O esgoto nos encontrou antes do alerta de evacuação. Depois do desligamento das bombas, a Defesa Civil levou três horas para emitir o aviso, pelo Instagram, quando o protocolo seria o disparo em massa de SMS. Um amigo me avisou pelo WhatsApp, enquanto eu, ingenuamente, descia os móveis, suspensos desde a inundação do centro histórico.

Na véspera circulei entre a avenida Loureiro da Silva e a orla, desviando da água, que se aproximava em silêncio. Fotografei o Guaíba passeando dentro dos bares, que ficam entre os níveis da avenida, mais alto, e do rio. Até aquele dia eu pensava que a integração entre os bares e a estrutura do calçadão fosse apenas uma arquitetura arrojada, sem me dar conta de que os bares eram, em primeiro lugar, diques projetados para deter uma enchente. Me pergunto se os comerciantes sabiam.

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Alertei meus vizinhos de que a água estava a 140 metros da gente, falei que o mapa da UFRGS1 indicava que seríamos afetados. Graças à iniciativa de uma universidade pública, alojei a geladeira e a máquina de lavar sobre blocos de concreto. Os vizinhos, idosos, me asseguraram que a água sempre empoçava naquela rua, e ninguém pareceu alarmado. A Cidade Baixa seguia no seu ritmo, jovens passeavam e festas aconteciam nas coberturas dos edifícios enquanto Canoas naufragava.

Quando cheguei a Porto Alegre, um ano antes, reparei que em cada esquina havia casas geriátricas com nomes especiosos, tipo Alegria de Viver e Sonho Meu. Porto é a capital com a população mais velha do país,2 efeito da baixa natalidade e do alto volume de emigração. Meus vizinhos idosos confiaram na domesticação do clima e na ideia de que a cidade se autorregula, como um organismo. No meu edifício, as últimas a serem resgatadas foram idosas, talvez vivessem sozinhas. As maiores vítimas de climas extremos já são os velhos.3

Para que Porto Alegre crescesse foi preciso que o lago prevalecesse sobre o rio.4 O Guaíba tem características de ambos, mas a especulação imobiliária privilegiou o lago para burlar a legislação ambiental. A mudança de nomenclatura permitiu que os aterros afastassem a rua da Praia das águas do Guaíba.

A enchente foi prevista um ano antes de acontecer,5 e nenhum real foi investido no sistema de defesa. Três meses antes da inundação, o governo estadual cedeu o cais Mauá à iniciativa privada para a construção de edifícios de até 150 metros de altura, para os quais será preciso realocar o muro que mal protegeu a cidade. O cais Mauá foi retirado da Poligonal Portuária da União em 2020, e isso possibilitou sua venda6 à única empresa que participou do leilão público.

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As portas incharam e precisei arrombar a da entrada, durmo com ela aberta, ou nem durmo. O sol higieniza o pouco que toca com seu calor atômico, há dias a luz de emergência oscila, sem intervalo, no teto da cozinha. Uso o difusor de óleo essencial, queimo incensos e desinfeto os móveis com água sanitária e álcool, mas são paliativos. O cheiro está nas juntas da casa – e agora é parte inseparável dela.

Enquadro meu rosto na moldura oval do aplicativo da Caixa e novamente o vejo distorcido. Pela terceira vez o saque emergencial do FGTS é recusado. Não consigo provar que vivo nesta cidade. Vou a uma agência na Bento Gonçalves com uma declaração, atestando que sou a moradora do 101. Antes de cruzar a porta giratória, um funcionário me convoca à fila, eu explico que o app do banco não dá conta da realidade domiciliar de todo mundo e que nele não há campo para escrever uma justificava curta. Ele me interrompe dizendo “fale devagar”, então virgulo cada palavra. Ele me diz para continuar tentando, sem me entregar a senha para entrar na agência.

No meu primeiro emprego, eu pedia que o cliente aguardasse e ia até uma sala, de onde eu o via por uma janela de vidro, sem ser vista. Nessa sala, eu consultava o seu CPF e procurava registros de inadimplência, então voltava à mesa e dizia que ele não tinha atingido a pontuação. Era no último andar de uma loja popular de roupas que nessa época de entusiasmo econômico foi um braço na bancarização da classe C, oferecendo empréstimos e saques. Em outra fast fashion, éramos constrangidas a comprar as roupas que vendíamos, para usá-las como uniforme, então comecei a me endividar com calças e blusas 100% poliéster, e a dívida crescente foi me aprisionando a empregos que me faziam odiar a vida, e todo esse esforço é uma massa inerte no estômago da Caixa Econômica.

No sistema do governo federal, estou em três estados e nenhum deles é o Rio Grande do Sul; não atualizei meu endereço porque não recebo faturas pelos Correios. É preciso uma gambiarra para alugar um imóvel em Porto Alegre, tenho que comprovar uma renda de três vezes o valor do aluguel, em média, e cumprir mais alguns critérios misteriosos – talvez os mesmos para se ter um cartão da loja popular de roupas.

Essa complexidade leva à alienação habitacional, e não é coincidência tanta gente vivendo em calçadas. Em 2022, eram mais de três mil, 30% devido a desemprego e outros 30% por perda de moradia.7 A prefeitura oferecia uma mediação para que pessoas em situação de rua pudessem alugar imóveis, mas a faixa do aluguel não excedia os 800 reais. Então, essas pessoas ficavam distantes e alienadas das zonas centrais da cidade, vivendo nos bairros mais precarizados quanto a transporte, saneamento e lazer. O programa de locação foi descontinuado,8 e Porto Alegre tem, em 2024, quase cinco mil pessoas em situação de rua.

Para ceder o auxílio reconstrução, a União exige um endereço atualizado antes da declaração de calamidade pública, em 1 de maio. Mesmo minha matrícula na pós está com um endereço da Bahia, aonde as entregas nem chegavam. Algumas ruas da vila onde eu morava foram calçadas recentemente, por exigência dos Correios, que só fazem entrega em vias sinalizadas. O calçamento coincidiu com o boom de condomínios pós-pandemia, que moveu os nativos para o outro lado da Linha Verde e tapou a vista do mar nos poucos mirantes.

A crescente circulação de pessoas demandou da vila mais acessibilidade, então as dunas de areia foram calçadas com blocos de cimento, e os comerciantes impediram que a mata ciliar crescesse nas margens do rio onde ficam os turistas. Nos três anos em que morei nessa vila na Bahia, testemunhei a construção dos condomínios, a geolocalização do Instagram e o calçamento parirem lixo na foz, assaltos e quadriciclos dirigidos por adolescentes bêbados. Um deles atingiu a têmpora da minha gatinha. Lacinho caiu sem sofrimento, teve morte instantânea, no dia em que deixei a Bahia de carro, rumo ao Rio Grande do Sul.

Me cadastro no site da prefeitura de Porto Alegre, mas desconfio. A promessa do governo federal é uma ajuda imediata (que, três meses após o cadastro, ainda não chegou). Entro regularmente no gov.br, revejo meu rosto distorcido na biometria facial do app. Estou sozinha há dias na minha cabeça e tenho fantasias restauradoras, vontade de suspender a cara com guindastes. Pesquiso o pós-operatório de uma rinoplastia, assisto a vlogs de recém-operadas, vou ao site da sociedade de cirurgiões plásticos, leio avaliações, encontro processos judiciais e o Instagram das clientes.

Assisto a Priscilla. Gosto de Sofia Coppola e de suas histórias sobre tempos vazios; é assim em Um lugar qualquer, sobre um ator profundamente entediado, ao ponto de dormir enquanto assiste a um duo strip de dançarinas siamesas. É assim com Priscilla, que no arrastar das horas se distrai testando os sofás. No filme ela é um móvel de luxo sempre à espera do marido. Elvis voltava e às vezes desviava de Priscilla como de uma mesa de centro.

Pesquiso fotografias de Sofia Coppola no Pinterest, onde ela é um ícone cool, vejo frames do seu papel em O poderoso chefão 3, quando ela era adolescente. Sofia e eu temos o mesmo nariz aquilino. Escolher dirigir filmes, em vez de atuar, a salvou de uma plástica. Vejo o meu nariz no espelho, vejo sardas marrons, imagino os árabes invadindo a península Ibérica, levando no alforje as palavras “azulejo”, “algodão”, “sofá” e “limoeiro”. Sinto carinho por Sofia, por ter dignificado o nosso nariz.

Finjo que meu cartão de crédito é uma cartola mágica e pago, numa clínica no Bom Fim, por uma aplicação de botox no triângulo da tristeza. Nessa primeira noite, tenho que dormir com o rosto e a barriga para cima, na posição da morte e dos sonhos lúcidos, com medo de que o corpo se imobilize e de que eu tenha visões delirantes. Rolo o feed do Pinterest e salvo na pasta um castiçal de cerâmica, uma matrioska, um toca-discos, um sofá de cinco mil reais, uma estante, uma escrivaninha e uma luminária Akari.

Antes de dormir e logo depois de acordar, cultivo um voyeurismo estético no YouTube, que consiste em assistir a uma japonesa viver sua vida postiça, numa casa pequena e bem-iluminada, com móveis assinados por designers e uma paleta restritíssima: o que não é branco é amadeirado. Ela é singular e banal, tem a personalidade de um catálogo de bom gosto. Ela prepara seu café na máquina de expresso, ou faz um matcha latte com um utensílio que parece um pincel de barba; ela cozinha e pesa os ingredientes numa balança digital, suas gatas são adoráveis, assim que acorda ela escreve num diário com uma caneta-tinteiro e, quando passeia por Osaka, vai a galerias, cafés ou lojas elegantes e sempre volta com uma aquisição. Ela é retraída, e o enquadramento é entre o pescoço e o piso – ou, se ela estiver de costas, em plano aberto.

Assistir a sua vida me deixa simétrica e com as roupas dobradas, me dá vontade de passear na Tok&Stok, reativar meu Instagram e postar fotos da sala. A japonesa tem uma estante inglesa com peças artísticas, vinis e fitas K7, luminárias, um projetor (em vez de TV), um MacBook, um iMac, um iPad, um iPhone, uma Fujifilm, uma Leica e uma Pentax, um LP de Encontros e desencontros, uma edição de Sofia Coppola Archive, móveis de antiquário combinados com móveis da IKEA.

Em meio à sua náusea, Sartre escreveu que “o passado é um luxo de proprietários”,9 e é preciso ter uma casa para arrumar o passado nela. Mesmo uma tenda de caravana carrega utensílios domésticos, que replicam a estabilidade de uma casa. Quando Roquentin entra no quarto de hotel onde vive uma antiga amante, a segunda coisa em que ele repara é a nudez das paredes, pois Anny, que passara a vida sem fincar morada, “levava em todas as suas viagens uma imensa mala cheia de xales, turbantes, mantilhas, máscaras japonesas, estampas. Mal chegava a um hotel – e ainda que só fosse passar uma noite nele –, seu primeiro cuidado era abrir essa mala e tirar dela todos os seus tesouros, que pregava nas paredes.”10 A amante de Roquentin sabia que a familiaridade da tenda é o que fixa o nômade.

Entre o Nordeste e o Centro-Oeste, morei por algum tempo com mobília e panelas alugadas. Em cada casa, eu atravessava o deserto da grande letargia e cumpria um ritual que consistia em usar meus cadernos e os livros nas caixas como pontos de ancoragem. Em cada nova cidade, não ter um emprego me tirava a sensação de interferir no mundo,11 e eu me sentia confusa quanto à literatura, porque nunca ficou claro o que alguém está fazendo quando escreve. Mas a escrita está em mim, traindo a minha animalidade. Escrever torna minha mente mais complexa, mas não a alcança, só atinge o vestígio do que quero dizer. É como se eu tentasse explicar o azul sem nunca ter visto a cor azul.12

Quando eu era criança, no Nordeste, a praça da Matriz era meu centro geográfico, o sino da igreja marcava a transição do tempo e ser estudante era minha identidade. Ao crescer, perdi o senso de rotina baseado na programação da TV. Desde a eleição de 2018, evito manchetes que parecem olhos perplexos. O excesso de informação, de velocidade e de explicação me dá vertigem. Na Chapada dos Guimarães, eu passava horas no quintal vendo os aviões pequenos fazerem rasantes sob os radares. Com meus sentidos superamplificados, via as formigas organizadas em fila e ouvia os periquitos nas umbaúbas. Eu pensei que era um pouco de morte ficar à toa, sem saber o que fazer com tanto tempo livre, mas descobri em retrospecto que “existir é simplesmente estar aqui”.13

Então loteei o quarto dos fundos, que dava para uma antena parabólica enterrada no chão, à procura de vida inteligente; fiz uma escrivaninha com a mesa de seis lugares que trouxe do quintal, montei uma estante de livros com caixas da mudança, pendurei um mapa de Sergipe e algumas fotografias nas paredes. Dentro desse campo de força, sustentado por índices de pertencimento, lembrei que eu era alguém que escrevia para não desperdiçar a vida.14

Deixo o sofá-cama na rua e vigio a reação das pessoas a ele. Por toda a Cidade Baixa, caminhonetes encostam nas calçadas e as pessoas fazem triagem dos móveis no lixo. Eu entrava no prédio quando vi um grupo de homens avaliando os despejos, então apontei o meu sofá, debaixo de uma cama-box, e advoguei por ele como uma mãe idosa faria por seu filho retraído. Eu disse a água pegou só na parte de baixo, é um sofá-cama, ele é ótimo.

Depois de toda uma semana preterido por outros móveis danificados, finalmente vejo o sofá ser jogado no caminhão da prefeitura, que o deixará no lixão improvisado em Gravataí. No dia em que o compramos no centro de Cuiabá, era o sofá mais barato e mais feio da loja. Eu o aceitei de má vontade, tratei-o com desdém nesses anos e o fiz cruzar o país duas vezes para ser abandonado num lixão.

A japonesa do YouTube limpa o sofá, as estantes e os armários com um aspirador de mão enquanto ouve música no AirPod. Ela circula pela mobília de nomes específicos, não hipônimos (como cadeira ou luminária), nomes como bentwood armchair, feita com uma única peça de madeira maciça, assinada pela Thonet, uma das mais antigas fabricantes do mundo. Sua luminária de mesa foi projetada por Isamu Noguchi; seus quadros são assinados por artistas instagramados, têm traços infantis e cores pujantes, que não poluem a sala.

Atravesso a sessão de cozinha do Zaffari prestando atenção na louça e encontro uma xícara mais ou menos parecida com a do matcha latte da japonesa. Custou 29 reais e 90 centavos. Uso a xícara para o café e para o chá, olho para ela com frequência, paro na frente do espelho da sala com ela na mão e reafirmo que a possuo. Lavo a xícara cuidadosamente, me enterneço com sua fragilidade.

O marido da japonesa aparece quando cozinham juntos; vejo apenas sua mão eficiente em picar legumes. Sozinha, ela faz a própria granola, a própria geleia, ela congela cubos de café no verão e, quando a montagem de um prato não é fotogênica, ela se desculpa. Eu assisto a ela assistir ao vídeo de outra pessoa vivendo.

Ela prepara uma bebida de gengibre e laranja, que não sabe como descascar, e quando se senta à mesa de jantar para polir seus anéis de prata, vejo suas unhas pintadas com um esmalte cruelty e glúten free. Eu me sinto purificada por sua vida ornamental.

O YouTube nota meu interesse e sugere vídeos relacionados, nos quais mulheres produzidas acordam cedo e escrevem em seus diários. Elas são tão derivativas quanto a japonesa, mas sem o seu refinamento discreto. Esses outros aquários parecem consultórios odontológicos, com balcões de mármore, piso lustroso e luzes led. Aquários sem fantasia nem personalidade. Me lembram a casa em que ouvi, de uma anfitriã catarinense, “seu sotaque é igualzinho ao dos baianos do mercado”. Na ocasião, olhei à nossa volta, vi a sala e a cozinha refletirem o mostruário da loja de móveis no sofá cinza-grafite e na TV de plasma, suspensa num painel de MDF; vi seu cachorro enfeitado com presilhas, dentro de uma casa quadrada, com a fachada cinza. A anfitriã me encarava do fundo da sua pesada extensão de cílios e disse: “Nem sei onde fica Sergipe”.

A japonesa põe na vitrola o LP de Encontros e desencontros e fala para a câmera, com o enquadramento entre o cropped Adidas e a mesa. Ela conta que está lidando com um distúrbio mental há mais de dois anos, que tem se tratado, mas seu estado oscila; e, ela lamenta, a periodicidade dos vídeos será irregular.

O Fantástico mostra uma Porto Alegre afogada, vista pela janela do helicóptero. Sem o sofá-cama, minha sala produz eco e o tom grave do jornalista reverbera até o teto. Faço excursões às lojas do centro. Desço a rua dos Antiquários e vejo uma escrivaninha exposta na vitrine da esquina com a Fernando Machado. Em Porto é relativamente fácil adquirir móveis antigos a baixo custo, eis a minha chance de ter uma xerife. Pergunto seu preço – é uma luís-quinze original, me antecipa o vendedor –, custa nove ou 19 mil. Sorrio e me despeço.

Sobre escrivaninhas, monges copiaram textos milenares. Mais tarde, a escrivaninha se tornou um móvel secular, útil ao isolamento para a escrita de cartas e diários. Ao redor dela surgiu um cômodo inteiro. Escritoras abastadas tinham um quarto só seu. A escrivaninha individualizou burguesas alfabetizadas que, apoiadas nesse móvel, inventaram o romance como gênero literário.

A memorabília transforma o artista em artefato e fez do quarto de Mario Quintana no Hotel Majestic uma peça museológica. O hotel virou casa de cultura, no centro histórico de Porto Alegre, e é possível visitar o diorama da vida doméstica do poeta dentro de um hotel que também não existe. Os detalhes remetem à presença de Quintana interagindo com o ambiente. Vejo o artista deitado em sua cama, meditando sobre o dia em que estudantes formarão uma fila para observar suas impressões num cômodo fossilizado.

Uma escrivaninha é uma autopoiese para quem deseja viver e morrer entre livros. Ela cria um halo para minha figura de escritora. As pernas da minha escrivaninha têm agora varizes de esgoto, e o rack da TV está com uma doença de pele, verde e escamosa. Borrifei uma solução de água sanitária e álcool e me consolo fazendo disso um evento narrativo, então posso me iludir de que esse esforço tem um significado e uma continuidade literária. Vou a um brick na rua José do Patrocínio, procuro um sofá e encontro um descarte meu, revendido depois de ser recolhido do lixo. Estamos nos endividando para substituir móveis de enchente por móveis de enchente.

As pessoas conservam um ar de perplexidade, e a rua rescende a madeira mofada. Os carros passam em baixa velocidade sobre a água empoçada. Na Baronesa do Gravataí, há placas de aluga-se e vende-se, e caminhões de mudança. Os imóveis serão desvalorizados. Caças passam sobre nossas cabeças. À margem do arroio Dilúvio, as paineiras resilientes riem de quem cruza a avenida Ipiranga. Os ventos criam rebentação no rio. À medida que a água recua, vejo uma camada de areia cobrindo quadras, bancos e aparelhos de musculação.

Pessoas se arriscam à beira do Guaíba para uma selfie, um box de cama flutua na água, entre as árvores. Uma idosa de bike e cotoveleiras me pede para tirar fotos suas, ela faz um coração com as mãos e tenta agarrar o sol. Diz que enviará as fotos ao filho, em Curitiba. Um homem pesca com duas crianças, os helicópteros sobrevoam, ansiosos. O rio passa desconfiado, parece que me mordeu por reflexo.

O motorista do Uber me fala de um contêiner refrigerado, em Canoas, que guarda corpos não noticiados de vítimas da enchente, o Exército estaria impedindo a aproximação de civis. É a roda de lendas urbanas em movimento. Enquanto isso, seguradoras me enviam SMS se oferecendo para proteger minha casa.

A porta da frente ainda está arrombada. A imobiliária me responde com links e cumprimentos automáticos. Quero me mudar, mas as opções são restritas, nos bairros vizinhos os aluguéis já eram inacessíveis antes da enchente. Gosto da minha vizinhança boêmia, apesar do lixo e das fezes. A Cidade Baixa é um bairro “franja no meio da testa”, uma Amélie Poulain drogada. Sentado no batente do meu prédio, um idoso em situação de rua pergunta se já são duas da tarde, todos os dias ele conversa sozinho enquanto espera pelas duas horas. Às vezes, a vizinha do edifício à esquerda soca o ar e grita contra interlocutores invisíveis. Gargalhadas de adolescentes me acordam nas madrugadas de sábado.

Visito um apartamento no bairro Azenha. Pergunto ao porteiro do edifício se ali também chegou água, ele aponta para a esquina. Abro uma porta no sétimo andar. As persianas estão todas fechadas, puxo a corda e nenhuma se ergue, pelo canto da janela da cozinha descubro que o horizonte é o prédio do lado. Alguém achou razoável pendurar um armário de metal Itatiaia no banheiro. A maçaneta da porta de entrada veio em minha mão, quando tentei sair. E tudo isso custa um aluguel ainda mais caro.

Entre os bricks da avenida João Pessoa, meu corte são as lojas que não parecem revender o lixo da enchente. Peço descontos e às vezes apelo à expressão “refugiada climática”. Na quarta, um sofá que me interessou estava 300 reais mais barato que na terça. O sofá tem quatro lugares e entrou desmontado no apartamento.

Enquanto o montador vai buscar as chaves, o assistente me pergunta de onde eu sou, o que vim fazer em Porto Alegre, com o que eu trabalho, se eu passo muito tempo em casa, se moro só. Respondo com o solilóquio usado nos bricks, nos brechós, nos bazares e nas Casas Bahia, desde fugir do esgoto calçando sacolas do Zaffari até não conseguir assistência do Estado. Alguém recomendou gravar um vídeo para enviar a um vereador do Psol; eu desconversei.

Limpo o novo velho rack da TV e descubro que ele tem pés instáveis, improviso um calço com papel dobrado. Avalio o sofá, vejo como é enorme, confortável, me arrependo, pois prevejo o trabalho que dará na próxima mudança. Se a água voltar será dinheiro no ralo. Os homens fixaram o braço ao contrário e precisaram refazer o trabalho. Lembro do assistente e das suas perguntas. Então, me ocorre que eu disse a um homem desconhecido que eu vivo sozinha, e esse homem poderia ter listado todos os itens de valor do apartamento, e decerto notou a porta arrombada.

Passo a noite reconhecendo o assistente do montador em cada homem que cruza a Luiz Afonso. Os vidros da janela da sala vibram quando a porta do edifício se abre, e seus trovões me mantêm em vigília. Às três da manhã, a minha vizinha geme como se viver existisse. Procuro uma posição confortável no colchão, sobre o chão frio, deslizo a tela no escuro do quarto, desvio de títulos como “minha madrasta cavalga no meu galo sem preservativo”. Tem sempre uma meia-irmã, uma madrasta e um corno. Os primeiros vídeos são para quem quer submeter outro homem, transando com a esposa dele enquanto ele está no trabalho; outros títulos aludem à fantasia de estupro, com mãos afastando a calcinha de uma mulher adormecida. A maioria resvala em ideações de violência, com vaginas, ânus e gargantas entupidos por um pênis ansioso em rasgar, transbordar e engasgar.

Todos os signos de feminilidade são superlativados nessas produções. Mulheres com peitos inflados e um monte de vênus infantil, aperfeiçoadas com cabelo, cílios e unhas postiças, cavalgam homens malformatados. Os corpos são sobretudo brancos, e, quando não, as mulheres são categorizadas como asiáticas, morenas, mulatas etc. Nenhum desses homens me atrai, digito “homem bonito” na busca e aparecem rapazes brancos, magros e definidos, de sexualidade dúbia, se enfiando numa vagina de silicone.

Uso a aba anônima como a cabine privada da pianista de Elfriede Jelinek, onde ela exerce seus desejos de extenuação sexual. Tenho medo de um sistema abstrato que coleta em segredo informações sobre minhas preferências, para usar contra mim no juízo final. Sinto pânico quando clico por acidente em um título escatológico. Se eu morresse assim, esse seria o diorama da minha vida. Decido por uma compilação de creampie, caseira e beata.

Forro uma manta antes de me deitar, o novo velho sofá cheira a guardado, desconfio de algumas manchas secas, penso em doenças de pele. Quando eu era pequena, me deitava no sofá e tentava me enfiar entre o assento e o encosto, me sentia estável, no ventre da casa. Quando eu morava em Tristeza, no sul de POA, o sol descia no Guaíba por três janelas, variando com a estação, mas os cômodos me davam a impressão de estarem vazios, apesar da mobília. O sofá-cama parecia um atol perdido na água da ampla sala. Era sempre frio, e o apartamento não tinha umbigo.

Prefiro lugares compactos, com janela para a rua, de onde observo a vizinhança, julgo as roupas de festa dos adolescentes e vejo passar o carro da polícia, tangendo os notívagos da Cidade Baixa. A prefeitura “apaga” as luzes à meia-noite, para forçar o Quarto Distrito como a zona dos bares e das festas e, por tabela, gentrificar a região onde estão alguns dos bairros mais pobres da cidade e alguns dos últimos a terem a água da enchente drenada, para testar a resiliência dos moradores.

No Sarandi, ao lado do Quarto Distrito, a primeira medida da prefeitura foi salvar a estação de bombeamento de água pluvial e as cinco empresas no entorno da estação, depois derrubou casas sem autorização, sob o pretexto de reparar um dique. O município prometeu, pela imprensa, um bônus-moradia, sem dar garantias do repasse. Então os moradores resistiram à demolição, e a Guarda Municipal atirou neles com balas de borracha e gás de pimenta.15 O prefeito diz que não há casas para 15 mil pessoas desalojadas,16 apesar dos mais de 100 mil imóveis vagos em Porto Alegre.17 Duzentas pessoas tomaram um prédio abandonado há uma década, no centro histórico. Alegando risco de desabamento, a polícia militar espancou os desabrigados para garantir a integridade física deles.18