Links da quarentena: Judith Butler, a violência da pandemia e os fantasmas da ditadura

Links da quarentena: Judith Butler, a violência da pandemia e os fantasmas da ditadura

Toda sexta-feira, a serrote indica uma seleção de links sobre o mundo em tempos de pandemia.

Nesta edição, a filósofa Judith Butler denuncia a violência de governos e empresários que colocam os mais vulneráveis em risco para reabrir a economia e o historiador Daniel Aarão Reis compara o cenário político do país com um dos momentos mais brutais da ditadura.

E mais: Silviano Santiago evoca os valores clássicos da literatura em tempos de confinamento, Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino buscam nos ensinamentos da macumba respostas à brutalidade dos nossos dias, e Michael Pollan investiga como a pandemia pode mudar a maneira como nos alimentamos. 

Esta seção é parte da série #IMSquarentena, com ensaios do acervo, colaborações inéditas e indicações de leitura. 

Para a filósofa Judith Butler, a violência não é apenas um ato físico, mas um conjunto de forças – políticas, econômicas, culturais – que opera sobre os corpos de maneiras variadas e, por isso, exige como resposta uma solidariedade que atravesse as fronteiras das diferenças. Essas teses, que ela retoma no livro The Force of Nonviolence, lançado em fevereiro, ganham urgência no momento em que as vidas de bilhões de pessoas são afetadas pela Covid-19 e pelas medidas implementadas por autoridades em resposta à pandemia. Nesta entrevista, Butler questiona a pressão de governantes e empresários pela reabertura das economias em pleno auge da crise. E denuncia o descaso pelos mais vulneráveis, como idosos, deficientes, sem-teto, encarcerados, povos indígenas e comunidades pobres: “Qualquer política ou instituição que provoque taxas de mortalidade mais altas para determinados grupos está engajada em uma forma de comércio da morte”.

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A violência é tema incontornável para quem pensa o passado – e o presente – do Brasil, como mostra nesta entrevista o historiador Daniel Aarão Reis. Autor de livros de referência para os estudos sobre a ditadura, ele analisa a trajetória recente do país até o atual momento de conflagração e discute como a pandemia afeta a política brasileira. Com a queda de popularidade e a radicalização do governo Bolsonaro, seus apoiadores nas Forças Armadas, nas polícias e nas milícias compõem “um dispositivo informal que é muito poderoso, está muito extremado, é muito agressivo e não vai hesitar em partir pra violência”, diz o historiador. Reis compara esse cenário com o que se passou nos anos 1970, quando forças de segurança patrocinaram uma série de atentados para travar os esforços pela redemocratização: “As forças democráticas precisam se preparar para enfrentar isso”.

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As três funções clássicas da literatura – deleitar, comover e ensinar – ganham para Silviano Santiago um novo peso e uma nova importância em tempos de pandemia. Em “Literatura e confinamento, a solidão”, um amoroso ensaio escrito para o Suplemento Pernambuco, o romancista e crítico mineiro defende que as restrições de contato e convívio que nos são impostas hoje restituem ao livro e à leitura um lugar privilegiado na cultura. De Baudelaire a Drummond, Silviano ressalta que mesmo as obras mais perturbadoras, clássicas ou contemporâneas, terminam por trazer o apaziguamento da alma por meio do que Aristóteles definiu como catarse. “Em confinamento”, escreve o autor de Machado, “não há maneira mais agradável, emocionante e didática de ganhar o tempo que se perde em solidão, ansiedade e desespero”.

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Autores de uma série de livros sobre a filosofia e a cultura da macumba, o historiador Luiz Antonio Simas e o pedagogo Luiz Rufino refletem sobre a vida e a morte do ponto de vista dos saberes tradicionais no ensaio Encantamento, distribuído gratuitamente pela editora Mórula. Em meio a uma pandemia que acentua os efeitos da “política de morte” vigente em nossos dias, Simas e Rufino propõem uma “política de vida”, a luta pelo encantamento do mundo, que exige a capacidade de “transitar nas inúmeras voltas do tempo, invocar espiritualidades de batalha e de cura, primar por uma política e educação de base comunitária entre todos os seres e ancestrais”. Na serrote #27, Simas escreveu sobre as origens e a potência do termo “macumba”.

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O pesadelo das prateleiras vazias, que pode dar um tom ainda mais dramático à crise do coronavírus, não está longe de ser uma realidade para os consumidores americanos. Michael Pollan, para quem comida é assunto sério demais para se restringir à gastronomia, lembra em artigo substancioso para a New York Review of Books que a pandemia está expondo as fragilidades do sistema de abastecimento dos EUA. Fazendeiros jogando leite fora ou sacrificando milhares de galinhas viraram rotina numa estrutura de grande concentração da produção e da distribuição – num outro desdobramento, boa parte dos matadouros do país foram fechados por tornarem-se focos de Covid-19. Para o autor de O dilema do onívoro e As regras da comida, é uma boa hora de rever as políticas de produção de alimentos num país assolado pela obesidade, a hipertensão e o diabetes, consequências diretas de uma dieta baseada em comida ultraprocessada. Para Pollan, os EUA deveriam “tratar saúde pública como uma questão de segurança nacional”.

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