, conversaram comigo sobre não ficção e literatura do luto, recomendaram livros – sempre soube que a conexão seria pela literatura. Cecilia Gil Mariño me indicou livros de filhos e filhas de torturados e mortos na ditadura argentina. Cecilia Fanti, da Céspedes Libros, em Buenos Aires, revirou a livraria inteira para que eu pudesse encontrar eco da minha história em outras. Nona Fernández escreveu La dimensión desconocida, e eu nunca chorei tanto lendo um livro. Puo-an Francisca Wu Fu me emprestou, em Berlim, Tengo miedo torero, e eu me perguntei como foi possível que eu tivesse vivido até então sem saber da existência de Pedro Lemebel. Nico esteve comigo enquanto eu lançava e puxava os anzóis. Muchas gracias.