Há anos uma cena me persegue. Vou narrá-la aqui de uma vez porque, se não o fizer agora, jamais farei. Eu tinha 11 anos. E havia conseguido, com algum jogo de cintura infantil, uma colega de escola que tinha em casa computador e impressora. Foi um achado e tanto, pois estávamos em 1995 e eu morava com minha família em Vitória, capital do Espírito Santo. Eu estava empolgado, afinal iria ter em mãos algo muito precioso: uma cópia impressa e “profissional” do meu primeiro livro – uma história de assassinato inteiramente plagiada do Edgard Allan Poe de Assassinatos da rua Morgue. Meses antes, o professor de literatura tinha feito uma leitura dirigida dessa história, adaptada para o público infantojuvenil, que muito me fascinou. A partir dali, decidi criar minhas próprias histórias de terror.

Havia, entretanto, um pequeno detalhe: a colega que faria a impressão me cobrou um valor simbólico pelo trabalho – não me lembro exatamente quanto –, de modo que precisaria conversar com meu pai sobre o pagamento. Ele prontamente topou. Mas, no dia combinado para a entrega do livro, não tinha o dinheiro. Na época, o ganha-pão familiar era um esquema de preparo de pizzas e lasanhas caseiras que meu pai, recém-saído de um infarto fulminante, vendia nos prédios comerciais do centro da cidade. Ele me sugeriu oferecer uma lasanha congelada como pagamento pelo serviço. Aquilo me devastou. Fui imediatamente inundado pela vergonha.

Alguns lapsos de memória se sucedem até uma lembrança derradeira dessa história: estou com o livro impresso em mãos. Eu o atiro à lixeira, como que para deitar fora minha grande vergonha. Desse instante eu me lembro em detalhes: a cor da lixeira, a textura do papel encadernado – vergonha sobre vergonha, a colega tinha até mandado encadernar o impresso, de modo a dar a ele um ar de livro. Precisava me livrar daquilo. A vergonha foi o instrumento mais eficaz que encontrei.

Conto esse caso porque me parece um ponto de entrada honesto para o que me proponho a fazer aqui: pensar o conceito de vergonha nas escritas autoficcionais de Annie Ernaux, Édouard Louis e Didier Eribon, três autores franceses que acompanho de perto. É importante destacar que não falarei da vergonha como fraqueza ou pecado, tampouco como coisa a ser superada. Interessa-me pensar a vergonha como estrutura. Como sintoma. A vergonha como aquilo que, uma vez nomeado, começa a se tornar matéria do saber.

O episódio dos meus 11 anos ressurgiu como memória sensorial durante a leitura de A vergonha,1 quando a menina de 12 anos protagonista do livro de Annie Ernaux vai a um colégio de freiras e percebe pela primeira vez, na geometria dos quartos das coleguinhas, no vocabulário das professoras, no modo como a própria língua circula naquele espaço, que há um mundo para o qual ela não tem passaporte. O mesmo se passou com Didier Eribon, décadas antes de mim, no corredor da universidade. A mesma sensação viveu Doudou (apelido que dei a Édouard Louis com a intimidade que a leitura autoriza) no pátio da escola de Hallencourt, onde virar a bunda para ser sodomizado era o preço para não ser espancado.

Esses três textos, essas três trajetórias, essas três vergonhas, com localizações e histórias distintas, me chegam com uma familiaridade e uma força que não são puramente de ordem literária. É também clínica, no sentido mais amplo e menos confortável da palavra, um sentido inextricavelmente político. Essa vergonha é de tal modo íntima que ainda me custa articulá-la sem que a voz falhe.

David Bernard abre o ensaio Lacan e a vergonha2 com uma constatação só aparentemente simples: embora a vergonha seja uma experiência humana fundamental, ela ocupa um lugar marginal na teorização psicanalítica. O próprio Freud preferiu mergulhar nas águas da culpa. A culpa tem a vantagem de ser moral, de ter uma lei, um agente identificável, o supereu como árbitro. A vergonha, em contrapartida, é mais suja. Ela não precisa de nenhum ato. Ela não exige transgressão. Basta um simples olhar.

Com elegância e alguma audácia, Bernard nomeia esse empreendimento como “vergontologia”. Não se trata apenas de um estudo sobre a vergonha, mas de uma ontologia dela, uma investigação sobre seu estatuto estrutural na constituição do sujeito. A vergonha, no esquema lacaniano que ele recupera e elabora, é o afeto que irrompe quando o sujeito percebe estar sendo visto no ponto mais “ín(ex)timo” de si mesmo. Bernard usa esse neologismo lacaniano para nomear o paradoxo, o ponto ao mesmo tempo mais íntimo e mais estranho, mais dentro e mais fora, o que mais nos pertence e mais nos é alheio.

Diferentemente da culpa, que remete ao ato da transgressão de uma lei, a vergonha remete ao ser. Não fiz algo proibido, sou algo inadequado. Não transgredi uma norma, encarno uma falta. Essa distinção, que em Freud não chega a constituir um eixo teórico próprio, é o coração do projeto de Bernard. A vergonha não é um efeito moral. É um efeito escópico: nasce do olhar do Outro que me captura e me fixa. Essa constatação teórica me leva a uma pergunta: então, quem seria esse Outro? É aqui que Eribon entra, e entra com força.

Leitor voraz de Bourdieu, Sartre, Foucault e, nos últimos anos, leitor de si mesmo com uma coragem que me deixa sem ar, Eribon não discordaria de Bernard. Mas acrescentaria: se, para Lacan, o olhar é uma estrutura que excede o outro empírico, esse olhar se encarna historicamente. Tem classe. Tem gênero. Tem raça. Tem orientação sexual. Tem a cara da vizinha no bairro operário que sussurra quando você passa. Tem a cara do professor de faculdade que ergue uma sobrancelha quando você não sabe a pronúncia correta do nome de um filósofo alemão. Tem a cara da cultura legítima, como Bourdieu tão precisamente chamou o sistema de gostos e disposições que separa aqueles que pertencem daqueles que precisam de ingresso para entrar.

Em A sociedade como veredito,3 Eribon formula a ideia da hontoanálise – a análise da vergonha como método autobiográfico e político. Não se trata de uma psicoterapia da vergonha, mas de uma arqueologia: de onde veio essa vergonha? Quais estruturas sociais a produziram? O que a mantém? O que permite que ela se inscreva no corpo como marca duradoura, e não como simples sentimento passageiro? É uma pergunta que Eribon, em Retorno a Reims, formula com uma honestidade brutal a respeito de si mesmo: “Por que eu, que escrevi tanto sobre os mecanismos de dominação, nunca tinha escrito sobre a dominação social? […] Por que eu, que atribuí tanta importância ao sentimento de vergonha nos processos de subjugação e de subjetivação, não tinha escrito quase nada sobre a vergonha social?”

Eribon é um trânsfuga de classe, filho de trabalhadores de Reims que se tornou um dos intelectuais mais lidos da França. Essa vergonha tem uma topologia particular. É uma dupla vergonha. A vergonha diante do mundo de chegada, quando se percebe que falta algo: o capital cultural, o sotaque certo, os gestos aprendidos na infância, o nome da prima do primo do filósofo. E a vergonha diante do mundo de partida, da casa paterna onde o trânsfuga passa a ser o traidor que foi embora para a capital, ficou refinado demais, se tornou alguém que os pais não reconhecem. Dois lados de um mesmo corte que não fecha.

O que Eribon acrescenta ao quadro lacaniano é fundamental: o armário social. Assim como o armário sexual, dispositivo que ele conhece por dentro, o armário social é uma estrutura de dissimulação das origens. Num dos momentos mais lúcidos de Retorno a Reims, ele escreve que sua saída do armário sexual coincidiu com a entrada em um armário social. A vergonha de classe, que ele aprendeu a gerir pela dissimulação, espelha a vergonha sexual que ele aprendeu a gerir pelo silêncio. São duas vergonhas que não se cancelam. Se somam.

De maneira análoga, quando eu engoli aquela lasanha como forma de pagamento por meu trabalho intelectual, eu já estava, sem saber, dentro dessa topologia. Estava envergonhado diante dos que chegaram ao mundo das letras sem ingresso, que não precisaram de convite, porque o lugar, la place, não era meu por direito hereditário. Tudo isso quem me ensinou foi a vergonha.

*

Gostaria de voltar a Ernaux, porque é nela que a cena inaugural da vergonha aparece com a clareza mais devastadora. Em A vergonha, publicado em 1997, a autora narra dois eventos que marcaram o ano de 1952, quando tinha 12 anos. O primeiro: uma cena de violência doméstica que testemunhou entre seus pais e até então não conseguira narrar. O segundo, e este é o que mais me interessa aqui: o dia em que foi ao internato das Ursulinas de Yvetot e descobriu, na geometria dos objetos no quarto das coleguinhas burguesas, uma forma de existir no mundo que lhe era completamente inacessível. A própria cena inaugural do livro já é, em si, uma declaração do que a vergonha faz ao corpo: “Meu pai tentou matar minha mãe num domingo de junho, no começo da tarde”.

Uma frase curta. Sem moldura. Sem preparação. É assim que a vergonha opera: ela não avisa. Ela irrompe. E Ernaux reproduz isso na própria sintaxe do texto – uma frase que te pega desprevenido, exatamente como a cena pegou a menina.

Mais adiante, depois de catalogar o universo social que constituía sua infância normanda – o café-mercearia dos pais, a escola particular católica, os códigos de conduta da clientela –, ela escreve: “Ali tínhamos deixado de pertencer à categoria das pessoas corretas, que não bebem, não batem umas nas outras e se vestem de modo adequado para ir à cidade. […] Eu me tornei uma pessoa que não merecia a escola particular, sua excelência e perfeição. Entrei no território da vergonha.”

“Entrei no território da vergonha.” Não é uma sensação. É uma jurisdição. Um espaço com fronteiras, leis, consequências. E ela acrescenta, numa das frases mais densas do livro: “A vergonha se tornou, para mim, um modo de vida. No fim das contas, já nem percebia sua presença, ela estava em meu próprio corpo.”

“Modo de vida.” “Em meu próprio corpo.” Bernard, com Lacan, dirá isso de outra forma: o grito mudo no abdômen, a dorzinha traiçoeira. Ernaux diz isso com a frieza e a intimidade que são sua marca de estilo. Ela aponta para a vergonha como se aponta para um espécime entomológico: aqui está, vejam, isto existiu, isto tem forma e cor e cheiro. E é exatamente por não chorar que seu texto me fez chorar.

O método que Ernaux propõe é nomear com precisão: ser etnóloga de si mesma. Autoetnografia não é autocomiseração. É arqueologia. É, nas palavras dela, a busca pelas linguagens que a constituíam para, a partir delas, decompor e remontar, ao redor da cena daquele domingo de junho, o texto que compunha seu mundo. A hontoanálise de Ernaux não dissolve a vergonha. Pelo contrário, torna a vergonha visível no interior do sistema de forças que a produziu.

Édouard Louis opera em outro registro que também me interessa. Se Ernaux tem o distanciamento da pesquisadora de si mesma, Louis tem a febre juvenil. Tem a urgência de quem narra para não morrer. Em Mudar: método,4 narra sua transformação radical: a mudança de nome, a eliminação do sotaque, as cirurgias, a ascensão como reinvenção pessoal. É um texto que começa com uma constatação que soa como um diagnóstico clínico: “Eu tinha vinte e um anos e já era tarde demais, já tinha vivido demais – tinha conhecido a miséria, a pobreza na infância”.

“Tarde demais.” O tempo da vergonha não é o tempo do relógio. É o tempo da inscrição no corpo. E o corpo, em Louis, é o lugar por excelência da vergonha. Um corpo que não consegue fingir, não consegue performar a virilidade que o ambiente exige, um corpo que denuncia o que você é antes que possa dizer quem você quer ser. A vergonha de Louis não começa com um ato. Começa com um insulto: “Desde os primeiros anos da minha vida o problema foi diagnosticado: […] por que o Eddy fala assim, igual a uma menina, mesmo sendo menino? […] Viado. Aos cinco ou seis anos entendi que essa palavra me definiria e me acompanharia pelo resto da minha existência.”

É a nomeação que Eribon, via Sartre, identifica como o gesto inaugural da vergonha social: ser chamado de algo que você não escolheu ser e ter que habitar essa identidade ou lutar contra ela pelo resto da vida. Em Louis, a vergonha da sexualidade e a vergonha da classe são indissociáveis. Ele compreende isso quando entende que o insulto não agia isolado. O insulto, ele escreve, fazia com que todo o resto fosse insuportável para si: a pobreza, o estilo de vida. A exclusão obrigou-o a inventar um sistema próprio de valores. E desse sistema nasceu a vingança como motor: “Eu queria vencer para me vingar”.

Seis palavras. Nelas está condensada toda a topologia da vergonha como o motor subversivo de que fala Eribon. A vergonha que imagina uma alternativa, concebe um mundo diferente do que encontrou e, por isso, pode, paradoxalmente, mover. Vencer para se vingar não é ressentimento. É uma forma brutalmente honesta de dizer: o que fizeram comigo não vai ficar sem resposta.

O que me comove em Doudou – no sentido físico, de mover, de deslocar – é que ele não narra com ressentimento. Ele narra com uma perplexidade furiosa. Como se ainda não acreditasse inteiramente que aquilo aconteceu. Como se a escrita fosse a única forma de verificar: aconteceu, sim, aconteceu de verdade, eu não inventei, meu corpo guarda a memória disso.

Há um dado que me persegue desde que o encontrei. Contei – com uma obsessão que meus alunos reconheceriam facilmente, pois faço esse tipo de coisa em aula com assombrosa frequência – quantas vezes a palavra “vergonha” aparecia nas obras dos três: nas 11 obras de Ernaux lançadas no Brasil, nas sete do Doudou, nas três do Eribon. Com exceção de Monique se liberta, todas as demais registram ao menos uma ocorrência. Duzentas e noventa entradas. A palavra que, segundo Lacan, ficávamos calados demais para pronunciar foi pronunciada 290 vezes.

Em Ernaux, 101 vezes. Em Doudou, 95. Em Eribon, 94. Esses números, que eu poderia tratar como dado frio, são para mim algo mais perturbador: a evidência de que o silêncio foi rompido. São a prova de que a escrita de si, quando é de fato literária, ou seja, quando aposta na forma, na linguagem, na fricção da palavra, não é biscoitagem, não é a confissão vazia do Instagram, nem desejo de seguir a moda da vez. É um ato com consequências.

A palavra “vergonha”, em francês, tem uma história que Bernard recupera a partir do dicionário Littré, e que me parece incontornável aqui. Vergogne, a forma mais antiga, era, na Idade Média, um termo nobre. E a primeira definição que o Littré oferece é esta: “Terme autrefois très noble et qui aujourd’hui est devenu familier”. Um termo outrora muito nobre que hoje se tornou popular. Trânsfuga de classe semântica, diria Eribon. A vergonha desceu na vida, é do seu lugar popular, familiar, que ela hoje fala. E familier em francês tem a mesma raiz que “família”. A vergonha está atada ao que vem de casa.

Ernaux, Louis e Eribon nascem dentro dessas famílias que a língua nobre não alcança. É de dentro dessas famílias que eles escrevem. E por isso a vergonha é o afeto que mais retorna nos seus textos: porque é o afeto que marca o instante em que o mundo lhes disse que eles não pertenciam nem ao lugar onde estavam, nem ao lugar de onde vieram.

Preciso dizer aqui uma coisa que vai contrariar uma certa leitura desses textos. Não estou, de modo algum, propondo que Ernaux, Louis e Eribon escreveram para superar a vergonha. A ideia de que a escrita de si é uma forma de cura, que, depois de escrever A vergonha, Annie ficou bem, que depois de O fim de Eddy Doudou resolveu seus traumas, é uma leitura que empacota esses textos como autoajuda e os esvazia completamente da sua potência literária e política.

David Bernard é preciso nesse ponto. A vergonha não é simplesmente um sofrimento a ser eliminado. Em certas circunstâncias clínicas – aqui eu acrescento, por que não, em certas circunstâncias literárias também –, a vergonha assinala um ponto de real: algo que escapa à fantasia e às identificações defensivas. Livre dessas identificações, ela pode funcionar como operador da verdade. Não se trata de se livrar da vergonha, mas de aprender com ela, de deixar que ela aponte para o ponto que o sujeito preferia não ver. Ou não escrever.

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A vergonha já é uma revolução, diz Eribon em A sociedade como veredito, retomando as palavras de Marx. Ou seja: sentir vergonha de algo já pressupõe que você concebe uma alternativa. Quem não tem alternativa não sente vergonha, sente resignação. A vergonha, paradoxalmente, é o afeto do sujeito que já imaginou um mundo diferente do que encontrou. É o afeto do potencial subversivo.

Mas a vergonha, claro, pode também paralisar. Pode produzir retraimento. Pode alimentar silêncio. Pode fazer com que o filho operário engula a lasanha com angu, como eu fiz. Pode fazer com que o gay adolescente modifique seus gestos e sua voz no espaço público, como Doudou fez. A tensão entre a vergonha como um operador de subjetivação e a vergonha como um afeto mortificante atravessa os três autores. E é nessa tensão que reside a potência literária desses textos.

O que os três fazem, com variações de temperatura e de estilo, é transformar o silêncio imposto pela vergonha em palavra. E não qualquer palavra. Ernaux com sua precisão clínica. Doudou com sua febre narrativa. Eribon com sua arqueologia crítica. Três gestos distintos diante do mesmo afeto. Três maneiras de romper o cômodo silêncio nomeado por Lacan. Bernard sugere que a psicanálise pode escutar a vergonha como sinal de um ponto de verdade. A literatura, diria eu, pode fazer o mesmo. Com a diferença de que o ponto de verdade que a literatura nomeia não é apenas do sujeito singular que escreve. É social. É histórico. É de todos os que leram e reconheceram, na vergonha do outro, a geometria da sua própria vergonha.

Volto aos números porque eles me parecem uma imagem bonita do que estou tentando dizer. A palavra “vergonha” 290 vezes em 20 obras. Não é efusão. Não é catarse. É insistência. É o sinal de que a vergonha não se dissolve na escrita, ela retorna, em turbilhão. Eribon e Bernard chegam ao mesmo objeto por caminhos distintos. Eribon pelos determinismos sociais: quem envergonha, por que envergonha, em nome de que ordem simbólica a vergonha é produzida. Bernard pela estrutura do sujeito falante: como o olhar captura, como a imagem falha, o que aparece quando a imagem falha. São diagnósticos do mesmo fenômeno que diferem nas causas, e talvez a lição mais valiosa do diálogo entre os dois seja exatamente esta: a vergonha é social e estrutural, o real que ela aponta não se reduz nem a um nem a outro, a subjetividade não existe fora das condições sociais que a produziram e as condições sociais não existem fora dos sujeitos que as habitam. Ernaux, Doudou e Eribon são três testemunhos dessa irredutibilidade. Três escritores que se recusaram a escolher entre a psicanálise e a sociologia, entre o íntimo e o político, entre o singular e o estrutural. Três escritores que apostaram na linguagem como o lugar em que essas tensões jamais se resolvem, fazem apenas morada.

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Em 2024, durante o julgamento de Mazan – falo aqui do caso de Dominique Pelicot, que drogou a esposa por anos e a entregou a dezenas de homens para que a violassem enquanto ela dormia –, Gisèle Pelicot retomou uma frase atribuída a Gisèle Halimi, célebre advogada feminista. Ao fazer isso impactou o mundo, não porque a frase fosse inesperada para quem acompanhava o debate, mas porque veio de onde as frases custam mais caro: do interior de um horror pessoal que ela não escolheu, num julgamento que ela quis público e que encarou com o rosto descoberto, olhando direto para as câmeras. A frase foi: “A vergonha deve mudar de lado”.

Seis palavras. E nelas está condensada toda a arqueologia que Eribon, Ernaux e Doudou percorreram por décadas de escrita. Porque a vergonha, como estrutura, tem um mecanismo perverso: ela se instala sempre do lado errado. Ela se instala no corpo da mulher violada, não no do agressor. Ela se instala no filho do operário que não sabe pronunciar o nome do filósofo, não no do professor que o constrange. Ela se instala no gay adolescente cujos gestos denunciam o que ele é, não nos que decidiram que esses gestos eram motivo de punição. A vergonha, como Bourdieu mostrou ao catalogar os mecanismos da distinção, é um instrumento de dominação que se inscreve nos corpos dominados como se fosse um dado natural, uma falta intrínseca, uma inadequação irremediável.

O que Ernaux fez com o corpo exposto da mãe que aparece de camisola na porta da mercearia, o que Louis fez com o corpo que não consegue performar a masculinidade operária, o que Eribon fez com o armário social que duplica o armário sexual: todos eles, à sua maneira, fizeram o mesmo que Gisèle Pelicot. Tentaram mudar a vergonha de lado. Tirá-la do corpo que foi constituído como inadequado e devolvê-la ao sistema que produziu essa inadequação.

É aqui que se torna incontornável o recorte de classe, gênero e sexualidade. A vergonha não é democrática. Não é igualitária. Ela recai com mais peso sobre os corpos que o sistema já marcou como inferiores. O corpo da mulher que não cabe no padrão da castidade. O corpo do homossexual cujos gestos denunciam o desvio. O corpo do filho da classe trabalhadora que faz transações financeiras em lasanha. Esses corpos não erram, eles são o erro. É isso que a vergonha ensina a eles, é isso que a vergonha deve parar de ensinar. Isso é o que Ernaux, Louis e Eribon fizeram. Duzentas e noventa vezes, e contando.

Isso, a meu ver, é também literatura.

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Eu disse no início que joguei meu livro na lata do lixo. Que engoli tudo com lasanha. Duzentas e noventa vergonhas me ensinaram que nomear não é curar. Que escrever não é superar. Que a vergonha permanece, estrutural e histórica, inscrita no corpo e produzida socialmente. Mas que há, no meu gesto de escrever sobre ela, alguma coisa da ordem de um ato. Não um ato de redenção. Um ato de recusa ao silêncio que ela impõe.

Volto à lata de lixo onde jazem minhas palavras encadernadas. Quais eram os detalhes do meu romance policial? Quem era o protagonista? Quem foi morto naquela história? Honestamente, não sei mais. O texto foi engolido junto com a vergonha. Ficou preso em algum lugar entre o estômago e a garganta, onde as coisas que a vergonha paralisa ficam guardadas, indigeridas.

Entretanto, aqui estou, décadas depois, escrevendo sobre a vergonha. Escrevo com os instrumentos que Ernaux me deu: a coragem de analisar sem autocomiseração. Com a febre de Louis que me contagiou: o entendimento de que o corpo não mente. Com o método que Eribon me ofereceu: a arqueologia que transforma o afeto em saber. Com a nitidez que Gisèle Pelicot trouxe: a vergonha deve mudar de lado.