Rio, 9.9.99
Elio, amigo:
Heloisa Buarque e eu estamos fazendo, a pedido da Anistia, pela passagem dos seus 20 anos, uma antologia da poesia participante. As perguntas que me fez na última segunda-feira vieram a propósito, pois estou com a mão na massa e com a cabeça naqueles tempos.
Vistos em retrospecto, os poemas escritos contra o golpe, tipo “Violão de rua”, ficaram irremediável e comoventemente datados, meros reflexos, itens de colecionador; já os outros, escritos sem essa deliberação explícita, ao correr da pena da reflexão, digamos assim, perduraram mais, não apenas como poesia, mas também como denunciadores do sufoco.
No livro que Heloisa, Marcos Augusto Gonçalves e eu escrevemos sobre os anos 70 e que foi reeditado agora, eu fiquei com a parte de poesia. A certa altura do ensaio, quis fazer um panorama, em versos, do aperto e do desencanto no qual se vivia. Me veio, então, um trecho de um delicioso poema de Bandeira, da década de 20, sobre o cotidiano burguês; juntei a ele um do Ferreira Gullar, menos explicitamente “engajado”, um do Francisco Alvim e outro do Guilherme Mandaro, poeta marginal, marginalizado demais hoje em dia, e que morreu, no começo dos 80, na mesma rua Toneleros da Ana Cristina Cesar, da mesma maneira, e logo depois dela. Com a reunião desses três poetas, cada um no seu exílio, na década de 70, e tendo o spleen bandeiriano como estopim, a náusea existencial e “ideológica” aparece, retratando a derrota da nossa geração diante dos fatos. Veja só:
Pensão familiar
Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espapaçados ao sol.
A tiririca sitia canteiros chatos.
O sol acaba de crestar os gosmilhos que murcharam.
Os girassóis
amarelo!
resistem.
Ao rés do chão
Sobre a cômoda em Buenos Aires
o espelho reflete o vidro de água de colônia
Avant la Fête (antes
muito antes da festa), reflete
o vidro de Supradyn, um tubo
de esparadrapo
a parede em frente, uma parte do teto.
Não me reflete a mim
deitado fora do ângulo como um objeto que respira.
Os barulhos da rua
não penetram este universo de coisas silenciosas.
Nos quartos vazios
na sala vazia na cozinha
vazia
os objetos (que não se amam),
uns de costas para os outros.
Luz
Em cima da cômoda
uma lata, dois jarros, alguns objetos
entre eles três antigas estampas.
Na mesa duas toalhas dobradas
uma verde, outra azul
um lençol também dobrado livros chaveiro
sob o braço esquerdo
um caderno de capa preta
em frente uma cama
cuja cabeceira abriu-se numa grande fenda
na parede alguns quadros
Um relógio, um copo
a área interna é um lugar muito frio
onde as roupas secam
o sucesso toca
uma criança chora
a empregada
um passarinho uma gaiola um cachorro
o sol fica lá no alto
Quando você me pergunta o que caracterizava a diferença da poesia escrita nos anos 60 em relação à dos 70, respondo que era exatamente esta, a meu ver: em vez da poesia endereçada, “de encomenda”, nerudiana, em cima do fato ou circunstância, a poesia do clima, do “olhar oblíquo e dissimulado”. Mais que uma escolha estilística consciente, foi a opção possível. Na música popular ocorreu o mesmo. Em vez de “Carcará”, “Sabiá”.
Quanto à praia, fiquei sempre com a impressão de que nós estávamos lá porque fomos expulsos da Cidade. Parecia uma concessão, para que a gente não pensasse que tinha perdido de goleada. Éramos uma espécie de sobreviventes de um naufrágio, mais perto dos personagens do famoso livro de Adolfo Bioy Casares A invenção de Morel, de 1940, que dos atuais intérpretes da série televisiva Lost. Vivíamos de bicos, condenados a uma coreografia da repetição, presos do lado de fora, apodrecendo no paraíso da culpa. Afinal, era um lugar de resistência ou de desistência? A figura inesquecível e escalavrada de Marcos Medeiros, líder estudantil, chegado de Cuba, arrebatado e arrebatador, parceiro de Glauber Rocha em um filme que nunca vi, se não me engano chamado História do Brasil, reaparecendo em Ipanema, me impressionou muito mal. As marcas da acne que ele tinha nas costas como que representavam as marcas das torturas infligidas pela repressão. Como reparar aquele sofrimento?
Marcos não pôde dar a volta por cima como Fernando Gabeira, o Guerrilheiro Zen, participante do sequestro do embaixador americano, “sueco”, antes de exilar-se lá. Até a cicatriz, provocada pelos tiros da repressão, nele se estetizava, como uma tatuagem.
A última moda, naquelas areias, era o bronzeador, soi-disant, natural, que todos, com viço ou sem, passavam. O poema de Drummond, do tempo da guerra, “Inocentes do Leblon”, voltava como um diagnóstico preciso da alienação autoimposta:
Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
[…]
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.
Era uma espécie de férias forçadas de turistas de si mesmos (sic) desprovidos de metas e de máquinas fotográficas. A visão que eu tinha era negativa e não levava muito em conta a revolução de costumes, a contracultura, importante, sem dúvida, porém mais fácil de ser controlada ou assimilada pelo sistema, que permitia até uma certa corrosão, para, inclusive, nos esculachar, como drogados e sem-vergonhas, cobertos de ferrugem, mas não uma mudança para valer, de ponta-cabeça, com boina e fuzil marca Fidel.
No que me dizia respeito, tudo o que se passava ali fazia mais o meu sexo do que a minha cabeça. A que tentava pensar, bem entendido, pois a outra se metia sem pensar. Vivia, assim, entre suplício e delícia, careta, pois hipocondríaco até a medula não arrisca, só petisca. Não mais paz e amor ou “fazer amor”, mas comer fulana, e, pela primeira vez, pelo menos para meus ouvidos, as mulheres diziam que iam comer beltrano! Abstêmio por natureza, virgem absoluto de toda droga, não por virtude, mas por temor da morte, sofria meu “exílio” administrado. Não como um santo do pau oco, mas como um fingidor part time. Estava tão por fora dos costumes daquela tribo que cheguei a pensar que o cheiro de patchouli, que contornava aqueles corpos, era o de um tipo novo de suor, produzido pela dormência e aceleração da erva, do pó e do ácido, misturados.
No meu livro longa vida, escrevi sobre o que via e que, por tabela, vivenciava:
Pirar é arder
a mil
fora da pista
com o narciso em chamas;
é cair
em si sem sentir
nenhum sentido
e seguir, assim
segundo por segundo
a cem por hora
a céu aberto
verão adentro
sem pouso ou pique
sequer
pra um gole de sombra
refresco
abraço
ou guarida;
é correr na contramão
(além do fôlego)
por bares, praias
casas
pegando fogo
e chegar – ventando –
na hora H
de todos os incêndios
sem água ou nada
que apague as labaredas
carregando apenas
mochilas cheias de mormaço.
Pirar é arder
a mil
milímetro por milímetro
e queimar
velocilento
como uma brasa
se consome
até na fogueira do próprio sono
e, de repente, some;
é estar nu e só
no centro ou no lugar
onde somente o sol
sabe
e assassina.
Nessa época, aliás, não se falava Posto 9. Se dizia: “Amanhã, no Sol”. Não, não era uma efusão lírica, típica dos anos das “dunas da Gal”, dissolvidas havia muito. Indicava, com rigor topográfico, o lugar do encontro: em frente ao Hotel Sol Ipanema. Alguns, mais maníacos, chegavam a precisar, minuciosa e tipograficamente: “Em frente ao ‘o’ do Sol”. Apesar de ser nosso território, o medo inconsciente do desencontro, de nos perdermos, já que não tínhamos propriamente um destino, fazia com que mimetizássemos, sem perceber, o procedimento exato dos “pontos” da guerrilha urbana, estando eles e ela, a um palmo, na calçada, mas que significava enorme distância – um palmo de gigante.
Em outro poema, que fazia par com o citado antes, tentava uma aproximação mais lírica, através daquela paisagem impecável e nem um pouco inútil:
De sol a sol
ligados
a todo volume
na mesma tomada
sob o som
a plenos pulmões
de mil e uma cores
amplificadas
e do mar em cinemascope
e estéreo
na potência máxima
dos seus vários canais.
Todos nós
nus elétricos
em curto, na areia
no coração do Sol
mergulhando
fundo
nas sucessivas ondas
acústicas que o verão programa e irradia
pelos alto-falantes do céu:
TOPLESS PERDE A CABEÇA
E ATEIA FOGO À SUA NUDEZ.
Ao ar livre
suíte azul sem fim
como meu corpo
que não acaba aqui
à flor de sua própria pele
mas prossegue
nada
e transborda em tantos outros
gestos
na beirada do oceano
sem portos, apenas poros
com todos os seus sentidos abertos.
Altas nuvens, 40 graus à sombra
não impedem
a sensação recuperada
do olhar de quem pela primeira vez
folheia um Atlas e descobre
em página dupla, o Mapa-Múndi
o espaço escancarado que a vida
tem na Terra para voar.
Na praia, entre montanhas
de prédios e a gargalhada do mar
deixo o barco correr no calor
no horizonte, sem hora para voltar.
Depois, em 1988, a leitura dos livros do Daniel Aarão Reis, com fotos do Pedrinho de Moraes, e do Zuenir Ventura, sobre 1968, foi importante como balanço. O gozado é que o Daniel dava a impressão de que escrevia no meio da rua, e o Zuenir, de dentro do apartamento. Quanto aos poetas, acho que o Gullar é figura central nisso tudo: o “Poema sujo”, em vez de Canção, é o definitivo Réquiem do Exílio:
[…]
claro claro
mais que claro
raro
o relâmpago clareia os continentes passados:
noite e jasmim
junto à casa
vozes perdidas na lama
domingos vazios
água sonhando na tina
pátria de mato e ferrugem
busca de cobre e alumínio
pelos terrenos baldios
economia de guerra?
pra mim
torresmo e cinema
Sozinho naquele
desaguadouro de rio
sob o sol duro do trópico
sozinho na tarde no planeta na história
[…]
Em contrapartida, quem relata, em boa poesia, a barra da guerrilha, da prisão e da tortura daqueles que não puderam exilar-se é o Alex Polari:
Amar em aparelhos
Era uma coisa louca
trepar naquele quarto
com a cama suspensa
por quatro latas
com o fino lençol
todo ele impresso
pelo valor de teu corpo
e a tinta do mimeógrafo.
Era uma loucura
se despedir da coberta
ainda escuro
fazer o café
e a descoberta
de te amar
apesar dos pernilongos
e a consciência
de que a mentira
tem pernas curtas.
Não era fácil
fazer o amor
entre tantas metralhadoras
panfletos, bombas
apreensões fatais
e os cinzeiros abarrotados
eternamente com o teu Continental,
preferência nacional.
Era tão irracional
gemer de prazer
nas vésperas de nossos crimes
contra a segurança nacional
era duro rimar orgasmo
com guerrilha
e esperar um tiro
na próxima esquina.
Era difícil
jurar amor eterno
estando com a cabeça
a prêmio
pois a vida podia terminar
antes do amor.
Fui escrevendo assim, em zigue-zague, ao sabor da lembrança. A impressão é a de que estava resfriado o tempo todo, naqueles idos: por isso não podia sair na chuva para a luta armada nem para o sol dos “paraísos artificiais”. Uma legenda adequada para o meu perfil seria: “Armando está resfriado”, à maneira de Gay Talese em seu famoso artigo sobre Frank Sinatra. No meu caso, soa como a desculpa primeira e clássica do hipocondríaco para interditar-se. Em crônica recentíssima, o Gabeira diz que “é preciso sempre perguntar onde estávamos nós” nos acontecimentos políticos passados. De acordo. Tantos anos depois, portanto, é assim que me vejo na entrelinha que ocupei.
Quando passo ao largo do Posto 9 de hoje, a pé ou de carro, avisto, de longe, uma bandeira vermelha esfarrapada do PT, ao vento. Se voltar a pisar nas areias daquela “ilha”, será para ajudar a remendar aquela bandeira aflita, se o vento deixar. Mas a epígrafe definitiva deste texto ou daquele tempo está na mão de Manuel Bandeira: “Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos/ Que a vida passa! que a vida passa!/ E que a mocidade vai acabar”.
Será que serve? Vou mandar como está. Depois a gente se fala ao telefone, ok? Abraço.
Armando







