O imediato e estrondoso sucesso de Lolita quando, em 1958, o romance foi lançado nos Estados Unidos – fenômeno que o próprio Nabokov, sob o disfarce de um personagem de Fogo pálido, comparou a um daqueles furacões que varrem a costa leste da Flórida ao Maine – não apenas brindou o autor com recursos inesperados, mas, o que é menos conhecido, permitiu assim que ele abandonasse a longa carreira como professor universitário que até então garantia seu sustento.

Até lá, Vladimir Nabokov percorreu um caminho bastante tortuoso. Nascido em São Petersburgo numa família rica e aristocrática, com a Revolução de Outubro, em 1917, teve de deixar para trás a mansão onde foi criado como um príncipe e a idílica casa de campo em que passava os verões. Refugiada na Crimeia, a família foi obrigada a partir para a Europa Ocidental depois da derrota do Exército Branco, fixando-se de início na Inglaterra (onde o autor estudou na Universidade de Cambridge e jogou futebol como goleiro) e mais tarde em Berlim, cidade em que viveu a partir de 1922. Em 1937, o poder absoluto e o antissemitismo letal de Hitler fizeram com que mudasse para a França, já casado com Véra, uma judia, e levando o filho único dos dois, Dmitri. A iminente tomada do país pelos nazistas fez com que, em 1940, tivesse que escapar mais uma vez.

Essa penosa descrição da série de migrações forçadas de Nabokov explica por que, aos 41 anos, ele chegou a Nova York sem tostão num transatlântico que já estava sendo aproveitado para trazer judeus refugiados da Europa e foi afundado por uma mina alemã na viagem de volta à França. Com a ajuda de amigos, por fim conseguiu emprego como professor de literatura comparada no prestigioso Wellesley College, até hoje uma instituição que só admite mulheres. Lá lecionou até 1948, quando foi contratado para ensinar literatura russa e europeia na também prestigiosa Universidade Cornell, onde teve como alunos Don DeLillo e Ruth Bader Ginsburg, futura integrante da Suprema Corte dos Estados Unidos, que tinha o autor como uma grande influência em sua formação.

A figura de Nabokov como professor já chamava atenção antes mesmo de que ele abrisse a boca. Homem de traços fortes, corpulento, com voz tonitruante e carregado sotaque russo, ele chegava num carro dirigido por Véra, que além disso atravessava o câmpus carregando os livros a serem usados na conferência e servia como sua assistente, chegando a escrever no quadro-negro material ditado pelo marido. Alguns poderiam crer que, dessa forma, ela apenas tratava de garantir que o entusiasmo das jovens alunas não ultrapassasse os limites da sala de aulas, mas o fato é que Véra foi a grande parceira do autor desde os tempos bicudos de Berlim, quando sustentava a família como secretária num escritório de patentes enquanto Nabokov dava aulas ocasionais de francês, inglês, tênis, boxe e prosódia. Intelectual brilhante, Véra nada tinha de “Amélia”. Gerenciou toda a vida do marido pois sabia ser casada com um gênio a quem cabia dar todas as oportunidades para desenvolver seu talento sem envolver-se nas atividades cotidianas.

Graças à cuidadosa recuperação de suas notas de aula, décadas depois podemos felizmente degustar seus ensinamentos literários e entender por que, para ele, “grandes romances são grandes contos de fadas”. Ou, de maneira ainda mais clara: “A literatura não nasceu no dia em que um menino chegou correndo e gritando ‘lobo, lobo’ vindo de um vale neandertal com um grande lobo cinzento em seus calcanhares: a literatura nasceu no dia em que um menino chegou gritando ‘lobo, lobo’, e não havia nenhum lobo atrás dele”.

Tive a bem-aventurança de traduzir Lições de literatura, Lições de literatura russa e Lições sobre Dom Quixote.1 No primeiro, somos levados em um passeio inesquecível pelas cordilheiras literárias de três idiomas, com Mansfield Park, de Jane Austen; A casa soturna, de Charles Dickens; Madame Bovary, de Gustave Flaubert; O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson; No caminho de Swann, de Marcel Proust; A metamorfose, de Franz Kafka; e Ulysses, de James Joyce. No segundo, a excursão, não menos magnífica, visita várias obras dos maiores mestres russos: Nikolai Gógol, Ivan Turguêniev, Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstói, Anton Tchekhov e Maksim Górki. A brilhante introdução desses dois livros é feita por John Updike, cuja mulher foi uma das alunas que o professor Nabokov encantou em Cornell. Já o terceiro livro se concentra na obra-prima precursora de Cervantes, com uma visão crítica totalmente original.

As palestras revelam com clareza os conceitos controversos de Nabokov em matéria de literatura – e mesmo da arte em geral. Em suas próprias palavras: “O estilo e a estrutura são a essência de um livro; grandes ideias são uma bobagem. […] Não nos façamos de tolos: lembremos que a literatura não tem o menor valor prático, exceto no caso muito especial de alguém querer se tornar, imaginem, um professor de literatura.”

A autogozação é típica, mas o comentário não deixa dúvida de que ele rechaçava terminantemente a noção de que os romances devem conter alguma mensagem social ou política, que podem servir para ensinar alguma coisa ao leitor. Pelo contrário, a seu ver tudo a que o leitor deve aspirar é o prazer estético, sendo para isso essencial “acariciar os detalhes, os detalhes divinos! […] Devemos ver coisas e ouvir coisas, precisamos visualizar os aposentos, as roupas, o comportamento dos seres criados pelo autor.” E é por isso que o professor Nabokov esboçava no quadro-negro o desenho dos jardins do Mansfield Park, a distribuição dos cômodos no apartamento de Gregor Samsa (o personagem de Kafka que, segundo Nabokov, havia se transformado num imenso besouro e não numa barata), a planta da casa, com duas portas de entrada em ruas diferentes, onde morava o respeitável dr. Henry Jekyll e seu abominável alter ego criminoso, o sr. Edward Hyde.

Mais relevante ainda eram os pormenores da trama, por assim dizer a arquitetura da história. Nas palavras do professor: “Meu curso é, entre outras coisas, uma espécie de investigação detetivesca do mistério das estruturas literárias”. E, mais incisivamente: “Parece-me que uma boa fórmula para testar a qualidade de um romance é, a longo prazo, uma fusão da precisão da poesia com a intuição da ciência. A fim de usufruir dessa mágica, um leitor sábio lê o livro de um gênio não com o coração, nem mesmo com o cérebro, mas com a coluna vertebral. É de lá que vem o formigamento revelador, embora, ao lermos, devamos nos manter um tanto afastados, em uma postura neutra. Então, com um prazer que é ao mesmo tempo sensual e intelectual, devemos observar o artista construir seu castelo de cartas e ver tal castelo transformar-se em um de vidro e aço.”

O aparente paradoxo de mencionar a precisão da poesia e a intuição da ciência, em vez da intuição poética e da precisão científica como corresponderia à lógica convencional, decorre do profundo interesse que Nabokov tinha pela natureza, bem como do seu entendimento de que a ciência e a arte participam de um processo permanente de mútua polinização. Assim é que, enquanto começava a ganhar alguma reputação como escritor devido aos contos e poemas publicados em revistas importantes como The Atlantic Monthly e The New Yorker, Nabokov intercalava suas aulas no Wellesley College com a função de curador de facto da coleção de borboletas no Museu de Zoologia Comparada da Universidade Harvard. Embora seus artigos sobre o assunto já fossem vistos com respeito por especialistas em Lepidoptera, os frutos de sua paixão pelas borboletas, iniciada na infância e influenciada pelo pai, só bem depois de sua morte foram devidamente apreciados mediante a confirmação das teorias que formulou acerca de um gênero de borboletas azuis conhecida como Polyommatus. Além disso, seus trabalhos e cuidadosos desenhos foram muito importantes para salvar da extinção as borboletas azuis de Karner, uma espécie encontrada no norte do estado de Nova York. O impacto desses estudos nos meios ambientalistas contribuiu para a aprovação em 1973 da lei federal sobre espécies ameaçadas.

Por isso, pode-se dizer sem medo de errar que, na melhor tradição do incontrastável polímata Leonardo da Vinci, Nabokov representou um nexo entre a arte e a ciência, o qual mais uma vez ele próprio expressou de forma única: “Literatura é invenção. Ficção é ficção. Chamar uma história de verdadeira é um insulto tanto à arte quanto à verdade. Todo grande escritor é um grande impostor, mas assim é também a natureza, essa trapaceira contumaz. A natureza sempre engana. Do simples logro da propagação até a ilusão prodigiosamente sofisticada das cores protetoras em borboletas ou pássaros, existe na natureza um sistema maravilhoso de feitiços e ardis. O escritor de ficção se limita a seguir a liderança da natureza.”

Assim, é fácil ver por que, mais que lições de literatura, as aulas do professor Nabokov são uma grande lição de vida, pois “a existência humana não passa de uma série de notas de rodapé numa vasta, obscura e inacabada obra-prima”.