e eu aprendo,
aprendo que para seguir me mantendo dentro
dessa universidade seguirei gritando a minha história
talvez por uma vontade de nunca esquecer as
coisas lindas que eu aprendi e que não estão aqui.

Matheusa Passareli, “O Rio de Janeiro continua lindo e opressor”

MARABÁ, ONDE A ÚLTIMA MODA É COMER SUSHI

Ippon é a pontuação que garante a vitória no judô. Uma das possibilidades para obtê-la é jogar ou imobilizar as costas do oponente contra o chão. Meu corpo tem sido jogado contra uma parede: a da separabilidade, que me desperta a curiosidade para a sobrevivência além desta condição; para as formas de utilizar o campo da arquitetura para compreender amiúde a espacialização de mundos clandestinos, construídos pelo afeto e pela memória mas muitas vezes rebaixados à condição de vernaculares, estranhos, selvagens, marabá, dispositivos do etnocídio.

Marabá, um neologismo a partir das palavras mayr e aba, do tronco tupi-guarani, pode significar “corpo esquisito”. Empregado por Gonçalves Dias,1 nomeia uma mulher indígena de pele branca, cabelos loiros encaracolados, rechaçada por sua comunidade em razão de seu fenótipo. Também é o nome da minha cidade natal, no sudoeste do Pará. Sobre ela, a Veja escreveu: Marabá é, em 2010, o “Tigre da Amazônia”, campeã em faturamento no setor siderúrgico e “maior taxa de criminalidade”; no ano seguinte, “top 5 pior banda larga”. Sintetizando, em 2011, o contraste de uma economia que “corresponde a 19,7% de crescimento econômico anual, com R$ 3 bilhões de PIB e R$ 16 mil reais de renda per capita anual”, a repórter Julia Medeiros sentencia: “A última moda em Marabá é comer sushi”.2

Eu não sabia do projeto do arquiteto Joaquim Guedes, de 1973, para a criação de uma Nova Marabá sob o paradigma moderno, e só na faculdade tive contato com a proposta do arquiteto H.J. Cole, formulada em 1976, para a cidade onde nasci. Visto de cima, o traçado de Marabá homenageia uma castanheira – conexão histórica com o látex. Fruto das políticas militares de colonização do interior amazônico, a ideia de uma Nova Marabá veio como solução para o problema das enchentes e do modo de vida dos ribeirinhos, considerado primitivo, e para a acomodação de militares e outros migrantes vindos do Centro-Sul.

As presenças do Exército, das mineradoras, dos sulistas e da agropecuária dão o tom à cidade. Assim, Marabá é epicentro de tensões da história brasileira. O massacre da Curva do S resultou na construção do Monumento Eldorado Memória (Oscar Niemeyer, 1996), inaugurado em 7 de setembro de 1996 e demolido 15 dias depois por latifundiários da região. A guerrilha do Araguaia levou à criação, em 1973, do 52º batalhão de Infantaria de Selva e da Vila Militar Presidente Castello Branco, onde minha mãe lecionava português no turno da tarde.

Queria ter tido minha mãe como professora, teríamos passado mais tempo juntas, mas seus planos para mim eram ambiciosos. Eu frequentava a escola particular onde estudavam os filhos desses militares, fazendeiros e médicos. O esforço dela foi, em certa medida, recompensado: passei na graduação em arquitetura e urbanismo na Universidade Federal de Pernambuco. Ela morreu de aneurisma um mês depois e, desde então, eu visito Marabá por causa do projeto de Cole e dos litros de açaí congelado e dos potes de biscoito de castanha-do-pará que minha tia manda quando lembra de mim.

GUIA COMUM DO CENTRO DO CORPO QUE O RECIFE ME FEZ PERCEBER

Em Antene-se, Chico Science deixa um conselho: “É só equilibrar sua cabeça em cima do corpo […] na quarta pior cidade do mundo”. Meu desafio ao me mudar para o Recife em 2017: a colisão do mundo que eu conhecia com o mundo das antenas, nome que Sandra Benites dá à sociedade urbana.3 Em Marabá havia uma desigualdade posta, mas se lá eu frequentava o círculo social das escolas particulares, no Recife eu tive contato direto com as palavras de marcação que me cerceiam o gozo da subjetividade. Ainda que o tupi não seja minha língua materna, eu sentia, assim como Benites, um desengate, uma incompreensão entre meu jeito de pensar e me expressar em face do modo operante da metrópole. Eu, que até então não me percebia deslocada, fui movida por desconfortos ao mensurar a diferença e aprender nomes possíveis para essas identidades. Eu descubro estes nomes, estes corpos: as tibiras, as travestis, as muxes4 – e a partir daí passo a viver como uma pessoa não binária.

Quando me fixei no Recife, estavam no ápice as discussões coletivas sobre o Novo Recife. Assim como a Nova Marabá, o programa é a inserção em uma economia transnacional, da modernidade, do avanço econômico. Na apresentação do Guia comum do centro do Recife (2015), Bruna Rafaella Ferrer lembra que “não apenas tudo o que existe no Recife, simbólica e concretamente, converge para o centro. Também tudo segue resistindo no centro.”5 O guia compõe um momento que nutriu a minha vontade de estudar arquitetura: o movimento Ocupe Estelita, que organizou reivindicações contra a implantação dos arranha-céus de uso privado nas margens do rio Capibaribe. Na época, os professores do Departamento de Arquitetura e Urbanismo assumiram a ocupação do cais histórico como salas de aula.

UNIVERSIDADE IMPERMEÁVEL DE PERNAMBUCO

Minha jornada acadêmica tem sido espinhosa, burocrática e marcada por contradições. No início, sob o sofrimento do luto e submersa em incertezas do processo de migração, procurei o setor de assistência social da instituição. A certa altura, enquanto ouvia meu relato, a psicóloga começou a chorar. Com o passar dos anos, revisitei essa lembrança, cada vez mais fascinada pelo tom kafkiano. Isto é, passei a nos enxergar, a mim e à jovem psicóloga, submetidas à estafa emocional causada pela instituição de um poder burocrático.

Debruçado sobre a educação, esforço raro entre pesquisadores de arquitetura e urbanismo, Jorge Wilheim amplia o debate sobre “acesso gratuito” ao nível superior: “A intenção igualitária é generosa, mas a análise, superficial: não se pode esquecer que […] a seleção econômica é feita antes”. Mesmo tendo como sujeito o estudante de classe média do Centro-Sul, ele ressalta a ideia de impermeabilidade de outras camadas sociais ao centro da conceituação de uma universidade incapaz de lidar com a heterogeneidade e propor soluções para um desenvolvimento nacional.6

Dos 18 aos 24 anos, fui reprovada por falta ou por nota na mesma disciplina de Conforto Ambiental do curso de arquitetura e urbanismo; por seis anos imprimi o mesmo material. Em Desenho Técnico, passei três anos comprando lapiseiras, blocos Canson de papel-manteiga e kit de esquadros. Cheguei a ter que escolher entre comer e adquirir esses materiais. Em bell hooks,7 educar é criar intimidade e fortalecer laços de comunidade, mas aqui a educação é bancária, reprova e estimula a evasão. A evasão faz parte do currículo oculto8 do curso. A displicência no trato dispensado pelos docentes gera frases como as que já ouvi: “Você não tem vocação para arquitetura”; e, de forma ainda mais radical: “Você devia voltar para a sua aldeia”.

DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E RACISMO

Eu tinha um amigo na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Ele era filho de pesquisadores e nós fazíamos parte do mesmo grupo de estudo. Um dia eu comprei uma pizza por 100 reais, durante a produção de um trabalho da disciplina de Projeto 3. Meus colegas decidiram que eu menti sobre o preço e espalharam isso para toda a turma – que espalhou para turmas mais adiantadas. Eu reprovei o semestre inteiro por faltas e, quando consegui voltar a frequentar as aulas, tinha esse débito. Isto é, eu tinha sido cercada: a violência social me tirava a capacidade de integração e um prazo burocrático punha em risco a minha permanência naquela instituição.

Portanto, em 2022 e 2023 eu precisava fazer tudo ao mesmo tempo: as disciplinas, uma pesquisa que se transformasse em trabalho de conclusão de curso e o trabalho autônomo como artista visual. Nesse ecossistema de invalidações dentro de arquitetura e urbanismo, começo a pensar por que alguém como eu, imersa em um Novo projetado (a Nova Marabá, o Novo Recife) e desiludida com ele, deveria “colaborar com o que o mundo considera sério, quando na verdade não passa de loucura?”.9

Em outro país, o amigo que levantou suspeitas sobre o meu caráter assiste a aulas de habitações sociais sobreadensadas. Não tenho acesso a intercâmbios e cursos para aprender software de renderização. Me questiono o que pode significar, “na contradição entre a imposição de morte social e as nossas vidas irredutíveis a ela”,10 a habilidade de identificar manifestações espaciais, mapear atributos e projetar formas, imagens e propostas a partir desses dados.

NINGUÉM CORRE NA PISTA DE COOPER DA UNIVERSIDADE

No Departamento de Arquitetura e Urbanismo conheci a Universidade como “plantação cognitiva”, um processo cíclico no qual a expropriação e a destruição da negritude são condições de emergência da vida social e comum.11 Essa destruição atinge do inefável ao tátil, já que “os problemas emocionais estão visceralmente intrincados com as estruturas universitárias”.12 O tátil tem correspondências e dispositivos no espaço construído.

Buscar essas correspondências não significa buscar outros corpos que sofreram violências similares à que sofri, mas identificar momentos em que o projeto de vigilância da universidade falha em constituir o sanitizado – e, no caso da UFPE, esse debate assume latitudes explícitas. É o caso do Arruado, comunidade em torno da qual o câmpus Recife é construído, comunidade cujos moradores negociam com os grupos de segurança terceirizada e com a universidade o direito de ir e vir, em virtude do fechamento dos portões da instituição que cerca as casas, deixando-as sem interação com a rua.

Outro caso é o uso da universidade como pista de corrida: apesar de haver uma pista profissional no Departamento de Educação Física e uma pista de cooper ao lado da caixa d’água projetada por Wandenkolk Tinoco, no fim da tarde as pessoas correm na avenida dos Reitores, conexão da BR-101 com o câmpus universitário. Não usam a pista profissional, já que o acesso é restrito ao corpo docente e discente; não correm na pista de cooper, já que ela é informalmente conhecida como uma pista de cruising.13

Ali começa minha pesquisa em arquitetura e urbanismo: um estudo de espaços construídos sobre estruturas pré-existentes, afinal, “as novas espécies de espaço não levam ao desaparecimento de espaços anteriores, nem os traços das novas são rupturas completas em relação às espécies anteriores”.14 Automaticamente, cria-se distância daquele que “se detém na obstinada procura de uma justa medida entre cheios e vazios, na fixação dos volumes e [na] subordinação deles a uma lei”.15 Trata-se da transmutação e transposição de espaços sobre as estruturas erguidas anteriormente, que podem ou não desrespeitar o uso estabelecido no projeto.

Estudantes, moradores do bairro e visitantes transmutam as estruturas físicas da universidade quando se reúnem ali para encontros casuais que invertem a ordem e estabelecem padrões radicais de aproximação. Talvez nenhum outro processo espacial que eu observei possa mimetizar este que parte de sofrer uma violência e insistir em utilizar os dispositivos violentos para sua anulação, firmando rituais novos sobre as ruínas.

RITUAIS INTRINCADOS QUE LHE PERMITEM O TOQUE À PELE DE OUTROS HOMENS

Untitled (You Construct Intricate Rituals which Allow You to Touch the Skin of Other Men) (1980-1989) é uma série de fotografias em que Barbara Kruger especula sobre essas políticas de aproximação homoafetiva, os “rituais intrincados que te permitem tocar a pele de outros homens”. Numa das imagens, um grupo de seis homens de terno, rindo, cercam um sétimo, de quem poderiam ser amigos ou amantes. O trabalho se faz na fricção da imagem do heterossexual e a construção de homoafetividades. Kruger relata aí uma consequência da epidemia da aids: a regulação da dissidência, aproximando o homoafetivo do gênero masculino e, portanto, humano.

Na série Chance Meeting (1970), de Duane Michals, dois homens caminham na rua e trocam um único olhar. Seus rostos são visíveis, assim como o interesse – não mais secreto. Aqui está em jogo a potência do encontro e não sua longevidade, a aderência à vida social do outro – não há futuro. Michals representa uma operação do acaso, da natureza e do inumano. Um tipo de operação que parte da comunidade homossexual abandonou, escolhendo estabelecer comportamentos que mimetizem o heterossexual, muitas vezes por cosmofobia, o medo do desconhecido que caracteriza o mundo moderno.

Esse processo ilustra de que forma “nenhuma teoria pode se desenvolver sem encontrar uma espécie de muro, e é preciso encontrar a prática para atravessar o muro”.16 Mais do que aplicar juízo de valor, a disformidade que é ressaltada permite vislumbrar como atuam as práticas que reproduzem a separabilidade.17 É necessário frisar a mudança das coreografias políticas dentro dessa comunidade, já que diferentes chãos sustentam diferentes danças, transformando-as, mas também se transformando no processo,18 e a fragmentação causada pela regulação da dissidência explica a fragmentação desse léxico de movimentos possíveis. Isto é, a possibilidade de ser humano só é garantida para alguns homossexuais: aqueles que se aproximam do comportamento cis-heterossexual monogâmico, que se conforma a rotinas de apresentação e aproximação social, as coreopolíticas.

ESTACIONAMENTO DA PISTA DE COOPER

Comentando a diferença de classe e a criação de subgrupos entre os frequentadores do largo do Arouche, em São Paulo, Néstor Perlongher cita um relato de João Silverio Trevisan em 1980 sobre os protestos contra a Operação Limpeza, cuja agenda era o reforço da Delegacia da Vadiagem, e a remoção de travestis, bichas e michês do centro de São Paulo para o prédio abandonado do Presídio do Hipódromo: “Quando a passeata estaciona no ‘largo proibido’, ao grito de ‘O AROUCHE É NOSSO’, vários estabelecimentos amplamente sustentados pelas bichas começam a baixar as portas, inclusive o famigerado Caneca de Prata, cuja clientela de viados classe média, entre incrédula e divertida, espia as primas pobres, através do vidro”.19

Quase 40 anos mais tarde, essas diferenças se acirram, agora sob o regime da tecnologia, que media encontros. A virtualização nessas situações precisa passar por uma leitura de classe e do direito ao consumo que demarca os costumes da classe média, visto que as novas políticas espaciais de afeto também estabelecem o Improfanável:20 menos de 5% das conversas iniciadas no Grindr geram encontros no espaço offline.21

Diferentemente da fome animal representada por João Pedro Rodrigues em O fantasma (2000), filme em que o personagem principal, um jovem gari, vaga pelas ruas de Lisboa e vive encontros sexuais inusitados com homens de todos os tipos, as coreopolíticas de aproximação do subgrupo de homens homossexuais da classe média, pautadas pela virtualização, tendem a inscrever outros movimentos que muitas vezes não resultam em sexo. Isso porque, aqui, a não presença virtual também objetiva “uma ecologia favorável ao medo branco da imprevisibilidade […], o medo dos povos brancos do próprio planeta e da galáxia onde se vive”.22

Ainda que com medo do imprevisível, um grupo de carros se encontra nos estacionamentos em frente à pista de cooper, ou à Biblioteca Central ou ao Teatro da Universidade. A tecnologia do carro permite sua presença incógnita no espaço, voyeurística e protegida pelo vidro fumê; a tecnologia do Grindr produz uma telepresença mediada pela imagem, nunca atual, visto que o atual é o contrário do virtual. Alguns carros passeiam pelos estacionamentos, percorrendo uma rota cíclica que reposiciona o avatar telepresente no aplicativo sem que o corpo tenha contato direto com a escuridão – até que isso seja inevitável e esse corpo precise se mover de maneira explícita dentro do segredo.

A REITORA

Há aqueles que caminham a pé e, por isso, estabelecem uma relação mais explícita com a escuridão. Eles estão mais expostos “à realidade agressiva em que a violência é a constante e a convivência das pessoas é muito maior com a morte do que com a vida”.23 Estão nessa condição desde antes de chegar à pista de cooper, e sua aproximação peatonal evidencia, mas também amplia, o contato com as violências, na medida em que o coloca como aspecto visível da heterotopia24 que rompe o tempo-espaço estabelecido pelo poder institucional, a universidade.

São muitos os exemplos de confronto direto, uma coreografia constante de repressão da universidade na figura dos seguranças terceirizados – privados da possibilidade material de aniquilação, atuam como eternos dispersores dos núcleos de caminhantes na pista de cooper. A repressão torna-se tão efêmera quanto a manifestação espacial da liberdade.

É exemplar o prédio localizado a oeste da pista, ao lado do Departamento de Turismo e Hotelaria. Projetada por Paulo Raposo, docente no curso de arquitetura e urbanismo, a edificação nunca teve uso institucional, sendo um prédio abandonado desde a inauguração. A única função que conheceu foi a de esconderijo, entre os tapumes de alumínio que o cercam, para encontros íntimos entre os frequentadores da pista de cooper. Periodicamente, os seguranças isolam esse prédio, impedindo por algum tempo a saída de quem esteja ali dentro, por vezes usando da violência.

O senso de comunidade fica mais perceptível diante da violência. Isso se mostrou em outro episódio, quando, no acirramento do confronto entre seguranças e pedestres, houve o disparo de um rojão e o subsequente desaparecimento de um rapaz. Ali, os demais homens quebraram o pacto de segredo e silêncio próprio das bibliotecas e dos locais de pegação para comentar os detalhes do caso. Eles tinham como interlocutor um outro homem, mais velho, a quem se referiam como Reitora.

A Reitora é um conectivo entre as comunidades homossexuais pré e pós-1980 e, antes de saber sua alcunha, eu já tinha ouvido sua voz. Todos os dias em que observei a pista de cooper, eu a encontrei sentada no escuro, e nesses dias a mesma frase nostálgica saía de sua boca: “Eu estou esperando um macho de verdade aparecer”. Essa afirmação remonta ao contraste que Perlongher observa: a expressão do gênero masculino passa a ser desejada pelos homoafetivos e está contida na palavra “gay”, que se populariza em detrimento de identidades anteriores, como “bicha”, esta ligada à dissidência ao gênero masculino e à antropofagia das condições de gênero feminino.

Os alunos da Universidade onde essa bicha é Reitora se matriculam pelos laços de reincidência naquele local, se aproximam de tanto se ver. Conversam para conseguir suplantar a violência sistemática que sofrem dentro e fora da situação de lapso temporal aqui estudada. Diferentemente do que acontece com os homens do estacionamento, existe uma probabilidade maior de que, mesmo não resultando em sexo, a presença ali transcenda a solidão total proposta pelo Improfanável e pelo poder institucional.

MOITA ATRÁS DO CENTRO DE CONVENÇÕES

Mesmo quando há sexo, a noção de encontro sexual deve ser ampliada. Como visto, há outros mediadores entre os corpos, que estabelecem políticas espaciais de afeto, sendo a escuridão o corpo maior entre todos. Automotiva ou peatonal, a cruzada por afeto tem como destino a escuridão e, por isso, para os ingênuos, não passa de uma volta em círculos nas sombras. A escuridão de que falo é aquela medida por luxímetros, mas também é aquela onde o desejo de conhecer é despojado do vício de controlar, uma zona em que há interações com a luminosidade ainda desconhecida.25

É a escuridão onde não mais importa o modelo do seu carro, a etnia proposta à sua pele ou o significado do anel na sua mão esquerda. Essa escuridão dentro da escuridão física é adensada pelos corpos não humanos, como musgos, plantas e pássaros. O campo da neurobiologia vegetal levanta a hipótese da percepção das presenças por esses corpos, percepção esta que não estabelece separabilidade de raça, gênero, orientação sexual ou classe, mas de calor, toque e reação a fluidos como suor e esperma.

Pode acontecer o cruising, sexo na escuridão, mas também apenas a escuridão da moita atrás do Centro de Convenções da UFPE; um homem esperando por outro na presença de corpos vegetais que o acolhem, integram e podem lançá-lo a outro tipo de encontro consigo e com as outras espécies que servem também como barreira entre o mundo exterior e o mundo dessa prática discreta, inscrita sobre a superfície do poder.

CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO, ATELIÊ 2

Nos últimos dois anos, revisitei o Atlas da hipótese enguiocêntrica sobre como humanos transam.26 A enguia, cuja vida marítima é influenciada por nossos resíduos e fluidos lançados na água, não conhece e, obviamente, não taxonomiza as existências, mas, se o fizesse, seria a partir do seu próprio corpo mutante e dos sinais externos que esse corpo é capaz de rastrear. Para sobreviver às lógicas didáticas do curso de arquitetura e urbanismo, e usar seus dispositivos para examinar as políticas espaciais de afeto dos homens homoafetivos, precisei imantar a mutação do meu corpo em trânsito a estes homens, mas também emprestar deles a inspiração em técnicas de rompimento com o projeto colonial de controle das potências. Convidá-los a reconhecer a radicalidade até então esquecida da sua comunidade, e estender este mesmo chamado aos meus professores, colegas e a mim mesma como lembrete das múltiplas formas de sobrevivência, encontro e surpresa perante um tipo de poder institucional.

Engana-se porém o leitor que atribui esta pesquisa à minha experiência na universidade: ela encontra fruição apesar disso. De caráter autônomo, tal pesquisa não me concedeu bolsa, certificado de horas complementares e nenhuma comprovação burocrática de que este levantamento um dia existiu. O futuro também não me oferece perspectivas objetivas de continuidade, dado que são raros os concursos para docência em arquitetura e urbanismo com foco na admissão das dissidências no corpo do departamento; eu não tive professores negros, e o limite do progressismo dos docentes é claro em sua passividade diante desse fato em nível nacional.

Minha vida continua marcada por situações estranhas aos meus 25 colegas na turma de Projeto de Arquitetura e Urbanismo VII, ministrada no Ateliê 2 do Centro de Artes e Comunicação: entre junho e julho de 2022, tive de morar na casa de amigos; entre janeiro e abril de 2024, morei numa quitinete sem água encanada; para ter tempo de concluir este ensaio, tive que escolher entre cozinhar minhas refeições e continuar o estudo. Essa vivência talvez seja consonante às daqueles 25 colegas que se evadiram do curso nos últimos quatro anos, desfalcando uma turma inicialmente formada por 50 alunos.

Em contrapartida, esta mesma pesquisa foi aprovada no Concurso de Residências Artísticas da Fundação Joaquim Nabuco. Recebi a notícia de aprovação em abril de 2024, quando todos os meus pertences estavam encaixotados para mais uma mudança. A aprovação deu sobrevida à pesquisa, e a notoriedade que dela resulta criou desde então uma vontade de aderência e aproximação maior por parte do corpo docente e discente do curso de graduação, estabelecendo “a concomitância de nossa morte e de nosso sucesso”.27

Espero, por fim, que, debruçados sobre os lapsos de tempo-espaço, possamos tensionar as demandas e a crítica a uma arquitetura tecnicista e obcecada pelo material e pela utilidade final. Minha intenção é que o relato da minha experiência dentro das escolas de arquitetura e urbanismo do Brasil possa pôr “em questão, de modo necessário, as noções aparentemente transparentes de agência e consentimento”.28 Resta delimitar a esperança de diálogo aberto, já que, “se mudar é uma possibilidade e um direito, cabe a quem muda – exige pensar certo – que assuma a mudança operada”.29

Termino com uma história da minha mãe, que saiu de casa para fazer vestibular, mas parou na esquina, debaixo de uma castanheira, chorando. Ela me contou que chorava porque se sentia burra, incapaz. E que uma mulher do bairro a encontrou, deu dinheiro para ela pegar o ônibus e chegar a tempo da prova. Minha mãe foi a primeira da minha família a fazer um curso universitário.

É nisso que estou pensando no milésimo de segundo entre contar para minha colega que não faço estágio em escritório porque aprovei um projeto sozinha em uma fundação, e ela responder com a pergunta: “Então você já vai se formar como uma pessoa consagrada?”.

Ippon.