Em setembro de 2024, ministrei uma oficina de escrita criativa e jornalismo socioambiental em Rio Branco, no Acre, promovida pelo Pulitzer Center em parceria com o Comitê Chico Mendes. Dias antes da viagem, uma das organizadoras avisou: “O ar por aqui está insalubre”. Era verão amazônico, época de poucas chuvas e muitas queimadas. “Espero que o avião consiga pousar”, disse ela, dando a dimensão do problema. Eu já tinha estado na Amazônia em épocas de intensas queimadas. Fiz a cobertura de grandes incêndios florestais criminosos, como os de 2019, que ganharam a mídia internacional no primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro. Mas uma fumaça tóxica naquele nível de 2024, foi a primeira vez.
Apesar do receio dos passageiros, pousamos em segurança. Assim que as portas se abriram, a cabine foi tomada por um forte cheiro de queimado. Na pista, uma névoa espessa marcava o horizonte. O pequeno saguão de desembarque também estava cheio de fumaça. Parecia que o fogo consumia não a floresta ao redor da cidade, mas o próprio aeroporto. Recebi uma mensagem da equipe do curso expressando receio de que a oficina não pudesse mais acontecer no espaço aberto para onde estava prevista. Procuravam reorganizar tudo em uma sala fechada, com ar-condicionado para filtrar as partículas das queimadas, pois a situação oficialmente evoluíra para “muito insalubre” e “perigosa”.
Naqueles dias, Rio Branco era a cidade mais poluída do planeta, com o medidor de partículas no ar chegando a 208 microgramas por metro cúbico, cerca de 13 vezes acima do nível aceitável, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).1 A prefeitura suspendeu as aulas, dispensou os trabalhadores do expediente e desaconselhou atividades físicas. O pôr do sol alaranjado no horizonte da floresta esfumaçada lembrava uma paisagem jurássica de extinção em massa. Eu me perguntava qual seria o sentido, naquela situação, de uma oficina de escrita socioambiental.
A crise da democracia carbônica
Há alguns anos tenho pesquisado a ecologia política da extrema direita na Amazônia.2 Almejava produzir um texto comparativo, refletindo sobre outros contextos internacionais em que predomina a relação entre um projeto político autoritário e a intensa queima de carbono. Foi quando cheguei à ideia que dá título a este ensaio, para logo descobrir que já existia uma pequena bibliografia sobre o “carbofascismo”. Ao que tudo indica, o historiador da ciência Jean-Baptiste Fressoz criou o termo, embora nele não se aprofunde ou a partir dele elabore a devida teorização.
Em um breve artigo publicado no Libération em 2018, Fressoz usa a chave do carbofascismo para analisar diversos contextos políticos ao redor do planeta nos quais governos de extrema direita se apoiavam na liberação de carbono para a atmosfera. Ele cita os defensores do desmatamento Jair Bolsonaro e Rodrigo Duterte (então presidente das Filipinas, detido em março de 2025 pelo Tribunal Penal Internacional de Haia por crimes contra a humanidade), as petromonarquias do golfo Pérsico e, claro, Donald Trump, que acentuou sua política carbofascista no segundo mandato como presidente. Não há muito mais que isso no artigo do Fressoz. Mas uma brecha se abre para pensar o tema.
Defendo que a ideia de carbofascismo permite olhar para o nascimento de um novo regime político no primeiro quartel do século 21, considerando a emergência de regimes de extrema direita a partir de suas características ambientais e climáticas. Ou, para ser mais preciso, de suas características antiambientais, em reação às medidas de combate a mudanças climáticas esboçadas em todo o mundo desde os anos 1980. O carbofascismo destaca aspectos comuns entre regimes tão distintos como dos Estados Unidos de Donald Trump e da Rússia de Vladimir Putin, ambos marcados por processos de concentração do poder nas mãos de presidentes com apetite por expansão territorial, e que lideram uma cruzada contra a ordem liberal-democrática, dependendo de uma nostalgia fóssil para exaltar um passado glorioso e idealizado. Assim como vimos no governo Bolsonaro,3 trata-se de políticos que, diante das evidências incontornáveis da crise climática, aceleram a queima de carbono enquanto fomentam uma aliança antiambiental e de erosão democrática em escala planetária. Além da nostalgia, esses regimes cultivam a paranoia e o vitimismo em relação a forças que supostamente impedem o crescimento de seus países e que se manifestariam na forma de medidas regulatórias ambientais e do controle da queima de combustíveis fósseis.
A expansão da fronteira agrícola sobre a Amazônia tem promovido a conversão da floresta e de seus territórios multiétnicos indígenas, quilombolas e ribeirinhos em campos de soja e pasto para gado. Esse processo violento envolve múltiplas dimensões: financeira, política, étnico-racial, demográfica e mesmo bioquímica (no que diz respeito ao intenso uso de agrotóxicos). Isso nos permite observar com maior clareza a ascensão de uma nova forma de autoritarismo, contrária às regulamentações estatais em relação aos danos ambientais e nostálgica da queima de energia do carbono como símbolo de virilidade para expansão territorial e concentração de poder.

Estamos assistindo à tentativa de extinção de uma ideologia que se quis universal ao longo do século 20, a da expansão global da democracia, oferecendo em troca crescimento econômico sem fim movido pelos combustíveis fósseis (primeiro carvão, depois petróleo) e sustentado pela derrubada das florestas. Faço aqui referência ao fenômeno que Timothy Mitchell definiu como “democracia carbônica”.4 Até o século 18, a energia que sustentava atividades humanas provinha majoritariamente do sol e era transformada pela fotossíntese em grãos para alimentar humanos, em pastos para alimentar animais e em florestas para fornecer lenha a máquinas e meios de transporte. Uma energia limitada pela superfície exposta ao sol. A partir de meados do século 19, com a exploração da energia disponível na forma de carvão e petróleo no subterrâneo, emergem novas formas de vida política e de democracia de massa. Para Mitchell, a queima do carvão na Europa e nos Eua possibilitou a concentração urbana e industrial, conferindo aos trabalhadores um poder inédito de barganha ao ameaçarem interromper o fornecimento de energia. No entanto, a transição para o petróleo, extraído no Oriente Médio e transportado por oleodutos e navios, enfraqueceu o poder de mobilização dos trabalhadores, reduzindo sua capacidade de negociação e limitando o avanço democrático tanto na Europa e nos Eua como no Oriente Médio.
Mitchell chama a atenção para o fato de todos os aspectos da vida urbana nas democracias ocidentais ricas dependerem do petróleo, que molda hábitos de consumo, trabalho, moradia e transporte. Essa dependência é insustentável, tanto pela finitude das reservas quanto pelas mudanças climáticas que provoca. O petróleo, diz Mitchell, impõe limites à democracia: “A máquina política que surgiu para governar a era dos combustíveis fósseis […] pode ser incapaz de lidar com os eventos que a encerrarão”. Um dos motores do carbofascismo, acredito, está aí, nas dificuldades de elaborar uma resposta à crise climática a partir dos mecanismos democráticos e na naturalização de um modo de vida ancorado no carbono.
É possível dividir em três momentos as respostas predominantes à crise climática. O primeiro deles surge na virada dos anos 1970 para os 1980 (notadamente com a publicação, em 1979, do famoso Relatório Charney sobre o impacto da ação humana no planeta), quando aumenta a percepção de que as mudanças climáticas demandariam uma ação internacional coordenada, envolvendo governos, empresas e sociedade civil. Em todo o espectro político havia, em alguma medida, um consenso sobre a importância de acordos e regulamentações para diminuir a emissão de gases. A voz de negacionistas climáticos ainda tinha pouco peso.
Na década de 1990, o campo do ceticismo climático, que em um primeiro momento negava toda e qualquer mudança do clima, começa a se organizar com mais força. Com o passar dos anos, e as inegáveis transformações nos padrões de temperatura, chuva, enchentes, ondas de calor e desastres ambientais, tornou-se mais difícil sustentar a posição de que nada estava acontecendo. O grupo negacionista mudaria então de estratégia, concentrando-se em dizer que as transformações seriam um fenômeno natural de reaquecimento da Terra, sem qualquer relação com a sociedade industrial e sua intensa demanda por carbono.
Já nas duas primeiras décadas do século 21, grupos políticos de extrema direita aprofundaram os questionamentos e passaram a identificar esforços climáticos e regulamentações como ameaças ao seu modo tradicional de vida. Nos Eua, e, em alguma medida, também no Brasil, a resposta carbofascista se alimenta dessa dinâmica, da insatisfação com o controle exercido pelo governo por meio das regulações ambientais – ainda que ambientalistas considerem tímidas as medidas para lidar com os problemas causados pelas mudanças climáticas. O objetivo é continuar queimando. Isso já estava esboçado na fala de George Bush durante a Rio-92, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento: “O modo de vida americano é inegociável”. Hoje, uma parcela significativa do movimento reacionário argumenta que o discurso sobre restrições e transformações sustentáveis são parte de uma guerra cultural esquerdista, uma cruzada para destruir o modo de vida baseado na queima intensiva de carbono. Grupos reacionários norte-americanos, alçados à presidência do país com Donald Trump, propagam inclusive a existência de uma cruzada da esquerda contra o american way of life.5
Queimar a floresta, concentrar poder
Países com extensa cobertura de floresta tropical, como o Brasil, vivem uma situação única: embora a economia e o modo de vida nas grandes e pequenas cidades sejam centrados nos combustíveis fósseis, não é essa sua principal contribuição para as mudanças climáticas, e sim a derrubada e queima da floresta. Na oficina de jornalismo socioambiental no Acre, na sala climatizada para nos proteger da fumaça, o tema das queimadas foi onipresente. Não poderia ser diferente. Uma das pautas que ajudei a desenvolver propunha uma investigação sobre a relação entre as feiras agropecuárias, as elites locais ligadas a atividades econômicas que envolvem a derrubada da floresta e políticos autoritários que defendem esse como o caminho único para o desenvolvimento da floresta.
O Acre é parte do chamado Arco do Desmatamento na Amazônia, que abarca Rondônia, o sul do Amazonas, o norte de Mato Grosso e as regiões sudoeste, sul, e sudeste do Pará. Nesse perímetro, a intensa grilagem de terras públicas e a derrubada da floresta para venda ilegal de madeira abrem imensas áreas para o avanço da fronteira agrícola (principalmente soja) e da pecuária. Na Amazônia, o fogo sempre foi utilizado por povos indígenas e outras comunidades tradicionais no manejo da terra e na compostagem de material orgânico. O fogo faz parte das ecologias amazônicas de produção da vida, mas jamais para queimar vastas áreas de floresta: seu uso é circunscrito à roça e à produção de matéria orgânica que enriquece o solo, conhecido como terra preta. A floresta em si é úmida, não queima espontaneamente. Os grandes incêndios florestais, por sua vez, fazem parte de um processo avançado de desmatamento, em que, depois de retiradas as árvores maiores, aquelas que retêm mais água, queima-se a vegetação restante. Se ecologia é a relação entre os seres e o ambiente onde vivem, então podemos dizer que a extrema direita tem sua própria ideia de ecologia na Amazônia: transformar a maior floresta tropical do planeta em área destinada a extração mineral, exportação de carne barata para Eua e Europa e cultivo de grãos para alimentar porcos na China e frangos na Europa. Essa ecologia se define por uma geopolítica da toxicidade, concentrada nesses territórios descartáveis, onde a fumaça se torna um fator de adoecimento a cada verão.
As últimas eleições presidenciais do país, no já distante ano de 2022, obrigaram os brasileiros a fazer uma escolha entre visões opostas. De um lado, Jair Bolsonaro defendia uma concepção ultraconservadora da sociedade brasileira, que ia muito além da privatização da economia, propondo o armamento da população, a família mononuclear ancorada em um homem e uma mulher, ações truculentas da polícia, perseguição da ciência e das artes. Luiz Inácio Lula da Silva o antagonizava em precisamente todos esses pontos. Além disso, em meio à crise climática global, outro tema ganhou destaque: a floresta amazônica. E não havia como ser diferente: Bolsonaro passara os quatro anos de seu mandato promovendo medidas que enfraqueciam regras ambientais e ameaçavam indígenas e quilombolas, bloqueando a demarcação de terras e incentivando invasões. Seu governo abriu caminho para atividades ilegais, como o garimpo e o desmatamento de terras dos povos originários, com medidas que dificultaram a fiscalização, como o veto à aplicação de multas e à destruição de máquinas utilizadas nessas infrações. Ao mesmo tempo, coordenou ataques sistemáticos a Ongs, qualificando-as como grupos que serviam a interesses internacionais para impedir o desenvolvimento do Brasil.
A estratégia surtiu efeito. Segundo o Instituto Socioambiental (Isa), durante o governo Bolsonaro, o desmatamento aumentou 94% em comparação aos quatro anos anteriores.6 Se levarmos em conta apenas territórios indígenas, um dos principais alvos do governo, o aumento foi de 157%. Além disso, o assassinato de indígenas cresceu 54%.7 E o mais grave talvez seja constatar que essas medidas tiveram significativo apoio popular. Entre as dez cidades que mais desmataram na Amazônia, oito votaram amplamente por eleger Bolsonaro em 2022. Em Altamira (PA), a cidade que mais desmatou em 2021, ele venceu com 63,28% dos votos. Já em Novo Progresso (PA), no Alto Tapajós, Bolsonaro teve 78,18%. Em São Félix do Xingu (PA), município com o maior rebanho bovino do país e também recordista em desmatamento, alcançou 63,08%.
A bem-sucedida estratégia da extrema direita de estabelecer uma ecologia carbofascista na Amazônia brasileira depende da mobilização de três sentimentos: nostalgia, paranoia e vitimização. Sentimentos que são cultivados não apenas nessa região da fronteira agrícola em expansão, mas por movimentos, partidos e líderes reacionários ao redor do mundo.
No caso brasileiro, a nostalgia remete ao período da ditadura civil-militar, entre 1964 e 1985. Nostalgia de um regime que tutelava a democracia e que, como destaca o cientista político Marcos Nobre, seria o ideal de democracia para Bolsonaro.8 Nostalgia de um país controlado pelos militares, sob censura, onde a violência estatal calava opositores, mas sobretudo um país no qual o governo promovia uma política de ocupação da Amazônia, expulsando populações nativas e promovendo o desmatamento e a colonização da floresta por trabalhadores brancos vindos do Sul do Brasil. O saudosismo da extrema direita pela Amazônia da ditadura é o desejo de uma política de derrubada da floresta, vista como sinônimo de avanço civilizacional.
A paranoia, por sua vez, está intimamente relacionada à ditadura no contexto da Guerra Fria, quando o regime via a Amazônia como um território riquíssimo cobiçado pelas potências internacionais. Receosos com a estratégia exitosa dos revolucionários cubanos nas matas de Sierra Maestra, o governo temia que grupos comunistas conseguissem se infiltrar junto a indígenas e promover uma revolução ou um movimento separatista. A paranoia se entrelaça com o receio dos militares, acentuado na redemocratização no final dos anos 1980, de que Ongs internacionais atuariam contra os interesses e o desenvolvimento do país ao defenderem a demarcação de territórios tradicionais. A luta pelo reconhecimento da Terra Indígena Yanomami, no início dos anos 1990, foi caracterizada pela percepção de que eles nem sequer existiriam como povo e teriam sido “inventados” por militantes esquerdistas e Ongs para se beneficiar com a demarcação. O argumento delirante tomou forma no livro A farsa Ianomâmi, escrito pelo já falecido coronel Carlos Alberto Lima Menna Barreto e publicado pela Biblioteca do Exército em 1995. Durante a crise sanitária Yanomami em seu governo, Bolsonaro replicava esse argumento, dizendo que tudo não passava de uma “farsa da esquerda”.

O terceiro sentimento, que pode ser compreendido como uma consequência dos dois anteriores, é o de vitimização. O Brasil, e mais especificamente os fazendeiros que se arrogam a responsabilidade de promover o desenvolvimento da nação, seriam vítimas de forças internacionais muito mais poderosas, como Ongs e meios de comunicação estrangeiros, agindo contra os interesses nacionais. Nessa lógica, o Brasil seria vitimado por não poder desmatar e emitir carbono como outros países fizeram no passado, ficando assim condenado a uma posição inferior no cenário internacional. É evidente a conexão com a nostalgia e a paranoia: impossibilitado de explorar suas riquezas, cobiçadas por forças internacionais, o país sente falta de um governo forte, militarizado, capaz de defender o direito a desmatar e empreender um projeto modernizador civilizacional, o que, para as populações amazônicas, sempre significou violência e destruição.
Em suma, temos aqui, acredito, três sentimentos – nostalgia, paranoia e vitimização – e três elementos – oposição à ordem democrática-liberal, concentração de poder e expansão territorial baseadas na queima de carbono – que definem o carbofascismo no Brasil. Mas também alhures.
Nostalgia fóssil, ambição imperial
Se havia alguma dúvida quanto à consolidação da aliança de Donald Trump e Vladimir Putin contra a ordem democrática-liberal, ela se desfez nas semanas entre o final de fevereiro e o início de março de 2025. Trump passou a qualificar o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky como “ditador” e responsável pela invasão russa em seu próprio país. A mudança de posição norte-americana em relação à guerra na Ucrânia veio acompanhada de um giro na relação com a Europa. Trump deixou claro que o arranjo internacional pós-Segunda Guerra Mundial, atualizado com a queda da União Soviética, seria um desperdício de dinheiro, tempo e energia para os Eua, e a Europa deveria pagar por sua própria defesa. Soma-se a isso a guerra tarifária instaurada por Trump contra o livre comércio internacional.
O que está por trás desse giro é uma percepção, por parte de Trump, de que os Estados Unidos saem perdendo com a ordem política, financeira e jurídica que o próprio país construiu desde meados do século passado: uma ordem global marcada pelo que hoje é visto como um excesso de restrições, de investimentos internacionais e de regulamentações, especialmente na área ambiental. Em raciocínio análogo, ainda que com argumentos diferentes, Putin também entende que a Rússia perde com a ordem global em vigor desde o fim da União Soviética, sobretudo pela expansão da Otan em sua área de influência, como a Romênia, a Polônia e os países bálticos. Desse ponto de vista, a Rússia seria refém da infraestrutura financeira estabelecida pelos Eua, tendo o dólar como moeda de reserva global e sendo o sistema internacional de transações vinculado à moeda e ao Banco Central norte-americanos.
A nostalgia quanto ao passado glorioso de suas nações é outro dos fatores que definem a relação de Trump e Putin com o mundo contemporâneo. Uma nostalgia que, em diálogo com a pesquisadora russa Svetlana Boym, pode ser qualificada por seu caráter restaurativo: a busca por reconstruir o passado de forma idealizada, apagando a complexidade histórica e os matizes que o definem, baseando-se em uma sensação de perda da comunidade e oferecendo uma narrativa coletiva reconfortante: a de uma constante ameaça que impede a realização do seu destino no presente. Trata-se, sobretudo, de uma nostalgia fóssil, em que a queima de petróleo, o trabalho em minas de carvão e o gás natural poderiam promover o crescimento da nação e sua expansão territorial, tal como no século 19.
O slogan trumpista “Make America Great Again” implica ainda em uma lógica expansionista: incorporar a Groenlândia, tomar o canal do Panamá, transformar o Canadá em um estado norte-americano ou mesmo criar uma Riviera sobre os escombros de Gaza. Parte dessa grandiosidade viria do resgate da queima de carvão e da indústria automobilística, cujo desmantelamento minou o emprego daqueles que viriam a se tornar parte de seu eleitorado. Para Putin, por sua vez, a nostalgia por uma grande Rússia diz respeito à ideia particular de “civilização eslava”, que não seria nem ocidental nem oriental, ancorada em tradições próprias da Igreja Ortodoxa. Comparando-se a figuras grandiosas da história russa, como Pedro, o Grande, Catarina, a Grande e Alexandre III, e apoiado em forte propaganda estatal acerca do heroísmo soviético durante a Segunda Guerra, Putin empreende uma franca expansão territorial. O gás russo tem sido uma arma geopolítica central para impedir que a Europa se oponha ao avanço sobre a Crimeia e partes da Geórgia. Com as sanções impostas ao país depois da invasão da Ucrânia, em 2022, é a venda de gás para China, Índia e Turquia que garante sobrevida à combalida economia russa e permite o funcionamento da máquina militar.
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Nos Estados Unidos, na Rússia ou no Brasil, vemos que a fusão entre autoritarismo e queima desenfreada de carbono aponta para a emergência de uma nova força política ancorada na destruição ambiental e na articulação transnacional contra a ordem democrática-liberal.
Pensando na relação entre as sociedades e o ambiente, esses regimes em franca expansão lembram aquilo que escreve Bruno Latour em Onde aterrar?. Sob o impacto da decisão de Trump de retirar os Eua dos Acordos de Paris, o pensador francês conclui que as elites globais se imaginam imunes às transformações climáticas. Para elas, argumenta Latour, o horizonte político se delineia em uma espécie de “fora do mundo”. Se todo regime fascista tem como característica a produção deliberada de uma confusão entre causas e consequências – o que equivale a dizer que se define por uma mentira fundamental –, o carbofascismo tem a capacidade de mobilizar uma ilusão coletiva de crescimento econômico e expansão territorial sem fim, obliterando qualquer reflexão sobre clima e meio ambiente, negando o vínculo constitutivo entre os seres humanos e a Terra.







