O adjetivo estranho define um ser excêntrico, extraordinário, fora do comum ou que provoca espanto, singular. E, ainda, algo enigmático, misterioso. Assim soam as Amazônias para a maioria dos habitantes da própria região, ou mesmo de fora dela – uma estranha, um enigma, sinônimo recorrente de exótico.1
O exotismo tem sido a tônica dos meios de comunicação, que volta e meia anunciam uma expedição, apresentam aos olhos dos incautos algum recanto amazônico nunca dantes navegado, consagrando assim os estereótipos ligados à região. Na publicidade, proliferam imagens da floresta e dos animais: onças e araras têm o protagonismo, populações inteiras são mantidas como sujeito oculto.
No campo simbólico se sucedem, ao longo da história, as imagens de paraíso, inferno, eldorado e de um vazio de gentes. Um “vazio” que há milênios abriga povos e saberes, manhas ancestrais em manejar as pródigas riquezas da terra e das ilhas, da floresta e dos rios. Nessas paragens, abundam sítios arqueológicos de tempos anteriores a Colombo. No Baixo Amazonas, a caverna da Pedra Pintada, no município de Monte Alegre (PA), tem inscrições que remontam a pelo menos 11 mil anos.
O discurso do vazio de alguma forma se justifica pela estonteante reserva de riquezas, que no xadrez geopolítico tende a consagrar a região como um “almoxarifado” para atender a demandas e interesses externos e internos. Ratifica-se assim a condição colonial da região, eterna fronteira a ser incorporada aos circuitos da economia global, que a todo espaço mercantiliza. Fagocita. Uma integração subordinada.
Os povos que há milênios povoam o vazio manejam as riquezas da úmida e biodiversa floresta tropical, a se reproduzir sob os aspectos econômico, político, social e cultural. Bajaras em riomares sem fim. Sabenças na seleção da madeira mais adequada para a edificação de embarcações ou casas, matemática para medir a quantidade de gente exata a navegar nas naus – teimar na contracorrente da modernização colonial. Canções, poesia, mandingas, bênçãos, unguentos, banhos de ervas para purificação, festivais da roça, dos rios, dos riomares, tambores em comunicação com os encantados. Laroyê, Exu!
Apesar da assimetria entre os sujeitos que disputam território e construção de sentidos sobre a Amazônia, os historicamente subalternizados edificam processos de organização, enfrentamento e ocupação no cenário político, e em defesa de seus direitos de posse e uso da terra, da floresta, do subsolo e dos rios. E, assim, erguem barricadas de resistência em diferentes campos: política, educação, cultura, cooperação, produção e afetos. Forjam escolas, organizam romarias, marchas, confrontam cercas de terras griladas, fazem canções, cordéis, jornais, poesia, filmes, festivais, ocupam universidades e até semeiam livros. Livros à mancheia.
Seria a Amazônia, as Amazônias, um grande grilo? Fronteira capital. Riomares de migrações. Front de vida e morte. Reserva de riqueza para o futuro, espaço híbrido, contraditório e de conflitos latentes, em permanente mutação. Frente pioneira. Frente de expansão a germinar conflitos, privar os viventes de cá da possibilidade de reprodução. Privar é a ordem, jogo combinado entre frações de classe, a contar com as bênçãos e a anuência do Estado autoritário e racista, que desregulamenta, flexibiliza, financia e induz, estica, modela e castiga. Interesses capitais.
“Segurança jurídica”, invoca o capital. Propriedade privada. Concentração da terra, barramentos de rios para gerar energia ou acudir lavouras, tombamento de floresta para hospedar monocultivos, pecuária extensiva ou obras de infraestrutura. Homogeneizar é a ordem do dia. Todo dia. Permanências coloniais. Privar é a bandeira. Os tentáculos almejam para além da terra, subsolo, biodiversidade, água, sabenças, plantas, beleza cênica, carbono, nossa guerra, nossa paz. Em contraponto, os excluídos do banquete remam contra a corrente. Insubordinar é preciso!
Por uma vida plena, sob critérios de classe, etnia, raça e gênero. Bem viver é um dos horizontes utópicos. O Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), por exemplo, almejar criar, a partir da experiência da agroecologia, uma outra mineração, uma terra sem veneno, garantir a defesa dos territórios e de outros devires. “Nada sobre nós sem nós.”
Jaz a Amazônia como quebrada local? O escritor paraense Benedicto Monteiro, rebento das águas das barrancas de Alenquer, intérprete de elevada estatura sobre a Amazônia, lá pelos idos de 1970, indagava: a Amazônia é o local onde a humanidade pode ainda tentar uma nova experiência de vida?
Há sabença na quebrada sobre reflexões densas em pulsão poética e filosófica para além dos muros e ritos acadêmicos, por entre praças, furos, rios e florestas. O educador, poeta, cordelista, trovador e contador de história Antonio Juraci Siqueira, que corre Belém em dias de feira e fins de semana, dispara em Kararaô e outros poemas,2 panfleto poético batizado sobre a saga amazônica e seus povos:
Em cada rosto caboclo/ existe um índio escondido/ enclausurado em si mesmo,/ discriminado, oprimido/ escravo em sua própria terra/ trazendo o grito de guerra/ no coração reprimido// Eu sou a voz desse índio:/ – a flecha, a lança, a borduna…/ Sou peixe na piracema,/ limo de várzea, boiuna,/ tronco do rio submerso/ e, se me desfaço em verso,/ sou arma, pão e tribuna!// Meu cantar é berço e tumba/ é pedra,/rosa e punhal,/ é chuva regando a terra,/ é fogo no matagal:/ – alerta, instiga e provoca/ com fúria de poro-roca,/ força de vento geral!
Outro cabra sabido da cultura popular destas terras é o senhor Francisco Walter Pinheiro Gomes. Andante das bandas de Quixadá (CE). Autodenominado Ceará do Pará. Trabalhador rural, dirigente sindical lá pelas barrancas de Santa Maria das Barreiras, sul do Pará, estudante do curso de educação do campo da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e cordelista. Eis o que ele diz sobre a hegemonia do capital a partir da atuação da mineradora Vale em Carajás:
O império da Vale avançou para a floresta/ Escavando e pesquisando/ Aquilo que ainda resta,/ De riquezas em nossas terras,/ Veja se esta história presta!// Expulsaram na força bruta,/ Os pobres e os camponês,/ Comprando por mixaria a terra por sua vez/ Dizendo-o, o subsolo não pertence a vocês
Em outro cordel, Ceará do Pará denuncia a sanha desenvolvimentista assentada na pecuária extensiva, e a integração física a partir das rodovias dos tempos da ditadura empresarial-militar:
Foram expulsos da terra/ por esta especulação/ das terras da rodovia / para fundar as cidades/ e os nossos camponês/ ficar sem propriedade// Com mão de obra farta/ foi fácil para os barões,/ entrar derrubando a mata,/ com gesto de escravidão/ que foi este o grande mal/ de toda região// As matas foram caindo/ batendo as ramas no chão/ de longe se ouvia o gemido/ daquela destruição/ no lugar das grandes matas/ hoje tem braquiarão.
Por sua vez, o filósofo, poeta e autodidata Charles Trocate reflete sobre os combates na fronteira no livro Poemas de barricada:3
É certo punir a fome/ E não as bocas/ Que dela sentem./ É certo cavar-lhe o poço/ Para alcançar água quem/ dela tem sede/ E não cravar-lhes a morte!// É certo devolver a terra/ aos que dela são todos/ Descolonizar o arado/ Devolver-lhes as plantações/ E não perseguir/ As colheitas!// É certo os despossuídos / Armados de coragem/ Desobedecer às/ Leis de oprimir!/ Provocar uma ceia de fartura/ E combates/ preciosos…
Em outra trincheira, o dirigente sindical e lavrador Expedito Ribeiro precedeu a todos. Mineiro de Valadares (MG), encontrou em Rio Maria, sul paraense, um punhado de terra, e em seguida a morte. Pistolagem da UDR. Caiado chão de sangue lavrador. A cidade entrou para o mapa por conta de assassinatos de líderes sindicais na década de 1980, em particular da família Canuto. Ribeiro tinha consciência de classe e do risco que corria ao assumir o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria. Temor que materializou em poesia.4 O livro é póstumo:
Cova funda neste leito/ cova que ele quer/ eu não te quero/ cova de cemitério./ Cova que quer do mundo dos vivos/ de que tu queres engolir/ para depois engolir/ cova do medo/ eu tenho medo de ti.// No teu fundo só os restos mortais/ daqueles que partiram e não vejo mais/ só cruzes e longe tens como sinais/ corpos decompostos/ sem impressões digitais// Por esta passarela de tristeza/ onde todos vêm dormir com certeza/ nesta cova fria dormem muitos/ e apesar do medo, cova do medo,/ vou ter que deitar em ti.
Júlia Iara, militante do MST do Maranhão, quando da passagem de 21 anos do Massacre de Eldorado, em 2017, em ato em defesa da memória pelos que tombaram na Curva do S, assim escreveu em Como muralhas:5
Nós permanecemos, como um corpo único, fortaleza, até o fim do ato. Os cinco dirigentes com a tarefa das falas estratégicas fizeram as denúncias combinadas, com fúria renovada e a coragem de sempre. Improvisamos mais coros provocadores. E no fim, uma saraivada de gritos de guerra. Nós ali, de peito aberto para o perigo, protegendo-nos uns aos outros, resistimos e vencemos o medo. Quem não vive na Amazônia não sabe como o perigo nasce e descamba com o sol e vem ainda com a noite, cotidianamente.
Interrogar é preciso. Viver… Em que veio ou vereda dos conhecimentos embriagar-se para compreender a quebrada amazônica? Perifa e centro em constante tensão da expansão do capital, a reconfigurar os espaços e incorporar a fatia ainda não integrada à roleta russa global. Uma trama do desenvolvimento imposto, aos moldes dos escrevinhamentos de Porto Gonçalves, quando he revisa a conformação das feições territoriais nacionais. Violências em todas as esferas e latitudes e, na maioria das vezes, conjugadas: público/privado. Convergências entre o ilícito e o lícito, o ilegal e o legal. Violências naturalizadas.
Subordinações. Em suas inquietações com a Amazônia no campo da geopolítica, o professor Wanderley Messias da Costa aponta a Marcha para o Oeste lançada por Getúlio Vargas nos anos 1930 como um marco do planejamento geopolítico na história recente do país, seguido pelo Plano de Metas do governo Juscelino Kubitschek, na década de 1950. Neste mesmo conjunto, são referências ainda os tratados sistematizados pelos generais Golbery do Couto e Silva e Meira Matos, no arcabouço da Escola Superior de Guerra (ESG), responsável pela estruturação da Doutrina de Segurança Nacional, forjada sob os auspícios das teses da Aliança para o Progresso, um marco da Guerra Fria.
Na virada do século 20 para o 21, agências multilaterais e empresas transnacionais assumem a hegemonia no processo de decisão, em detrimento do Estado. A este cabe a missão de desregulamentar para facilitar o fluxo de capitais, agilizar privatizações, entre outras atribuições, como verificado no processo de implantação das políticas públicas voltadas para o setor de logística e infraestrutura no país e, em particular, para a Panamazônia. A escala agora é outra, continental.6
Nesta jornada pela manutenção do status quo, os anos da década de 1980 representam uma espécie de divisor de águas. É nele que é celebrado o Consenso de Washington. O tratado edificou as bases do que ficou cristalizado como a nova ordem mundial. Soma-se ao triunfo do modo de produção capitalista em escala mundial o ocaso da experiência socialista na URSS e no Leste Europeu.7
Para o hemisfério Sul, as transformações implicaram uma agenda marcada por projetos que buscam agilizar o acesso às riquezas locais, a exemplo da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana, nova encarnação da velha história desenvolvimentista. A grilagem continua a balizar as políticas de suposto desenvolvimento para a região. Representa a consolidação de uma matriz colonial estruturada na concentração de grandes extensões de terra, monocultivos intensivos em uso de agrotóxico, voltados para o mercado externo. E, muitas vezes, tal estrutura é baseada em trabalho escravo.
Para além da acumulação primitiva, os processos desenvolvimentistas impostos à Amazônia creem e mantêm padrões de poder e de hierarquia ancorados em critérios de raça, etnia e gênero, reforçando os pilares da colonização. Uma trajetória marcada por toda ordem de violência, regida sob o signo do discurso modernizante e civilizatório de matriz eurocêntrica, como interpretam, entre outros, Anibal Quijano, Carlos Valter Porto-Gonçalves e Valter do Carmo Cruz.
O assassinato de Chico Mendes, em 1988, e os anos iniciais da década de 1990 representam uma inflexão no que diz respeito às disputas sobre as riquezas naturais. O discurso ambientalista ganha projeção e, pela primeira vez, algumas políticas públicas são instituídas tendo como epicentro a Amazônia e os sujeitos que nela habitam. Na reforma agrária da floresta, há a centralidade do ser humano. Nada de dicotomia. Os invisibilizados alcançam o status de sujeitos políticos.
As Resex (Reservas Extrativistas) emergem como alternativa viável em meio a um turbilhão de reconfigurações no cenário mundial da economia, da política e da tecnologia. Ainda que os setores populares do campo tenham conseguido, em escala nacional, certa projeção como sujeitos políticos, recrudesceu a violência na disputa pela terra. Os anos 1990, regidos pelas privatizações (notadamente a da Vale), são marcados, no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), por dois massacres de sem-terra: o de Corumbiara, em Rondônia (1995), e o de Eldorado dos Carajás (1996), no sudeste do Pará. Sanha neoliberal que na mesma década implantou a renúncia fiscal com a criação da Lei Kandir (lei complementar n. 87/96), a aprofundar ainda mais a condição colonial dos estados marcados pela exportação de commodities, a exemplo do Pará, cuja economia gira em torno da extração de minério.
Continuam a ser registrados assassinatos de dirigentes sindicais e de ambientalistas. Sublinho aqui a execução dos extrativistas Zé Cláudio e Maria do Espírito Santo, na cidade de Nova Ipixuna (PA), em 2011. Morte anunciada. Em participação no evento TED Amazônia, Zé Cláudio havia tornado públicas as ameaças que vinha sofrendo. Tanto o nome dele quanto o da companheira, Maria do Espírito Santo, constaram em relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) como alvos de grileiros. Até os carrapatos dos bois da terra grilada sabiam das ameaças.
Em maio de 2017 se dá o massacre de Pau d’Arco, também no Pará. As mortes são atribuídas às polícias civil e militar. Entre os dez camponeses executados, cinco eram da mesma família. Assim como no caso do casal de extrativistas, o crime ocorreu no mês dedicado às mães. A exemplo de outros crimes relacionados com a luta pela terra, a impunidade impera.
A região continua a ser um almoxarifado, estoque de riquezas naturais. A partir dos anos 1990, corredores de circulação de matérias-primas emergem como política desenvolvimentista em escala continental, agora a partir de eixos de integração. Saque, rapinagem, pilhagem. Totalidade contraditória: propriedade privada em confronto com territoriais ancestrais. O Estado brasileiro, ao mesmo tempo que é signatário de tratados internacionais de defesa da biodiversidade, da cultura, da autonomia de decisão sobre os territórios ancestrais, como celebrado na Convenção 169 da OIT, e como estabelecido no decreto n. 6040/2007, exerce protagonismo na dinamização e na viabilização da integração de infraestrutura regional sul-americana, processo em que o BNDES, como patrocinador, encarna a “vaca de divinas tetas”.
O monocultivo, as mineradoras e as necessárias obras de infraestrutura monopolizam o espaço e socializam toda a ordem de danos. Bunge, Cargill, Amaggi, Louis Dreyfus, Odebrecht, Vale, Imerys, Anglo American Brasil, Alcoa. Interesses transnacionais. A extração mineral faz par com o grão. Aprofundam-se as desigualdades a pressionar territórios delimitados por bandeiras populares.
O Baixo Amazonas, por exemplo, abriga um mosaico de Unidades de Conservação, a derradeira reserva de floresta do Pará, repleta de gentes, em variadas modalidades de uso, com terras indígenas e projetos de assentamentos, Resex, territórios quilombolas. Resultado de ação reativa do Estado após a execução, em 2005, da agente da Comissão Pastoral da Terra, Dorothy Stang.
A mesma ação reativa do Estado sucedeu os massacres de camponeses nos anos de 1990 e consagrou a Amazônia como a região que mais concentra projetos de assentamentos da reforma agrária, com destaque para o sudeste paraense, que abriga mais de 500 projetos. Front de vida, front de morte. A partir dos massacres, o Estado passa a reconhecer em massa áreas ocupadas por camponeses, algumas há mais de duas décadas, em sobreposições territoriais de Unidades de Conservação, terras indígenas, territórios quilombolas e projetos de assentamento.
Amazônia, encruza de acumulação desigual de tempos.
Enquanto isso, o trem da Vale, o maior do mundo, a danar-se naquelas brenhas. Tanto queima, como atrasa. Apropria-se e expropria, e, contraditoriamente, lança sementes de resistência por entre os trilhos de um possível devir.







