Links da quarentena: uma pintura para nosso tempo e os inimigos da ciência

Links da quarentena: uma pintura para nosso tempo e os inimigos da ciência

Toda sexta-feira, a serrote indica uma seleção de links sobre o mundo em tempos de pandemia.

Na edição de hoje: um quadro de Botticelli que simboliza o purgatório da pandemia; um plano para combater o “analfabetismo científico”; uma entrevista com Noam Chosmky sobre a política que despreza a ciência; e uma proposta do escritor Ismael Beah para a África que emergirá depois da pandemia.

Esta seção é parte da série #IMSquarentena, com ensaios do acervo, colaborações inéditas e indicações de leitura. 

A mulher está sentada num degrau e esconde o rosto com as mãos. Atrás dela, uma robusta muralha onde vê-se, sobre um portão de madeira, uma única nesga de céu azul. Pintada por Sandro Botticelli, a tela é conhecida como “La Derelitta”, “A desemparada”, e é para Jerry Saltz o quadro “mais triste” que já viu em toda a vida. Vencedor do Pulitzer de crítica em 2018, o responsável pela rubrica de arte da New York escreve um breve e delicado ensaio sobre as ressonâncias históricas e biográficas da obra, objeto de controvérsia entre especialistas e que, em sua longa carreira, ele mesmo jamais conseguiu ver pessoalmente. O que mais interessa ao crítico é, no entanto, o simbolismo, que ecoa nos dias pandêmicos que vivemos, de alguém imobilizado num limiar, num ponto em que não se consegue deixar um lugar e tampouco se pode passar para um outro. “Isto não é o inferno. É um terrível purgatório de uma dor consciente”, observa Saltz.

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Em tempos de pandemia transitória e terraplanismo renitente, seria desejável uma “alfabetização científica” para todos os cidadãos, lembra Martin Rees em ensaio para a Aeon Magazine. Desde 1995 no posto de Astrônomo Real Britânico, Rees lembra que a separação entre as humanidades e a cultura científica tende a privar o debate público de exatidão e, também ou sobretudo, se maior consequência. “O nível da discussão deve ser elevado por ‘cientistas cidadãos’ comprometidos com a mídia e com um público sintonizado no escopo e nos limites da ciência”, observa. Mesmo numa época em que, lembra Reeves, há amplo interesse leigo por questões científicas, seria preciso construir mais e mais intricadas pontes entre o que C. P. Snow chamou, numa famosa conferência, “As duas culturas”.  “A estreiteza intelectual e a ignorância continuam endêmicas e a ciência é um livro fechado para um grande e alarmante número de pessoas na política e na mídia”, escreve ele.

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O desprezo pela ciência é uma estratégia adotada por líderes autoritários ao redor do mundo, alerta Noam Chomsky nesta longa entrevista sobre o impacto do coronavírus na política. Aos 91 anos, um dos fundadores da linguística moderna diz nunca ter visto nos EUA tanto desdém pelo pensamento científico. Chomsky enxerga nessa postura ecos de um antigo slogan do fascismo espanhol: “É assim que pensam Trump e os caras de quem ele se cerca: ‘abaixo a inteligência, viva a morte’. O melhor amigo dele na América do Sul, Jair Bolsonaro, é exatamente a mesma coisa”, diz Chomsky, que coloca no mesmo eixo de inimigos da ciência os governos de Egito, Índia e Arábia Saudita. Referência central da esquerda hoje, o pensador acredita que, diante desse estado de coisas, resta fazer “o trabalho diário do ativista, o tipo de coisa que transforma as condições sociais, o consenso e o cenário no qual as mudanças podem acontecer”.

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As dificuldades que EUA, Europa e China demonstraram para combater a pandemia pode servir de impulso para os países africanos deixarem de seguir o receituário imposto pelas potências estrangeiras, argumenta o escritor e ativista dos direitos humanos Ismael Beah. Nascido em Serra Leoa, ele foi forçado pelo governo, no início da adolescência, a servir como soldado na guerra civil em seu país. Mas conseguiu escapar para os EUA, onde vive até hoje, e narrou sua história no livro Muito longe de casa. Em abril, lançou novo romance, Little Family, sobre um grupo de adolescentes que se unem para sobreviver nas margens de uma cidade sem nome. Diante da crise global os africanos têm a oportunidade de “nos reimaginarmos em nossos próprios termos”, diz Beah: “Precisamos retomar nossa própria sabedoria e nosso próprio espaço intelectual, pleno e independente de qualquer outro”.

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