Eram quatro e meia da madrugada de 3 de outubro de 1964 quando um grupo de policiais disparou cerca de 100 tiros contra Manoel Moreira. Personagem de uma tragédia moderna, em poucas semanas Moreira havia passado de bandido pé de chinelo a um dos criminosos mais procurados do Rio de Janeiro, acusado da morte de um dos heróis da polícia local, o detetive Milton Le Cocq. Cerca de dois mil homens de todas as delegacias e divisões da Secretaria de Segurança foram mobilizados na perseguição, que envolveu ainda agentes de quatro outros estados.1 Era uma das maiores caçadas que o Rio havia conhecido até então. Manoel Moreira, o Cara de Cavalo, tombou no chão, de braços abertos.
Le Cocq começou a morrer no dia em que um bicheiro o procurou para pedir providências. Protegido pelo policial, o contraventor reclamava do bandido por alegados exageros de extorsão. Não era a primeira vez que Cara de Cavalo havia sido jurado de morte. A perseguição liderada pelo detetive e outros parceiros se deu numa noite de quinta-feira. Na fuga, de dentro de um táxi, Cara de Cavalo atirou a esmo na direção do Fusca dos policiais. Atingido por uma bala calibre 45 disparada da Colt do fugitivo, foi Le Cocq quem tombou.
O tiro atingiu em cheio o amor-próprio da corporação. O mocinho perdera o duelo para o bandido pé de chinelo. E ainda teve uma morte sem glória. Sua última missão fora a mando do jogo do bicho.
“Milton Le Cocq bom e corajoso era o maior caçador de bandidos”, dizia a manchete de O Dia em 31 de agosto. Em poucas palavras, a imprensa marcava seu ponto de vista: era uma caçada do bem contra o mal. Na manchete de 4 de setembro, o mesmo jornal vibrava: “Comandada pelo governador espetacular caçada ao Cara de Cavalo! Momentos de emoção e angústia na rua Mariz e Barros.”
As reportagens posteriores ao enterro de Le Cocq haviam seguido a mesma linha. As extensas biografias do policial morto destacavam a dedicação à corporação em seus dez anos na Delegacia de Vigilância e Capturas, “a modéstia, a perspicácia e a inteligência nas investigações – ‘ele conhecia um bandido até pelo modo de andar’ –, a capacidade de liderança, a coragem em enfrentar os piores elementos do mundo do crime”.2
Foi a coragem atribuída a Le Cocq que levou o general Amaury Kruel, chefe do Departamento Federal de Segurança Pública, a convidá-lo para integrar, em 1958, o Serviço de Diligências Especiais. “O objetivo básico [do SDE] era acabar com o elevado número de marginais nas favelas e capturar os facínoras mais terríveis, baseando-se no princípio de que ‘o grande bandido é irrecuperável e sua prisão só acarreta despesas ao Estado, devendo ser eliminado’”, explicou o Jornal do Brasil em 1966.3
A violência não era prática estranha a uma corporação que mantinha em seus quadros os egressos da PE, a truculenta Polícia Especial do Estado Novo, terror de prisioneiros políticos. Mas ela ganhava agora legitimidade. Tão grave quanto o direito de matar – que precisava de álibis como confrontos e escaramuças – era o direito de julgar. Coberto pela impunidade institucional, cada policial passava a acumular várias instâncias: investigação, julgamento, condenação e execução.
O SDE contava com 30 funcionários, entre eles vários policiais envolvidos em processos de extorsão, suborno e estelionato. Articulando corrupção e violência, reunia homens violentos e decididos a exterminar os bandidos do Rio e adjacências. “Esses Homens de Ouro”, escreveu Zuenir Ventura, “subiriam morros, invadiriam barracos e desentocariam assaltantes, caçando-os como ratos. Limpariam a cidade.”4
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Se a morte de Le Cocq deu origem a uma das maiores caçadas da polícia carioca, o assassinato de Perpétuo de Freitas catalisou a perseguição.
Milton Le Cocq ficou na memória da polícia carioca como paradigma.5 Em sua homenagem foi criada a Scuderie Le Cocq, tendo como símbolo uma caveira com duas tíbias – símbolo curiosamente similar ao que ainda hoje é usado pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro, o Bope. O detetive tinha estratégia e pedagogia próprias. “Chegava com a turma, cercava o barraco, se houvesse a mínima resistência ia atirando”, contou o repórter Octávio Ribeiro, conhecido como Pena Branca, ao Pasquim.6
Diferentemente de Le Cocq, Perpétuo adorava publicidade. Na imprensa, fazia a figura do bom policial: “Mostrava-se compreensivo e protetor, fazia amigos nas favelas e subúrbios e mantinha uma extensa rede de alcaguetes nesses locais”.7 Dizia-se que prendia sem disparar sequer um tiro.8 Em 1967, sua história ganhou as telas com o filme Perpétuo contra o Esquadrão da Morte.
A busca de Cara de Cavalo acabou conduzindo Perpétuo à morte. O policial queria o bandido vivo, para levá-lo a julgamento. Passou horas de tocaia. A chegada de um grupo de policiais que defendia uma reação à altura da morte de Le Cocq – o assassinato de seu algoz – provocou uma discussão acalorada no Morro do Esqueleto.
Beatriz Carneiro nota que o resultado da autópsia de Le Cocq foi divulgado com discrição na época. Duas balas foram encontradas, uma de pistola 45 e outra de uma arma da polícia: “A bala da 45 foi considerada fatal. A outra foi tida como um acidente devido ao intenso tiroteio que se seguiu à morte do detetive. A mera possibilidade de ele ter sido morto pelos próprios companheiros acirrou mais o desejo de vingança.”9
Durante a discussão no morro, Jorge Galante Gomes, novato na corporação, atirou a sangue-frio em Perpétuo. Mais um fantasma assombrava o caso: dois policiais teriam sido mortos por dois policiais.
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A cabeça alongada, os olhos bem separados e as narinas abertas. Assim é a cabeça de um cavalo. As orelhas, pontudas, são uma importante ferramenta de expressão: voltam-se para a frente quando estão com medo e, para trás, quando estão zangadas, concentradas ou ameaçando outro cavalo.
Visto de perfil, o comprido rosto de Manoel Moreira projeta-se para a frente. Tem olhos amendoados, orelhas abertas e lábios grandes e finos. Ao posar para o arquivo policial, senta-se à cadeira com os ombros curvados, ergue seu pomo de adão e abre levemente a boca. Seu semblante não transparece vergonha alguma. Tampouco faz lembrar o de um cavalo.
Mas, na imprensa policial, um marginal sem apelido não cria intimidade com o público. A alcunha “faz” o ladrão: entre os anos 1940 e 1960, Sete Dedos, Boca de Traíra, Promessinha,10 Mineirinho, Paraibinha, Micuçu, Buck Jones, Bidu; a partir dos anos 2000, Escadinha, Faustão, Latrell, Pica-Pau, Batman, Scooby Doo. O nome verdadeiro pouco importa. “Cara de Cavalo”, aliás, era apelido de várias pessoas com o rosto comprido. Ao menos três outros homens também eram chamados assim: Ivan Timóteo, Gerson Andrade Duque e Jorge Gama da Silva.11
Nas notícias da perseguição policial a Manoel Moreira, os crimes atribuídos a todos os Caras de Cavalo que circularam na imprensa nos anos anteriores se condensaram em um único corpo. A edição de 2 de setembro de 1964 do Jornal do Brasil atribuía mais de 15 homicídios a Manoel Moreira. No texto, afirmava-se que mais de 400 prisões já haviam sido feitas, a maioria de indivíduos autuados por vadiagem: “A disposição dos policiais, além de capturar o assassino de Le Cocq, é fazer uma limpeza da cidade, livrando-a dos marginais que agem nos subúrbios”.
No decorrer da caçada, a família de Manoel Moreira procurou um advogado, que encontrou seis homônimos sentenciados. Nenhum deles era o procurado. O número de registro prisional que apareceu em jornais não era o dele, sua ficha criminal não foi encontrada.
Beatriz Carneiro observa que a foto usada pelo jornal Ultima Hora na edição de 2 de setembro de 1964 mostra um rosto que não se parece com o do documento de identidade de Manoel Moreira. “Pouco importava rosto ou nome, desde que o corpo crivado de balas fosse o corpo a cuja mão atribui-se o tiro fatal”, escreveu a socióloga.
Cara de Cavalo era, de fato, um criminoso, mas apontado por muitos como um bandido chinfrim. Ladrão, não gostava de roubar. Cumpria uma rotina segura percorrendo os pontos de jogo do bicho de Vila Isabel e arredores. Assustava mais pela fama do que pelos feitos. Para Zuenir Ventura, ele levava a vida que um bandido preguiçoso pedira a Deus: “Pouco trabalho, muitas mulheres e um dinheiro certo, sem risco”.
“Sua fama era grande entre policiais e malandros, mas seu poder não passava da Central do Brasil. Jamais tomou uma condução que o levasse à Zona Sul. Ficava ali pela região de Maracanã e Vila Isabel; no máximo, se aventurava por Andaraí, Tijuca e Grajaú. Se iniciara garoto no comércio ilícito de maconha na Central: era fornecedor de malandros e prostitutas. Ia muito à Lapa e fazia ponto no Mangue, onde descobriu que, tanto quanto a droga, o sexo podia lhe render dinheiro. Foi um dos mais jovens cafetões da folclórica zona do meretrício carioca”, escreve Ventura.
A mera descrição da fotografia borrada de um jovem mulato de cabelos curtos serviu de guia para a prisão de mais de 50 pessoas apenas dois dias depois da morte de Le Cocq. A edição de 31 de agosto do Jornal do Brasil trazia a manchete: “Metralhado falso Cara de Cavalo”.12 Um desconhecido parecido com Cara de Cavalo fora atingido por vários tiros, segundo testemunhas, disparados de dentro de um carro preto. Em 6 de setembro, A Notícia trazia a morte de mais um suposto marginal: “cumprindo a promessa da polícia: ‘Para cada policial morto dez bandidos morrerão’”. Este lema tornou-se a tônica das décadas de 1960, 1970 e 1980 pelos esquadrões da morte, que visavam combater o crime e o banditismo a qualquer custo.13
Cara de Cavalo era negro. Mulato. Pardo. Magro, cabelo cortado rente. Até que ponto eu também não sou Cara de Cavalo?
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Na madrugada de 7 de abril de 2018, policiais da Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense saíram de Belford Roxo em direção à rua Fernanda, em Santa Cruz, na Zona Oeste, região dominada pela maior milícia do estado do Rio de Janeiro. Os agentes iam checar uma informação recebida: vários milicianos estariam em uma festa no sítio Três Irmãos, com direito a shows de pagode e outras atrações incluídas no ingresso vendido a dez reais.
A polícia procurava dois líderes do grupo: Wellington da Silva Braga, o Ecko, então chefe da milícia em Campo Grande, Santa Cruz e outros bairros da Zona Oeste; e Danilo Dias Lima, conhecido como Tandera ou Danilo do Jesuíta, líder de quadrilha em Nova Iguaçu e Seropédica, uma franquia da milícia na Baixada Fluminense.
A operação não conseguiu prender os procurados, mas deteve 159 homens. A foto divulgada pela polícia atestava a missão como vitoriosa: dezenas de homens sem camisa deitados de barriga para baixo no gramado e outros tantos sentados de costas, virados para uma parede branca. A maioria negros. Mulatos. Pardos. Cabelos cortados rente.
Era para ser apenas mais um show de pagode na Zona Oeste. Quem paga o ingresso entra, quem não tem, rala. Um primo meu, também negro, cabelo cortado rente, por pouco não estava lá. Tinha ingresso comprado e tudo. Meu irmão, também negro, cabelo cortado rente, cogitou ir. A única relação que os dois têm com a milícia é o fato de morarem num bairro chefiado por ela. No entanto, se lá estivessem, certamente seriam detidos pela polícia, assim como aconteceu com seus colegas. Após a operação, o show foi noticiado como “festa da milícia” pela imprensa. Simples assim.
Quando cheguei à redação no dia seguinte, a versão que imperava ainda era a da polícia. Muitos colegas jornalistas não tinham interesse em se aprofundar nos fatos. Para eles, eram bandidos e pronto. Moram do lado “de lá” da avenida Brasil, do “outro lado” do túnel Rebouças – tendo como referência a Zona Sul, de maior concentração de renda na cidade. Por que eu deveria me importar?
Ignoravam que do “lado de cá” não se faz nada sem autorização da milícia. Ignoravam que a polícia age muitas vezes de forma arbitrária, com abuso de poder. Ignoravam que não havia provas que incriminassem todos aqueles homens, cujos corpos eram exibidos como troféus.
Um ano depois da operação, o portal G1 noticiou que menos de 5% dos que chegaram a ser detidos foram condenados por participarem efetivamente da milícia da região. Os líderes que a Polícia Civil buscava prender continuavam soltos, e o domínio da quadrilha na região havia sido ampliado.
Passados 17 dias do evento, em 24 de abril, o Ministério Público estadual pediu à Justiça a revogação da prisão preventiva de 138 dos 159 presos. Para o MP, não havia, até aquele momento, provas “efetivas” que permitissem a denúncia contra aquelas 138 pessoas. Segundo um documento da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas, a maioria dos presos não tinha qualquer antecedente criminal nem conexões com a milícia.
“Preferia não falar mais sobre isso, porque foi um trauma muito grande. Eu passei por tudo isso nesse tempo todinho”, disse ao G1 a mãe de um dos homens absolvidos durante o trâmite do processo. Ela não quis se identificar.
Cento e cinquenta e nove homens foram presos por mero capricho, exibidos como troféus, humilhados.
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Cento e onze foi o número de disparos da polícia contra cinco jovens em 2015.
Fazia um mês que Roberto trabalhava num supermercado para pagar o curso de auxiliar de administração. Num sábado, 28 de novembro de 2015, passou o dia com amigos no parque Madureira para comemorar seu primeiro salário. Saíram de lá já à noite, com Roberto, Carlos Eduardo, Cleiton, Wilton e Wesley a bordo de um Palio branco. Outros dois amigos, Wilkerson e Lourival, seguiram numa moto.
Quatro policiais do 41º Batalhão encontraram o grupo por volta de 21 horas, próximo ao Morro da Lagartixa, em Costa Barros, onde os jovens moravam. Os agentes buscavam assaltantes de caminhão, tendo como única pista a informação de que eles estariam divididos em um carro e uma moto. Roberto e os amigos receberam ordem de parada e assim o fizeram. Em seguida, foram alvejados 111 vezes. Os cinco a bordo do Palio morreram. Um dos tiros acertou o para-choque traseiro da moto de Wilkerson, que conseguiu fugir com Lourival.
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Duzentos e cinquenta e sete foram os disparos feitos por militares do Exército contra o carro do músico Evaldo Rosa em abril de 2019. O Ford Ka com cinco ocupantes passava pela estrada do Camboatá, no subúrbio carioca de Guadalupe, quando os militares abriram fogo. O músico morreu na hora. Sérgio Gonçalves, que estava no carro, ficou ferido. Luciano Macedo, que passava pelo local e tentou prestar socorro, também foi baleado e morreu 11 dias depois. Os ocupantes do veículo e as testemunhas afirmaram que os militares atiraram abruptamente, pelas costas das vítimas, sem nenhuma sinalização ou advertência. E não pararam de atirar nem mesmo quando o filho e a esposa do músico, grávida, saíram do carro. Sessenta e dois tiros perfuraram o veículo. O Comando Militar do Leste alegou que os militares, em patrulhamento regular, haviam se deparado com um roubo nas imediações, e que as vítimas iniciaram a troca de tiros. No entanto, após apuração, a ideia foi refutada, determinando-se, em seguida, a prisão em flagrante de dez dos 12 militares envolvidos. Dois anos depois, oito militares foram condenados e quatro, absolvidos na primeira instância da Justiça Militar, com penas que variavam de 28 a 31 anos e seis meses de prisão, pelos crimes de homicídio qualificado e tentativa de homicídio.
Os advogados pediram a anulação da condenação e recorreram ao Superior Tribunal Militar. Carlos Augusto Amaral Oliveira, relator do caso na corte, pôs em dúvida o laudo em fevereiro de 2024. Segundo o ministro, que propôs uma redução de 28 anos da pena, os militares teriam agido em legítima defesa.
Duzentos e cinquenta e sete tiros em legítima defesa. Um escárnio.
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Dos mais de 100 tiros disparados pelos policiais naquele 3 de outubro de 1964, 61 acertaram Manoel Moreira em pontos vitais do tórax. Apenas um o atingiu na cabeça, para não dificultar o reconhecimento. Cada policial da Turma da Pesada atirou várias vezes – até uma arma de Le Cocq foi levada e usada na fuzilaria, que durou 15 minutos. O delegado Sivuca, que em 1990 seria eleito deputado estadual com a plataforma “Bandido bom é bandido morto”, contaria mais tarde com prazer: “Então todo mundo atirou no bandido. Mais de 100 tiros. […] O umbigo do cara ficou colado na parede.” Para Beatriz Carneiro, nesses 15 minutos iluminados pelo fogo dos tiros, o exagero do espetáculo escancarou o que a justiça penal tenta sempre amainar: o gozo de uma execução como medida punitiva.
Misturo intencionalmente casos de inocentes e ditos criminosos. Pouco importa o delito. Não professo justiça punitivista,14 muito menos justiçamento – toda prisão é política.15 Creio na justeza de Xangô.16 Vadios, promíscuos, ciganos, pretos, pobres, mulatos, putas, malandros. Se é verdade que a polícia substitui o capitão do mato, a licença para matar tem alvo negro. Pior é ver que, tal como Luandi em Ponciá Vicêncio, romance de Conceição Evaristo, muitos de nós ainda sonham em ser soldado Nestor; em pôr as mãos na arma, vestir a farda e colocar o alvo em qualquer cabeça que não seja a sua, ter a mínima ilusão de poder. De onde vem o direito do Estado de nos matar?
A bala que nos atravessa, as grades que nos aprisionam, a garapa em nossa mesa, o ar que nos sufoca, o frio nas ruas, a água suja, o esgoto a céu aberto, o estupro e o luto em série, o único pedaço de pão repartido em três, o abandono, as lágrimas, o suor, a solidão, o banzo.
“Suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os 13 tiros que mataram Mineirinho do que seus crimes”, escreveu Clarice Lispector numa sentida crônica.17 A morte de José Miranda Rosa, o Mineirinho, outro dos tantos bandidos mais procurados pela polícia carioca na década de 1960, foi amplamente noticiada. A crônica “Um grama de radium – Mineirinho” foi publicada no mês seguinte à execução, em junho de 1962, pela revista Senhor.
“Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais”, continua a escritora, nascida na Ucrânia e criada no Recife. “Na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente.”
Se há culpados, há a justiça para julgá-los e condená-los, como estabelece a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Constituição Federal. Não são essas as regras, que não nos protegem mas que nos ensinaram a honrar? O Código de Ética do Jornalista Brasileiro é regido por esses dois documentos. Mas a imprensa ainda hoje relativiza assassinatos e extermínios cometidos pelas forças do Estado. A distinção entre quem merece morrer e quem merece viver também é acolhida nas principais redações do país.
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O Ultima Hora encarregou-se de reforçar a imagem negativa de Cara de Cavalo para aumentar suas vendas. Falando ao Pasquim em 1983, Amado Ribeiro, que fora chefe da seção de polícia do jornal, foi provocado pelos entrevistadores, que sugeriam sua atuação como uma espécie de relações-públicas do Esquadrão da Morte. Ribeiro se defendeu: “Sou empregado de empresas jornalísticas, que querem vender jornal. Se o Esquadrão vende jornal, tô lá. Se não, não tô.”18
Como toda instituição, a imprensa não é isenta de interesses. Há alguns anos as faculdades de jornalismo discutem como a imparcialidade é inalcançável. Pesquisadores como Fabiana Moraes e Marcia Veiga da Silva defendem que o que chamamos de objetividade jornalística tem cor e gênero muito definidos. Com ideais fundados a partir de correntes filosóficas positivistas e iluministas, o que era considerado objetivo, correto, imparcial privilegiava homens brancos.19
Não é à toa que a imparcialidade jornalística permite que jovens negros presos com drogas possam ser nomeados como traficantes e jovens brancos portando as mesmas substâncias devam ser identificados como estudantes; que casos de violação de direitos humanos ocorridos em zonas centrais do Rio mobilizem facilmente a imprensa, mas que chacinas e extermínios em outras localidades precisem da pressão de movimentos sociais para ganharem uma cobertura digna. Fazer viver e deixar morrer. Quem conferiu esse poder à imprensa?
Muitos crimes do Esquadrão da Morte eram exaltados nas primeiras páginas dos jornais. E os leitores acompanhavam ávidos por mais detalhes, por novos capítulos, como numa novela. Eis uma possível definição de imprensa sensacionalista: aquela que faz do sofrimento humano entretenimento, que banaliza a violência, carrega as tintas na emoção e borra o contexto, sobrepõe o supérfluo ao essencial.20 No lugar de informar, emociona, enraivece, entretém. Para ela, apontar o gatilho é pouco. A cada corpo atingido, as páginas excitam o punitivismo e ejaculam higienização social.
O sensacionalismo vendia, e era isso que os chefes exigiam dos repórteres. Cenas inverossímeis, mas espetacularmente cinematográficas, banalizavam as mortes provocadas pelo Esquadrão. Aqueles corpos eram dos que podiam ser mortos, e muitas vezes esses casos eram apresentados em oposição à morte de pessoas inocentes.
O próprio termo Esquadrão da Morte foi usado pela imprensa para denominar os diversos grupos de extermínio que surgiram a partir da década de 1950, com a justificativa de acabar com marginais considerados irrecuperáveis e promover a segurança e a ordem pública no Rio. Na mesma entrevista ao Pasquim, Amado Ribeiro enumerou algumas características desses indivíduos que poderiam ou deveriam morrer: homens com unhas sujas, barba por fazer, pele encardida e sem tomar banho – “isso indica que o cara saiu de uma prisão, pra morrer na estrada”. O repórter contou ainda que presenciou muitas execuções do Esquadrão em que saiu “com o sapato cheio de miolo e de tripa de gente”. Foi questionado então se os miolos seriam apenas de pretos e pobres. E rebateu: “Você conhece algum rico que esteja preso no Brasil?”.21
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Foi a imprensa carioca que solucionou o paradeiro de Manoel Moreira. Do Morro do Esqueleto, ele se escondeu em muitas casas até se fixar, semanas depois, em Búzios. Hoje município da Região dos Lagos, polo de turismo, a cidade era, à época, um balneário pouco frequentado, com iluminação pública precária, ruas de terra batida e matagais. Os jornalistas se incumbiram de guiar os policiais ao esconderijo, para presenciar a prisão de Cara de Cavalo. O breu em torno da casa se iluminou com os disparos. O cheiro de pólvora tomou conta do ar.
Aos presentes, foi concedido o prêmio de dar ao menos um tiro no corpo. Alguns dispararam dezenas de vezes, como se ejaculassem pelas armas. No canto da sala, um punhado de jornalistas, incrédulos, assistiu à execução. Até serem convocados a participar. Todos, policiais e jornalistas, capitães do mato e abutres, dispararam contra o corpo de Manoel Moreira. Durante as gravações de um documentário do qual participamos, o jornalista Luarlindo Ernesto me contou que o dia 3 de outubro de 1964 continua a assombrá-lo. Então com 21 anos, trabalhando como repórter do Ultima Hora, Ernesto lembra de pegar, trêmulo, a arma. Não sabe sequer se conseguiu acertar o cadáver. Acostumado a cobrir as páginas policiais, a lidar com contraventores, agentes e traficantes, nunca tinha presenciado tamanha barbárie. O pior foi ter participado dela. Carrega a culpa de ter matado, com as próprias mãos, uma vítima do Estado. O tiro talvez doa menos do que ter sido ludibriado pela polícia. Diante do cadáver, foi selado um pacto para que a cerimônia fúnebre não saísse dali.
Na manhã daquele dia, o Ultima Hora anunciava na primeira página que um comboio de repórteres e policiais já deveria ter conseguido capturar Cara de Cavalo, pois teriam chegado à Região dos Lagos ainda na madrugada. Na corrida pelo furo, anteciparam um fato sem saber se estava consumado. O jornal reivindicava para si os louros da perseguição.
É com orgulho que, na edição do dia 5, o jornal dedica a primeira página quase inteira ao caso. A manchete: “UH viu execução de Cara de Cavalo”. No canto direito da página, lê-se o título em maiúsculas: “Ele morreu insultando os policiais”, acompanhado de um breve texto: “Como uma fera enjaulada, vendo pela janela entreaberta e pelas frestas bocas e mais bocas de fuzis e metralhadoras, Cara de Cavalo soltou uma imprecação terrível e foi ele próprio quem começou a atirar, praguejando: ‘Atirem, cachorros, atirem para matar! Mas antes eu levo um (censurado) para o inferno.’”
Entre uma tragada e outra do cigarro, Luarlindo Ernesto desmente a versão do texto. Não foi dado a Manoel Moreira sequer o tempo de falar, quanto mais de atirar. Mas os repórteres, ao voltarem para a redação, foram obrigados a inventar frases e cenas para tornar a história mais apetitosa aos leitores, livrar a barra dos policiais (que não têm direito de matar, embora sempre o façam às claras) e demarcar como são tratados pretos, pobres, mulatos e quase brancos, quase pretos de tão pobres.
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Hélio Oiticica não se conformava com a representação de Manoel Moreira como “o inimigo número um da cidade”: “O que me deixava perplexo era o contraste entre o que eu conhecia dele como amigo […] e a imagem feita pela sociedade”. Um ano depois de sua morte, o artista plástico imortalizou-o em Bólide B33 Caixa 18 – Homenagem a Cara de Cavalo (1965). Trata-se de uma caixa envolta por telas, cujas paredes internas são cobertas por reproduções da foto oficial do assassinato: estirado no chão, perfurado de balas, com os braços estendidos em forma de cruz. No fundo da caixa, num saco com pigmentos vermelhos, aparece escrito, como numa lápide: “Aqui está e aqui ficará. Contemplai o seu silêncio heroico.”
Passista da Mangueira, companheiro de malandros e bandidos, frequentador de favelas, Oiticica foi, segundo o crítico Frederico Morais, “o maior inventor da arte brasileira – um dos maiores da arte contemporânea, em todo o mundo”. Radical, ele considerava a arte uma forma de revolta. Uma revolta que, na opinião de Morais, era “semelhante à do bandido que rouba e mata, em busca de felicidade, mas também à do revolucionário político”.
O que motivou a homenagem a Cara de Cavalo, escreveu Oiticica, foi “a maneira pela qual essa sociedade castrou toda a possibilidade da sua sobrevivência, como se fora ele uma lepra, um mal incurável – imprensa, polícia, políticos, a mentalidade mórbida e canalha de uma sociedade baseada nos mais degradantes princípios, como é a nossa, colaboraram para torná-lo o símbolo daquele que deve morrer, e digo mais, morrer violentamente, com todo requinte canibalesco […]. Há como que um gozo social nisto […]; a homenagem, longe do romantismo que a muitos faz parecer, seria um modo de objetivar o problema, mais do que lamentar um crime sociedade × marginal.”22
Numa conversa, Neville D’Almeida, cineasta e amigo de Oiticica, me disse que via Cara de Cavalo como um poeta, ainda que não tenhamos registro de qualquer verso escrito ou lido por ele. Aquilo calou fundo em mim.
A morte encomendada por um contraventor a um policial, a caçada que mata os heróis da corporação, o desejo do extermínio cultivado pela imprensa, o cerimonial ao redor de seu corpo, o sangue espalhado pelo chão, a centena de disparos saídos da arma de Le Cocq, um homem morto por policiais. O corpo marginal, heroico, de Manoel Moreira escancara o Brasil, seu colonialismo, seu fascismo. E sua poesia fúnebre permanece na obra do amigo: “Aqui está e aqui ficará. Contemplai o seu silêncio heroico.”
Aqui estou.







