Carta do editor
Ensaio é dissidência. Em tema, forma ou ambos, toma distância de convenções literárias, opiniões confortáveis ou expectativas óbvias, como o demonstram por diferentes caminhos, épocas e abordagens as autoras e os autores desta edição. ¶ Hábil em borrar fronteiras entre ficção e real, Emmanuel Carrère narra com maestria as histórias paralelas da protagonista de “A vida de Julie” e da fotógrafa que acompanha seus passos anos a fio. ¶ Cristiane Costa rastreia em documentos e livros os fracassados planos do Exército brasileiro para reescrever Os sertões, tentativa de expurgar da história da corporação seus profundos vínculos com a barbárie. ¶ Na Itália da década de 1960, Pier Paolo Pasolini enfrenta as novas encarnações do fascismo ao responder, por quase cinco anos, as cartas de leitores da Vie Nuove, revista do Partido Comunista. ¶ A partir de um episódio de sua infância, Élvio Cotrim reflete sobre a politização da vergonha em Annie Ernaux, Didier Eribon e Édouard Louis. ¶ Literatura também é o guia de Garth Greenwell na complexa e conflituosa relação que pessoas queer estabelecem com O quarto de Giovanni, o clássico de James Baldwin. ¶ Ensaio, dizíamos, é dissidência.
Paulo Roberto Pires







