Em 1941, o Exército mandou recolher em fóruns, tribunais, delegacias e prefeituras todos os documentos disponíveis para a elaboração de um estudo sobre a Guerra de Canudos enquanto História Militar. Tudo o que os militares encontraram foi organizado, catalogado e armazenado em oito caixas à disposição dos pesquisadores que de vez em quando aparecem no Arquivo Histórico do Exército, no quinto andar do palácio Duque de Caxias, no centro do Rio. Mas nem todos os documentos da coleção de Canudos são manuscritos do tempo da guerra.
Com o título de “Canudos, para quem escrever a sua história”, um texto datilografado afirma que o Exército teria perdido nos combates, “entre mortos, feridos, extraviados e vitimados pela varíola, para mais de 15 mil homens”. E sustenta que essa história “infelizmente ainda não foi escrita como devia ser”. Por isso, seria necessário ao historiador militar incumbido dessa tarefa (não identificado) requisitar às autoridades competentes da Bahia e de Sergipe uma lista de documentos a serem anexados aos que já constavam do arquivo. O objetivo era ambicioso: “Publicar uma obra notável, inédita e incomparável”. O documento apócrifo afirma ainda que “é preciso dizer a verdade: Os sertões, de Euclides da Cunha, e A Guerra de Canudos, de Macedo Soares, são obras-primas em literatura, porém sem os dados oficiais, como deve ser uma HISTÓRIA MILITAR” (com letras maiúsculas).1 Mas qual seria o tal livro vingador do qual até hoje não se teve notícia, pelo menos não nos moldes da “obra notável, inédita e incomparável” anunciada pelo Exército em 1941? Com exceção dos leitores fiéis da Bibliex, a centenária editora Biblioteca do Exército voltada para um público restrito, e dos pesquisadores especializados na Guerra de Canudos, poucas pessoas ficaram sabendo de alguma tentativa de revisar Os sertões. A proposta soa como uma revanche contra a declaração de Euclides, pouco antes de seu livro vir a público: “Alenta-me a antiga convicção de que o futuro o lerá. Nem outra coisa quero. Serei um vingador e terei desempenhado um grande papel na vida – o de advogado dos pobres sertanejos assassinados por uma sociedade pulha, covarde e sanguinária.”2
Publicada integralmente pela primeira vez em 1975, a Caderneta de campo de Euclides da Cunha traz algumas indicações sobre quem poderia ter sido incumbido do projeto de reescrever Os sertões.3 Preparado pelo jornalista Olímpio de Souza Andrade, o prefácio faz referência à edição de “livros sucessivos da Biblioteca do Exército dirigida por Umberto Peregrino” e a artigos publicados na década de 1950 pela Revista do Clube Militar, dirigida pelo então major Jarbas Passarinho. Militar que, durante a ditadura de 1964, ocupou sucessivamente os cargos de governador, senador, ministro do Trabalho, Educação e Cultura, Previdência Social e Justiça, Jarbas Passarinho ficou conhecido pela frase dirigida a Costa e Silva a favor da implantação do AI-5, em dezembro de 1968: “Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência”.4 Sabe-se também que, ao lado de outro nome que se consagraria na ditadura, o então tenente-coronel Golbery do Couto e Silva, Passarinho organizou, em 1952, uma inédita Semana Euclidiana na Escola Superior de Guerra.5 Aparentemente, o objetivo dessas discussões era, como prescrevia o documento de 1941, mudar a narrativa sobre a Guerra de Canudos, fazendo uso de depoimentos de testemunhas e documentos oficiais.
O plano de reescrever Os sertões teria sido parcialmente cumprido por historiadores militares como Umberto Peregrino e Dante de Mello na década de 1950. E, especialmente, em 1960, quando foi publicada a primeira edição de Expedições militares contra Canudos: seu aspecto marcial, do general Tristão de Alencar Araripe.6 Qual desses autores foi incumbido da tarefa inglória de suplantar a obra-prima de Euclides?
Lançado em 1956, o breve Os sertões como História Militar não parece se propor a ser um livro vingador, muito pelo contrário.7 O autor, Umberto Peregrino, já demonstrara sua simpatia pela obra em Vocação de Euclides da Cunha, relato sobre a experiência do escritor de Contrastes e confrontos na Escola Militar e no Exército publicado dois anos antes.8 Em 1968, Peregrino voltaria ao tema em Euclides da Cunha e outros estudos, incorporando trechos de Os sertões como História Militar.9 Na obra do ex-diretor da Bibliex, percebe-se que a admiração pelo autor ultrapassa qualquer crítica.
Para Peregrino, Os sertões segue rigidamente os preceitos da História Militar ao descrever as características geográficas do terreno, as causas econômicas e sociais da luta, a organização das tropas, o problema do abastecimento, o perfil e as estratégias dos comandantes, reconstituindo os episódios de forma magistral. Embora estetizando o sofrimento do processo de tomada de Canudos em passagens inigualáveis (“Ninguém lhe leva vantagem na pintura de um combate”), o ex-aluno da Escola Militar teria pensado seu livro dentro dos mais rígidos preceitos da disciplina. Diz Peregrino:
Dessa forma, proponho-me tão somente a caracterizar Os sertões como História Militar. E isto é fácil. Lá estão, copiosos e nítidos, todos os elementos que os especialistas costumam esgrimir no estudo das campanhas, para chegar à chamada “crítica militar”, que consideram tão importante, a ponto de confundi-la, frequentemente, com a própria história.10
Se algum autor ligado ao Exército se aproximou da sanha vingativa anunciada em 1941, foi Dante de Mello. Com um título bombástico, mas sem provocar o frisson esperado ou fazer grandes revelações, publicou em 1958 A verdade sobre Os sertões (análise reivindicatória da Campanha de Canudos).11 O ataque é menos “ao maior prosador das Américas” do que aos políticos baianos, como o governador Luís Viana, que teria menosprezado o movimento de “guerrilheiros” de Antônio Conselheiro. Percebe-se aí uma tentativa de atribuir às forças políticas a culpa pelo massacre cometido em Canudos. O livro recebeu uma réplica, À margem d’Os sertões, de Luís Viana Filho.12 Não satisfeito, o polemista Dante de Mello publicou em 1961 uma tréplica: Recolocando a verdade.13
Obviamente, o nome de Euclides da Cunha não sairia intocado das sucessivas versões da Guerra de Canudos enquanto História Militar, que não raro apontavam, como afirma Dante de Mello, “a detratação injusta contra uma instituição que só foi vítima, e entidade mais honesta e mais sacrificada na luta”.14

Terceiro candidato a vingador, o general Tristão de Araripe diz, em seu bem documentado Expedições militares contra Canudos: seu aspecto marcial, que, a partir dos testemunhos de oficiais como Constantino Neri e Dantas Barreto, se deu conta de que Euclides “descambou para o exagerado engrandecimento e injusta glorificação do Homem e da Terra, em contraste com a malquerença ao meio civilizado e às instituições, principalmente ao Exército, donde ele próprio proveio”.15 Enquanto soldados que só cumpriam seu dever terminaram esquecidos e repudiados, argumenta, “insurgentes tiveram quem lhes cantasse as façanhas, em que foram vitoriosos ou mártires, os legalistas calaram-se e amargaram os apodos injuriosos”.16 A transformação de antigos vilões em vítimas é vista como uma traição de Euclides da Cunha, tenente da reserva enviado ao sertão no duplo papel de repórter do Estado de S. Paulo e adido do Estado-Maior do ministro da Guerra, Carlos Bittencourt, com direito a soldo e ordenança pagos pelo Exército.
A rocha viva da insurreição
Se a ideia inicial do tal livro vingador era limpar a honra do Exército, acusado pela degola indiscriminada de prisioneiros, idosos, mulheres e crianças, com o tempo o projeto foi ganhando novos objetivos. Durante as comemorações do centenário da guerra, em 1997, buscou-se elaborar um contraponto à interpretação de Canudos como uma revolta camponesa, pioneira na luta pela reforma agrária e precursor do Movimento dos Sem-Terra.
Mesmo que dela não tenha restado pedra sobre pedra, a Belo Monte de Antônio Conselheiro ainda era um espinho na garganta dos militares. É o que mostra um documento do SNI, o temido Serviço Nacional de Informações, criado para espionar atividades consideradas subversivas. Datado de 3 de novembro de 1987, portanto já no governo civil, suas páginas revelam o quanto a memória do movimento de Antônio Conselheiro tinha de potencial explosivo. Num detalhado relatório, um espião enviado a Canudos descreve as atividades realizadas pouco antes, entre os dias 3 e 5 de outubro, em comemoração aos 90 anos do fim da guerra, com direito a nomes e fichas políticas dos participantes da programação.17
O espião não identificado relata um forte embate político em torno dessa memória, que se acirrará na década seguinte, nas celebrações do centenário. De um lado, o prefeito da vizinha Monte Santo, Ariston Correia de Andrade, desejava montar “uma programação que enaltecesse o real sentido histórico de Canudos e não estimulasse a luta de classes”. De outro, segundo o espião, organizadores do Movimento de Canudos, religiosos, sindicalistas e militantes do Partido dos Trabalhadores (PT), do Partido Comunista do Brasil (PC do B) e do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) desejavam “resgatar o Movimento de Libertação Popular e enaltecer a figura de Antônio Conselheiro como defensor dos fracos e oprimidos ante a opressão dos latifundiários e das Forças “Estaduais e Federais”.
Exibição de documentários, peça de teatro, “cânticos de cunho contestatório”, discursos de sindicalistas rurais e líderes comunitários, debates com lideranças religiosas ligadas à Teologia da Libertação e até mesmo declamação do que define como “poesias de cunho ideológico” por crianças são citados pelo espião como exemplo da manipulação política. Especial atenção teve a “Quarta Missa dos Mártires de Canudos”, que, segundo ele, “se desenvolveu sob um clima de contestação, mais parecendo um comício do que um culto religioso”.
Uma das chaves para entender o perigo que a memória da resistência conselheirista representava para os militares está na palavra “guerrilha”. Conflitos armados como os de Canudos, entre 1896 e 1897, e do Contestado, entre 1912 e 1916, se enquadravam como exemplos de luta armada que se mostraram razoavelmente bem-sucedidas no enfrentamento de um Exército regular, treinado para a guerra convencional. Ainda sob o impacto das guerras revolucionárias da Indochina e da Argélia, da Revolução Cubana e da Guerra do Vietnã, os militares brasileiros temiam o êxito das guerrilhas ensaiadas no Araguaia e em Caparaó, caso contassem com o apoio maciço da população local.
Mesmo passada a onda revolucionária, havia o risco de que a lembrança das vitórias dos canudenses contra três expedições militares estimulasse novos levantes no campo, especialmente num momento em que a luta pela reforma agrária ganhava força e alguns quadros da esquerda, como Miguel Arraes e Francisco Julião, voltavam à vida política, após a Lei da Anistia, assinada em 1979. “A mídia, insuflada pela esquerda, é preciso que se diga, explorou muito Canudos, atacando o Exército, querendo associar atrocidades à Revolução de 1964, como se houvesse uma tradição do Exército de ser torturador, matador”, sustentava o coronel Luís Paulo Macedo Carvalho.18 Presidente do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (Ighmb) e do conselho editorial da Biblioteca do Exército, ele propôs ao coronel Oliveiros Litrento a elaboração de Canudos: visões e revisões. Publicado em 1998, o livro faz um esforço admirável para dar conta das principais descobertas da historiografia não só militar como civil sobre a guerra.
A obra, prefaciada pelo ex-presidente José Sarney, marca uma ruptura definitiva com a hoje risível teoria da conspiração de que Canudos seria uma rebelião monarquista contra o governo republicano, patrocinada por grandes potências estrangeiras, como a Inglaterra e a Áustria, para instaurar o Terceiro Império no Brasil. Em consonância até mesmo com a bibliografia marxista, Litrento reflete que a guerra centenária “envolve uma grande lição que até hoje parece não ter sido aprendida: a de que a injustiça social leva ao desespero e ao direito de resistência”.19 Entre os muitos fatores que contribuíram para o conflito, estaria “a dominação sem freios, em prejuízo da ordem pública e a favor do poder privado dos latifundiários, a que se aliou o esvaziamento econômico provocado pela seca, tudo contribuiu para o evento sangrento”.20
Por seu lado, a esquerda lutaria para não deixar a Guerra de Canudos cair no esquecimento. Massacres de trabalhadores rurais como os de Corumbiara, em 1995, e de Eldorado dos Carajás, no ano seguinte, lembravam que a luta pela terra continuava a ser um risco no Brasil, mesmo no período democrático. O próprio Luiz Inácio Lula da Silva evocaria a Guerra de Canudos em 2018, para chamar a atenção para o fato de que o desembargador que presidia a corte de apelações da Lava-Jato chamava-se Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, descendente (na verdade trineto) de um militar (tinha a patente de coronel) que morreu na luta contra os seguidores de Conselheiro. “Esse cidadão, ele é bisneto do general Flores, que invadiu Canudos e matou Antônio Conselheiro. É da mesma linhagem. Então, quem sabe ele esteja me vendo como um cidadão de Canudos e queira acabar com minha viagem”, afirmou o líder do Partido dos Trabalhadores três meses antes de ser preso, condenado a cumprir 12 anos em regime fechado e proibido de participar das eleições que levariam à Presidência um capitão afastado do Exército por indisciplina e conduzido à reserva em 1988, ao ser eleito vereador.21 Ao todo, Lula passou 580 dias preso, e, uma vez solto, sua viagem não seria mais interrompida por nenhum magistrado ou militar. Em 2022, foi eleito pela terceira vez presidente do Brasil. A tentativa de golpe no ano seguinte não prosperou, e 18 oficiais foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal por tramarem contra a democracia. Entre eles, três generais e um almirante.
Conselheiro comunista
Pouco restou da Belo Monte criada por Antônio Conselheiro na antiga fazenda de Canudos após o fim da guerra, em 5 de outubro de 1897. Uma segunda Canudos foi construída sobre seus escombros, mas novamente destruída, desta vez pelas águas de uma barragem, finalizada em 1967. Ainda assim, seu fantasma continuou assombrando o país. Com a releitura da guerra a partir do referencial marxista, o arraial deixou de ser um reduto de fanáticos religiosos e criminosos, como queria Euclides da Cunha, para se tornar um símbolo de resistência ao latifúndio.
O papel de seu fundador também seria redimensionado, de louco andrajoso a líder carismático, catalisador de tensões econômicas e sociais profundas, que teria criado uma sociedade utópica em que a propriedade da terra foi abolida. Não surpreende que a Belo Monte de Conselheiro tenha conquistado o papel de pedra fundamental da luta pela reforma agrária pregada pelo Movimento dos Sem-Terra. O próprio MST homenagearia os mártires da guerra ao batizar assentamentos como Antônio Conselheiro, em Mato Grosso, e Canudos, em Goiás.
A princípio, pode parecer um profundo anacronismo sugerir que Conselheiro era uma espécie de comunista ou socialista utópico. Mas isso está longe de ser um delírio de intelectuais marxistas ou espiões paranoicos. Há referências ao comunismo do líder de Belo Monte já em sua época. O “perigo vermelho” aparece, por exemplo, em um artigo publicado pelo barão de Jeremoabo no Jornal de Notícias da Bahia, em março de 1897, em que ironiza a ideia de que ele, o maior latifundiário da região, tivesse relações com o líder religioso: “Protetor de Conselheiro, eu, um dos alvos mais salientes de sua cólera, estou esperando a todo momento a devastação de minhas propriedades e a partilha das mesmas aos subchefes da seita, cuja doutrina é o comunismo!”.22
Também o médico Nina Rodrigues, que tanto inspirou Euclides da Cunha, faria referências ao comunismo no artigo publicado na Revista Brazileira em 1897: “Antônio Conselheiro anormaliza extraordinariamente a vida pacífica das populações agrícola e criadora da província, distraindo-as das suas ocupações habituais para uma vida errante e de comunismo em que os mais abastados cediam dos seus recursos em favor dos menos protegidos da fortuna”.23 Resta saber se os críticos se referiam ao comunismo de Marx e Engels, que já em 1848 sacudia a Europa, ou a um comunitarismo bíblico, como o descrito nos Atos dos Apóstolos (2,44): “Todos os que acreditavam eram unidos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, e repartiam entre todos, conforme a necessidade de cada um.”24
O jornalista Afonso Arinos traria ainda outras fontes históricas para explicar o suposto comunismo de Belo Monte. No romance Os jagunços, o autor, primeiro a explorar em livro a Guerra de Canudos, diz que o movimento de Antônio Conselheiro “só tem analogia com o comunismo dos peruanos, sob a organização teocrática dos Incas. Ali não havia pobres; todos trabalhavam para a comunidade, à medida de suas forças. Não proibia o comércio, nem que o indivíduo também trabalhasse um pouco para si.”25
Primeiros elogios e primeiras críticas
Euclides da Cunha foi premonitório ao temer a reação do Exército a seu livro. E ao presumir que, entre os “adversários prováveis”, estaria algum ex-colega de farda, como deixou registrado em anotações pessoais datadas de dezembro de 1902: “Devia vir de militar a contradita mais bem acentuada ao livro que fui obrigado a escrever sobre a lastimável campanha de Canudos”.26 O autor esperava “levar pancada como cavalo acuado”,27 mas seu primeiro livro recebeu elogios rasgados dos principais intelectuais de sua época, orgulhosamente reunidos pela Laemmert, no ano seguinte a seu lançamento, em Juízos críticos, uma coletânea das principais reações a Os sertões.28 No entanto, em meio aos dez laudatórios artigos selecionados, destaca-se um bem menos favorável: o de um colega de Euclides dos tempos de Escola Militar, o futuro general José Maria Moreira Guimarães.
Enquanto “a crítica exercitada pelo elemento civil teve em toda a linha um traço de benevolência inegável”, como reconhece Euclides, o artigo de Moreira Guimarães, publicado pelo jornal Correio da Manhã no ano seguinte ao lançamento de Os sertões, destoava da análise jubilosa de medalhões importantes como Sílvio Romero e Coelho Neto.29 Nele, Moreira Guimarães afirma que “esse belo trabalho é mais produto do poeta e do artista que do observador e do filósofo”.30 Em resumo: deve ser lido como ficção. Podemos ouvir o fogo amigo atingindo a obra-prima de Euclides em frentes que seriam exploradas nas décadas seguintes e levariam ao projeto de escrever um livro vingador, que neutralizasse suas denúncias. Os sertões é uma obra recheada de “belas frases de efeito em que a verdade prima pela ausência”, dispara o ex-colega da Escola Militar. “Fantasias de artista que sabe fazer romance.”31
Mesmo se referindo ao autor como “distinto amigo”, “ilustrado colega”, “delicado cultor da palavra” e “destemido pensador brasileiro”, Moreira Guimarães avança contra Euclides. Reconhece a beleza plástica das cenas descritas e a emoção que despertaram a ponto de ler o livro “de uma sentada” (o que, convenhamos, não é nada fácil). “Todavia não direi impecável este volume de 633 páginas que venho de ler, gostosamente, embora as mágoas que ele sabe despertar”, comenta.32
Pioneiro de uma matriz argumentativa várias vezes repetida pelos militares, a ele incomoda a denúncia feita por Euclides de que a Guerra de Canudos teria sido um massacre contra inocentes sertanejos. Os soldados lutaram contra um bando de 5 mil a 8 mil bandidos fortemente armados, acredita piamente Moreira Guimarães, numa estimativa provavelmente exagerada por militares que fracassaram em suas investidas, como o major Febrônio de Brito, comandante da segunda expedição. O autor de Os sertões teria total consciência da sua periculosidade. Mas, numa atitude pusilânime, acabaria transformando bandidos em vítimas. E, como consequência, os soldados em vilões.
Seu ex-colega de Escola Militar não perdoa: “E tão pródigo, na defesa dos patrícios de Canudos, ao ponto de julgar a extraordinária campanha dos sertões da Bahia, ‘na significação integral da palavra, um crime’ – admira que Euclides, à p. 186, escreva: ‘Antes da vinda do Conselheiro, já o lugarejo obscuro – cujo nome claramente se explica – tinha, como a maioria dos que jazem desconhecidos pelos nossos sertões, muitos gérmens da desordem e do crime’”.33 Para o crítico, os militares que enfrentaram os jagunços de Conselheiro foram heróis e ponto-final.
O problema é que, para vencer “a desordem” e “o crime”, foi preciso massacrar uma comunidade inteira, calculada entre 10 mil e 25 mil pessoas. Chamados indiscriminadamente de jagunços, jagunças e jaguncinhos, os moradores de Belo Monte foram desumanizados, transformados em sujeitos matáveis, como bem definiu o filósofo Giorgio Agamben, meros efeitos colaterais de uma guerra que não começaram. Foram bombardeados com dinamite e metralhados, quando não degolados, ao serem feitos prisioneiros ou se entregarem. Viveram um cerco que levou boa parte da população à morte por fome e sede. Só cinco anos mais tarde seriam reabilitados como rudes patrícios que apenas defendiam seu lar, elevados a rocha viva da nossa nacionalidade pelo escritor Euclides da Cunha, que, como repórter do Estado de S. Paulo, não viu ou, se viu, se calou sobre os métodos bárbaros usados pelo Exército.
Muitas das palavras usadas na época se repetem. Como hoje se diz das comunidades ocupadas pelo tráfico ou pela milícia, justificava-se a invasão dizendo que Canudos era um Estado paralelo, um Estado dentro do Estado, e precisava ser destruído como exemplo. Nem que para isso jornais, políticos e imprensa criassem uma verdadeira teoria da conspiração, recheada de notícias falsas, para fazer com que a população, temendo uma invasão eminente de hordas de criminosos armados por potências estrangeiras, julgasse normal mobilizar as tropas de todo o país, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, para supostamente salvar a República. Também esses soldados foram vítimas. “Reuniu-se o que ainda restava do desorganizado Exército Brasileiro para ser sacrificado no açougue de Canudos”, denunciou o médico e deputado monarquista Aristides César Spinola Zama, em 1899. Sob o pseudônimo de Wolsey, Zama disse textualmente que o que aconteceu foi um crime. “Sob o pretexto de pacificação, o solo do sertão encharcou-se de sangue”, afirmou.34
A degola não era exclusividade das forças do governo, é preciso reconhecer. Também os jagunços usavam seus facões para retalhar os adversários, chegando ao ponto de cortar as cabeças e deixar os corpos empalados pelo caminho, como os dos soldados que morreram na fracassada expedição de Moreira César. Foi, sem dúvida, uma resposta ao coronel que chegou ao sertão com a alcunha de Corta-Cabeças. A barbárie indiscriminada que se seguiu transformou Belo Monte numa necrópole, nas palavras de Euclides, muito antes que o conceito de necropolítica fosse esboçado.
É um ciclo que se repete de tempos em tempos até hoje, em que violência gera mais violência. Italo Calvino diz que um clássico é “um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”.35 Ao apontar o extermínio como a principal forma de controle social do Brasil, o “livro vingador” de Euclides acaba se revelando mais do que isso: um clássico que nunca deixou de incomodar. Vêm daí tantas tentativas frustradas de reescrevê-lo.







