Vou começar fazendo minha autodescrição.

Eu sou um homem da cor marrom. Eu sou do povo indígena Krenak. Ainda tenho os cabelos pretos e uso uma tiara colorida na minha cabeça, como se eu estivesse celebrando a primavera. Eu uso uma camisa branca e, a despeito de a cerimônia ser muito livre de obrigações, eu uso um adorno de miçanga que parece uma grande gravata, da cor da floresta, bonita. Ah, e uma calça jeans. A maioria das pessoas deveria naturalmente andar sem sapato, então seria o fim da picada eu precisar dizer que estou sem sapato.

Então vamos a esta tarde maravilhosa, em que vocês me acolhem aqui de uma maneira sinceramente surpreendente. Vocês decidiram se mover das suas obrigações, das suas casas, e vir aqui, celebrar este surpreendente evento em que a Casa de Rui Barbosa celebra a vida – a presença, de certa maneira – dos povos indígenas do nosso país na minha pessoa. Não é mesmo uma situação interessante?

Quando eu tomei posse na Academia Brasileira de Letras, muita gente falou: “Mas a Academia vai admitir um indígena? A Academia? Os indígenas são mais ligados à oralidade, são de uma tradição mais parecida com a tradição dos griôs, eles não são propriamente da Casa de Machado de Assis…” Ora, parece que agora somos também da Casa de Rui Barbosa… De alguma maneira, os povos da floresta estão atravessando as paredes das casas desses ilustres patriarcas, e nós atravessamos essas paredes para saudar as crianças que estão aqui. Viva!

Eu quero agradecer às crianças que vieram aqui neste ritual, e dizer que vocês vão carregar essa jangada daqui para a frente. Vocês sabem o que é uma jangada? Então: alguém carrega a jangada até um lugar da praia, entrega para os outros, e os outros seguem com a jangada. É isso que as gerações fazem. As gerações passam tarefas, para que a próxima geração dê conta dessas tarefas. O mais interessante é que não costumam perguntar para as novas gerações se elas querem fazer isso. Talvez seja por isso que aquela menina lá na Suécia, a Greta Thunberg, acusou os adultos de roubarem o futuro da geração dela, porque os adultos têm uma facilidade muito grande de tomar esse tempo imaginado – o futuro – como um espaço onde eles decidem como os outros vão viver. É uma ideia de futuro que eu já abordei num dos meus ensaios.

Ideias para adiar o fim do mundo questiona a unanimidade que se constitui em torno da ideia de que “nós”, a espécie Sapiens, somos a humanidade. Essa humanidade é só nós, os Sapiens; os outros, não. As baleias, por exemplo, vão ser caçadas por um navio novo que o Japão construiu, junto com a Finlândia e a Noruega, para capturar baleias. Eles estão disputando o troféu de Assassino dos Mares. Caçar baleia? No século 21? Tem alguém precisando caçar baleia? Eu só espero que os governos dessas nações ricas, como o Japão, a Finlândia e a Noruega, que podem construir navios especialmente bolados para caçar baleias, não justifiquem essa caça às baleias como uma adesão deles à nossa ação contra a fome e a pobreza no mundo. Vai que o primeiro-ministro da Finlândia fala: “Mas a gente está ajudando a combater a fome e a pobreza no mundo, por isso é que nós estamos caçando baleias”.

Nós não podemos deixar barato, gente, coisas como as que estão acontecendo nos oceanos, ou como aquelas que estão acontecendo na Faixa de Gaza. O nosso silêncio diante do que acontece na Ucrânia parece que expressa uma adesão automática a regimes autoritários, que ficam 20, 30 anos no poder e não precisam explicar nada. Em outros países do mundo, um mandato de quatro anos é considerado demais, e expulsam presidente, como fizeram com a Dilma.

Parece que alguns países tão ricos já resolveram todas as suas mazelas. Eles não têm que tirar ninguém da calçada, não têm que tirar ninguém das moradias precárias, das nossas favelas, eles não têm que se propor a fazer saneamento em lugar nenhum, eles não têm gente morando em palafita e mergulhando no esgoto. Eles não precisam disso. Então eles caçam baleia.

Parece até que é uma perversão de caráter. A gente poderia convidar Manuel Bandeira para inverter “Vou-me embora pra Pasárgada”. Eu não vou embora pra Pasárgada. Porque, quando nós invocamos Pasárgada, invocamos aquele lugar imaginário onde a gente pode se dar por feliz, realizada. E, definitivamente, não tem nenhum lugar no planeta em que alguém possa se refugiar agora. Nós estamos assolados por 120 milhões de pessoas desabrigadas em campos de refugiados espalhados pelo mundo afora. Isso não é mais “privilégio” da África nem das regiões em guerra na Ásia. Refugiado agora é o prato da casa. Refugiado entra pela fronteira do Brasil com a Venezuela, vem do Haiti, vem do Caribe, vem da Bolívia, e vai trabalhar no fundo de galpões costurando escondido para poder viver entre nós. E olha que o Brasil tem sido referência na acolhida dos nossos irmãos refugiados. Inclusive os que vêm de lá de onde os Estados Unidos estão sentando bomba.

A gente deveria ter apresentado a conta para o Biden. “Olha, Biden, essas pessoas que vocês estão expulsando de lá, nós estamos pagando a conta: os do Líbano, os do Afeganistão… Esses 50 milhões de dólares que você deu agora são uma mixaria.” A menos que vocês achem que 50 milhões de dólares vão fazer alguma diferença no inferno que virou a Amazônia depois que o garimpo entrou, depois que os eventos climáticos torceram a ecologia regional da bacia amazônica, a ponto de o rio Negro secar do médio rio Negro pra baixo, e o rio Solimões atolar barcos. Em alguns lugares do rio Solimões você pode atravessar a pé. É um rio monumental!

O Tapajós, o Amazonas, todo mundo que tem a minha idade aqui, que tem até 70 ou, vamos lá, 60 anos, lembra que aprendeu a decorar pela rima o nome dos rios que formam o Amazonas, à margem direita, à margem esquerda, os de cima e os de baixo. Sabiam falar Javari, Juruá, né? Eram rios.

Vocês acreditam que agora podem atravessar esses rios como se eles fossem igarapés? Igarapé é um pequeno caminho de canoa – de canoinha. Nós estamos secando a Amazônia. Antes de secar, alguns rios estão sendo envenenados com mercúrio.

O Jorge Bodanzky fez um documentário chamado Amazônia, a nova Minamata?. Alguém aqui já viu alguma menção a esse filme do Bodanzky? Minamata foi aquele lugar com um contágio tão grande que as crianças nasciam com a cabeça parecendo uma bolha, e elas, como dizia a canção, ficaram “telepáticas”. É a música do Vinicius de Moraes, que fala das crianças telepáticas… Pois bem, o Bodanzky filmou crianças que já estão tendo mutação não só genética, mas também física. As crianças estão nascendo com as pernas todas moles, parecendo tentáculos. Elas estão nascendo com a cabeça inchada, com deficiências que só se explicam pelo tanto de veneno que tem na água – o mercúrio e outros venenos usados na agricultura. O Brasil passou a ser o país que mais importa veneno: pesticida, herbicida, fungicida. E genocida!

Nós estamos numa vida torcida pela realidade do planeta, que vive o evento climático extremo, e não sabemos como vamos nos livrar dele. Porto Alegre, que ficou submersa, e que está tentando sair daquele dano irreparável, está sujeita a ficar debaixo d’água nos próximos três, quatro meses, de novo. Vocês sabem disso? O mesmo evento que causou aquela inundação está retornando a partir das correntes marítimas e de outro evento produzido pelas mudanças climáticas, que é a interrupção dos rios voadores. Os rios voadores, que a gente nem chegou a conhecer direito, já foram interditados pelo desmatamento do cerrado, pelo desmatamento da Amazônia, por uma série de intervenções chamadas antrópicas. Eu vou usar de vez em quando alguma palavra esquisita, não para complicar para os meus queridos meninos e meninas que estão escutando ali, mas para apertar um pouquinho a conversa. “Antrópico” é onde nós, os humanos, sentamos o pé. Em vez de a gente pisar suavemente, a gente entra chutando.

Estou aqui descalço para ser coerente com o convite para que a gente possa pisar suavemente na Terra. Se nós conseguirmos pisar suavemente na Terra, se a gente conseguir fazer com que pisar suavemente na Terra se torne uma experiência ampla, plural, talvez a gente tenha alguma chance desse Sapiens se arrumar. Porque o Sapiens está em maus lençóis. Não sei se já contaram a vocês, mas o Sapiens deu necrose. O Sapiens entrou em rota de colisão consigo mesmo.

Tem um poema do nosso querido Carlos Drummond de Andrade que diz: “o homem, bicho pequeno na Terra, se chateia”. Esse bicho pequeno se chateou aqui na Terra. E resolveu especular, imaginar que vai para a Lua, que vai para Marte, que vai para outros planetas; esse bicho pequeno enjoou da Terra. Eu acho tão lindo quando Drummond fala que esse bicho pequeno se enjoou da Terra. A Terra é nossa casa comum. Alguém se enjoou de ficar aqui. Esse “enjoou-se da Terra” é uma grave observação sobre o especismo dos humanos. Os humanos, a espécie dos humanos se separou de tudo o que existe ao nosso redor – dos rios, das florestas, das montanhas, dos passarinhos – e se enjoou daqui. Seria como alguém se enjoar da própria casa. Seria como um menino sem educação, grosseiro, se enjoar da casa dele e falar com a família: “Ah, me enjoei. Vou embora.”

‘Puu Nasipe (Panal de abejas bravas/Honeycomb of Brave Bees)’, 2021 © Cortesia Galería ABRA e Fortes D’Aloia & Gabriel / María Teresa Hamon

Olha, meninada, nada pessoal, tá? Dizem que são os meninos e as meninas que se enjoam e que ficam implicando com a casa e dizendo que vão embora. Nesse caso, somos todos nós: o bicho humano pequeno na Terra decide buscar outros lugares mais interessantes. Ele finca bandeira na Lua, ele coloniza a Lua. Lua colonizada, Lua tão conhecida… Ah, que coisa mais chata! O poema do Drummond diz que ele vai continuar especulando, indo a outros lugares. Ele vai desenvolver máquinas inteligentes e vai ordenar a suas máquinas inteligentes: Leve-me a Marte! Depois leve-me ao Sol! E ele vai esnobar cada lugar do cosmos a que ele chegar, até que ele tenha de voltar para a Terra e fazer uma viagem que o poeta chama de “dangerosíssima”, dangerosíssima viagem. Isso é bem Drummond, né? Para essa dangerosíssima viagem, o humano vai ter que viajar de si para si, para dentro do seu coração, pisar no seu chão, e buscar conhecer a si mesmo. Parece uma parábola antiquíssima sobre os humanos, que pode parecer moralista também. Ah! Os humanos precisam caminhar em direção a si mesmos, reconciliar-se consigo mesmos. Para além de uma parábola moralista, é uma denúncia sobre esse humano inconformado com tudo. Esse humano que, quando está muito rico, faz navios para caçar baleia. E, quando não tem o que fazer, inventa foguete para fazer viagem ao espaço. É impressionante como nós, como espécie, temos perseguido e infernizado a existência de bilhões de outros seres – bilhões! Todos os outros organismos que não são humanos a gente pica, esfola, rala, cozinha, faz sopa e joga fora. Nós somos a peste do planeta.

Quem estiver desconfortável, levanta a mão. Está muito desconfortável? Então repitam comigo: “Nós somos a peste do planeta. Nós somos a peste do planeta! Nós somos a peste do planeta!”

Gente, pode parecer aquela coisa que na psicanálise é chamada de “psicodrama”! Mas tem uma coisa mais radical que o psicodrama. Pois bem, se nós, como espécie, ameaçamos todas as outras espécies, todas… A gente está falando da baleia, porque ela é muito linda e visível, mas a gente não deixa nem formiga em paz! Existe uma quantidade enorme de produtos desnecessários que a gente usa, e eles têm nome de pesticida. Pesticida. Nós somos a peste do planeta!

Os Guarani Kaiowá de Dourados, no Mato Grosso do Sul, estão numa luta, em que têm uma prática chamada retomada, que é quando eles avançam sobre um latifúndio, um território conhecido deles, onde eles viveram antes de a soja chegar, quando a erva-mate era o cultivo de uma espécie. Na verdade, eram círculos endêmicos. A erva-mate não precisava ser plantada, a erva-mate brotava, e os Guarani Kaiowá faziam a colheita da erva-mate. Um dos rituais que é mantido até hoje pelos nossos parentes Guarani Mbya é o ritual, a cerimônia da ka’a, que é a erva, a planta, a erva-mate, o mate. Esse evento, que começa lá pelo dia 22, 25 de janeiro, é como se fosse o Ano-Novo dos nossos parentes Kaiowá, Guarani, Nhandeva, em que eles fazem o ritual da erva-mate. No início do século 20, a companhia Matte Larangeira, uma corporação com traços coloniais, ocupou aquela região, enxotando os Guarani para o Paraguai, matando os Guarani, botando fogo na casa deles, arrebentando com eles; e os Guarani Kaiowá sumiram por um tempo, como muitos de nós sumimos por algum tempo. Às vezes, a gente some por 20, 30, 50 anos.

Quando os Kaiowá voltaram a reivindicar seus territórios, esses caras tinham documentos de 40, 50 anos. Eles dizem: “Há 80 anos a gente tem uma escritura dessa terra”. Fala a verdade, pessoal! É sem noção um branco apresentar um documento para um povo indígena aqui, dizendo que ele estava lá antes da gente. Mesmo que o documento tenha 500 anos, é falso. Eu vejo alguns latifundiários furiosos babando no Jornal Nacional, balançando um documento e dizendo: “Tem 80 anos que meus avós compraram isso aqui!”. O que eles vão achar se eu disser para eles que tem 4 mil anos que meus avós andam por aqui? O que será que eles acham que a palavra “ancestral” significa? Será que eles acham que ancestral é o avô deles, que desceu de navio aqui para comprar terra? Ou aquele que ganhou terras para botar lavoura de café em São Paulo, enxotar os Kaingang e matar os Guarani? O Rio Grande do Sul, gente, foi tomado dos Charrua, dos Kaingang, dos Guarani. Tomado.

Vocês já escutaram a história de um barão que chegou para se estabelecer no que hoje é Porto Alegre, e que, ao chegar sem pedir licença, acabou se estabelecendo à beira de um rio e avistou uma aldeia próxima e por acaso perguntou para o cacique: “Você me desculpa, eu não sabia que vocês estavam aí. Não quer me vender essa terra, não?” E esse cacique Kaingang teria dito: “Não, eu não posso vender essa terra para você, ela não é minha”. O alemão, estranhando muito aquilo, falou: “Como não é de vocês? Esta terra não é de vocês?” E ele disse: “Não, ela é da água. Ela é do rio, da água. A gente não constrói aí porque a água vem e pega.” O cara não entendeu. E outro dia vocês tiveram que mandar ajuda para eles. Continuem mandando ajuda.

Pisar suavemente na Terra, além de ser respeitoso com a nossa mãe, a Terra, é uma maneira de prevenir desastres. As mudanças climáticas são uma cadeia de eventos que nós produzimos. Nós produzimos. Só falta algum engraçadinho dizer que a natureza se revoltou. Aliás, “Natureza” era o nome de uma égua que, quando eu era menino, tinha no lugar onde eu vivia com os meus pais, com os meus primos. E, à tarde, os meninos da nossa idade, meninos de oito, dez anos, tinham que tirar a palha do milho, tirar os grãos do sabugo, debulhar o milho e jogar aquele sabugo e a palha do milho no quintal, e ali se formava uma quantidade grande de palha. Ora, os animais gostavam de comer aquelas coisas, e esse bonito animal, uma égua grande, foi comer sabugo. Eu peguei um rastelo e fui puxar as palhas, e a palha passou por debaixo desse animal impressionante e grande. E ela deu um coice na minha barriga. E eu voei! Foi a primeira lição que a Natureza me deu. Era o nome da égua: Natureza. Então, sempre que eu falar com vocês, “cuidado com a Natureza”, pensem num coice bem na boca do estômago.

Quando a natureza responder ao que nós aprontamos com os oceanos jogando PET dentro deles – tem montanhas de PET… Já seria horroroso se aquelas embalagens PET só formassem uma montanha. Mas elas ainda fazem uma outra coisa. O movimento das águas extrai delas os microporos. A garrafa, o plástico, vai se esfarinhando. Micro-organismos – micro, micro, micro – vão se espalhando e entrando na água, e você não vê. Os peixes, os outros organismos todos, estão ficando plastificados. Nós estamos promovendo isso. Em algumas regiões, os corais já estão assimilando os microporos e integrando o microporo na estrutura do coral.

Eu fiquei pensando: mas o que é isso? O coral está aceitando a convivência com essa peste do PET? Que está também em muitos de nós, em nosso organismo. Então um mundo plastificado, um mundo de plástico, é o que nós estamos deixando para a geração de vocês, meninos e meninas, no futuro. Então, vocês, por favor, agradeçam os adultos por plastificar vocês, grátis! Grátis! A gente não cobra nada. É só um mau costume da gente.

Dizem que o sapo estava de boa na lagoa, nadando. Ele atravessava de um lado para o outro, e chegou um escorpião. E ele falou assim: “Ei, sapo! Eu não sei nadar, né?”. Aí o sapo: “Claro, escorpião não nada”. O escorpião disse: “Mas eu queria atravessar a lagoa”. E o sapo: “Tá bom, problema seu”. E o escorpião: “Que isso! E a solidariedade, e tal?”. Aí o sapo falou assim: “Não, você nunca cumpre a sua promessa. Eu não quero papo com você, não.” E o escorpião: “Que isso, sapo? Olha, eu sou legal. Sapo, eu juro. Deixa eu montar em você, e você atravessa a lagoa comigo e me larga lá do outro lado. De boa…” E o sapo: “A-hã. Já pensou se, na travessia, no meio da água, você inventa de me ferrar? Aí morremos nós dois.” O escorpião: “Você acha que eu sou burro? Se eu ferrar você, a gente morre. Vou não. Pode acreditar.” E o sapo: “Ah, que isso, escorpião, não é verdade!”. “Eu juro, não vou te ferrar.” Aí o sapo pensou assim, o sapo, na sua longanimidade, pensou: “Ah, vou dar uma chance. Quem sabe, esse sujeito horroroso se conserta.” E ele escutou, lá do fundo da lagoa, uma vozinha que dizia: “Anistia não!”. O sapo, generoso, que acreditava na democracia, disse: “Que isso? O escorpião tem direito a um julgamento justo.” E o escorpião: “Claro, né? Estamos aí para isso!” O vocabulário do escorpião era muito rico. E o sapo disse para ele: “Olha, é difícil acreditar que você tenha boas intenções”. E o escorpião: “Olha nos meus olhos”. E o sapo: “Ã-hã. Melhor não.”

Acontece que o sapo tem essa queda pela bondade. E ele falou: “Sei lá, né? Quem sabe? União Brasil…” Aí o sapo: “Tá. Tá bom! Sobe aí!” Então o escorpião montou no sapo, gente. E foi atravessar. Tarde gostosa, clima agradável, e o escorpião montado em cima do sapo. E o sapo, quase acreditando que dá para ser feliz, levando o barco… Quando vê um movimento esquisito do escorpião, ele vira e fala: “Que isso, escorpião?”. Aí o escorpião vira e fala assim: “Desculpa, é a minha natureza…”. E ele enfia o ferrão envenenado no sapo. E o sapo: “Escorpião, como você é burro, não está vendo que a gente vai morrer?”. E o escorpião “Ah… Mas é a minha natureza…”

‘Hetu misi misiri (Cielo que anuncia enfermedad/Sky that Announce Illness)’, 2021 © Cortesia Galería ABRA e Fortes D’Aloia & Gabriel / María Teresa Hamon

Vocês estão pensando que isso é história de terror, né, crianças? Estou vendo a carinha de vocês… Olha, não é história de terror. Isso é uma parábola à moda antiga, dizendo para vocês: cuidado com o escorpião. Mesmo quando ele diz que é bonzinho, que vai atravessar a lagoa e não vai matar mais ninguém, é mentira. Tá bom? Cuidado com o escorpião.

Vocês não imaginam a alegria que me dão por me acompanhar neste ritual que ao mesmo tempo celebra nossa diversidade e cria a possibilidade da nossa confluência. De a gente confluir para alguma coisa comum, para alguma percepção sensível de quem nós somos, na diversidade, não na particularidade, na especificidade. Porque a nossa singularidade deveria ser algo que interessa somente a nós, e a nossa pluralidade deveria ser o que nos interessa a todos.

Nós vivemos um tempo tão impreciso nas nossas escolhas que às vezes achamos que até quando somos celebrados podemos estar sendo envolvidos em movimentos que extrapolam a nossa realidade local e que afetam um tipo de humanidade ampla, além das nossas fronteiras culturais e regionais, que está precisando se corrigir. Esse corrigir-se passa por essa vontade, ou necessidade, que o mundo tem de possibilitar que aqueles que ficaram excluídos de tudo tenham pelo menos um exemplar deles que seja percebido. Essa manobra, já me disseram que se chama “tokenização”, de token.

A gente vive num mundo cheio de críticas e de contracorrente. Eu podia pensar: acho que estou sendo excessivamente celebrado. Num mesmo ano, um sujeito entrar para a Academia Brasileira de Letras, receber um honoris causa como biólogo e ser homenageado na Casa de Rui Barbosa! Podem estar capturando esse sujeito como token, como um exemplo de como o Brasil acolhe os povos indígenas… Será que é crítico demais a gente pensar em como nós lidamos com a diversidade? Eu sou da etnia Krenak, e eu gostaria muito que as próximas homenagens aos povos indígenas incluíssem também os parentes Kaiowá, Guarani, os Kaingang, os Xavante, os Yanomami, os Suruí, os Pataxó, os Pankararu, os Xukuru-Kariri. É uma lista enorme. Deve ter algumas parentes e alguns parentes aqui presentes. Os Puri, viva! Os Guajajara. Querem continuar? Os Mura, os Tikuna, os Tukano, os Kanamari, os Monxoró, os Fulni-ô, os Ashaninka, os Wapichana, viva! Baré, Xakriabá, Korubo, Maxakali, Bororo, Mehinaku.

Por incrível que pareça, a inflexão da história do Brasil nos últimos 60 anos foi sair da curva do desaparecimento dos povos indígenas para uma impressionante estatística de, em menos de 40 anos, passar de 300 mil para 1,7 milhão de pessoas que se declaram indígenas. Aí estão os Puri, os Botocudo, os Bororo, os Guarani, todos esses que vocês invocaram: os Pataxó, os Guajajara, os Potiguara, os Kiriri, os Kariri, os Xucuru. Todos esses “etnomes” que a gente convocou aqui estão presentes no Censo, que diz que hoje temos 1,7 milhão de pessoas que se declaram indígenas – é autodeclaração.

Até a Constituinte de 1988, nós éramos descaradamente contados pelo Estado brasileiro como 120 etnias, cerca de 300 mil pessoas, o que dava uma meia dúzia de pessoas por etnia. Isso é uma safadeza demográfica, censográfica, censória. Então as pessoas diziam: “Nossa, mas como a população de vocês triplicou num período tão curto?”. Não! É porque o IBGE começou a fazer a pergunta certa, começou a perguntar direito, para quem deveria mesmo responder. Antes se perguntava se a pessoa era: parda, preta, amarela ou branca. Não tinha nenhuma etnia no questionário. Perguntavam a cor. E, cor por cor, tinha gente que falava: “Ah, eu sou rosa-choque”. As pessoas não estavam nem aí para isso que passou a ser um registro racializado. Quem não está nem aí para raça fala: “Ah, sei lá, sou verde, amarelo, azul, cor-de-rosa, colorido”.

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Eu sou muito grato a vocês. Não vou mais ficar esticando as histórias, porque eu acho que essa ocasião é muito especial, de alguma maneira, para todos os povos indígenas. Ela celebra também uma importante decisão da Casa de Rui Barbosa de recepcionar aqui a literatura feita pelos povos originários e pelos povos da Diáspora, uma literatura a partir da oralidade. Os meus livros são narrados. Eu falo, e essas palavras são depois escrituradas, se tornam textos, e esses textos estão publicados em dezenas de línguas. A maior surpresa foi quando eu soube que eles seriam publicados na Coreia do Sul. A Universidade Nacional de Seul traduziu os três ensaios. E eles estão lá, lendo essas ideias que foram narradas e transformadas em textos e traduzidas.

Outro lugar, também, que me encheu de contentamento por saber que já me leem por lá, é a Grécia. E eu disse: “Não gosto de viajar pra fora do Brasil, mas para Atenas eu topo!”. Topo porque eu ainda queria convidar um grego para passear comigo e falar: “Dá uma lidinha aí no Ideias para adiar o fim do mundo”, e escutar ele lendo em grego, e imaginar o que significa para aqueles velhos gregos uma ideia que sai daqui do outro canto do mundo e repercute na cultura deles, porque agora tem gregos imaginando outras cosmovisões. Gregos olhando e pensando: “Então, tem gente no mundo que acha que pode cantar, dançar e suspender o céu?!”. Os gregos contaram muitas histórias para nós, eles têm o Olimpo deles lá, então eles têm facilidade para relacionar ideias de céu, de cosmos. E, aqui no nosso país, parece que as pessoas têm muita dificuldade de sair dessa visão colonial, limitada, de uma cultura ocidental.

Cosmovisões são como oxigênio para o espírito. Se você tiver contato com muitas cosmovisões, vai ter muitos mundos para onde ir. Se ficar só com uma única visão, como diz Chimamanda Adichie, se só tiver uma história, está fadado ao desastre. Se você tem a possibilidade de abrir-se para muitas narrativas, elas são todas possibilidades de fuga, de saídas, de diversidade, de pluralidade – como diz um sujeito que está muito animado agora para promover os direitos da natureza, Alberto Acosta. Acho que a formação dele é como economista, mas ele se interessou muito pela ideia dos direitos da natureza e se engajou nesse movimento, o Novo Constitucionalismo da América Latina, que inclui a Terra como organismo vivo, como sujeito de direito, os rios como sujeito de direito, e isso está profundamente informado por uma cosmovisão, que é a cosmovisão dos povos originários dos Andes, dos Aimará, dos Quéchua, dos ancestrais que sempre consideraram as montanhas, os rios, os outros organismos não humanos como legítimos, como entidades vivas. Isso é muito importante, isso são cosmovisões. Então, os gregos que se preparem.