A pergunta certamente soará ingênua. No entanto, não haveria outra maneira de formulá-la: por que Gisele Bündchen é a mais bela mulher do mundo? A ingenuidade, em princípio, repousaria sobre dois pontos. De um lado, sabemos que os critérios que envolvem a beleza humana variam tremendamente com o passar do tempo. Twiggy, hoje, não passaria de uma garotinha linfática. De outro, como julgar esteticamente algo que não foi feito a partir de projetos e intenções, e que assim tem tanto de aleatório que desautorizaria qualquer argumentação? E no entanto Gisele Bündchen continua a ser o mais belo espécime humano sobre a face da Terra, indiferente aos possíveis torneios teóricos que a poderiam envolver.
E já que não podemos julgar as coisas de fora de nosso tempo, tentemos uma breve digressão sobre essa beleza que, ao menos momentaneamente, nos devolve um sentido de completude, de par com a urgência de dizermos algo sobre ela. Afinal, o que seria da história sem a ilusão desses dois predicados: completude e urgência? O que não deixa de revelar os parentescos que aproximam beleza e história.
De saída, convém ressaltar alguns aspectos singulares da beleza de Gisele Bündchen. Muitas belas mulheres se deixam apreender e reduzir a aspectos da face ou de outras partes do corpo: os olhos quebrados de Helen Hunt ou Claudia Schiffer, as maçãs do rosto de Sophia Loren – a antecipar
a dilatação dos seios –, os lábios de Angelina Jolie, o nariz infantil e perverso de Sharon Stone. Gisele Bündchen é outra coisa. Todo o seu corpo se desdobra numa cadência impressionante, como se cada parte dele reproduzisse à perfeição sua totalidade, sempre antecipada pelos detalhes e, no entanto, sempre adiada pela impossibilidade de apreendê-la por inteiro. Por isso ela é majestosamente longa. Inesgotável.
Tomemos, por exemplo, sua boca. Ao mesmo tempo que seus lábios sobressaem, ligeiramente carnudos, sua sinuosidade suaviza um volume que poderia tornar-se excessivo. Mas isso também acontece porque seus olhos dão sequência a esse movimento. Os supercílios levemente distendidos se veem equilibrados pelo desenho amendoado dos olhos, que sustentam assim elegantemente o que de outra maneira pesaria demais. E, entre a boca e os olhos, um nariz forte e afirmativo, para não deixar dúvidas de que entre cá e lá cumpre percorrer distâncias. Tudo nela é um jogo de articulações instáveis, de compensações, em que nada adquire uma singularidade estridente, a reivindicar primazia e atenção descabida: seios fartos, pernas longas; cabelos ondulados, corpo longilíneo; olhar impenetrável, testa franca. O diabo!
Não há nada de pitoresco em Gisele Bündchen. Ela é clássica. Modernamente clássica: podia ter dado errado, não houvesse criado um novo sentido de harmonia e proporção. Qual? Basta perguntar a Botticelli, cujas Vênus, madonas e graças são, na história da arte, o que mais se aproxima de Gisele, não fossem seu simétrico oposto – mulheres desenhadas por linhas suaves e delicadas, nas quais a carne amedrontada se retira para que os corpos translúcidos façam brilhar o espírito, como mostrou admiravelmente S.J. Freedberg. Gisele Bündchen move-se em outra direção. A pele morena – a renegar a ascendência germânica – revela uma carne afeita aos prazeres sensíveis: a luz, o calor, a vida ao ar livre.
No entanto há mais. A ausência de traços pitorescos – aqueles que fazem a delícia dos caricaturistas – não a priva de vivas particularidades. Diferentemente do personagem de “O espelho” – conto de Guimarães Rosa em que o narrador procura ver sua “vera forma”, “eu por detrás de mim”, livre de qualquer eco animal, influência afetiva e psicológica, até por fim não mais conseguir enxergar-se no espelho –, Gisele reúne admiravelmente singularidades e traços universais. Até mesmo suas sardas (meu Jesus!) parecem existir apenas para realçar a humanidade do conjunto, que de outra maneira a aproximaria perigosamente das divindades, que, como se sabe, não existem.
O leitor perdoe o entusiasmo, mas tanta graça chega a comover, como são comoventes todos os fenômenos naturais que revelam a ocorrência imprevista dessas combinações maravilhosas, em que o acaso parece confirmar na natureza nossas aspirações mais profundas: diversidade, harmonia, gestos não guiados por interesses.
Mas onde encontrar natureza no mundo da moda, absolutamente voltado à criação de imagens voláteis e passageiras, a serem consumidas num tempo radicalmente oposto ao das lentas mutações naturais? A resposta é paradoxal, mas me parece a única cabível. Há nessa moça de 22 anos1 muito da história do nosso país. E não me refiro apenas ao conjunto levemente desconjuntado, à articulação inesperada de ossos longos e doces volumes. Penso antes num certo inacabamento inerente ao seu encanto, uma instabilidade que lembra o futebol de Rivaldo e Sócrates, um equilíbrio frágil que pede de nossos olhos mais que contemplação e deleite, solicitando deles um empenho para sustentá-la e mantê-la na linha. Só faltava mesmo perder o sapatinho em meio a um desfile. Agora não falta mais nada.
E basta, por exemplo, compará-la com Cindy Crawford para que suas particularidades sobressaiam. A americana tem uma constituição sólida, uma completude impositiva que em nada lembra o equilíbrio instável de Gisele Bündchen. E aqui torna-se inevitável o lugar-comum: Gisele tem em todos os seus aspectos algo de selvagem, de uma natureza que não se converteu plenamente em cultura, e reluto em não atribuir isso ao seu país de origem, essa terra estranha em que alemães – os ascendentes de Gisele de ambos os lados – viram caipiras da gema. É no meio dessa história incompleta que a natureza cobra suas prerrogativas e que Gisele Bündchen se distingue de todos os seus pares.
Por tudo isso, ela é a mais bela mulher dos nossos dias – porque, em meio a toda a artificialidade do mundo da moda, ela mantém um viço que a distingue e enobrece. Olhando-a – ainda que só por fotos – vemos no mundo contemporâneo o resíduo de algo que não se domesticou, e que por isso fala tanto à sensibilidade atual, um traço que Paul Newman, por exemplo, veio a conquistar apenas na velhice, quando o peso dos anos contrabalançou a civilidade de seus olhos azuis. Nela, no entanto, a juventude excede a lenda do bom selvagem, intocado em sua pureza. E novamente seu classicismo moderno ajuda a entender os mistérios de seu encanto. A jovialidade de Gisele Bündchen não tem o caráter ingênuo da personagem que se construiu em torno de Julia Roberts. Ao contrário, Gisele parece ser apenas a mais nova florescência de uma longa linhagem, que através dos tempos guardou e depurou uma experiência que pertence a toda a humanidade, ainda que a vislumbremos apenas de relance.
Mas por que então falar em beleza, um conceito tão intimamente ligado à correção do mundo? Justamente porque Gisele Bündchen não é uma obra de arte, uma área em que a noção de belo há muito tempo perdeu a razão de ser. Desvinculada da arte, a beleza transformou-se num conceito errante, que pode qualificar os domínios mais distintos, da ética (um belo gesto) à ciência (uma bela descoberta). E assim vem a ser o termo quase exato para nomear essa figura que também vacila permanentemente entre Saracura – seu apelido de infância em Horizontina – e a mais perfeita das aparições.
Kant afirmava que o juízo estético é desinteressado. Com isso queria dizer que ao julgarmos uma flor ou uma obra de arte não estamos preocupados com sua existência real, com uma possível utilidade. Afinal, seria um pouco demasiado querer montar o cavalo de Napoleão pintado por David, ou trocar a água dos vasos de flores de Manet. Creio que, diante de Gisele Bündchen, Kant vacilaria. O que não é o meu caso: reumático, 1,70 metro, calvo e meio torto, aqui é o observador que não existe. O que, infelizmente, dá na mesma.







